INTRODUÇÃO O título desta tese de doutorado é: A ruína da elite de Jerusalém e Judá em Jeremias 2 - Estudo da profecia do jovem Jeremias. O tema a ser desenvolvido é fruto da exegese do capítulo 2 de Jeremias. A temática também está presente no título. Os textos desses primeiros capítulos (caps.2-6), considerados como pertencentes aos primórdios de sua atuação profética, apresentam já a característica que vamos encontrar em outros textos mais tardios do profeta: a denúncia e a sentença de castigo para Jerusalém e Judá. O Livro de Jeremias é uma das mais belas obras poéticas do Antigo Testamento. Sua riqueza literária, somada ao seu conteúdo profético, faz deste profeta um dos mais amados e lidos pelos cristãos e demais amantes deste tipo de literatura. Porém, o trecho que desejamos estudar, os primeiros capítulos de Jeremias mais precisamente Jr 2 - têm sido pouco valorizado nas pesquisas exegéticas sobre o profeta, ao contrário de trechos como da nova aliança (Jr 30-31) ou as profecias contras as nações (Jr 46-51), além do bloco 37-45. No entanto, trata-se de uma porção bem consistente, seja pela coesão do texto, seja pela beleza plástica que ali encontramos. O estudo científico sobre o livro de Jeremias começou, praticamente, com Bernhard Duhm 1, em 1901. Este autor iniciou uma série de levantamentos apresentando, pela primeira vez, a proposta de uma composição do livro em três grandes blocos, como já o fizera em 1892 com o livro de Isaías. No que Bernhard Duhm chama de primeiro bloco encontra-se a nossa porção de estudo nesta tese - é a parte poética na qual o profeta expressa-se em primeira pessoa do singular. Bernhard Duhm afirmava que esta é a parte mais antiga, mais original de Jeremias. Em 1914, Sigmund Mowinckel 2 aprofundou as análises de Bernhard Duhm e discerniu quatro fontes para Jr 1-45. Além disso, afirmava ele que a porção de Jr 1-23 + 25 continha coleções bastante complexas de oráculos originais. Ele chamou esta porção de fonte A, e determinou 1 Bernhard Duhm, Das Buch Jeremia, Tübigen, J. C. B.Mohr, 1901, 391 p. (Kurzer Hand-Commentar zum Alten Testament). 2 Consulte, Sigmund Mowinckel, Zur Komposition des Buches Jeremia, Kristiania: Dybwad, 1914, p. 68. Veja, também, Jeremias, em Revista Bíblica Brasileira, Fortaleza: Comunidade Infantil Cristo Redentor, vol. 19, números 1/2, 2002, p. 14-16.
12 uma série de outras partes pertencentes a esta fonte, entre elas, encontramos o cap.2 de Jeremias. Depois deste breve estudo, Sigmund Mowinckel fez, em 1946, uma série de retratações, alterando algumas de suas posições. Wilhelm Rudolph 3 reforçou as primeiras teses de Mowinckel, ignorando aquelas retratações. Ele reconheceu vários textos que diz ser de Jeremias e que Mowinckel atribuía a redatores posteriores. Com James P. Hyatt 4, depois Martin Noth 5 e Siegfried Herrmann 6 iniciou-se uma defesa em torno de uma redação deuteronomística no livro de Jeremias. Com algumas diferenças, esses três autores apontaram para porções do livro que manifestavam uma redação, um estilo e uma teologia deuteronomística. No mesmo período, Thomas Roemer 7 ofereceu-nos uma proposta de divisão do livro que, desde Bernhard Duhm, contempla os caps.2-6 como uma unidade coesa. Só que Thomas Roemer acreditava que esta coleção de oráculos anunciava o inimigo do Norte e convidava os destinatários a mudar de comportamento. E enfatizava, além disso, que Jeremias profetiza para o Reino do Norte. William L. Holladay 8, um dos mais recentes estudiosos de Jeremias, acredita que o 13º ano de Josias (Jr 1,2) marca, não o início da profecia de Jeremias, mas o seu nascimento, em torno de 627 a.c. Isto apontaria suas profecias para um período mais tardio, após a reforma de Josias. Por essa rápida análise desses autores ao longo do tempo, percebemos que as questões sobre o livro de Jeremias, e mais precisamente sobre os caps. 2-6, apresentaram uma enorme evolução crítica, mas ainda muitas dúvidas permanecem. A nossa posição aqui nesta pesquisa é acompanhar a idéia que Jr 2, de fato, é um texto do próprio Jeremias e marca o início de sua atuação profética. Contrariando Thomas Roemer, 3 Wilhelm Rudolph, Jeremia, Tübingen: J. C. B. Mohr, 3 a edição, 1968, 325 p. (Handbuch zum Alten Testament, 12). 4 J. Philip Hyatt, Jeremiah - Prophet of courage and hope, Nova Iorque: Abingdon Press, 1958, 128 p. 5 Martin Noth, The Old Testament World, Philadelphia: Fortress, 1966, 404 p. 6 Siegfried Herrmann, Die prophetischen Heilserwartungen im Alten Testament, Stuttgart: Kohlhammer, 1965, 325 p. Veja, também, Jeremias, em Revista Bíblica Brasileira, vol. 19, p. 18-20. 7 Thomas Roemer, Y a-t-il une rédaction deutéronomist-te dans le livre de Jéremie?, em Israël construit son histoire, Genebra: Labor et Fides, 1966, p. 427-441. 8 William L. Holladay, Jeremiah 1 - A commentary on the book of the prophet Jeremiah - Chapters 1-25, Philadelphia: Fortress Press, 1986, p. 1-2.
