História da Educação

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Transcrição:

Coleção UAB UFSCar Pedagogia Marisa Bittar História da Educação da Antiguidade à época contemporânea

História da Educação da Antiguidade à época contemporânea

Reitor Targino de Araújo Filho Vice-Reitor Pedro Manoel Galetti Junior Pró-Reitora de Graduação Emília Freitas de Lima Secretária de Educação a Distância - SEaD Aline Maria de Medeiros Rodrigues Reali Coordenação UAB-UFSCar Claudia Raimundo Reyes Daniel Mill Denise Abreu-e-Lima Joice Otsuka Marcia Rozenfeld G. de Oliveira Sandra Abib Coordenadora do Curso de Pedagogia Maria Iolanda Monteiro Conselho Editorial José Eduardo dos Santos José Renato Coury Nivaldo Nale Paulo Reali Nunes Oswaldo Mário Serra Truzzi (Presidente) Secretária Executiva Fernanda do Nascimento UAB-UFSCar Universidade Federal de São Carlos Rodovia Washington Luís, km 235 13565-905 - São Carlos, SP, Brasil Telefax (16) 3351-8420 www.uab.ufscar.br uab@ufscar.br EdUFSCar Universidade Federal de São Carlos Rodovia Washington Luís, km 235 13565-905 - São Carlos, SP, Brasil Telefax (16) 3351-8137 www.editora.ufscar.br edufscar@ufscar.br

Marisa Bittar História da Educação da Antiguidade à época contemporânea

2009, Marisa Bittar Concepção Pedagógica Daniel Mill Supervisão Douglas Henrique Perez Pino Equipe de Revisão Linguística Ana Luiza Menezes Baldin Clarissa Neves Conti Daniela Silva Guanais Costa Francimeire Leme Coelho Jorge Ialanji Filholini Letícia Moreira Clares Luciana Rugoni Sousa Paula Sayuri Yanagiwara Sara Naime Vidal Vital Equipe de Editoração Eletrônica Christhiano Henrique Menezes de Ávila Peres Izis Cavalcanti Rodrigo Rosalis da Silva Equipe de Ilustração Jorge Luís Alves de Oliveira Lígia Borba Cerqueira de Oliveira Priscila Martins de Alexandre Capa e Projeto Gráfico Luís Gustavo Sousa Sguissardi Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar B624he Bittar, Marisa. História da educação : da antiguidade à época contemporânea / Marisa Bittar. -- São Carlos : EdUFSCar, 2009. 112 p. -- (Coleção UAB-UFSCar). ISBN 978-85-7600-168-3 1. Educação - história. 2. Civilização ocidental. 3. Idéias pedagógicas. 4. Democratização da educação. I. Título. CDD 370.9 (20 a ) CDU 37 (091) Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônicos ou mecânicos, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema de banco de dados sem permissão escrita do titular do direito autoral.

........... Sumário APRESENTAÇÃO................................................ 9 UNIDADE 1: Da primeira concepção de uma escola de Estado à hegemonia da Igreja Católica 1.1 Primeiras palavras... 15 1.2 Problematizando o tema.... 15 1.3 A educação nas sociedades antigas: Grécia e Roma........................................... 16 1.4 Mosteiros e catedrais: as escolas cristãs da Idade Média.... 25 1.5 Humanismo e educação... 30 1.6 A educação no século XVI: as reformas religiosas e a escola...................................... 31 1.6.1 A Reforma e a escola................................... 32 1.6.2 A Contrarreforma e a escola.............................. 33 1.7 Considerações finais... 35 1.8 Estudos complementares.... 36 1.8.1 Saiba mais........................................... 36 1.8.2 Referências... 37

UNIDADE 2: Escola e pensamento pedagógico nos séculos XVI e XVII 2.1 Primeiras palavras... 41 2.2 Problematizando o tema.... 41 2.3 Crise de religiosidade, reformas e educação... 42 2.3.1 Duas experiências educativas, dois pensamentos pedagógicos.... 42 2.3.2 A renovação pedagógica no século XVII.................... 48 2.4 Considerações finais... 52 2.5 Estudos complementares.... 52 2.5.1 Saiba mais........................................... 52 2.5.2 Referências... 54 UNIDADE 3: O Estado burguês, as lutas sociais e a educação nos séculos XVIII e XIX 3.1 Primeiras palavras... 57 3.2 Problematizando o tema.... 58 3.3 As revoluções burguesas e a educação no século XVIII... 59 3.3.1 Jean-Jacques Rousseau: o pai da pedagogia contemporânea.... 63 3.3.2 Propostas e atuações para uma escola estatal.... 68

