Vidas Secas
Graciliano Ramos (1892-1953) Natural de Alagoas, fez do estado o principal cenário de seu trabalho. O mais engajado entre os autores do segundo tempo. Conhecido por sua linguagem seca e cortante. Escreve de forma realista, sem sentimentalismos. Consegue como poucos unir a estética de seu trabalho com a temática abordada. Inspira-se em Machado de Assis, mas adota também procedimentos Naturalistas. Foi preso pela ditadura Vargas e, na cadeia, escreveu Memórias do Cárcere Filiou-se ao partido comunista apenas em 1945. Seu trabalho é constantemente comparado à poesia de João Cabral.
SOBRE O LIVRO: Foi publicado em 1938, após a temporada de Graciliano na cadeia. Capítulos escritos fora de ordem e publicados separadamente em jornais. É considerado um romance desmontável, com 13 capítulos autônomos. O único livro de Graciliano em terceira pessoa, com narrador onisciente. O texto discute a questão do trabalhador rural explorado. O meio é o personagem de maior destaque. O domínio da linguagem é instrumento de poder. As personagens são zoomorfizadas, enquanto Baleia é antropomorfizada. Uso do discurso indireto livre.
Agora Fabiano conseguia arranjar as idéias. O que o segurava era a família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé não. O que lhe amolecia o corpo era a lembrança da mulher e dos filhos. Sem aqueles cambões pesados, não envergaria o espinhaço não, sairia dali como onça e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de pé de pau no soldado amarelo. Não. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe com as costas da mão. Mataria os donos dele. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo. Não ficaria um para semente. Era a idéia que lhe fervia na cabeça. Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha....
Capítulo 1 - Mudança Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo, a cachorra Baleia e o papagaio fugiram da fazenda de Seu Tomás da bolandeira por causa da seca. No caminho o papagaio é sacrificado para conter a fome da família. O menino mais velho chora e é repreendido pelo pai. Ao chegarem em uma fazenda abandonada, a cachorra consegue caçar uma preá que serve de alimento para todos.
Capítulo 2 - Fabiano Chove e, com a chuva, o dono da fazenda aparece e expulsa a família. Fabiano pede um emprego e consegue permissão prá ficar, mas é muito maltratado pelo fazendeiro. Fabiano reflete sobre sua condição próxima a de um bicho e admira as pessoas que se expressam com facilidade. Sinhá Vitória sonha com uma cama de couro como a de Seu Tomás da bolandeira. A chuva passa e a seca volta.
Capítulo 3 - Cadeia Fabiano vai à cidade comprar mantimentos e bebe. É convidado por um soldado para um jogo de cartas. Como não soubesse como recusar acaba jogando e perdendo. Sai do local furioso e não obedece a ordem do soldado para que parasse. Em meio ao nervosismo, xinga a mãe do soldado, é preso e apanha na cadeia.
Capítulo 4 Sinhá Vitória Sinhá Vitória e Fabiano discutem. Ela reclama do dinheiro que ele gasta com o jogo e com a bebida. Ele fala de sapatos de verniz que ela usava para dançar em festas. Capítulo 5 O menino mais novo O menino mais novo quer imitar Fabiano e tenta montar em um bode que acaba por derrubá-lo. O irmão mais velho ri e Baleia olha para os dois reprovando a cena.
Capítulo 6 O menino mais velho O menino mais velho quer saber o significado da palavra inferno. Sinhá Vitória diz que é alguma coisa ruim. Como ele insiste e ela não consegue explicar, lhe dá um cocorote. O menino sai chorando e vai consolar-se com Baleia. Capítulo 07 - Inverno A família, reunida em torno do fogo, tenta conversar. Fabiano começa a contar uma história que não faz sentido. Seu discurso é confuso e desorganizado. A cachorra espera que todos deitem para poder dormir.
Capítulo 8 - Festa Todos se vestiram para participar da festa de Natal na cidade. Sentiam-se mal por não estarem acostumados, principalmente com os sapatos. As crianças ficam encantadas com as luzes da igreja. Fabiano embebeda-se e a cachorra Baleia desaparece. Mais tarde, reaparece feliz por ter reencontrado a família. Capítulo 9 - Baleia A cachorra Baleia está muito magra, Fabiano acha que ela está com raiva e decide sacrificá-la. Todos estão tristes e Baleia, desconfiada, tenta se esconder. Fabiano lhe dá um tiro, a cachorra se deita sem saber o que está acontecendo e sonha com um mundo cheio de preás.
"Baleia encosta a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes."
Capítulo 10 - Contas Fabiano é constantemente enganado pelo patrão, que lhe vende gêneros de primeira necessidade por um preço acima do mercado. Quando o vaqueiro reclama que o que recebia não coincidia com as contas feitas com Sinhá Vitória, o patrão lhe manda procurar outro emprego. Fabiano se lembra de quando, na cidade, foi multado por um fiscal da prefeitura por vender carne sem pagar imposto, quando tentava vender um porco e revolta-se em silêncio. Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura. Tudo na verdade era contra ele.
Capítulo 11 O soldado amarelo Fabiano procura reses fugidas no meio da caatinga e encontra o soldado amarelo. Apesar da oportunidade de se vingar por ter sido humilhado e preso, deixa-o partir porque o acredita representante de uma instituição abstrata, mas que precisa ser respeitada: o governo. Capítulo 12 O mundo coberto de penas Aves que bebem o pouco de água que resta são mortas por Fabiano e servem de alimento que adia a morte do grupo. Assustado, o vaqueiro pensa sobre o significado do soldado amarelo e do dono da fazenda e reconhece que seu destino é muito parecido com o de Baleia.
Capítulo 13 - Fuga O capítulo fecha o ciclo formado pela proposta de organização do autor. A família, sem poder saldar a dívida com o dono da fazenda, foge durante a madrugada, levando nas costas os poucos bens que possuem. Lembram-se de Baleia e, para evitar sofrimento, conversam sobre os sonhos de um futuro melhor. Fabiano quer ver os filhos em escolas aprendendo a ler e sinhá Vitória pensa mais uma vez em um dia poder dormir em uma cama de couro.
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