Exercícios de Criação Literária

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Transcrição:

Exercícios de Criação Literária PENSÃO FAMILIAR Jardim da pensãozinha burguesa. Gatos espapaçados ao sol. A tiririca sitia canteiros chatos. O sol acaba de crestar as boninas que murcharam. Os girassóis amarelo! resistem. E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais. Um gatinho faz pipi. Com gestos de garçon de restaurant-palace Encobre cuidadosamente a mijadinha. Sai vibrando com elegância a patinha direita: É a única criatura fina na pensãozinha burguesa. BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In: Estrela da vida inteira (Poesias reunidas e Poemas traduzidos). 11º- edição, ilustrada, comemorativa do centenário do poeta. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1986. Página 95. 1. O poema apresenta-se descritivo e parece fotografar, com recursos expressivos, a parte externa do ambiente familiar da pensão, ressaltando seu aspecto visual e sensorial. a) Identifique os tipos de orações e de períodos predominantes na composição do poema e o modo como interferem na construção fotográfica das imagens. b) Aponte outros três recursos expressivos utilizados e explique como auxiliam na montagem espacial e plástica do poema. 2. Responda às questões: a) O jogo contrastante de sentidos no uso dos diminutivos é um recurso determinante na composição do poema. Destaque ao menos duas palavras nas quais tal procedimento é empregado e relacione-as com o efeito irônico do texto. b) No poema, a palavra amarelo é visualmente destacada. Apesar de referir-se a girassóis, é usada no singular. Esse recurso poético interfere na classe gramatical da palavra bem como na sua função sintática. Analise tal procedimento e o efeito de sentido por ele gerado no contexto. SOBRE O SENTAR-/ESTAR-NO-MUNDO

1. Onde quer que certos homens se sentem 2. sentam poltrona, qualquer o assento. 3. Sentam poltrona: ou tábua-de-latrina, 4. assento além de anatômico, ecumênico, 5. exemplo único de concepção universal, 6. onde cabe qualquer homem e a contento. * 1. Ondequer que certos homens se sentem 2. sentam bancos ferrenhos de colégio; 3. por afetuoso e diplomata o estofado, 4. os ferem nós debaixo, senão pregos, 5. e mesmo a tábua-de-latrina lhes nega 6. o abaulado amigo, as curvas de afeto. 7. A vida toda, se sentam mal sentados, 8. e mesmo de pé algum assento os fere: 9. eles levam em si os nós-senão-pregos, 10. nas nádegas da alma, em efes e erres. Melo Neto, J.C.de. A educação pela pedra. In:. Poesias completas. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. 3. O crítico Luís Costa Lima afirma em relação a João Cabral de Melo Neto: Cabral trata seu tema com o mesmo pensar seco com que o engenheiro dirige suas construções. Seu lirismo não depende de estados sentimentais, nem para sua leitura, nem para sua recepção. Lúcido e cortante, se emociona é pela inteligência e pela visibilidade do texto. Lirismo que não permite um consumo emotivo, pois de geometria se constrói. a) Relacione o poema apresentado a esse tipo de lirismo definido pelo crítico. b) Relacione o lirismo cabralino definido pelo crítico àquele típico do Simbolismo. 4. Nos versos 2 e 3 da primeira estrofe sentam poltrona, qualquer o assento / Sentam poltrona: ou tábua-de-latrina, e no verso 2 da segunda estrofe sentam bancos ferrenhos de colégio; a regência tradicional do verbo sentar é alterada. a) Explique essa ocorrência sintática e os efeitos de sentido gerados no conjunto do poema. b) Comente o papel expressivo que o primeiro verso possui para a análise produzida no item anterior.

Gabarito 1. a) O poema tem predominantemente períodos simples com orações absolutas e frases nominais. Apenas um período é composto por subordinação em todo o poema. [ o sol acaba de crestar as boninas que murcharam. ] Seguem enumerados os demais casos de períodos simples. As orações absolutas, justapostas ao longo do poema, correspondendo a cada um dos versos, deixam as imagens mais claras, mais desenhadas, fotográficas, enfim, mais visíveis. Acaba havendo uma distribuição mais espacial das palavras. Exemplos: 1. Gatos espapaçados ao sol. 2. A tiririca sitia canteiros chatos. 3. Os girassóis amarelo! resistem. 4. E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais. 5. Um gatinho faz pipi. 6. Com gestos de garçon de restaurant-palace 7. Encobre cuidadosamente a mijadinha. 8. Sai vibrando com elegância a patinha direita: 9. É a única criatura fina na pensãozinha burguesa. b) Mais três recursos expressivos: 1. uso de neologismos (espapaçados) expressivos de caráter icônico; 2. uso de adjetivos de natureza concreta que conferem animização ao substantivo. Ex.: os adjetivos que se referem a dálias ; 3. uso expressivo dos diminutivos; 4. cromaticidade marcada pelo adjetivo amarelo ; 5. palavras que, tanto na sonoridade, quanto no sentido, dão idéia de claridade e exterioridade. 2. a) Um dos recursos expressivos no texto é o diminutivo e é seu emprego que contribui muito para criar o efeito de sentido irônico que percorre todo o poema. O que se dá é a mescla entre a utilização de diminutivos no seu sentido estrito de diminutivo do tamanho ( gatinho, patinha ), o diminutivo no sentido de diminuição do valor ( pensãozinha ) e ainda o diminutivo de palavras como mijada, que seria de uso impróprio, fundindo quantidade, delicadeza e escárnio na síntese irônica do poema em relação à ambiência pseudo-burguesa do poema. Interessante que, mesmo sem o sufixo, a palavra pensão significa o sentido menor da palavra hotel. b) Ao dispor a palavra amarelo quase no centro do poema, o poeta cria, ao mesmo tempo, a sensação de isolamento e de centralização convergente, lembrando a imagem do sol neste texto tão ensolarado por tanta iluminação. Gramaticalmente, ocorre o seguinte: a palavra amarelo que na frase esperada - os girassóis amarelos resistem - seria adjetivo, concordando em gênero e número com girassóis, teria a função sintática de adjunto adnominal. No novo contexto, sendo colocada no singular, altera o efeito de sentido, deixando de ser adjetivo e passando a ter o valor de interjeição, já que o enunciado sugere, explicitamente, que o termo se refere a girassóis, e não a resistem.

