O real escapou da natureza

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Transcrição:

Opção Lacaniana online nova série Ano 4 Número 10 março 2013 ISSN 2177-2673 Sandra Arruda Grostein O objetivo deste texto é problematizar a proposta feita por J.-A. Miller de que o real emancipado da natureza é ainda mais insuportável 1. O termo emancipado sugere que real e natureza já estiveram mais próximos e uma emancipação por parte do real, colocaria a natureza em outra posição, produzindo efeitos ainda mais insuportáveis para os seres falantes. Pretendo retomar em Freud, no seu texto O mal-estar na cultura 2, aquilo que nos leva a entender, em Lacan, o real como impossível de suportar, considerando as relações entre a vida de um organismo e a vida de uma sociedade o individual e o coletivo. Natureza, cultura e real, três termos que certamente se articulam. Para o propósito específico deste texto, vou apelar a algumas elaborações de Georges Canguilhem nos Escritos sobre a Medicina, para melhor precisar o que pode estar associado ao insuportável da proposição de Miller: Então, é possível, mesmo na era da farmacodinâmica industrial, do imperialismo do laboratório de biologia, do tratamento eletrônico da informação diagnóstica, continuar a falar da natureza para designar o fato inicial da existência de sistemas auto-reguladores vivos, cuja dinâmica está inscrita em um código genético. Deve-se a rigor tolerar que para os doentes, a confiança no poder da natureza possa afetar a forma do pensamento mítico. Mito de origem, mito da anterioridade da vida sobre a cultura... Até nova ordem, a ordem biológica é primordial em relação à ordem tecnológica 3. 1

A confiança no poder da natureza é definida por determinados mecanismos que se ordenam e se repetem; para a psicanálise, o real está mais próximo da natureza nas elaborações freudianas da pulsão de morte, na compulsão à repetição. Estar mais próximo não quer dizer sobrepor-se ou equivaler, mas manter alguma vinculação. Por exemplo: O instinto agressivo é o derivado e o principal representante da pulsão de morte que descobrimos lado a lado com Eros e com este divide o domínio do mundo. Agora penso que o significado da evolução da cultura não nos é mais obscuro, é sim uma luta entre a vida e a morte, tal como se elabora na espécie humana. 4 A evolução da cultura é uma luta entre vida e morte. A dificuldade do humano em face da agressividade coloca Freud diante da seguinte questão: o que leva o homem a abrir mão de sua satisfação em prol do coletivo? É justamente a partir do movimento que a cultura impõe que o homem tenta civilizar o que vem de estrutura, ou seja a agressividade, que é anterior ao amor e que escapa à civilidade. A cultura ensaia o estabelecimento das fronteiras entre os homens que não são naturalmente estabelecidas. A vida do indivíduo e a sobrevivência da espécie é uma luta com a morte. Em sua correspondência, Freud diz, em relação à doença: Uma carapaça de insensibilidade me envolve lentamente. Constato isso sem me queixar. É também uma saída natural, um modo de começar a me tornar inorgânico. 5 Se, de um lado, o princípio do prazer impõe um programa ao humano da busca pelo prazer que não poderá ser alcançado, de outro, Freud aponta três aspectos determinantes da não realização do prazer: o poder da natureza, a fragilidade do humano frente a seu corpo e a insuficiência das normas que regulam os vínculos recíprocos entre os homens, em sua família, Estado e sociedade 6. Nesse sentido, o poder da natureza se apresenta como um obstáculo à realização do prazer sexual. 2

Natureza e real, portanto, se distanciam desde a perspectiva do sexual e se aproximam quando o tema é a morte. A sabedoria popular propaga que para morrer basta estar vivo ; a relação entre a vida e a morte é de dependência, ou seja, para morrer é suficiente que se esteja vivo, o que coloca o homem diante de uma fragilidade e da exigência de saber o que fazer com este real. As doenças são os instrumentos da vida por meio dos quais o ser vivo, quando se trata do homem, se vê obrigado a se reconhecer mortal. 7 A morte está na vida, a doença é o signo disto. 8 O real, esta luta entre a vida e a morte, como impossível, seria a base a partir da qual os pacientes desde Freud se queixam um poder, estranho ao sujeito, não assimilável pelo imaginário nem tampouco submetido às simbolizações; real, portanto. Este poder, no entanto, provoca respostas sintomáticas não reconhecidas como respostas, e, para que isto seja possível, é necessária uma torção, própria à psicanálise, onde a alteridade absoluta se torne relativa. 9 A pulsão de morte, associada à compulsão à repetição, aproxima o real da natureza a partir da ideia de que o real é o que volta sempre ao mesmo lugar. É a própria definição de repetição: há um automaton que orienta esta repetição, a do retorno do recalcado, como o movimento mesmo da lei do recalcamento. Por estar presente nas formações do inconsciente, ao encontrar meios de burlar a censura, o recalcado retorna travestido em sonhos, lapsos e sintomas. O inconsciente se ordena em discurso e, portanto, encontra um lugar nos aparatos culturais para aquilo que está fora o que foi recalcado. Outro retorno, no entanto, está associado em Lacan à foraclusão: aquilo que foi foracluído no simbólico retorna no real. Cabe aqui uma questão: de que retorno se trata? Se não houve uma primeira inscrição é possível falar em 3

