Página 1 ARTIGOS DO PROFESSOR 1. Pra onde foi o acento circunflexo em desproveem? Página 1 2. Curiosidades gramaticais da terra dos Macuxi Página 3 Artigo 1 Pra onde foi o acento circunflexo em desproveem? A análise do verbo desprover e de seu problema de acentuação requer algumas digressões. Em primeiro lugar, é relevante observar que o verbo em destaque deriva de prover. Este, entre outros significados, tem a acepção técnica de receber para discussão e deferir um recurso. Em termos simples, equivale a dar provimento a. Não é incomum, todavia, encontrarmos nos textos jurídicos a negação de tal verbo, por meio do uso do prefixo in-, na corriqueira forma improver. Escrevem-se frases como a Turma improveu o recurso ou, ainda, o recurso foi improvido pelo tribunal. O problema é que tais construções não se mostram etimologicamente adequadas. É que o prefixo in-, como regra, não serve para criar verbos! É errôneo, desse modo, o uso de improver e, até mesmo, de improvimento, como já tivemos oportunidade de explicar em outros artigos. Não são termos dicionarizados! Todavia, o VOLP, em sua 5ª edição (2009), abona, com exclusivismo, o adjetivo improvido, na acepção de sem provimento. Assim, pode-se afirmar que há um recurso improvido, mas não se pode dizer que ele havia improvido o recurso. No primeiro caso, mostra-se como adjetivo (permitido); no segundo, como verbo (proibido). Desse modo, recomendamos que se utilize nas construções acima, substitutivamente, o verbo desprover. Este admite tanto o adjetivo desprovido como o substantivo desprovimento. Portanto, prefira: ele havia desprovido o recurso e há um recurso desprovido (ou improvido, se preferir). A título de curiosidade, destacam-se ainda as vernáculas conjugações verbais de desprover : O magistrado desproveu o recurso ontem (e não improveu ); Ontem eu desprovi o recurso (e não improvi ); Espero que nós desprovejamos o recurso (e não improvejamos ); Eu desprovejo o recurso (e não improvejo ); Eles desproveem o recurso (e não improveem ). O último exemplo, a propósito, serve de mote para tratarmos do problema central do presente artigo: desproveem recebe ou não o acento circunflexo?
Página 2 O Acordo Ortográfico determinou a supressão do acento circunflexo nas formas verbais dissílabas terminadas por "- eem". Antes da medida unificadora, convivíamos com as formas acentuadas crêem, dêem, lêem e vêem. Tais palavras, ditas paroxítonas, isto é, aquelas cuja sílaba tônica é a penúltima, circulavam por aí com o acento circunflexo um sinal gráfico dispensável, até certo ponto, em tais palavras. Após o Acordo, tudo mudou: passamos a escrever as formas verbais sem o acento gráfico ( creem, deem, leem e veem ). No estudo dos verbos, quando conjugávamos os verbos "crer", "ler" e "ver" na terceira pessoa do plural do presente do indicativo, obtínhamos as formas acentuadas: Eu creio, tu crês, ele crê, nos cremos, vós credes, eles crêem; Eu leio, tu lês, ele lê, nos lemos, vós ledes, eles lêem; Eu vejo, tu vês, ele vê, nos vemos, vós vedes, eles vêem. Após o Acordo, passamos a ter: Eu creio, tu crês, ele crê, nos cremos, vós credes, eles creem (sem acento); Eu leio, tu lês, ele lê, nos lemos, vós ledes, eles leem (sem acento); Eu vejo, tu vês, ele vê, nos vemos, vós vedes, eles veem (sem acento). Além disso, quando conjugávamos o verbo "dar" na terceira pessoa do plural do presente do subjuntivo, convivíamos com a forma acentuada: (Que) eu dê, (que) tu dês, (que) ele dê, (que) nós demos, (que) vós deis, (que) eles dêem. Após o Acordo, passamos a ter: (Que) eu dê, (que) tu dês, (que) ele dê, (que) nós demos, (que) vós deis, (que) eles deem (sem acento). Curiosamente, deve-se notar que tal regra, após o Acordo Ortográfico, será estendida aos verbos derivados dos acima destacados. Observe: Com DESCRER: se agora escrevemos creem, deve-se grafar descreem, ambas sem o acento gráfico;
