A OPERAÇÃO DO DISCURSO ANALÍTICO Este trabalho é um recorte do projeto de iniciação científica (PIBIC) Estruturas Clínicas e Discurso: a neurose, no qual trabalhamos o texto do Seminário XVII: O Avesso da Psicanálise de Jacques Lacan como objeto de leitura, escritura e pesquisa. O interesse por este seminário se deu pelo debateem teoria psicanalítica sobre a formação do analista e sua implicação no contexto social, bem como aproposta lacaniana de retorno ao texto freudiano. Nas primeiras páginas, Lacan (1991) recomenda a releitura do texto freudiano, um retorno a Freud, não impulsionando um movimento de oposição ou de evolução da teoria, mas sim, sua retomada. De acordo com Coelho (2006) o objetivo de Lacan foi retomar o estatuto do sujeito dividido, tomando a psicanálise pelo avesso, e propor uma nova forma de entender o estabelecimento do laço entre os sujeitos [...] (p.107). A ideia, então, formou-se da seguinte maneira: tomar o texto lacaniano como guia para o estudo dos textos freudianos. Dessa forma, o Avesso da Psicanálise (1969/1992) além de nos introduzir neste percurso, também nos lança no campo da linguagem, o qual foi trabalhado a partir da noção de discurso desenvolvida por Lacan (1992). Dessa forma, através da escrita algébrica dosmatemas o discurso é conceituado como uma estrutura que já está no mundo e subsiste mediante certas relações fundamentais que não poderiam se manter sem a linguagem. O campo da linguagem éestruturado a partir da relação fundamental em que um significante (S1) representa o sujeito ($) para outro significante (S2), cujo resultado desta operação produz uma falta (objeto a). Para Lacan (1969/1992) esta articulação lógica corresponde à uma propriedade inerente a toda relação social, proposta pela estruturação discursiva: a incompletude, e basta que saibamos como isto opera para que os outros discursos sejam contemplados. Émantendo as letras fixas e dando a elas ¼ de giro progressivo ou regressivo que isto acontece.
Neste trabalho, enfatizamos o Discurso Analítico buscando compreender e responder a questão sobre o que o analista faz e, mais além, como faz. Para isso, privilegiamos o estudo da técnica analítica como percurso indispensável para o estabelecimento da relação entre analista e analisante. É dessa forma que a partir de Lacan, de seu conceito de discurso e da introdução no campo da linguagem mediante a leitura do Seminário XVII retornaremos ao texto freudiano - Artigos sobre a técnica - em busca de definir como se estabelece esta relação. Na sessão Analyticon (p.207) desde seminário, Lacan é confrontado sobre a formação do psicanalista e sua função na sociedade; Buscava-se ali, por se tratar da universidade, os créditos que autorizassem a formação do psicanalista e o que Lacan (1969/1991) defende é que a psicanálise não se presta a uma transmissão de saber, mas sim a uma posição discursiva. Segundo Leite 1 o que o analista faz é estabelecer e administrar um vínculo social discursivo em que uma pessoa procura o analista porque supõe nele um saber. No matema lacaniano, o analista é que é o mestre e isto não corresponde ao domínio a fim de amestrar o outro como no Discurso do Mestre -, mas sim em forma de objeto a como efeito de rechaço. Em seu lado também está presente o saber e em posição de verdade ele corresponde a um enigma, capaz de ser acessado apenas pela metade, por um semi-dizer. Quer adquira esse saber escutando seu analistante, quer seja um saber já adquirido, localizável, isto pode, em certo nível, ser limitado ao savoir-faire (saber fazer) analítico (Lacan, 1969/1992, p.36). Para que haja o estabelecimento do vínculo e o início do tratamento é necessário que estejamos cientes da maneira que o analista deve se posicionar. Para Lacan isto foi traduzido como: objeto a/ S2. A nossa leitura - que se fia no objetivo de traduzir esta operação em termos técnicos aproxima esta estrutura (objeto a/s2) ao método da associação livre, o qual possibilita a interpretação das formações inconscientes. (Faleme tudo que vier em mente/ atos falhos, chistes, sonhos). [...] um outro procedimento para o analista instalar o discurso analítico é fazer o sujeito aplicar a regra fundamental da associação livre. O analista, ao não 1 Os dados referenciais estão omitidos no corpo textual. O acesso ao texto A clínica se deu pela pesquisa no site www.marciopeter.com.br.
