A EUTANÁSIA COMO UM DIREITO DA PERSONALIDADE Marcelle Domingues Rocha (IC) e José Geraldo Romanello (Orientador) APOIO: PIVIC MACKENZIE... PORQUE VIVER É UM DIREITO, NÃO UMA OBRIGAÇÃO. RESUMO: A morte que sempre foi vista como sinônimo de sofrimento se apresenta como o êxito que resta ao ser humano. A realidade dos enfermos terminais aliada às modernas tecnologias que possibilitam longas sobrevidas trazem a lume a técnica polêmica da eutanásia. Surgem aí grandes dilemas éticos, morais, religiosos, filosóficos e jurídicos. A existência humana pode ser interrompida por vontade própria? Deve o Direito possibilitar que alguém em demasiado sofrimento possa requerer a terceiros que encerrem sua vida? A dignidade da pessoa humana abrange o direito de morrer? São perguntas tormentosas que os direitos da personalidade devem responder rapidamente. Palavras-chave: Eutanásia; Biodireito; Direitos da personalidade. ABSTRACT: Death that was always a synonymous of suffering is presented as the sucess for the humans. The reality of terminal sick people allied to modern technologies which allow longer survival bring to light the polemic euthanasia technique. New ethical, moral, religious, philosophical and juridical dilemmas. Can the human essence be interrupted by free will? May the Law allow that someone in too suffering could require to others to end his/her life? The dignity of the human covers has the right of die? May the State guarantee the right of dying? These are questions that the personality rights must answer quickly. Keywords: Euthanasia; Biolaw; Personality Rights.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica 1. INTRODUÇÃO Este trabalho busca realizar uma pesquisa bibliográfica relacionando os princípios constitucionais e a defesa de uma morte digna, pesquisando também fatores históricos, estabelecendo parâmetros históricos para que seja possível compreender o pensamento da sociedade em cada época, uma vez que a mudança do tempo significa também a mudança de pensamentos e opiniões à cerca do tema. Além disso, fazer uma análise de como essa técnica é tratada nos diferentes países. 2. REFERENCIAL TEÓRICO A morte sempre existiu, todavia, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, no século XX, os avanços tecnológicos no campo da medicina e da saúde foram extraordinários. E tanto isso é verdade que, se comparado com antigamente, a expectativa de vida da população aumentou significativamente e isso se deve a vários fatores ligados a evolução farmacêutica. Ocorre que, consequentemente, surgiram diversos meios artificiais com o fim de prolongar a vida, porém, em algumas situações, tais meios acarretavam o prolongamento da dor e do sofrimento, tanto do paciente, como da família. Ainda, acabavam por produzir problemas ético-jurídicos voltados à vida, à morte e ao paciente terminal. No mesmo sentido, a criação da biotecnociência deu origem a uma grande reação da ética e do direito, exigindo que a prioridade fosse dada ao respeito à dignidade da pessoa humana e, a partir de então, tornou-se mais evidente a luta pelo direito de morrer. O princípio da dignidade da pessoa humana é um valor intrinsecamente ligado à sociedade, encontrando-se acima de todo valor. Todo ser humano possui o direito proveniente deste princípio, visto que, de acordo com o artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal Brasileira de 1988, trata-se de um dos princípios fundamentais e, além disso, fundamental do Estado Democrático de Direito, fazendo parte do rol de Direitos Fundamentais elencados pela Constituição Federal. Por outro lado, o progresso científico veio, gradativamente, transformando a atuação da medicina na vida em sociedade. Tal afirmativa torna-se evidente quando se fala em eutanásia. Ora, há alguns anos, tal ideia era duramente rechaçada e, hoje, já se pode falar em legalização, como ocorre em alguns países que serão mencionados posteriormente.
