CARREIRAS DIPLOMÁTICAS Disciplina: História Mundial Prof. Valdir Picheli Data: 20.08.2009 Aula nº 04 MATERIAL DE APOIO PROFESSOR Aula 4: Período Joanino - Continuação Intervenção no Prata - Breve Histórico: 1680 - Fundação da Colônia de Sacramento presença estratégica no estuário: comércio, contrabando, fronteiras; Perseguição aos portugueses de Buenos Aires; Região se tornou estratégica para os negócios no RJ - embarcações que passavam pela região atracavam também no RJ; Portugal - justificou a fundação da Colônia afirmando ter sido o primeiro a chegar à região e a necessidade de conhecimento de suas fronteiras naturais; Desde a fundação de Sacramento a região se colocou sob litígio das duas coroas ; 1714: 2o Tratado de Utrecht - Portugal recebeu os direitos de posse de Sacramento Reação espanhola: ocupação da Banda Oriental e fundação de Montevidéu; 1750: Tratado de Madri: Portugal trocou Sacramento por Sete Povos das Missões; 1777: Tratado de S. Ildefonso: Espanha recebeu Sacramento e Sete Povos e saiu de SC; 1801: Tratado de Badajoz: retomada dos princípios do Tratado de Madri (Sacramento para a Espanha / Sete Povos para Portugal); D. João VI e Carlota Joaquina (Irmã do rei Fernando VII da Espanha) Carlotismo: tentativa de Carlota Joaquina estabelecer um Império envolvendo todo o vice-reinado do prata. - Estabeleceu contatos com possíveis súditos na Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai; - Recebeu apoio de Buenos Aires já que a Espanha estava sob domínio francês e havia temores de Napoleão deslocar tropas para a região; - Inicialmente D. João VI aceita tal projeto pois pensa na possibilidade da região ser incorporada aos Bragança / Depois pressionado pela Inglaterra e pelo temor de conspirações de Carlota abandona a idéia do Império; - Lord Strangford: representante inglês no Brasil foi contra o projeto de Carlota. 1810: Proclamação de Independência de Buenos Aires - pretensão de reerguer o vice reinado do Prata como um novo país; - Rivalidades dos Criollos de Montevidéu com os de Buenos Aires - medem força na região; - Artigas - uruguaio - desenvolve guerrilhas na região e as fronteiras brasileiras não são respeitadas; - Projeto de Artigas: O Grande Uruguai: Uruguai/Entre-Rios/Missões/RS. 1816: Intervenção Portuguesa na região com 12 mil soldados - D. João distribui aos locais terras e títulos de nobreza em troca de apoio. 1821: Estabelece a Província Cisplatina que passa após a Independência é incorporada ao território brasileiro; 1825-1828: Guerra de Independência na região com derrota brasileira; Transmigração das Instituições de Estado de Portugal para o Brasil
Ministérios, Conselhos de Ministros, Intendências, Erário, Conselho de Fazenda etc. De acordo, com Faoro, os vícios de funcionamento desse Estado são rearticulado no Brasil. O patrimonialismo português é rearticulado no Brasil, quando D. João VI ao buscar adesão das classes proprietários locais articula as concessões de títulos e comendas. Sinalizando a tais setores as benesses do Estado a civilização da educação palaciana. TEXTO 1: As transações, as acomodações, as dilações serão o método de ajustamento entre uma e outra corrente, disfarçadas na condução das obras modernizadoras do alto, de cima, tiranicamente, espetacularmente, com a ilusão do progresso súbito. (...) A corrente que vem dos campos e dos sertões, dos latifúndios e das câmaras, terá a sua hora, mas, domada e enobrecida, cederá ao comando da ordem superior, em muitas jornadas de otários. A outra alternativa não seria sedutora: a anarquia espanhola mostra a outra face da revolução, da soberania popular sem freio, despida dos controles tradicionais e seculares da metrópole. (Faoro, Os Donos do Poder, pp 282, 283) - Passado o primeiro impacto das benesses o fosso entre os interesses das elites locais e dos portugueses se ampliou. - Razões: tributos altos para manutenção da Corte; financiamento das guerras (Guiana, Banda Oriental e Ocupação de Portugal). Revolução Pernambucana (1817) Movimento Pró-Independência: Composição: Setores médios, militares locais, proprietários de terras e padres (ressentidos com o Estado que direcionavam os dízimos para o próprio Estado), pardos e negros (sem a intensidade da BA). Razões Imediatas: Sentimento anti-lusitano - privilégios aos portugueses - controle do comércio local, opressão