Página 3 Com RELER: se agora escrevemos leem, deve-se grafar releem, ambas sem o acento gráfico; Com REVER: se agora escrevemos veem, deve-se grafar reveem, ambas sem o acento gráfico. Aliás, por analogia ao verbo ver, sobressaem os verbos prover e desprover, avocando a mesma regra: Ele provê a casa de alimentos - Eles proveem a casa de alimentos (sem acento); O desembargador provê o recurso - Os desembargadores proveem o recurso (sem acento); O desembargador desprovê o recurso - Os desembargadores desproveem o recurso (sem acento). Assim, respondendo à pergunta que serviu como título a este artigo, podemos assegurar que o acento circunflexo em desproveem foi abolido pelo Acordo Ortográfico. Portanto, nem com recurso, será possível dar provimento a este acento... Artigo 2 Curiosidades gramaticais da terra dos Macuxi No último mês, estive em Boa Vista, capital de Roraima. Fui ministrar um curso de Língua Portuguesa a servidores e juízes do Tribunal de Justiça daquele Estado. Voltei de lá muito bem impressionado com a cidade, que achei muito limpa, organizada, com um charmoso quê de cidade do interior. O que mais me impressionou, todavia, foi a variedade linguística que caracteriza o Estado, que hospeda inúmeras etnias indígenas, com costumes e língua ainda preservados. A propósito, os Macuxi (no singular, realmente, sem fazer a concordância) representam a tribo indígena mais numerosa do Estado. A influência dessa etnia indígena no Estado levou o habitante de Roraima a se autodenominar, carinhosamente, Macuxi, em homenagem aos valentes guerreiros daquela tribo. Daí o título dado ao presente artigo: Curiosidades gramaticais da terra dos Macuxi.
Página 4 Em tempo, ressalte-se que o vocábulo macuxi é grafado com x por ser de origem indígena. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, em sua 5ª edição, abona-o, ao lado de macuxixiriense. Lembre-se da regra ortográfica: coloca-se x em Macuxi pela mesma regra do abacaxi e xavante. No campo da acentuação, as oxítonas terminadas por i não recebem o acento gráfico. Portanto, não se pode acentuar Macuxi, da mesma forma que não acentuamos sucuri e buriti. Aliás, estes dois nomes têm muito a ver com Roraima: a sucuri, a maior de todas as cobras brasileiras, vive nos igarapés roraimenses. E, curiosamente, às margens destes, você vai encontrar o buriti, de cuja polpa sai um bom vinho e deliciosos doces. Mas as curiosidades gramaticais sobre o majestoso Estado não param por aí. Note mais algumas, separadas em itens: 1. Fala-se /Roráima/ ou /Rorãima/? O roraimense costuma falar /Roráima/. Não usa o som do nariz /ãi/, como em boa parte do Brasil. Notei isso em minha estada em Boa Vista. Todavia, sempre ensinei em sala de aula que duas formas são aceitáveis. Se falamos /Jáime/, podemos pronunciar /Roráima/, com o timbre aberto, sem nasalização. Por outro lado, falamos /andãime/, /Êlãine/ e /pãina/, nasalizando o ditongo. Daí se aceitarem as duas formas. Acho que a pronúncia com o timbre aberto é mais regional, própria do Norte do Brasil; no restante do País, entretanto, costuma-se usar o timbre fechado, com som nasal. O mesmo raciocínio pode ser estendido à palavra Pacaraima, que indica uma cidade do Estado, próxima à Venezuela. Aceito como legítima a pronúncia regional /Pacaráima/ e acredito que, no Brasil afora, a tendência será falar Pacaraima (ãi). Não vejo a questão como certa ou errada, mas como um dado de preferência regional. Não teria coragem de ensinar a meus alunos que a pronúncia com o timbre aberto (/Roráima/ ou /Pacaráima/) apresenta um erro de ortoepia. Aceito ambas. 