Ainda, da mesma forma que tal ponto de vista era reprovado, a sugestão de manter um paciente terminal, em estado vegetativo irreversível, numa UTI, era, completamente, inimaginável. Todavia, chegamos a um ponto em que a população fica mais atemorizada com a vida sem dignidade, do que com a morte, como ocorria antigamente. Tal fato é, perfeitamente, compreensível, uma vez que, em alguns casos, decorrentes de determinadas doenças, antes da morte, se passa pela fase terminal, que é, muitas vezes, indigna, tão indigna que o enfermo passa a abrir mão do seu direito à vida sendo a favor do retorno da sua dignidade tão sonhada. Assim, defendida pela Constituição Federal de 1988, é claro que o Estado não deve garantir, apenas, a vida digna, como também a morte digna. Defronte da abundância de opiniões divergentes, advindas da laicidade, da religião e de fontes jurídicas, surge a Bioética e, assim, o Biodireito, visando à sistematização, o estudo e a produção de respostas às questões éticas e jurídicas que se manifestaram com o grande avanço da Biotecnologia, já citado anteriormente. Dentre estas questões, a Eutanásia certamente é das mais polêmicas e controversas. 2.1. EUTANÁSIA A eutanásia consiste na abreviação da vida de um paciente em estado terminal, ou que esteja sendo submetido a fortes dores e intoleráveis sofrimentos físicos, ou psíquicos. Diante dos diversos conceitos errôneos que são dados à palavra supramencionada, faz-se necessário dizer que tal vocábulo consiste em morte boa, em estado de graça, tranquila. Esta expressão foi criada com o escopo de designar o procedimento médico que aliviasse a dor do paciente, encurtando-lhe, ou não, a sua vida. Além do termo eutanásia, visando explicar melhor o tema morte, foram criadas outras denominações, como, por exemplo, distanásia, ortotanásia, suicídio assistido, dentre outras. Por fim, a eutanásia pode ser classificada, basicamente, em direta, ou indireta e passiva, ou negativa.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica 2.1.1. SUÍCÍDIO ASSISTIDO O suicídio assistido consiste em um ato praticado pelo próprio paciente, com o auxílio de um médico, colocando término a vida do enfermo. O suicídio assistido poderá ocorrer quando a vítima, ora protagonista, estiver acometida por uma moléstia incurável que lhe causa intenso sofrimento. Vale ressaltar que o suicídio assistido é tipificado pelo artigo 122 do Código Penal como conduta ilícita. 2.1.2. DISTANÁSIA Em sentido antônimo da eutanásia, a distanásia possui o escopo de preservar a vida, utilizando-se todos os meios possíveis e necessários, sem importar-se com as eventuais consequências negativas produzidas no paciente. A preocupação resume-se em manter o enfermo vivo, independente do seu bem estar. Em razão disso, passou a ser conceituada como a ampliação do processo de morte e não de vida. Assim, a distanásia é duramente criticada dado o estado desumano ao qual a pessoa é submetida. Nesse sentido, é o pensamento da Maria Helena Diniz (2014), afirmando que, em razão dos avanços da medicina, da tecnologia sofisticada e da modernização de aparelhos que visão à ressuscitação, acaba-se por ampliar a vida de um paciente em estado terminal, prolongando, assim, a sua angústia, acabando por proporcionar-lhe mais agonia do que vida. 2.1.3. ORTOTANÁSIA Segundo Maria Helena Diniz (2014), a ajuda dada pelo médico ao processo natural da morte, uma justificação ao morrer com dignidade, fundada em razões científicohumanitárias. Convém esclarecer que a eutanásia passiva, ou ortotanásia, é a eutanásia por omissão, consistente no ato de suspender medicamentos ou medidas que aliviem a dor, ou que deixar de usar os meios artificiais para prolongar a vida de um paciente em coma irreversível. Não se trata de negar tratamento ao paciente, além disso, há alguns requisitos, tendo em vista que a ortotanásia também visa à morte com dignidade. Assim, trata-se
apenas da supressão dos tratamentos quando estes se tornarem inúteis, ou dolorosos, baseado no artigo 5º, inciso III, da Constituição Federal, que elucida que ninguém deve ser submetido à tortura, nem a tratamento desumano, ou degradante. 