retorno? Ou se parte do pressuposto de que há um início natural, ordenado, e aquilo que não se submete a isto, às leis do simbólico, terá que se organizar dentro de alguma orientação para não ficar à deriva? O próprio termo pulsão de morte já associa o que é pulsional, sexual, e o que é mortífero. Arriscaria dizer que o insuportável do real distanciado da natureza está exatamente na dissociação entre o sexual e o mortífero. Se considerarmos que a doença é o signo da morte na vida, o sintoma, por sua vez, é mensagem dirigida ao Outro, é satisfação substitutiva tal qual desenvolvida por Lacan como gozo. Goza-se do par sexo-morte, porém, se entendemos que o real é desprovido de sentido, logo não podemos tomar o sintoma como signo da morte mas, talvez, a própria morte, impossível de ser simbolizada. Proponho que este vazio seja tão insuportável que muitas vezes para se defender dele alguns sujeitos lancem mão da imaginarização da própria morte, como nas tentativas de suicídio. A vida é insuportável para mim, não vejo o menor sentido nela. É desta maneira que um paciente explica suas duas tentativas de suicídio. Declara acreditar que, para os outros, a vida tem sentido, o que faz com que continuam vivendo, já ele, diante do profundo sofrimento da perda de sentido em viver, quer morrer. Seria o caso de dizer: de fato, a vida não tem mesmo nenhum sentido próprio, inerente ao fato de se estar vivo; cabe a cada um tirar algum proveito disto. Há uma diferença entre o sentido do sintoma como sexual e aquele que não tem sentido algum. Como este último não visa a recuperar uma satisfação perdida no plano individual para ser recuperada no coletivo, para que serve ele? Não é uma satisfação recuperável, não é signo da morte, não é uma disfunção, é o que, então? É a própria modalidade de satisfação de cada um, separada da natureza e também da cultura, mas completamente real para aquele que 4

experimenta; é contingencial e só pode ser abordada aos pedaços via simbólico ou imaginário. Há uma carência de saber sobre o sexo e sobre a morte: sou homem ou mulher? Sou vivo ou morto? Há um furo no saber, que está incluído no real; apelar à natureza, à ordem biológica ou a outros saberes são defesas que atualmente se esgotam com rapidez. Podemos dizer, para concluir este texto, que a questão própria aos seres falantes quem sou eu diante da vida e da morte continua presente. As modalidades de respostas, no entanto, se modificam, tornando-as mais insuportáveis na medida em que perder a confiança no poder da Mãe Natureza é se colocar, na vida, órfão deste saber, é desistir da última tentativa de ordenação de um saber que não se sabe, exigindo consequentemente que a psicanálise tenha novas estratégias clínicas para tratar este real do sintoma. 1 Miller, J.-A. O real no Século XXI. In: Opção Lacaniana n. 63. São Paulo: Edições Eolia, 2012, p. 13. 2 Freud, S. (1930) O mal-estar na civilização. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição Standard, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1986. 3 Canguilhem, G. Escritos sobre a Medicina. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, p. 22. 4 Amin, R. Kultur e Zivilization, mais que um equívoco.... In: Latusa n. 3, Os labirintos do mal-estar: Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise Rio de Janeiro, 1999, p. 29. 5 Canguilhem, G. Op. cit., p. 33. 6 Idem, p. 30. 7 Idem, p. 33. 8 Idem, p. 32. 5

9 Barros, R. do R. Psicanálise, Sintoma e Laço Social. In: Latusa, n. 3, Os labirintos do mal-estar. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise Rio de Janeiro, 1999, p. 25. 6