volume 2

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Transcrição:

volume 2 www.lpm.com.br L&PM POCKET 3

Porque é esta a maneira de o mito existir: variando. Ru t h Gu i m a r ã e s, Dicionário da Mitologia Grega 5

Sumário Apresentação... 9 O nascimento de Páris... 11 O pomo da discórdia... 16 O rapto de Helena... 24 O sacrifício de Ifigênia... 33 O assassinato de Agamenon... 48 Orestes e as Fúrias... 57 Menelau e Proteu... 65 O castigo de Esculápio... 69 O prêmio de Trofônio... 72 Íxion, pai dos centauros... 74 Ctésila e Hermócares... 78 A cegueira de Dáfnis... 81 Os gigantes Aloídas... 87 Fedra e Hipólito... 91 Aquiles e Escamandro... 102 Marte, Deus da guerra... 108 Hércules e Cicno... 111 Aquiles na corte do rei Licomedes... 113 A morte de Heitor... 123 Aquiles e Mêmnon... 133 A morte de Aquiles... 137 Etéocles e Polinice... 143 Antígona... 152 Píramo e Tisbe... 157 Ceix e Alcíone... 162 Creúsa e Íon... 170 Árion... 176 Simônides... 181 O cavalo de Troia... 184 Helena, a demônia... 203 Dido e Eneias... 209 Niso e Euríalo... 221 Eneias nos infernos... 226 Jasão e o gigante de bronze... 239 Os furores de Medeia... 243 7

Ulisses e Polifemo... 250 Ulisses e as sereias... 262 O massacre dos pretendentes... 268 Órion... 284 Aristeu, o apicultor... 287 Glauco e Cila... 292 Cadmo e Harmonia... 296 O mito de Sísifo... 302 Calisto... 305 A morte de Hércules... 307 Glossário... 317 Bibliografia... 347 8

Apresentação As histórias que você está prestes a ler são, além de deliciosas aventuras, a milenar espinha dorsal da civilização ocidental. Abarcando as principais raízes da mitologia antiga, o conjunto destes cem contos engloba a história da humanidade tal como ela era vista pelos antigos gregos e romanos: de onde surgiu o Universo, como apareceram os homens, a descoberta do fogo e variados estágios de desenvolvimento do ser humano com um sem-fim de divindades diretamente relacionadas às forças primordiais da natureza orquestrando esta verdadeira sinfonia da vida. As origens destas lendas povoadas por deuses e mortais perdem-se nas memórias do tempo. Elas surgiram de maneira espontânea, da imaginação popular, quando os registros da linguagem verbal eram muito diferentes da escrita de hoje, a caneta ou a computador: o conhecimento de então era passado oralmente através de gerações, daí a matriz necessariamente flexível da mitologia. Com o passar do tempo, tais lendas se cristalizaram em formas mais ou menos definidas, porém nunca acabadas, já que com a passagem dos milênios as histórias iam sofrendo alterações, eram levadas de um país a outro, adquirindo novo cenário, por vezes novo roteiro e até novos personagens. De modo que, hoje, temos à nossa disposição as mais diversas versões para os mais diferentes mitos sem falar nas versões que por uma razão ou outra possivelmente tenham sido soterradas pelos anos. Desse modo, a importância do mito está na sua maleabilidade não em uma forma fixa, que traz consigo o legado ancestral assim como os sinais de seu próprio tempo e espaço. Nossos personagens não são autômatos divinos, a repetir eternamente os mesmos atos e discursos. São mitos que têm a vida renovada conforme são reescritos e recontados, sendo tanto de hoje quanto da Antiguidade. A maioria dos contos deste livro baseia-se em relatos que a tradição consagrou, recolhidos em coletâneas e livros específicos sobre o assunto. Embora tenhamos procurado nos servir 9

das versões mais conhecidas dessas lendas, não desprezamos outras, menos populares. Optamos por apresentar os personagens, na sua maioria, com os seus nomes latinos. Sem pretender desfigurar demasiadamente o conteúdo dos relatos, escolhemos recontá-los com o auxílio da ficção: atribuímos a cada história o estilo, a forma de contar, os detalhes circunstanciais, os diálogos etc. que mais favorecem o seu colorido, movimentação e fantasia. Os autores 10

O nascimento de Páris Príamo, o mais poderoso dos reis de Troia, tendo já sido abençoado pelos deuses com o nascimento de seu filho Heitor, estava às vésperas de ser pai outra vez. Hécuba querida disse o rei à sua esposa, alegre sua alma, pois parece que já não tarda o nascimento de nosso segundo filho, que os deuses haverão de fazer tão formoso quanto nosso amado primogênito! A rainha, no entanto, acordara naquela manhã terrivelmente angustiada. Príamo, meu esposo e senhor! disse ela, agarrada aos ombros do soberano. Tive um sonho funesto que nada pressagia de bom quanto ao novo nascimento! O rei, apreensivo, tomou as faces da rainha em suas mãos. Hécuba, querida, acalme-se e conte-me tudo! disse ele com decisão, pois temia muito os presságios funestos. A rainha, então, após enxugar as lágrimas que banhavam seu rosto, falou: Sonhei, meu esposo, que, no lugar de um belo menino, me saía das entranhas uma tocha, uma imensa tocha de labaredas ardentes! Como pode ser?! exclamou Príamo, aterrado. E isto não é tudo! acrescentou Hécuba, cujos lábios tremiam convulsamente. Sonhei ainda que esta tocha ganhava vida e que alastrava suas terríveis flamas por todo o nosso reino, a ponto de só restarem ruínas após a sua passagem. Príamo desvencilhou-se involuntariamente dos braços hirtos de sua esposa e dirigiu-se até a janela dos aposentos reais. É um aviso dos deuses! disse ele, baixando a cabeça, como quem recebe dos deuses imortais um terrível e inapelável decreto. Só pode ser... Hécuba, no entanto, arrependida já de sua confissão e temendo as consequências de seu ato, tentou minimizar a situação: Príamo, querido, acalme-se... disse ela, pondo-se em pé. Talvez não passem de tolas premonições! 11