2.1.4. EUTANÁSIA STRICTO SENSU Por fim, podemos chegar a um conceito mais delimitado sobre a eutanásia, que consiste em uma ação médica que possui o escopo de abreviar a vida dos enfermos incuráveis, que, em grande parte das vezes, se encontram cercados por grande sofrimento, em razão de uma doença que a ciência médica não possui a capacidade de combater mesmo diante de seu significante desenvolvimento ao longo dos anos. Tal ação somente poderá ser produzida por um médico por meio do consentimento do paciente enfermo. A eutanásia faz com que a morte deixe de passar pela sua trajetória natural sendo, assim, encurtada com o escopo de resgatar a dignidade da pessoa humana, pois, enquanto houver inaptidão da medicina para curar as enfermidades que causam extremo sofrimento e impõem uma vida indigna a seus portadores, haverá grandes estudos sobre tal prática, provocando discussões e debates. A eutanásia foi admitida na Antiguidade e só passou a ser condenada após o surgimento do judaísmo e do cristianismo, pois a vida tinha um caráter sagrado em seus princípios. Posteriormente, com o Direito Moderno, a eutanásia passou a ser tipificada e, assim, criminalizada. O que acontecia em Esparta e em outras sociedades que eliminavam de forma forçada os seus enfermos, velhos e crianças mal-formadas, era homicídio, uma vez que faltava o elemento-base da eutanásia, que é a compaixão, a piedade, a vontade de impedir o sofrimento. Além deste requisito, é necessária também a expressão da vontade daquele que sofre, seja de forma direta ou indireta (representação). Segundo Maria Elisa Villas-Bôas (2005), buscando a morte com dignidade, há quem defenda a necessidade de admitir-se legalmente, em alguns casos específicos, a eutanásia ativa, que não deixa de ser um homicídio, onde, por piedade, há a antecipação da morte de um doente irreversível ou em estado terminal, a pedido seu ou de seus familiares, em razão da incurabilidade da doença, da insuportabilidade de seu sofrimento e da inutilidade de seu tratamento.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica 2.1.5. CLASSIFICAÇÕES DA EUTANÁSIA Podemos dividir a eutanásia em ativa ou positiva e passiva ou negativa. Conforme Marçal (2010), eutanásia ativa, ou positiva, consiste na realização de atos comissivos, ou seja, na realização de um comportamento que visa o encurtamento da vida, paliando os sofrimentos insuportáveis do enfermo que manifestou sua vontade por tal ato. Para a realização da eutanásia ativa, ou positiva, são formuladas terapias e utilizados métodos clínicos. O tipo de eutanásia supramencionada pode ser direta, ou indireta. Direta, quando são utilizados atos positivos com o escopo de abreviar a vida do paciente. Já a indireta possui efeito duplo, tendo como objetivo principal o de amenizar o sofrimento do enfermo e, como meta secundária, o encurtamento da vida, ou seja, em um primeiro momento, o tratamento visa aliviar a dor daquele paciente incurável e, em decorrência desse tratamento, acaba por reduzir seu tempo de vida. A eutanásia passiva, ou negativa, consiste na omissão do tratamento que contribuiria para o prolongamento da vida da pessoa que está acometida por uma determinada doença. Isso ocorre quando o enfermo já apresenta uma deterioração irreversível, ou uma enfermidade incurável, em fase terminal. A eutanásia passiva, ou negativa, pode consistir também na suspensão de um tratamento anteriormente iniciado. 2.2. A EUTANÁSIA NA VISÃO DAS GRANDES RELIGIÕES Diante de um tema, extremamente, polêmico, que é a eutanásia, seria indesculpável deixar de passar pelas grandes teologias, tendo em vista que grande parte da população mundial possui opiniões baseadas nelas. Além disso, quando se fala do futuro do Biodireito e da Bioética é necessário olhar para a religião e para a Bioética teológica. Ora, a morte está intrinsecamente ligada à religião e, cada doutrina religiosa, possui o seu entendimento a respeito da vida e da morte. A vida é um bem consideravelmente protegido pela Carta Magna, todavia, não constitui uma obrigação, tendo em vista que a sua essência é finita. Ao Estado cabe o dever de assegurar a vida com dignidade, porém, quando o enfermo chega à sua fase terminal de vida e vitalidade, não possui mais meios para manter a sua dignidade, pois sua morte é inevitável, assim, o médico possui como dever profissional ético preservar a dignidade de
seu paciente e faz isto propiciando os subsídios necessários para uma morte digna e tranquila. 2.2.1. CRISTIANISMO A Igreja Católica Romana é conhecida como a grande difusora do cristianismo ocidental. O Vaticano posiciona-se diante de diversas discussões e não seria diferente com a eutanásia. Na inteligência da Declaração para a Doutrina da Fé de 1980, é sabida a condenação da eutanásia pela justificativa de que violaria a dignidade da pessoa humana e a própria Lei Divina. Em outro sentido, a ortotanásia é admitida pela Igreja Católica, uma vez que [...] é lícito, em consciência, tomar a decisão de renunciar a tratamento que daria somente um prolongamento precário e penoso da vida sem, contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes. (DINIZ, 2014). Ainda, há diversos documentos que tratam da eutanásia, sempre pugnando pela sua condenação, o que também ocorre com a distanásia. Em outro sentido, Maria