Página1 Curso/Disciplina: Novo CPC Comparado e Comentado Aula: Embargos de Declaração. Professor (a): Rodolfo Hartmann Monitor (a): Felipe Ignacio Loyola Nº da aula 27 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Os embargos de declaração servem para impugnar qualquer tipo de decisão, seja ela interlocutória, sentença, acórdão, decisão monocrática. As hipóteses estão previstas no art. 1022 do CPC/15. Art. 1.022. Cabem embargos de declaração contra qualquer decisão judicial para: I - esclarecer obscuridade ou eliminar contradição; II - suprir omissão de ponto ou questão sobre o qual devia se pronunciar o juiz de ofício ou a requerimento; III - corrigir erro material. Parágrafo único. Considera-se omissa a decisão que: I - deixe de se manifestar sobre tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em incidente de assunção de competência aplicável ao caso sob julgamento; II - incorra em qualquer das condutas descritas no art. 489, 1 o. CPC/15. Art. 489 (...) 1 o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. O STJ formou precedente no sentido de que o juiz não precisa ter um dever exaustivo de fundamentação, e de que não deve aplicar com exatidão o disposto no art. 489 do CPC/15.
Página2 A fundamentação dos atos é adequada, porque legitima a atuação jurisdicional e dá a parte o direito de saber o porquê de não ter sido vencedora e como deverá fundamentar o seu recurso. Segundo o professor, o art. 489 do CPC/15 foi fruto da vibe acadêmica. Continuando, o 2º, II do art. 1022 do CPC/15 diz que o ato decisório é omisso, caso não observe o art. 489 1º do CPC/15, mas, essa construção é de difícil sustentação, uma vez que o próprio STJ, que interpreta a lei federal em última instância, já deixou claro que o juiz não precisa esgotar todos os fundamentos, mas tão somente aquilo que é relevante para o mérito da causa. Em caso de erro, um Recurso pode ser usado para a correção de uma possível distorção. Prazo para apresentação do embargo de declaração: A parte que vai apresentar o embargo de declaração tem o prazo de 05 dias para a sua apresentação (lembrando que, salvo o embargo de declaração, todos os outros recursos previstos no CPC têm prazo de 15 dias art. 1003, 5º). CPC/15. Art. 1003. 5o Excetuados os embargos de declaração, o prazo para interpor os recursos e para responder-lhes é de 15 (quinze) dias. Observação! A legislação especial pode trazer prazos diferenciados para a interposição de embargos de declaração, por exemplo, o código eleitoral prevê o prazo de 03 dias para que a parte interponha o embargo. O CPP prevê o prazo de 02 dias para o embargo de declaração. Atenção! O prazo para o embargo de declaração poderá ser dobrado, ou seja, de 10 dias, a depender de quem esteja litigando (MP, fazenda pública, defensoria pública). Efeitos do embargo de declaração: No CPC/73, o embargo de declaração tinha efeito interruptivo para todos os demais recursos. O art. 1026 do novo CPC diz apenas que o prazo será interrompido. No âmbito acadêmico, a interpretação que vem sendo dada é no sentido de que o embargo de declaração só interrompe o prazo para aquele que o interpôs. Assim, com a vigência do novo CPC, se uma das partes apresentar um embargo, o prazo para a apelação da parte contrária continuará fluindo. CPC/15. Art. 1.026. Os embargos de declaração não possuem efeito suspensivo e interrompem o prazo para a interposição de recurso. Na linha deste raciocínio, imaginemos que a parte contrária não embargou e interpôs recurso de apelação no 15º dia. Após o lapso de 01 mês o embargo foi julgado e o seu provimento negado. Nesta situação laboratorial, o 5º do art. 1024 do CPC/15 prevê que a apelação, para ser julgada, não precisará de ratificação. CPC/15. Art. 1024 (...) 5o Se os embargos de declaração forem rejeitados ou não alterarem a conclusão do julgamento anterior, o recurso interposto pela outra parte antes da