13 apontamos os conteúdos de Jr 2 para Jerusalém e Judá, já que o Reino do Norte desaparecera e Anatote, cidade natal de Jeremias, fora incorporada por Josias 9. Trabalhando com essas premissas, acreditamos que esses capítulos iniciais de Jeremias já apresentam a característica da sua profecia: as escolhas e as práticas das elites levarão Jerusalém e Judá à ruínas. Não há saídas e certamente, castigo e destruição vêm. E, ao que parece, as profecias deste jovem Jeremias trazem as suas experiências do norte 10 e a sua influência oseiânica 11, mas, de fato, são dirigidas para o reino do sul, para Jerusalém e Judá. Quanto a esta influência que Oséias exerceu sobre Jeremias podemos ler o que Notker Fueglister nos diz: Também Jeremias tem o seu pai espiritual e este é Oséias. Significativamente também esta relação se volta para o norte. Oséias é o único profeta do reino setentrional cuja mensagem foi escrita. Os pontos de contato de Jeremias com Oséias são muitos. Antes de tudo, a semelhança do momento histórico, em que ambos atuaram: Oséias antes da destruição do reino do norte (722); Jeremias antes da destruição de Jerusalém (586). Semelhante é também a paixão que a sensibilidade interior dos dois profetas confere às suas mensagens. Mas a semelhança vai mais longe: ela compreende tanto a substância quanto a forma literária da mensagem e de tal modo que induz a admitir que Jeremias se tenha ocupado intensamente, nos seus primeiros anos, com a pregação já 9 Anatote é uma pequena aldeia que dista apenas seis quilômetros a nordeste de Jerusalém. O rei Josias tornou-a dependente de sua administração. Sabemos da influência de Jerusalém, tanto política quanto religiosa, sobre a pequena aldeia de Anatote. Veja, John Skinner, Jeremias - Profecia e religião, São Paulo: ASTE/Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, 1966, p. 30. Preste atenção também à nota 3 deste livro. Veja, também. Rafael de Sivatte, El regreso siemp re posible a Dios y al hermano - La conversión en Jeremías, em Revista Latinoamericana de Teologia, San Salvador: Centro de Reflexión Teológica, vol. 17, número 50, maio-agosto, 2000, p. 144s. 10 John Skinner, em seu livro, no capítulo justamente intitulado predestinação e vocação, procura demonstrar como a origem de Jeremias, família, cultura e religião, influenciou diretamente sua profecia. Veja, John Skinner, Jeremias, p. 29-43. 11 Foi de Oséias que o jovem profeta [Jeremias] recebeu a interpretação religiosa da história de Israel, a qual veio a ser o contexto em que sua mensagem se encaixou. Escrito por John Skinner, Jeremias, p. 32. Veja, também, p. 42, 70-71 do mesmo autor.
14 escrita de ser predecessor do reino do norte (o destaque em itálico é nosso). 12 Assim, tenho em mente o seguinte caminho. Num primeiro capítulo, estudaremos o texto de Jr 2. Irei propor uma tradução própria, importante para a nossa compreensão do texto bíblico. E, procurando ser claro nos passos que estarei dando, quero demonstrar a coesão do cap.2 e suas disposições internas. O segundo capítulo quer tratar ainda questões do texto hebraico de Jr 2. São análises da poesia e prosa hebraica. Espero que este estudo e discussão do tema ofereçam uma boa contribuição para diminuir um pouco as dúvidas que existem em relação à identificação da prosa e da poesia hebraica. Contudo, sei que indecisões, com certeza, ainda continuarão a existir em relação à poesia, não só hebraica, mas oriental. No entanto, arrisco-me a trazer algumas pistas aqui neste meu trabalho. O terceiro capítulo quer tratar das questões de época. Para isso, em meio a todas as propostas e às dificuldades que já sabemos existir, quero estabelecer uma datação aproximada para Jr 2. Irei apresentar, inicialmente, os argumentos que recebemos dos autores que têm trabalhado Jeremias ao longo do tempo. E, em seguida, quero estabelecer uma proposta. Acredito que temos em nossas mãos um material produzido bem no início da atuação de Jeremias, ou seja, de um Jeremias bem jovem. E, provavelmente, estamos nos anos próximos e anteriores à reforma de Josias (622 a.c.). Tendo em mente tudo isso, irei apresentar uma análise histórica que é o pano de fundo das profecias do jovem Jeremias, principalmente Jr 2, para que possamos melhor compreender os seus conteúdos e procurar novas releituras desta sua obra inicial. O quarto capítulo quer, com base no que já colhemos dos capítulos anteriores, estudar os conteúdos de Jr 2. Tem sido uma grata surpresa perceber que já no início de suas falas, Jeremias posiciona-se de maneira crítica em relação à estrutura sócio-econômico-religiosa de Jerusalém e Judá, não só apresentando suas denúncias, mas profetizando o juízo. Aparentemente, este Jr 2 parece mostrar que o profeta apenas critica a infidelidade da aliança 12 Notker Fueglister, Jeremias: completamente tomado por Deus para o seu serviço, em Palavra e Mensagem, Josef Schreiner (editor), São Paulo: Edições Paulinas, 2 a edição, 1987, p. 275-276.
15 com Javé e busca um retorno à esta lealdade, seguindo, em parte, a profecia de Oséias. Entretanto, um olhar mais atento, vai nos mostrar que o jovem Jeremias era crítico à estrutura e já, também, denunciador de um juízo para a elite de Jerusalém e Judá. É o que veremos neste trabalho. Finalmente, faço ainda algumas considerações finais com a intenção de recolher e sistematizar os aspectos que considerei mais importante ao longo desta tese.