Helena Diniz (2014) elucidou que o Papa Pio XII chegou a relevar, afirmando que seria de incumbência do médico tomar todas as medidas necessárias a restaurar a consciência e outros fenômenos vitais, além de empregar medidas extraordinárias, quando estas estiverem ao seu alcance. Entretanto, não tem a obrigação de continuar com o uso de medidas nos casos que sejam irreversíveis. Assim, de acordo com o critério da Igreja Católica, chega um momento em que todo o esforço de ressuscitação deve ser suspenso. No Documento pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em junho de 1980, o Papa João Paulo II afiançou: Ante a iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios empregados, é lícito, em consciência, renunciar a alguns tratamentos que procuram unicamente um prolongamento precário e penoso da existência. Por isso o médico não tem motivo de angústia como se não houvesse prestado assistência a uma pessoa em perigo. Posteriormente, o Catecismo da Igreja Católica, referendado pelo Papa João Paulo II, em 1992, admitiu a interrupção de procedimento médico custoso, ou perigoso, que mantivesse, artificialmente, vivo o paciente.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica Todavia, segundo as Sagradas Escrituras em seu livro de Eclesiastes 3:2 diz que Há tempo de nascer e tempo de morrer [...]. Assim, embora a morte seja inevitável, uma vez que faz parte do ciclo da vida humana, os cristãos demonstram acreditar na vida eterna após a vinda do Salvador (Jesus), e, enquanto esperam a volta Dele, tratar os pacientes terminais de forma digna é fundamental. 2.2.2. ISLAMISMO A religião das vertentes radicais que assombram o mundo ocidental trata, por meio de sua Declaração Islâmica dos Direitos Humanos, de maneira superficial sobre a eutanásia. O islamismo assevera que a vida é sagrada e inviolável e, em razão disso, deve ser protegida em todos os seus aspectos e, assim, nenhuma pessoa deverá ser exposta a lesões ou à morte. Ainda, tal declaração elucida que o corpo humano é sagrado não só durante a vida, mas também após a morte. Os islâmicos afirmam que os direitos humanos são provenientes de Deus, sendo uma confirmação religiosa e moral. Em suma, a eutanásia é condenada pelo Islamismo, todavia, tal religião possui simpatia pela ortotanásia, uma vez que condena a obstinação terapêutica. 2.2.3. JUDAÍSMO O judaísmo consolida-se não só na mais antiga religião monoteísta conhecida, mas também pela presença na vida das nações mais poderosas do planeta. Conforme consta, os judeus vêem a eutanásia como uma medida que afronta as leis divinas, sendo considerada um crime. Todavia, para esta religião, a ortotanásia é admitida, visto que, neste caso, haveria sofrimento e não a busca pela salvação de uma vida. O judaísmo faz uma distinção entre o prolongamento da vida do enfermo, que é obrigatório, e o da agonia, que pode falecer dentro de três dias, momento em que são
admitidas a suspensão das manobras reanimatórias e interrupção de tratamentos que não sejam analgésicos. Assim é que no Torá, livro sagrado dos judeus, é admitida a ideia da morte com dignidade, pois reza: Todo aquele cuja existência tornou-se miserável está autorizado a abster-se de fazer algo para prolongá-la. 2.2.4. BUDISMO Aqui está uma religião sem Deus, ou seja, desvinculada de uma ideia de superioridade existencial. Para os budistas, a morte trata-se apenas de um rito de passagem para outra vida, sendo assim, tal assunto não se encontra revestido de nenhum aspecto traumático, como ocorre, em sua grande maioria, com as demais religiões do mundo. Assim, [...] o budismo não pune o suicídio, o que não é o caso de quem auxilia ou incentiva um suicida. Contudo, a situação de auxílio passa a ser moralmente aceitável no caso de morte digna, quando a morte é iminente, e mais, se o motivo for a compaixão. (SÁ, 2005). Ou seja, é claro que a eutanásia é, moralmente, permitida sob a perspectiva da religiosidade budista. 2.3. LEGISLAÇÃO BRASILEIRA No Brasil, infelizmente, a parte especial do Código Penal é, demasiadamente, antiga e, em razão disso, o ordenamento jurídico brasileiro jamais enfrentou frontalmente a eutanásia. De acordo com Roberti (2011), A legislação pátria sempre esteve muito presa à preocupação com o suicídio, com aquele que, nas palavras do Código Penal, induz, instiga, ou auxilia o suicida. Por outro lado, não se conhece nenhuma legislação que criminalize o suicida que sobreviva à tentativa de dar fim à sua vida. Ou seja, o suicídio, excetuando as ações dos terceiros, é considerado, pelo Código Penal, uma conduta lícita, ou um exercício regular de direito. Ora, se é considerado lícito, por qual motivo aqueles que auxiliam o exercício de um direito são penalizados?