identificar a sua verdade com a do paciente, encontra essa verdade no próprio paciente. A psicanálise usa o método da associação livre para descobrir a verdade do paciente. (LEITE, p.8) Para Freud (1913/2010) o vínculo entre analista e analisante precisa passar por um período de prova, o qual nomeou ensaio preliminar (p.165). Este período é necessário para que haja uma sondagem em relação ao caso e se é ou não apropriado para análise. Trata-se, portanto, da importância de estruturar as boas vindas ao paciente e concluir sobre o diagnóstico, fazendo com que o analisante se implique em seu discurso. Cabe ao analista, então, dirigir o tratamento, e não o analisante. Para isso, é preciso que ele ocupe esta posição de objeto a, também interpretado como um lugar opaco, em que o analista se coloca como causa do desejo do outro (Lacan, 1969/1992, p.39) convocando o sujeito como suposto saber, como aquele que sabe sem saber que sabe sobre seu sofrimento, enfim, sobre seu sintoma ($). Segundo Freud (1912/2010) o analista tem que ser opaco para o analisante e conduzir o tratamento mais pela aptidão do analisante de que seus próprios desejos e conhecimento. Recomenda que o trabalho analítico se assemelhe ao trabalho cirúrgico, em que os afetos e a compaixão são deixados de lado para que o tratamento se desenvolva de forma satisfatória e competente. A forma que Freud encontrou para instalar tal opacidade foi, inicialmente, recorrendo ao uso do divã. Para ele este artifício proporciona ao analisante se entregar no curso de seus pensamentos espontâneos, reduzindo a influência do analista sobre eles. É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo. Nesse trabalho preliminar, o sintoma será questionado pelo analista, que procurará saber o que esse sintoma está respondendo, que gozo esse sintoma vem delimitar. (Quinet, 1991, p.16). Também cabe ao analista saber de que forma ele ocupa o lugar de investimento do sujeito suposto saber, caminho encontrado pelo manejo da transferência. Sobre este tema indicamos a leitura de Considerações acerca da transferência em Lacan,um outro recorte do projeto de iniciação científica: Estruturas Clínicas e discurso: a neurose.quinet (2011) explica que é pela associação livre que o sujeito se dirige ao
analista, o colocando em posição essencial para que o inconsciente apareça; A responsabilidade do analista é, então, montar a cena que favoreça esta aparição. A cena analítica é constituída quando a posição do analista em forma de objeto a, ou seja, como uma função opaca, de semblante, convoca o sujeito suposto saber a falar - em associação livre - sobre seu sofrimento, seu sintoma. A implicação do sujeito corresponde à produção daqueles significantes primordiais que determinam sua história, os significantes mestres ou traço unários como são designados. É no traço unário que tem origem tudo o que nos interessa, a nós, analistas, como saber (Lacan, 1969/1991, p.48). A interpretação analítica e a implicação subjetiva proporcionam a torção do Discurso Analítico, ou seja, a mudança de posição discursiva e consequentemente uma nova relação significante. Segundo Lacan (1969/1992) o que a experiência analítica institui é a histerização do discurso (p.33), ou seja, estruturar o sujeito como agente de discurso e fazer de sua implicação sintomal o vetor para a produção de novos saberes.é válido ressaltar que o Discurso Analítico não corresponde ao melhor ou o mais puro discurso. Trata-se de uma forma de compor o laço entre analista e analisante naquilo que conhecemos como ato analítico, trazendo a certeza da permutação pelos outros três tipos de estruturação discursiva. É, portanto, pela estruturação discursiva,escrita por meio dos matemasque Lacan (1969/1992) transmite seu ensino e o reformula diante da perspectiva vigente na sociedade: a contestação do ensino universitário. Com seus quadrípodes giratórios permite uma releitura do texto freudiano, articulando uma lógica que demonstra a incompletude das relações sociais, o que não as impede seus entrelaçamentos. O discurso é, então, a forma encontrada por Lacan (1969/1992) de compor o laço social que não se pretende absoluto. Assim interpretamos o funcionamento da clínica psicanalítica baseada na elaboração de suas técnicas, já que, embora haja recomendações e caminhos a seguir, não há como padronizar por meio de regras o acesso ao inconsciente.
REFERÊNCIAS AMIGO, S. Notas sobre o Discurso do Analista. Em: VEGH, I. Os discursos e a cura. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001. COELHO, C. Psicanálise e laço social uma leitura do Seminário 17. Revista Mental, vol. IV, n.6. Barbacena, 2006, p.107-121. FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia ( O caso Schreber ), artigos sobre técnica e outros textos (1911 1913). Tradução de Paulo César de Souza. Vol.10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. LACAN, J.O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1696-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. LEITE, M. A clínica (www.marciopeter.com.br) QUINET, A. A descoberta do Inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011. SOUZA, A. Os discursos na Psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.