* Unidade 2: Contexto do Envelhecimento na modernidade

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Transcrição:

Disciplina: Modernidade e Envelhecimento 3º e 5ºsemestre Serviço Social Unicastelo 2013 * Unidade 2: Contexto do Envelhecimento na modernidade * 2.1 - Sociedade Moderna, Estado e Envelhecimento Prof.ª Maria Aparecida da Silveira 1

Modernidade e Velhice Texto é baseado na tese de doutorado da Professora Vera Lúcia Valsechhi de Almeida Visualidade e Mundo Moderno: imagens da Velhice 1999. Questão Interrogativa: O que é a Velhice? (banca de qualificação) Algumas pessoas consideradas velhas não o eram verdadeiramente: Ex.: Ulisses Guimarães, Edgar Morin (92), Oscar Niemayer (morreu aos 105 anos em plena atividade produtiva)... Será que teríamos uma idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado velho ou idoso? 2

Modernidade e Velhice Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum (Paris, 8 de Julho 1921), é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês de origem judia. Pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Formado em Direito, História e Geografia, realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Autor de mais de trinta livros, entre eles: O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro. Edgar Morin 3

Modernidade e Velhice Para além da idade, há outras dimensões que devem ser acionadas um alerta para a fragilidade de uma concepção unilateral: Referência ao vigor físico Agilidade mental Decrepitude física e ao comprometimento das funções cognitivas Essa concepção evidencia a nossa dificuldade de pensar a velhice a partir de outros referencias que não estão ligados a perdas ou a déficits. Pág 37 ideário de velhice (Ulisses Guimarães). 4

Modernidade e Velhice Imagem positiva de velhice escapa ao nosso ideário fora do lugar. Como os velhos atípicos não são tão raros assim, preferimos vê-los como pessoas que nunca envelhecem, como velhos jovens ou como idosos por idade mas jovens de corações e mentes. Ex.: Obra Velha Dama de Bertold Brecht (1898/1956) pág. 37 velha indigna viúva Ela parecia ter encerrado a sua vida de família, e percorrer agora novos caminhos para os quais se sentia inclinada... Sofrera longos anos de servidão e gozara os breves momentos de liberdade... (Brecht, 80/81) 5

A Velhice como categoria social Homem universal fruto do meio social onde está inserido capacidade de aprendizagem, adaptabilidade para viver os diferentes modos de vida. Edgar Morin (1975) é no incabamento final que reside uma das principais características da espécie humana: Homo sapiens: Processo da evolução humana 6

A Velhice como categoria social Featherstone (1998:12): nas sociedades modernas há mais tentativa de demarcar a vida, dividindo-a em estágios dentro de uma ordem cronológica: infância, adolescência e velhice etapas singulares da vida do indivíduo. Século XIII infância separada da vida adulta marcada pela dependência Século XIX Adolescência ganha especificidade fase crítica de transição entre a infância e idade adulta (Ocidente para determinadas situações de classe). Velhice: construção recente, configurada nas relações entre trabalho e capital dentro do modo de produção capitalista. Joel Birman (1995: 33) Estando em pauta a possibilidade sócio-política de reprodução e acumulação... Pág 40 O valor do indivíduo é medido por sua produtividade; nelas a individualidade é anacrônica* fundada no princípio da identidade, sem o qual não existiria a troca, a economia capitalista é avessa à diferença. Pág. 41 :...pois reduz... 7