Mas era tarde, o rei já estava convencido de que aquele sonho era um aviso claro de que as Parcas sinistras tramavam algo terrível para si e seu reino. No mesmo instante foi consultar seu oráculo e ouviu dele a confirmação daquele terrível presságio. O novo bebê seria, de fato, a causa da ruína de sua Troia amada e de todos os seus cidadãos, caso vivesse. Só o sacrifício dessa criança evitará essa horrenda tragédia! exclamara o adivinho, que pela primeira vez Príamo via proferir seu vaticínio de olhos esgazeados. No dia seguinte a criança nasceu, forte e saudável. Contudo, nem bem saíra do ventre materno e foi arrancada dos braços de Hécuba por seu esposo, que surdo ao seu pranto a deixou desfalecida sobre o leito. Enquanto carregava a criança para um destino que somente ele, Príamo, conhecia, seus olhos estudavam as feições do garoto. Era um belo menino, não havia como negar, e o rei sentiu seu coração apertar-se dentro do peito. É meu sangue, também, que corre neste pequenino corpo!, pensava, enquanto percorria os corredores gelados do seu palácio com seu pequeno fardo ainda manchado do sangue da batalha que travara pela vida. Não, não, desgraçado Príamo... Deves dar a este inocente o destino cruel que nos livrará a todos de um mal ainda maior..., pensou novamente, e com tanta força que temeu que suas últimas palavras reverberassem nas paredes imensas e nuas que levavam para fora do palácio real: Um mal ainda maior... AINDA MAIOR...! Lá fora o aguardava o pastor Agelau, encoberto por um manto negro e vergado por uma chuva torrencial que o vento lhe atirava em cima com toda a fúria. Aqui está! disse o rei, mirando o queixo do miserável pastor. Perdão, Alteza disse o pobre homem, tomando o pequeno embrulho nas mãos vacilantes, mas não quer refletir melhor sobre o destino que quer dar a este inocente? Cale a boca, maldito! rugiu Príamo, temeroso de que sua consciência o obrigasse a retroceder. Sabe bem o dever que lhe imponho, e o que lhe espera caso não o cumpra com todo o rigor. 12

Agelau introduziu, então, o pequenino embaixo de seu manto coberto de furos e lançou-se à estrada, que a chuva e a neblina misturavam com a floresta. Assim, o pastor escalou até o alto do monte Ida, conforme as instruções que recebera do rei, e tão logo alcançou seu destino sentou-se sob uma grande árvore, descobrindo novamente o rosto do garoto. Ainda... vive... Ainda... vive... disse o bom homem, num tom baixinho e quase sem fôlego, como se temesse que de tão perto das nuvens Láquesis, a Parca que corta o fio da vida humana, o pudesse escutar. Agora, entretanto, devo abandoná-lo!, pensou agoniado. E assim fez. No fim do dia, entretanto, consumido pelo remorso, Agelau decidiu retornar ao local e, ao fazê-lo, deparou-se com uma cena espantosa. Por Júpiter, será isto possível? exclamou. Uma ursa enorme e marrom, deitada placidamente, amamentava o garoto! Só pode ser um sinal dos deuses de que não desejam mais a sua morte! ponderou ele, contente. Após perceber o afastamento da ursa, correu então até o bebê, colocou-o num cesto e levou-o para casa. Sua esposa ficou tão feliz com o novo filho que resolveu batizá-lo ali mesmo: Se chamará Páris, posto que veio num cesto! exclamou ela, pois Páris significava cesto na língua dos antigos gregos. O menino Páris virou em breve um belo rapaz e tornou-se pastor, tal como aquele que julgava ser o seu pai. Durante toda a sua juventude vagou pelos campos e encostas tangendo seus bois e levando uma vida amena, até o dia em que conheceu Enone, uma ninfa dos rios. Com ela manteve um relacionamento intenso, embora não pudesse dizer que a amava, pelo menos não tanto a ponto de poder retribuir o sentimento intenso que esta lhe devotava. Assim, prosseguiu em sua vida despreocupada, promovendo lutas entre os seus touros, a ponto de tornar este passatempo a principal ocupação de sua vida. Estava nisto quando um dia viu chegar um soldado do rei Príamo, rei este que o jovem Páris nem desconfiava ser seu verdadeiro pai. 13