Página3 publicação do julgamento dos embargos de declaração será processado e julgado independentemente de ratificação. Por outro lado, caso o embargo de declaração venha a ser provido, alterando algum aspecto da decisão, aplicar-se-á o 4º do mesmo dispositivo e o recurso interposto só poderá ser corrigido na parte referente à decisão modificada. CPC. Art. 1024 (...) 4o Caso o acolhimento dos embargos de declaração implique modificação da decisão embargada, o embargado que já tiver interposto outro recurso contra a decisão originária tem o direito de complementar ou alterar suas razões, nos exatos limites da modificação, no prazo de 15 (quinze) dias, contado da intimação da decisão dos embargos de declaração. Admissibilidade do embargo de declaração: O embargo de declaração se submete a uma espécie de admissibilidade simplificada, pois não carece de preparo. Basicamente, na admissibilidade, analisa-se a tempestividade do recurso. Por este motivo, que o embargo é facilmente admitido. Em sendo admitido, nunca é demais lembrar que ele tem o efeito interruptivo. Atenção! Admitido o embargo, se o magistrado decidir pelo não provimento, não há a necessidade de oportunizar o contraditório à parte embargada, entretanto, caso entenda pelo acolhimento do embargo, resta caracterizado o seu feito modificativo (infringente). Nesta hipótese, o magistrado deverá oportunizar à parte prejudicada o contraditório prévio, conforme a previsão do 2º do art. 1023 do CPC/15. CPC. Art. 1023 (...) 2o O juiz intimará o embargado para, querendo, manifestar-se, no prazo de 5 (cinco) dias, sobre os embargos opostos, caso seu eventual acolhimento implique a modificação da decisão embargada. Em resumo: No embargo de declaração, em regra, o contraditório pode ser suprimido, salvo nos casos em que o juiz vislumbrar a possibilidade de efeitos infringentes é que o magistrado vai intimar o embargado para responder. Uso do embargo de declaração fora das finalidades previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 1022 e do art. 494, ambos do CPC: CPC/15. Art. 494. Publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la: I - para corrigir-lhe, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais ou erros de cálculo; II - por meio de embargos de declaração. O professor usa como exemplo a interposição de embargo de declaração para discutir prova.
Página4 Segundo o professor, Cassio Scarpinella Bueno, em obra anterior, falava da dificuldade de diferenciar a admissibilidade do mérito, nos recursos de fundamentação vinculada, como é o caso do embargo de declaração. Para o autor, não há omissão, contradição, obscuridade ou erro material se o embargo foi usado para discutir uma prova. Assim, como a discussão de meio probatório é questão de mérito, a técnica correta a ser aplicada é a negativa do provimento do embargo. Não obstante, o CPC ainda permite ao magistrado a possibilidade de imposição de multa, por embargo protelatório, de 2% do valor da causa. CPC/15. Art. 1026 (...) 2o Quando manifestamente protelatórios os embargos de declaração, o juiz ou o tribunal, em decisão fundamentada, condenará o embargante a pagar ao embargado multa não excedente a dois por cento sobre o valor atualizado da causa. Professor: apesar do esforço em promover a boa-fé, o CPC/15, no 3º do art. 1024 demonstra uma contradição ao estabelecer que: O órgão julgador conhecerá dos embargos de declaração como agravo interno se entender ser este o recurso cabível, desde que determine previamente a intimação do recorrente para, no prazo de 5 (cinco) dias, complementar as razões recursais, de modo a ajustá-las às exigências do art. 1.021, 1o. Apesar da materialização da fungibilidade recursal consagrada no CPC/15, este dispositivo estimula o ócio do advogado, uma vez que o próprio magistrado seria obrigado a corrigir eventuais erros. Embargo de declaração como prequestionamento no REsp. ou R.E: O prequestionamento é requisito de admissibilidade do recurso especial e de recebimento do recurso extraordinário. Ambos os recursos servem para discutir temas previamente analisados e refutados. No recurso extraordinário, alega-se violação à Constituição; no recurso extraordinário, alega-se violação à lei federal. CF. art. 102 (...) III - julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida: a) contrariar dispositivo desta Constituição; b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição. d) julgar válida lei local contestada em face de lei federal. (Incluída pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004). CF. art. 105 (...) III - julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida: a) contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência; b) julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004) c) der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.