A Velhice como categoria social Na economia capitalista, pensada por Georg Simmel como economia monetária, o dinheiro: se refere unicamente ao que é... Pág. 41 Portanto na sociedade moderna: a velhice é sinônimo de recusa e banimento segregação do convívio social e/ou outras vezes formas de tratamento sutis, cercadas de cinismo: palavras no diminutivo atribui-lhes uma condição de menoridade negação do sujeito. Ecléa Bosi: a sociedade industrial é maléfica para a velhice... Pág. 42 Edgar Morin: O ancião prudente converte-se no velhinho aposentado... pág. 42 A sociedade capitalista se constroi em torno de um ideário no qual a juventude ocupa o lugar central: vitalidade física e do pleno gozo das capacidades intelectuais e produtivas resultado temos o mito da eterna juventude. 8 Renato Mezan (psicanalista) entende que: O sonho da eterna juventude,... Pág. 43 resultado temos os adultescentes : adultos na faixa dos 40 anos com comportamento de adolescentes: roupas, estado de espírito adolescente: carecas de rabinho e patins, flácidos tatuados, avós surf praianos, dentre outros culto do EU narcisista do mundo moderno valorizado e admirado pela beleza, encanto, celebridade e poder atributos que declinam com o passar do tempo.

A Velhice como categoria social Concepção de culto ao belo e jovem, reforça a cultura do consumo, como afirma Featherstone em 1998: Pág. 44. Assim a velhice dentro da categoria social, destina-se a um tempo, espaço e lugar: o tempo do idoso é passado: é o não lugar na sociedade moderna. Na modernidade há incompatibilidade entre velhice, presente e futuro. Aos velhos cabe apenas o presente, qualquer aproximação entre a velhice e projeto de vida soa estranho aos ouvidos modernos, ou seja, ao idoso é negado a ideia de projeto de vida. Algo contraposto por Paulo Freire (1993) que dizia: É inviável para o ser humano continuar, se ele pára de pensar no amanhã. Não importa que seja um pensamento em torno do amanhã o mais ingênuo possível, o mais imediato, não importa. O que importa é que somos seres de tal maneira construídos que o presente, o passado e o futuro nos enlaçam. Vera Lúcia, destaca: Caminhando nas margens das águas revoltas do presente e carregando as marcas do tempo duração, a velhice é o outro indesejado, espelhando o não ser da sociedade contemporânea. (...) A mesma sociedade que construiu a velhice transformou-a em um problema social, numericamente expresso. 9

A Velhice como categoria social Problema social: na prática política e nos diversos níveis da organização do Estado o envelhecimento da população é trabalhado em um contexto de inquietações, dentre elas vale destacar: a gestão administrativa dos serviços de saúde nos três níveis, além da remuneração da velhice, através de pensões, aposentadorias e outros benefícios. Velhice como uma questão social : Debert pág. 46 10 Antropologia: é importante a compreensão dos mecanismos que contribuíram para que a velhice viesse a se constituir como uma categoria social singular e das representações, a ela associadas, com esta autonomização.

Entre o visível e o visual A modernidade: produziu a velhice e ao mesmo tempo criou condições para que ela fosse vivida mais longamente: Os avanços da medicina, o diagnóstico precoce e a prevenção de determinadas doenças, a ampliação das possibilidades de acesso aos serviços de saúde, a generalização dos serviços de saneamento básico, a alteração nos hábitos alimentares e de higiene, a prática de exercícios físicos, dentre outros fatores, contribuíram decisivamente para o aumento da esperança de vida (Carvalho, Almeida et alii, 1998:14) 11 Para alguns estudiosos este novo perfil demográfico trouxeram maior visibilidade da velhice. Segundo Birman: Na atualidade se processam transformações importantes nas relações estabelecidas pela sociedade com a velhice na nossa tradição cultural. A velhice passa a ser objeto de cuidado e atenção especiais [...] Parece que começou a se realizar no Brasil de maneira lenta um processo que indica uma reviravolta importante na relação de nossa cultura com a velhice [...] (ela) passa a receber um olhar e um início de reconhecimento social que não existe na memória da modernidade. (1995: 35-6)

Bibliografia ALMEIDA, Vera Lúcia Valsecchi de. Modernidade e Velhice. In: Velhice e Envelhecimento. Revista Serviço Social e Sociedade, N. 75 Especial. São Paulo: Cortez 2003. 12