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica No bojo do anteprojeto desprezado, que ocorreu na reforma penal de 1984, havia a previsão legal da eutanásia, onde se excluía a pena do médico que a desempenhasse em razão de pedido feito pelo doente terminal, ou de seu representante legal. Por fim, dentre as inúmeras propostas de alteração do Código Penal que estão no Congresso Nacional, encontra-se uma que elucida a eutanásia como uma causa de diminuição de pena, ou seja, um homicídio privilegiado. Entretanto, está longe da inserção da eutanásia propriamente dita na legislação brasileira. 2.4. EXPERIÊNCIAS NO DIREITO COMPARADO É importante analisar, mesmo que de forma sucinta, a maneira como a sociedade global atual trata a discussão a respeito da eutanásia. 2.4.1. HOLANDA Na Holanda, apesar da eutanásia ser considerada um crime, era tolerada, na prática. Assim, criou-se, por meio do Ministério da Justiça e Associação Médica Holandesa, um procedimento que concedia imunidade aos médicos que levassem ao conhecimento do Poder Público um caso de eutanásia. Todavia, segundo José Roberto Goldim (1996) existem cinco critérios para que um médico tenha autorização para a prática da eutanásia: 1) A solicitação para morrer deve ser uma decisão voluntária feita por um paciente informado; 2) A solicitação deve ser bem considerada por uma pessoa que tenha uma compreensão clara e correta de sua condição e de outras possibilidades. A pessoa deve ser capaz de ponderar essas opções, e deve ter feito tal ponderação; 3) O desejo de morrer deve ter alguma duração; 4) Deve haver sofrimento físico ou mental que seja inaceitável ou insuportável; 5) A consultoria com um colega é obrigatória. Sendo assim, segundo Maria Helena Diniz (2014), a eutanásia, na Holanda, apenas será permitida se o paciente for portador de uma doença incurável e estiver submetido à insuportável sofrimento. O pedido deve vir do próprio paciente e, tanto ele, quanto seu
médico, deverão estar convencidos de que não há outra alternativa confirmada por parecer de outro médico e por uma comissão de especialistas. Ocorre que era necessária a concordância do Ministério Público holandês, que não denunciava os médicos que, apesar de terem cometido um crime ao praticarem a eutanásia, estavam seguindo os protocolos instituídos. Desta forma, percebe-se um verdadeiro acordo de cavalheiros entre a sociedade holandesa, as autoridades públicas, as famílias dos enfermos e os médicos do país. Atualmente, a eutanásia está regulamentada por lei, porém, antigamente, era tolerada pela justiça, caso fosse feita a pedido do paciente que estivesse em estado terminal, tendo a necessidade de ser atestado por dois médicos, sob diretrizes específicas estabelecidas, desde 1984, pela Comissão Governamental Holandesa para Eutanásia. 2.4.2. ESTADOS UNIDOS Na sociedade americana, apesar de conservadora, já possuiu proximidade com a legalização da eutanásia e vem, aos poucos, traçando um caminho em direção à aceitação. Em 1991, um plebiscito que versava sobre a proposta de alteração do Código Civil da Califórnia que permitia que os médicos, diante de enfermos em estado terminal, pudessem ajudá-los a morrer, foi rejeitado. Atualmente, vários Estados dos EUA incorporam a eutanásia em seus Códigos, aceitando-a. Como exemplo, há o Estado de Oregon, que aprovou, em 1994, a Lei sobre Morte Digna, que permite a prática da ortotanásia. Além deste, há também os Estados de Washington, Vermont, Montana e Texas, dentre outros. 2.4.3. ESPANHA Na Espanha, a Lei Geral de Saúde (LGS Ley General de Sanidad, de 25 de abril de 1986), em relação ao consentimento prévio do paciente, estabelece que são direitos de todos e a seus familiares, que lhe sejam dadas informação completa e contínua, verbal e escrita sobre o processo, abarcando o diagnóstico, prognóstico e as alternativas de tratamento.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica No mesmo sentido, é também direito a livre escolha entre as alternativas apresentadas pelo médico do caso. No entanto, é necessário o prévio consentimento do enfermo para que seja realizada qualquer intervenção, exceto quando a não intervenção possa ocasionar riscos à saúde pública, quando o paciente não estiver capaz de tomar decisões. Assim, nessas situações, o direito corresponderá a seus familiares, ou representantes, e quando o caso for de extrema urgência em razão do risco de ocorrerem lesões irreversíveis, ou existir perigo de falecimento. Na década de 1920, a Espanha foi um dos primeiros países a discutir a questão da regulamentação da eutanásia. Por influência do Dr. Jiménez de Asúa, famoso penalista espanhol, foi estudada a proposta de dar o status de "homicídio piedoso" à eutanásia, isto é, não descaracterizar o delito, mas impedir a punição do agente, desde que o mesmo tenha bons antecedentes. As outras condições seriam as de haver motivo de piedade no ato e súplica reiterada da vítima para a sua realização. Este modelo foi proposto e nunca implantado na Espanha. Serviu, contudo, de base para as legislações do Uruguai e da Holanda sobre eutanásia. Tal proposta fora colocada por Asúa durante o surgimento do Nazi-Fascismo na Europa e o prestígio das pesquisas eugênicas. E tanto isso é verdade que esta proposta foi enormemente influenciada por estudiosos e defensores alemães da pseudociência da Eugênia. 2.4.4. AUSTRÁLIA Entre 1996 e 1997, em alguns territórios da Austrália, vigeu uma legislação que autorizava a eutanásia em pacientes terminais. A chamada Lei dos Direitos dos Pacientes Terminais estabelecia critérios rigorosos para que fosse autorizada a prática de eutanásia. Tais critérios visavam a impedir o abuso desta medida. De acordo com Maria Celeste Cordeiro dos Santos (2001), os critérios eram os seguintes: 1. Paciente faz a solicitação a um médico. 2. O médico aceita ser seu assistente. 3. O paciente deve ter 18 anos no mínimo. 4. O paciente deve ter uma doença que no seu curso ou sem a utilização de medidas extraordinárias acarretará sua morte.