3.4 Duas experiências concretas entre o século XVIII e XIX.... 71 3.4.1 O ensino mútuo....................................... 72 3.4.2 A pedagogia de Pestalozzi.... 74 3.5 Sociedade industrial e educação: entre as propostas positivistas e as socialistas.............. 75 3.6 Considerações finais... 79 3.7 Estudos complementares.... 81 3.7.1 Saiba mais........................................... 81 3.7.2 Referências... 83 UNIDADE 4: A escola de Estado, as novas teorias e as novas práticas educativas no século XX 4.1 Primeiras palavras... 87 4.2 Problematizando o tema.... 88 4.3 A escola de Estado e o debate educacional.................. 89 4.3.1 A Escola Nova........................................ 90 4.3.2 A educação no socialismo............................... 95 4.4 A contribuição de Gramsci para a concepção marxista de educação... 100

4.5 A segunda metade do século: renovação e vozes antipedagógicas.... 102 4.6 Considerações finais... 106 4.7 Estudos complementares.... 109 4.7.1 Saiba mais.......................................... 109 4.7.2 Referências... 111

Apresentação Apresentar este livro didático elaborado por Marisa Bittar tem para mim um significado especial: ele coroa, de forma emblemática, uma dedicação ao magistério na área de História da Educação por mais de 15 anos, pois acompanho a sua docência, no âmbito do Curso de Pedagogia, desde 1993. Durante esse interregno, testemunhei a paixão pela qual se dedica tanto ao ensino quanto à pesquisa relacionada à disciplina forjada na Oficina de Clio, a musa da História. Assim, esta História da Educação: da Antiguidade à época contemporânea sintetiza o seu orgânico apego acadêmico ao processo de formação dos educadores egressos da UFSCar e destinados, em grande maioria, à escola pública paulista. Filiada epistemologicamente à concepção de História propugnada pelo educador italiano Mario Alighiero Manacorda, a nossa professora-pesquisadora interpreta a sua História da Educação, da Antiguidade Clássica ao século XX, por meio de pontos de agulha que perfazem um alinhavo dialético entre os grandes acontecimentos, revoluções abruptas e passivas, que marcaram a História da chamada civilização ocidental com os episódios extraordinários que transformaram o processo educativo de gerações e gerações de homens ao longo de quase 3000 anos, ou seja, da Ilíada de Homero à Era dos extremos, tal como ficou designada a última centúria pelo historiador Eric Hobsbawm. Portanto, Marisa Bittar concebe a sua História da Educação mediante as complexas e contraditórias relações que se manifestam entre o universal (acontecimentos) e o singular (episódios). Dito de outra forma: a sua interpretação da História da Educação toma a particularidade do fenômeno educacional, por meio da mediação que se estabelece entre o universal e o singular, cosendo de maneira sistêmica tanto a estrutura e o acontecimento (ápice de processos históricos) como o episódico sob medida, exercício análogo ao artesão que cinzela meticulosamente o objeto do seu ofício. Mas, tal qual seu mestre Manacorda, Marisa costura a sua História da Educação com um fio condutor de cor vermelha. Melhor: ela está preocupada, o tempo todo, em explicar os caminhos tortuosos pelos quais a concepção de homem completo (omnilateral), formulada por Homero na sua epopeia, percorreu depois do fim da Antiguidade greco-romana, ou seja, a sua concepção humanista de educação, fundamentada nas artes do fazer (base de sustentação material dos homens) e do falar (a expressão política das relações que os homens travam entre si), plasma o seu texto de ponta a ponta. Na mitologia grega, quando Teseu chegou para lutar contra o Minotauro, no intrincado Labirinto, a filha do rei de Creta, Ariadne, apaixonou-se pelo herói ateniense. Para impedir que seu amado se perdesse nas entranhas do emaranhado covil após liquidar o monstro antropófago, a princesa minoica, por recomendações de Dédalos, o arquiteto construtor 9