tributária (necessidade de sustentar a corte / intervenção na Cisplatina); distância das elites locais em relação ao poder estabelecido no RJ; Grande seca de 1816; Dificuldades econômicas: açúcar - altos tributos nas alfândegas; Ameaça dos portugueses em tomarem as terras dos proprietários locais; Decadência do algodão que ganhou fôlego durante a 2a guerra de independência dos EUA; Ideologia: Liberalismo difundido a partir do Seminário de Olinda / Maçonaria (Areópago); Difusão da rebelião pelo Recife, Alagoas, Paraíba, RN; Assumiram o poder por 2 meses e iniciaram os trabalhos de uma Assembléia Constituinte, sob inspiração da constituição da Colômbia bolivariana. 6) Constitucionalismo Português e Sua Recepção no Brasil 1820: Revolução Liberal do Porto: desastre econômico; perda do controle do comércio colonial; humilhação da tutela britânica; supremacia brasileira na administração do reino; privilégios da nobreza foram transferidos para o Brasil. - Formação das Cortes Constituintes: estabeleceu direito desproporcional de representação. Ao Brasil coube 50 representantes em 205. - Inicialmente a Revolução tem forte apoio de amplos setores no Brasil Portugueses (comerciantes e militares portugueses): retorno ao Pacto Colonial e aos privilégios de que antes gozavam; Elite local, comerciantes: saudavam o fim do absolutismo e esperavam consolidar o liberalismo econômico. Grão-Pará e Bahia - saudaram diretamente a Revolução. As elites locais e as tropas portuguesas se rebelaram contra os governadores locais estabelecendo juntas diretamente ligadas às Cortes Constitucionais. Intenções recolonizadoras: a verdadeira questão. criação das Juntas Governativas formadas por portugueses; Envio de tropas ao Brasil; Extinção dos Tribunais Superiores no Brasil;
Tentativa de recolocar Lisboa como centro da administração colonial e refazer o comércio português às custas do Brasil; Tentativa de limitar a liberdade de comércio local; restabelecimento do Pacto Colonial; Exigência do retorno de D. João VI que preferia permanecer pela constatação da pobreza de Portugal. Entendia que a permanência seria uma forma de salvação da Dinastia Bragança. O projeto se concluiu com a permanência de D. Pedro no Brasil. As Cortes tomaram decisões antes da chegada dos representantes brasileiros a Portugal, fato que evidenciou que não teriam influência nenhuma nas decisões; - Decisões das Cortes geraram tumultos e desagrado no Brasil e anulou as possibilidades de composição de uma Monarquia Dual (RJ e Lisboa) como defendia José Bonifácio. Projeto de Bonifácio apresentado às Cortes através dos representantes de SP: reconhecimento da unidade política através da autoridade de Governador-Geral, evidenciando as preocupações de José Bonifácio com a unidade política da Colônia. As Cortes se recusaram reconhecendo os deputados brasileiros como representantes provinciais (forma de evitar a unidade política que poderia alavancar a Independência); Monarquia Dual - Lisboa / RJ - Solução conservadora para a autonomia brasileira: resposta aos temores das elites locais em relação ao envolvimento popular; Projeto da Monarquia Dual: - consolidação de uma regência no Brasil; - Cortes em cada reino; - Manutenção das Cortes gerais, composta paritariamente; - Supremo Tribunal de Justiça no Brasil; Teses rejeitadas pelas Cortes portuguesas. Outros termos do Projeto de Bonifácio: Capital no interior do Brasil; Criação de um Conselho de Estado; Paridade de representação nas Cortes; Catequização e educação dos Índios; Emancipação gradual dos escravos; Educação - criação de escolas primárias, ginásios e pelo menos uma universidade; Política agrária: confisco de sesmarias improdutivas com distribuição a colonos europeus, pobres, índios, libertos e mulatos; - Projeto de Bonifácio gerou temores entre os próprios representantes brasileiros e nas Cortes que o recusaram. - Fracassada essa tentativa a alternativa passou a ser encaminhar o processo de Independência sob os auspícios de D. Pedro (regente). Os Grupos Políticos no Brasil envolvidos no Processo: Portugueses: Pró-Cortes = Grão-Pará e Bahia Contra as Cortes = Pró-D. Pedro: comerciantes do RJ, Funcionários do Estado que permaneceram no Brasil. BRASILEIROS: - Moderados = Organizados pelos IIr Andradas: SP/RJ/MG: anti-republicanos e avessos ao envolvimento popular.