5. Não deve haver nenhuma medida que possibilite a cura do paciente. 6. Não devem existir tratamentos disponíveis para reduzir a dor, sofrimento ou desconforto. 7. Deve haver a confirmação do diagnóstico e do prognóstico por um médico especialista. 8. Um psiquiatra qualificado deve atestar que o paciente não sofre de uma depressão clínica tratável. 9. A doença deve causar dor ou sofrimento. 10. O médico deve informar ao paciente todos os tratamentos disponíveis, inclusive tratamentos paliativos. 11. As informações sobre os cuidados paliativos devem ser prestadas por um médico qualificado nesta área. 12. O paciente deve expressar formalmente seu desejo de terminar com a vida. 13. O paciente deve levar em consideração as implicações sobre a sua família. 14. O paciente deve estar mentalmente competente e ser capaz de tomar decisões livre e voluntariamente. 15. Deve decorrer um prazo mínimo de sete dias após a formalização do desejo de morrer. 16. O paciente deve preencher o certificado de solicitação. 17. O médico assistente deve testemunhar o preenchimento e a assinatura do Certificado de Solicitação. 18. Um outro médico deve assinar o certificado atestando que o paciente estava mentalmente competente para livremente tomar a decisão. 19. Um intérprete deve assinar o certificado, no caso em que o paciente não tenha o mesmo idioma de origem dos médicos. 20. Os médicos envolvidos não devem ter nenhum ganho financeiro, além dos horários médicos habituais, com a morte do paciente. 21. Deve ter decorrido um período de 48 horas após a assinatura do certificado. 22. O paciente não deve ter dado nenhuma indicação de que não desejava mais morrer. 23. A assistência ao término voluntário da vida pode ser dada. Todavia, a legislação supramencionada fora revogada em 1997, apesar de ter alcançado uma grande aprovação social.
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica Após, em 2013, o Estado australiano de Nova Gales do Sul não acolheu um projeto de lei que visava a legalizar a eutanásia naquela região. Os Estados australianos possuem uma grande autonomia entre si, o que auxilia na criação de leis próprias sobre determinados temas, muito diferente da realidade brasileira. Cabe informar que, dos Estados que compõem a Austrália, somente o Território do Norte legalizou a eutanásia. 2.4.5. URUGUAI Em 1934, o Uruguai colocou-se em posição avançada em relação à eutanásia, tendo em vista inserir, no Código Penal, o homicídio piedoso. O referido tipo penal ocorria quando fosse realizado, por piedade, em um enfermo que, em agonia, requeresse a eutanásia. Tal legislação, talvez tenha sido a primeira no mundo a versar sobre este assunto de uma maneira permissiva. Da mesma maneira como ocorre na Holanda, não há uma autorização para a realização da eutanásia. Baseada na proposta de Luis Jiménez de Asúa (2003), jurista espanhol, ficaria a critério do juiz a aplicação da pena, desde que preenchesse as seguintes condições básicas: ter antecedentes honráveis; ser realizado por motivo piedoso, e a vítima ter feito reiteradas súplicas. Assim é que os ensinamentos Jiménez de Asúa (2003) também atraíram seguidores na América do Sul. A proposta elaborada, em 1933, é semelhante à utilizada na Holanda. Em ambas, não há uma aprovação em relação à eutanásia, porém, há uma possibilidade do indivíduo que realizou o procedimento não ser condenado a nenhum crime, ou seja, ficar impune. Todavia, para que ocorra tal perdão é necessário que tenham sido cumpridas algumas condições estabelecidas. A legislação supramencionada foi baseada na doutrina do penalista Jiménez de Asúa (2003).