2. Você usa a expressão do Oiapoque ao Chuí? Esqueça-a... Quando queremos dizer que algo vale em todo o Brasil, usamos a expressão do Oiapoque ao Chuí. Tirante o fato de que se trata de um clichê, a ser evitado nos textos mais rigorosos, ela encerra um grave problema geográfico. Passo a explicar: Na expressão, Oiapoque está indicando o ponto extremo ao norte do Brasil e Chuí, o ponto extremo ao sul. O problema é que as recentes pesquisas cartográficas mostraram que o ponto mais setentrional do Brasil não é mais o Oiapoque, mas um ponto geográfico localizado no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. Eu me refiro ao Monte Caburaí. Portanto, adeus à expressão do Oiapoque ao Chuí. Devemos substituí-la por: Do (Monte) Caburaí ao Chuí. Veja que até surgiu uma boa rima! Em tempo, frise-se que os vocábulos Caburaí e Chuí recebem o acento gráfico pela regra de acentuação dos hiatos. Na separação silábica dos termos (Ca-bu-ra-í; Chu-í), nota-se que as vogais ocupam sílabas diferentes (Ca-
Página 5 bu-ra-í; ChU-Í), ficando a letra i isolada na sílaba final. Nesses casos, o acento será obrigatório. É o que acontece com os termos anhangabaú, Itaú, juízes, juíza e outros. 3. Como se pronuncia Guiana : /Gu-iana/, /Gui-ana/ ou /Güi-ana/? Inicialmente, vale relembrar que o Estado de Roraima faz fronteira com a Venezuela e com a República Cooperativista da Guiana. Este último País, localizado bem ao norte da América do Sul, tem em seu nome mais comum ( Guiana ) uma pronúncia que pode nos pegar desprevenidos. Seria /Gu-iana/, /Gui-ana/ ou /Güi-ana/? Tenho recomendado em sala um macete: pense em nosso nome próprio RUI. Esta palavra é forma por uma sílaba apenas, na qual se destaca o ditongo ui. Da mesma forma, faremos a separação silábica de Guiana (Gui-a-na) e seguiremos fiéis na pronúncia /Gui-ana/. Veja que o u é pra ser pronunciado, constituindo-se o ditongo com o i, na forma ui. Reconhecemos que a realidade sonora do termo é um tanto estranha, desafiando nosso sistema gráfico, mas isso não nos permite modificá-lo. Se quiséssemos usar o trema, por exemplo, encontraríamos dois problemas: 1. o trema foi abolido pelo recente Acordo Ortográfico; 2. a pronúncia, com o uso do trema, seria outra. Passaríamos a falar /güiana/, como falamos /argüir/, hoje já escrito sem o trema (arguir). Por outro lado, se pretendêssemos acentuá-lo, criando a forma Gúiana, teríamos também um empecilho: mudaríamos de lugar a vogal tônica da palavra (Gui A na). A penúltima sílaba A é a sílaba tônica. O acento no u, na sílaba Gui, não teria cabimento. Portanto, devemos continuar escrevendo Guiana e falando, exoticamente, /Gui-ana/, como na palavra Rui. Evite, assim, falar /Gui-ana/, como você pronuncia o termo Guiné, ou /Güi-ana/, como você pronuncia o termo arguir. Esses são alguns detalhes gramaticais que pude colher dessa viagem agradável a Boa Vista. Voltarei ao Estado, se Deus quiser. Aliás, Ele há de querer, pois aprendi com Dorval de Magalhães, que escreveu o Hino do Estado, que Roraima é a benesse das mãos de Jesus.