do Labirinto, ensinou como o príncipe ateniense deveria se aproximar do horrendo Minotauro para feri-lo de morte e, ao mesmo tempo, entregou-lhe um novelo de fios que ele ia desenrolando para marcar a volta dos caminhos tortuosos e escapar da formidável teia que formava o Labirinto do palácio de Minos. Deste modo, o fio de Ariadne salvou o herói Teseu depois de ele ter matado o Minotauro. Para não se perder no imenso labirinto da História da Educação ocidental, Marisa Bittar estabeleceu como seu fio de Ariadne, tal como já foi dito, o processo educativo que concebe o ser humano da mesma maneira que foi formulada pela tradição homérica e resgatada por Karl Marx durante a Revolução Industrial inglesa do século XIX, ou seja: o homem integral (corpo e anima) com base na escolaridade humanística, tecnológica e física. Para além do tom vermelho estabelecido para tecer o fio condutor, quais são os traços educacionais significativos que saltam à vista na leitura desta História da Educação? Dois merecem destaque: a escola de Estado e o combate sistemático ao sadismo pedagógico. 10 O conceito de escola de Estado é utilizado por Marisa Bittar com o mesmo sentido que Marx empregou em a Crítica do Programa de Ghota, isto é, no âmbito de uma sociedade estruturada na propriedade privada dos instrumentos de produção e, por consequência, com a população dividida em classes sociais antagônicas, os explorados não devem aceitar o Estado como educador do povo, mas, ao contrário, a sociedade civil é que deve educar o Estado. Com base nesse preceito, Marx (1985, p. 27) afirmava que: uma educação do povo a cargo do Estado é absolutamente inadmissível. Determinar por uma lei geral os recursos das escolas primárias, as aptidões exigidas ao pessoal docente, as disciplinas ensinadas, etc., e, como acontece nos Estados Unidos, fiscalizar por meio de inspetores do Estado a execução destas prescrições legais é completamente diferente de fazer do Estado o educador do povo! Pelo contrário, é preciso, pelas mesmas razões, banir da escola qualquer influência do governo e da Igreja. Assim sendo, a escola de Estado, desde a sua origem até o século XX, atravessou uma longa trajetória marcada por conjunturas históricas nas quais nem sempre pôde concretizar os ideais mais radicais de universalização, estatização, laicidade e gratuidade, inscritos nos movimentos revolucionários burgueses. Neste sentido, no final do século XIX, quando Marx formulou sua crítica ao capitalismo, assinalou que a burguesia não fora capaz de concretizar os próprios princípios que havia preconizado para a educação. Ou seja: Marx não rejeitou esses ideais, mas os incorporou como válidos, estabelecendo a crítica à burguesia não por tê-los formulado, mas, sim, por não tê-los cumprido integralmente. Por isso, é importante reconstruir os caminhos que a escola de Estado percorreu na forma de uma síntese explicativa das múltiplas condicionantes históricas que a perpassaram desde a Antiguidade Clássica aos dias atuais.

Já em relação ao sadismo pedagógico, Marisa manifesta a mesma crítica demonstrada por Mario Manacorda a respeito da violência cometida, particularmente, pelos mestres contra os seus alunos. Derivado, entre outras consequências, do método mnemônico de ensino, o sadismo pedagógico foi um triste traço que marcou a História da Educação, da Antiguidade greco-romana ao século XX. Referindo-se a esse nefasto procedimento pedagógico, Manacorda (1989, p. 92) observou: Além do sadismo pedagógico generalizado e do enfado de uma didática repetitiva, pelo menos no que diz respeito aos primeiros níveis de instrução, é exatamente o abismo que separa a escola da vida, a insignificância de seus conteúdos, que coloca essa escola em discussão, não somente entre os incultos, que não chegam a ver seus aspectos positivos, mas também entre os filósofos sérios e entre os melhores. Em síntese: essa História da Educação, com a qual Marisa Bittar nos brinda, inscreve-se na tendência pedagógica que defende a escola pública, laica e para todos como um dos principais locus societários de produção e reprodução do conhecimento historicamente acumulado pela humanidade; mas, ao mesmo tempo, vincula-se também à tradição humanista que estabelece a crítica radical às pedagogias que usaram e abusaram da violência física e simbólica engendrada no transcorrer do processo histórico que institucionalizou a escola. Por fim, gostaria de salientar a importância da História da Educação para o processo de formação dos educadores. Parto do princípio de que o cotidiano escolar contemporâneo só pode ser compreendido se os seus protagonistas e os professores em particular possuírem uma sólida fundamentação na História da totalidade societária na qual o próprio fazer pedagógico se encontra inserido. Assim sendo, a Oficina de Clio se constitui num verdadeiro oráculo para a práxis educacional de todos aqueles que estão envolvidos cotidianamente com os processos de ensino e de aprendizagem das novas gerações de seres humanos. Entender a essência do ofício de ensinar passa, necessariamente, pela reflexão crítica do pretérito no qual o acontecimento do momento está profundamente entranhado, pois a educação dos protagonistas do tempo que há de vir depende da dialética que se estabelece entre o presente e o passado. É com base neste entendimento que considero a História da Educação: da Antiguidade à época contemporânea produzida por Marisa Bittar um instrumento teórico importante para a formação dos alunos do Curso de Pedagogia da UFSCar. Amarilio Ferreira Jr. São Carlos, 10 de agosto de 2009 11