3. a) O texto confirma a posição do crítico na medida em que trabalha com metáforas relativas a elementos concretos, com a ausência de embalo e com a impessoalidade característica da postura de quem considera o mundo exterior antes do mundo interior. b) O texto se afasta por completo da postura simbolista, já que nesta escola a musicalidade, o abstracionismo, o ilogismo e a interioridade humana são elementos bastante privilegiados. 4. O verbo sentar (intransitivo geralmente acompanhado do complemento adverbial de lugar regido pela preposição em) é utilizado no poema sem a preposição, o que lhe confere uma nova transitividade e um novo sentido (sentar = sentir): tratar-se-ia, por isso, de um verbo de ligação. Dessa forma, os substantivos sem a preposição adquirem a função de predicativo e um valor semântico de estado, como, aliás, fica sugerido no próprio título do poema. É possível ainda considerar o verbo ainda intransitivo (sentido denotativo), o que também tornaria os substantivos sem a preposição predicativos. Essas leituras conferem ao poema uma intensificação de sua ironia em relação ao estado de certos homens se portarem no mundo: a vida inteira passam mal sentados/ e mesmo de pé algum assento os fere. Ocorre também um processo de coisificação do indivíduo, que passa a ser identificado, no poema, com o objeto em que ele se senta. Sentar equivale, nesse caso, a ser.

Gabarito 1. E 2. a) Nesse capítulo, o narrador compara sua imaginação às éguas iberas. A metáfora empregada pelo narrador indica que sua imaginação corre livre e solta. É também fértil e ambiciosa, porque diante da menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre. Desse modo, a metáfora utilizada sugere que a natureza imaginativa do narrador permite que supostos indícios se transformem rapidamente em verdades. b) A metáfora da égua ibera remete à natureza fantasiosa do narrador, Bento Santiago, que, no capítulo citado, recorre à imaginação para escapar da carreira eclesiástica. Como justificativa para a falta de vocação religiosa, imagina confessar à mãe, a devota D. Glória, seu relacionamento amoroso às escondidas com Capitu. No romance, a imaginação fecunda de Bento Santiago justifica a hipótese de adultério, fazendo crescer o ciúme, que sustenta a acusação e condenação de Capitu sem provas concretas. 3. B 4. D 5. C 6. A 7. a) As duas figuras de construção sintática são as seguintes: hipérbato (inversão da ordem canônica dos termos sintáticos em tristes sombras e a formosura, no terceiro verso, e dos termos em contínuas tristezas e a alegria, no quarto verso); elipse/zeugma (omissão do verbo morre no quarto verso). b) O constituinte Em contínuas tristezas exerce função de adjunto adverbial, e o constituinte a alegria, função de sujeito. 8. B 9) a) Dentre os recursos descritivos utilizados pela autora no excerto fornecido, destaca-se, por exemplo, a enumeração de frases nominais no primeiro período: Salão repleto de luzes, orquestra ao fundo, brilho de cristais por todo lado. A linguagem adotada aproxima-se da técnica cinematográfica. O texto apresenta ao leitor a atmosfera tensa de expectativa por meio de flashes rápidos que valorizam os aspectos visuais da cena: salão repleto de luzes, brilho de cristais, pano verde, mulheres em longos vestidos e homens de black-tie. b) Ao aplicar a comparação como um lance de roleta para fazer referência ao encerramento da era de ouro dos cassinos a autora deixa clara sua opção por associar a arbitrariedade da decisão do presidente Eurico Gaspar Dutra a uma jogada imprevisível do universo dos jogos de azar. Assim como num lance de roleta, uma simples penada do general determinou o fim de um dos negócios mais lucrativos da época.