- Radicais: Constitucionalistas; Reformistas e Republicanos: Gonçalves Ledo, Januário Barbosa - foram derrotados e afastados do processo político. Dois esboços para um Estado brasileiro: a) Moderados defendem a criação de um Conselho de Estado em torno de D. Pedro - Em torno da figura do príncipe se organizariam de modo centralizado os representantes provinciais. b) Radicais defendem a convocação de uma Assembléia Constituinte (Ledo, Januário Barbosa e Clemente Pereira). 2 Visões de Soberania: Ambos concordavam com a monarquia Dual. Moderados: A soberania residia na União Nacional estabelecida na figura de D. Pedro. Defendiam uma monarquia centralizada com o predomínio do poder Executivo sobre o Legislativo. Composição: Grupo de Coimbra: Formação letrada e experiência política como servidores do Estado português. Radicais: Soberania residia na vontade do cidadão. Predomínio do Legislativo sobre o Executivo. Conceito de inspiração na Revolução Francesa. Formado por jornalistas e militantes do liberalismo francês. D. Pedro - Fiel da balança entre Portugueses e Moderados - mas com interesses na preservação da Dinastia Bragança e seu Império. Sua liderança no processo significava a manutenção da unidade sob princípios conservadores e separatistas. 1821: Decisões do Príncipe Regente - Atos de rebeldia em relação às Cortes (1822) - Fico: Mobilizações de rua: Viva a Religião/Viva a Constituição/Viva El Rei Constitucional/Viva o Príncipe. Movimento articulado por RJ/SP/MG - liderança de José Bonifácio, que denunciava a estratégia fragmentadora de Portugal em relação ao Brasil; - Portugal considera o ato de D. Pedro de rebeldia e trata José Bonifácio como traidor. - Em algumas regiões há enfrentamento entre tropas portuguesas e brasileiros (RJ, BA, PE). Novas decisões de D. Pedro: - Formação de um ministério comandado por José Bonifácio: defensor de um Império Luso-Brasileiro, que respeitasse prerrogativas do Brasil como um reino. - Articulação para estender a autoridade de D. Pedro por todo o Brasil: formação do Conselho de Procuradores de Províncias; - proibição de entrada de tropas portuguesas no Brasil; - Expulsão de batalhões estacionados no RJ; - Atribuição a D. Pedro de Defensor Perpétuo do Brasil; - Decreto do Cumpra-se; - Convocação de uma Assembléia Constituinte no Brasil (polarização entre J. Bonifácio - eleições indiretas e Ledo - eleições diretas); Após a convocação da Assembléia os Liberais (Ledo) tentam controlar o processo de independência convocando D. Pedro a jurar a Constituição antes de ela pronta. Bonifácio reage violentamente e articula apoio em todas as províncias juntos aos fazendeiros denunciando os "anarquistas e demagogos". Mais um passo no caminho que sinaliza a unidade política do Brasil, através de representação das províncias na elaboração de leis. Ainda não se colocava oficialmente a idéia de ruptura, mas de uma monarquia dual com uma Constituição reelaborada de acordo com as características do Brasil. - Evolução da situação é tratada pelas Cortes como ruptura: daí ela reduz a autoridade de D. Pedro, obrigando-o a retornar a Portugal. As três dimensões do processo: a) A jurídico-política: Criação das instituições de futuro Estado Brasileiro: Conselho de Procuradores e Assembléia Constituinte; b) A militar: Guerra de Independência - Bahia, Pará, Maranhão. c) Diplomática: a busca pelo reconhecimento externo. Moldura Externa da Independência - Congresso de Viena: Santa Aliança - política intervencionista
- Ascensão britânica: Canning: defesa das nacionalidades; contra intervenções; exercício de hegemonia pelos Tratados Desiguais; - EUA: doutrina Monroe: A América para os americanos. Conduta Brasileira: Cervo, pág 26: define a conduta brasileira pós-independência: buscar a qualquer preço o reconhecimento da Independência - política externa equivocada TEXTO 2: Com efeito, a principal meta eleita como diretriz externa pelo governo brasileiro de então foi o reconhecimento da nacionalidade. Uma meta exclusivamente política, estabelecida à luz de uma percepção limitada do interesse nacional. Influiu de tal sorte sobre as relações exteriores, que imobilizou as decisões até a década de 1840. A importância da política de reconhecimento está na função que desempenhou, de ponte entre as pressões externas as decisões internacionais: estas se moldaram àquelas, pela via da negociação e do consentimento final. Em vez de tirar proveito do quadro internacional e das forças internas, o governo brasileiro estendeu às nações estrangeiras, na bandeja, um extraordinário poder de barganha por ele criado e por elas utilizado para a realização de seus desígnios (Amado L Cervo & C. Bueno - História da Política Exterior do Brasil, pag 26). Estratégia Britânica: Colocar a Inglaterra como mediadora entre Brasil e Portugal no