2.5. O DIREITO À MORTE E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA É incontestável que a existência é espinhosa e, em alguns momentos, há grandes sofrimentos, que podem ser trazidos pela dor de pessoas próximas, ou podem ser advindas do interior de cada um. É fato que o sofrimento acaba por estar ligado à existência dos seres humanos. Contudo, se o escopo da sociedade é a felicidade, mesmo que esteja intercalada com vários momentos de sofrimento, a vivência que se torna apenas sofrimento, não possui mais razão de ser. Desta forma, os indivíduos que experimentam tal vida desejam a morte, tendo em vista que a vida se tornou sinônimo de privações e dores. Sendo assim, será que viver com tal infortúnio, de tamanha dimensão que prive o ser humano de desfrutar sua existência, é viver? Ou será que viver envolvido pelo sofrimento acaba por afrontar a dignidade da pessoa humana? Aos Direitos da Personalidade impõem-se o ônus da resposta. Assim, é necessário que se faça menção aos direitos da personalidade, o núcleo essencial dos direitos fundamentais, que, segundo Carlos Alberto (2000), são [...] direitos reconhecidos à pessoa humana tomada em si mesma e em suas projeções na sociedade, previstos no ordenamento jurídico exatamente para a defesa de valores inatos no homem, como a vida, a integridade física, a intimidade, a honra, a intelectualidade e outros tantos. Dentro de tais direitos, está englobada a dignidade da pessoa humana, um princípio, extremamente, relevante, presente no ordenamento jurídico brasileiro e, diante do qual, os demais direitos estão submetidos. A preservação da dignidade da pessoa humana é papel do Estado, que deve possibilitar a busca pela felicidade, por exemplo. Todavia, onde estaria o direito à dignidade de um paciente que se encontra, perante a morte, com um sofrimento de longa duração? O direito à dignidade da pessoa humana não abrangeria o impedimento a qualquer tratamento desumano, violento, ou vexatório? E aí se coloca a seguinte pergunta, segundo Maria Helena (2014): Teria o paciente direito à autonomia da vontade, ou seja, a optar sobre fatos alusivos à sua própria pessoa, dando seu consenso esclarecido sobre o tratamento a ser seguido ou sobre o aparelho de sustentação de sua vida?
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica Levando em conta que o direito à vida é inerente ao ser humano e, além disso, uma garantia, é direito do enfermo, que se encontra em estado terminal, optar por encerrar a sua vida, ou não. Ainda, esse é um direito inviolável segundo a Constituição Federal. O direito à vida não se trata de um direito absoluto, nem um dever do indivíduo, ou seja, é assegurado o direito à vida e não o dever à vida, pois nada obriga a sociedade a manter a sua própria vida. Como justificativa, pode-se citar o Código Penal do Brasil, que não tipifica como crime a tentativa de suicídio. No entanto, apesar de, no Brasil, ainda não existir legislação que defenda o direito à morte digna, nos Estados Unidos, por exemplo, foi admitida a morte com dignidade death with dignity act, permitindo que o médico ministre uma substância letal em um paciente que deseje morrer. Assim, fora legalizado o suicídio assistido, dando tal possibilidade aos pacientes em estados graves. Ocorre que, no Brasil, a população está diante de um contra-senso, pois a mesma sociedade que nega ao homem os meios para viver, oferta a ele a tecnologia para bem morrer. Segundo Letícia Ludwig (2007), é incontestável que os indivíduos devem se desenvolver sobre um sustentáculo de dignidade, algo que vai ao encontro do sofrimento perene. No mesmo sentido, a Constituição Federal de 1988 elucida no seu artigo inaugural, inciso III que [...] a dignidade da pessoa humana é considerada, juntamente com os valores da soberania, da cidadania, do pluralismo político e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o fundamento do Estado Democrático de Direito brasileiro [...]. Desta forma, é evidente que o valor da dignidade da pessoa humana é considerado o princípio fundamental do Estado e da Constituição, abarcando todos os demais princípios e direitos fundamentais, uma vez que se reporta às exigências e necessidades humanas tidas como básicas e relevantes. Ainda, no artigo 5º da Carta Fundamental, há o inciso VIII assegurando que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política [...]. Apresenta-se, ainda, o inciso III que proíbe, rigorosamente, qualquer tipo de tortura ou tratamento desumano/degradante. No mesmo sentido, a Constituição Federal possui o inciso II, do mesmo artigo, elucidando sobre o princípio da reserva legal. Dessa maneira, após esta breve análise das normas constitucionais pétreas, é evidente que a vida é um direito, não um ônus. Da mesma forma, o Estado deverá sempre garantir o direito à vida digna e não o dever de uma vida indigna.