Página5 O STJ, no enunciado de súmula nº 98, permite que o prequestionamento seja feito mediante embargo de declaração. STJ. SÚMULA 98 - embargos de declaração manifestados com notório proposito de prequestionamento não tem caráter protelatório. Observação! Para o professor, o embargo de declaração não é um instrumento de prequestionamento, mas sim de pós-questionamento, nesse caso, existe a possibilidade de o recurso ter como decisão uma jurisprudência defensiva padronizada e os recursos extraordinário e especial serão inadmitidos. O correto é, já na petição inicial ou na contestação, requerer o prequestionamento com fundamento na lei federal ou no artigo constitucional que entender violado. Prequestionamento ficto: O art. 1025 do CPC/15 é um dispositivo que tem como finalidade tornar as cortes superiores mais acessíveis, via embargo de declaração. CPC/15. Art. 1.025. Consideram-se incluídos no acórdão os elementos que o embargante suscitou, para fins de pré-questionamento, ainda que os embargos de declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso o tribunal superior considere existentes erro, omissão, contradição ou obscuridade. Embargo de declaração e o Princípio da identidade física do juiz: O CPC/15 não traz mais a previsão do princípio da identidade física do juiz, mas é recomendável que o mesmo juiz que prolatou a decisão julgue o embargo de declaração. Natureza jurídica do ato do magistrado que trata do embargo de declaração: Negando ou provendo o embargo, o ato tem natureza jurídica do ato embargado. Por exemplo, se o embargo recai sobre uma sentença, o ato terá natureza de sentença. Não é possível um ato de menor hierarquia alterar um ato de maior hierarquia. Assim, a natureza do embargo de declaração dependerá da natureza do ato embargado. Atenção! Quando o ato embargado for um acórdão, que é uma decisão de órgão colegiado, e o relator vislumbrar negativa de provimento, o embargo não deverá ser levado ao órgão colegiado; não obstante, caso o relator vislumbre a admissibilidade, o embargo de declaração será levado à mesa para ser julgado pelos demais membros. Embargo de declaração e recursos:
Página6 EMBARGO PROTELATÓRIO O STF já preferiu julgados no sentido de que, por se tratar de recurso, a parte que perder fica sujeita ao pagamento de honorários. CPC/15 art. 85 (...) 11. O tribunal, ao julgar recurso, majorará os honorários fixados anteriormente levando em conta o trabalho adicional realizado em grau recursal, observando, conforme o caso, o disposto nos 2o a 6o, sendo vedado ao tribunal, no cômputo geral da fixação de honorários devidos ao advogado do vencedor, ultrapassar os respectivos limites estabelecidos nos 2o e 3o para a fase de conhecimento. Observação! O professor não tem certeza se esse dispositivo, que trata da imposição de honorários, tende a prosperar em relação aos embargos, porque, além de não haver previsão de sustentação oral, ele é julgado pelo mesmo órgão que prolatou a decisão, isto é, depende de um desforço muito menor por parte do patrono. Atenção! Como já mencionado, ao embargo de declaração protelatório cabe multa de 2% do valor da causa. Ademais, em caso de reiteração de embargo protelatório, a multa será ampliada em até 10%, e o mais importante, a interposição de qualquer recurso, após a o embargo manifestamente protelatório, deverá observar o recolhimento preventivo do valor da multa estipulada. CPC/15. Art. 1026 (...) 3o Na reiteração de embargos de declaração manifestamente protelatórios, a multa será elevada a até dez por cento sobre o valor atualizado da causa, e a interposição de qualquer recurso ficará condicionada ao depósito prévio do valor da multa, à exceção da Fazenda Pública e do beneficiário de gratuidade da justiça, que a recolherão ao final. Atenção! Caso os dois primeiros embargos tenham sido julgados protelatórios, a interposição de um terceiro embargo será automaticamente inadmitida. CPC/15. Art. 1026 (...) 4o Não serão admitidos novos embargos de declaração se os 2 (dois) anteriores houverem sido considerados protelatórios. PRIMEIRO MULTA DE 2% SEGUNDO MULTA DE 10 % INADMISSÃO AUTOMÁTICA TERCEIRO NÃO INTERROMPE PRAZO DE RECURSO ADEQUADO