processo de Independência: - Preservação dos Bragança no poder no Brasil - Indenização a Portugal; - compromisso de extinção do tráfico de escravos; - Manutenção dos Tratados Desiguais de 1810; - Não envolvimento do Brasil com as colônias portuguesas na África; - Inviabilizar a influência americana no Brasil. TEXTO 3: Paradigma para o pós-independência Tudo concorria para o sucesso de Canning. Seus plenipotenciário no Rio de Janeiro, Stuart e depois Gordon, iriam reconstruir o edifício de 1810, utilizando a mesma planta. Os tratados saíram com perfeição ainda maior, um edifício de acabamento luxuoso. Negociadores brasileiros que auscultassem o interesse e a dignidade nacionais eram demitidos e substituídos por negociadores servis, enquanto Canning submetia os mínimos detalhes dos tratados aos grupos sociais ingleses, cujos interesses estavam em causa. Outro, porém, teria sido o desfecho das negociações no Brasil se Carvalho e Melo tivesse permanecido à frente das negociações, se Caldeira Brant não tivesse recusado o convite para substituí-lo, se Vilela Barbosa não tivesse assumido a coordenação num golpe de Stuart e dom Pedro contra a causa brasileira. Não há evidência de pressões das elites fundiárias sobre o processo decisório, de tal sorte que a dependência brasileira foi antes de tudo uma decisão de Estado, vinculada conscientemente aos interesses da sociedade inglesa e desvinculada autoritariamente dos interesses da sociedade brasileira.. (Cervo & Bueno História da Política Exterior do Brasil, p.38) O Primeiro Reinado (1822-1831) O acerto de contas Moderados / Radicais: Aliança dos Moderados com D. Pedro I: fechamento de jornais e devassas contra os Radicais (Ledo, Januário Barbosa, Cipriano Barata etc) - acusações de cizânia e republicanismo. Vitória do grupo de Coimbra: formados intelectualmente e treinados na arte do governo. TEXTO: Sobre as elites governantes Segundo José Murilo de Carvalho Define-se a partir de então uma elite política formada por Conselheiros de Estado, ministros, senadores e deputados gerais, em que predominavam militares, clérigos e, principalmente, magistrados (pertencentes, sobretudo, aos altos escalões, e, em sua maioria, de origem social vinculada, direta ou indiretamente, ao latifúndio, ao grande comércio e às finanças). Tal homogeneidade, permitiu reduzir a margem de conflitos no interior dessa elite, possibilitando a implantação de um certo modelo (monárquico-centralizador) de dominação política. Trabalhos Constituintes Conflito Executivo / Legislativo (D. Pedro X J. Bonifácio)
Projeto Constituinte 1823: - tentativa de limitar os poderes de D. Pedro que não podia fechar a Assembléia e nem vetar leis; - No parlamento conflitos entre José Bonifácio e as elites agrárias (escravidão, reforma agrária, anticlericalismo, aversão à nobreza) = Aliança D. Pedro e Elites Agrárias marginaliza os IIr Andrada. José Bonifácio é demitido do ministério e a Assembléia fechada. Constituição de 1824: Elaborada por um Conselho de Estado Monarquia hereditária, Constitucional e Representativa; Separação dos Poderes: 4º poder: Moderador: a chave de todo a organização / a chave de toda a opressão. Poder Moderador: direito de convocar e dissolver a Câmara, veto sobre decisões, nomeação de ministros, conselheiros de Estado, indicação de senadores vitalícios, presidentes de província, juízes da Suprema Corte, comandantes das Forças Armadas; Figura do imperador declarada sagrada e inviolável; Eleições indiretas e voto censitário; Relações com a Igreja: Beneplácito / Padroado - outras religiões somente se aceitava o culto doméstico; Direitos dos cidadãos: liberdade, segurança, propriedade etc. 1824: A Confederação do Equador Noção de que a soberania reside no povo: República, Federalismo, sistema representativo, Constituição da Colômbia, Abolição do tráfico de escravos no porto do Recife Inicialmente sustentado pelas elites locais, mas houve o envolvimento popular colocando perspectivas avançadas. Repressão: Francisco de Lima e Silva e Lord Cochrane;
Questão 4 (3ª fase História do Brasil Instituto Rio Branco) Um rei absoluto realiza, preside, tutela a nação em emergência, podando, repelindo e absorvendo o impulso liberal, associado à fazenda e às unidades locais de poder. FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. Vol. 1. Porto Alegre: Globo; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. p. 246. A afirmação de Raymundo Faoro em seu clássico Os donos do poder aponta para a peculiaridade do processo de independência da colônia brasileira. Comente a passagem, considerando os seguintes aspectos: a) a conjuntura internacional e suas relações com esta peculiaridade do processo de emancipação política, no caso brasileiro. b) esta peculiaridade frente aos movimentos de independência da América hispânica.