Não obstante, em um primeiro momento, a morte buscada pela eutanásia parece ser torpe. Ocorre que, na verdade, é a única forma de se buscar a dignidade de um paciente em estado terminal. É de suma importância que a eutanásia deve ser valorada a partir do enfermo e não de pessoas saudáveis. Conforme Letícia Ludwig (2007), apenas o sofredor poderá definir o que é morte digna, se é [...] morrer lutando pela vida até o último instante, buscando adiar ao máximo o momento da morte ou, por outro lado, se digno é morrer de forma serena, sem dor e sofrimento e sem buscar prolongar artificialmente o final da vida. Em suma, a escolha de como enfrentar o fim da vida é, sem dúvida, o exercício de um direito propalado pelo alicerce fundamental da existência humana, ou seja, a dignidade da pessoa humana. Conforme Maria Helena Diniz expôs em seu livro, a ciência tem como paradigma de que o conhecimento deve estar sempre a serviço da humanidade, respeitando a dignidade do seu humano, o que traz a tona o direito a uma morte digna, tendo em vista que há situações em que ele pode ser ameaçado. Todavia, todos pontos polêmicos só poderão ser solucionados de maneira adequada, quando o direito positivo passar a enfrentá-los com prudência objetiva, fazendo prevalecer o bom senso a fim de que seja preservada a dignidade humana. 3. METODOLOGIA Pretendeu-se, inicialmente, realizar uma pesquisa bibliográfica relacionando os princípios constitucionais e a defesa de uma morte digna. Pesquisando também fatores históricos, sendo importante estabelecer esses parâmetros históricos para que seja possível compreender o pensamento da sociedade em cada época, uma vez que a mudança do tempo significa também a mudança de pensamentos e opiniões acerca do tema. Além disso, foi feita uma análise de como essa técnica é tratada nos diferentes países. 4. RESULTADO E DISCUSSÃO Por meio desta pesquisa, foi possível averiguar que os diferentes ordenamentos jurídicos dos diversos países, em sua maioria, optam por manifestar a sua opinião sobre a
XII Jornada de Iniciação Científica e VI Mostra de Iniciação Tecnológica autorização da realização de eutanásia nos pacientes enfermos, todavia, aceitam a prática, não punindo seus realizadores, caso sejam cumpridas algumas exigências. Assim, cabe o questionamento de que talvez fosse mais viável os legisladores, baseados na quantidade de pacientes com doenças incuráveis que se socorrem pela eutanásia, analisar melhor a sociedade em que se encontram e elaborar uma legislação que, realmente, regularize tal prática a fim de que a população se sinta a vontade para recorrer ao Estado quando sentir o seu direito à dignidade da pessoa humana lesado. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Não há nada mais conveniente que o particular sofrimento para confirmar se é correto solicitar o encerramento de sua vida. Ora, a dignidade da pessoa humana não pode permitir que o Estado, ou as demais pessoas, impeçam que a autonomia dos indivíduos seja exercida em sua inteireza. Apenas o enfermo poderá valorar se a sua existência tornou-se apenas um pesado fardo, ou se ainda é válida, apesar do sofrimento. O direito de morrer dignamente é um verdadeiro direito natural que não cabe ao Estado recusar, isto é, cabe a este apenas reconhecer e garantir. 6. REFERÊNCIAS Admiraal P. Euthanasia and assisted suicide. In: Thomasma DC, Kushner T. Birth to death. Cambridge: Cambridge, 1996:213-215. ASUA, Luis Jiménez de. Liberdade de Amar e Direito a Morrer Tomo II Eutanásia e Endocrinologia Ciências Criminais 10. São Paulo: Mandamentos, 2003. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. DINIZ, Maria Helena. O Estado Atual de Biodireito. 9. Ed. São Paulo: Saraiva, 2014 Lei Geral de Saúde (LGS Ley General de Sanidad, de 25 de abril de 1986) MARÇAL, Vinicius de Medeiros. Eutanásia: Direito à Morte Digna. 2010. 20 f. Tese (Doutorado) - Curso de Direito, Faculdades Integradas Antonio Eufrásio de Toledo, Presidente Prudente, 2010.
MÖLLER, Letícia Ludwig. Direito à morte com dignidade e autonomia. Curitiba: Juruá, 2007. ROBERTI, Maura. Eutanásia e Direito Penal. Instituto Brasileiro de Advocacia Pública, São Paulo. Disponível em: http://www.ibap.org/defensoriapublica/penal/doutrina/mr-eutanasia.htm. Acesso em: 20 fev.2011. SÁ, Maria de Fátima Freire de. Direito de morrer: eutanásia, suicídio assistido. Belo Horizonte: Del Rey. 2005 SANTOS, Maria Celeste Cordeiro dos. Biodireito: ciência da vida, os novos desafios. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. VILLAS-BÔAS, Maria Elisa. Da Eutanásia ao Prolongamento Artificial. Rio de Janeiro: Forense, 2005. Contatos: marcelle.rocha@uol.com.br e gromanello@terra.com.br