CRÍTICA DE HEIDEGGER A DESCARTES

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Transcrição:

CRÍTICA DE HEIDEGGER A DESCARTES Guilherme Devequi Quintilhano Orientador: Prof. Dr. Eder Soares Santos RESUMO Nesta comunicação será apresentada uma crítica de Martin Heidegger, filósofo contemporâneo, a Rene Descartes, importante filósofo da modernidade. Heidegger cria um novo método na filosofia e a partir desse seu novo método ele aponta erros cruciais no método que Descartes utiliza. No texto Discurso do Método, Descartes mostra passo a passo como chegou a sua certeza absoluta e, por conseguinte, ao cogito, ergo sum, em que o filósofo da modernidade reconhece ser uma metafísica. No primeiro momento, serão apresentados os passos que Descartes utilizou para chegar a essa certeza absoluta. E em seguida, serão apresentadas duas críticas que o filósofo contemporâneo faz ao método de Descartes, a saber, a primeira aponta para os erros conceituais cometidos por Descartes; a segunda mostra como pensar a questão do cogito me cogitare e a confusão conceitual que Descartes coloca sobre o ser que culminou ainda mais o encobrimento do ser dentro da tradição filosófica. Palavras chave: Heidegger, Descartes, modernidade. 656

Descartes é um autor de muita relevância, pois após o período Medieval ele formulou um método que, é a chave para sequência da história da Filosofia, principalmente, o período Moderno. No texto Discurso do Método, Descartes quer mostrar passo a passo como utilizou o conhecimento para formular o seu famoso método. O autor pretende que tal texto sirva de inspiração para os demais filósofos. O que pretendo fazer nesta comunicação, num primeiro momento, é mostrar como Descartes chega às bases do conhecimento e formula o método. Num segundo momento será apresentado duas criticas de Heidegger a Descartes. CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO: Na quarta parte do Discurso do Método Descartes reconhece que sua investigação é metafísica e por tal motivo acha relevante explicitar como fez para chegar ao conhecimento. Primeiramente, Descartes rejeita tudo aquilo que remete dúvidas e como deseja ocupar-se só com a verdade, agiu dessa maneira para ver o que restava e todo este procedimento, diz Descartes: Mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável. (DESCARTES, 1996, p.91). E tudo aquilo que ele já conhecia não era mais verdade do que as ilusões dos sonhos. Notarão se dar conta de que estava pensando e que tudo era falso, Descartes notou a única verdade possível de ser sustentada, a que de que mesmo que tudo fosse falso ele ainda podia pensar: Eu penso, logo existo. A dúvida neste caso serviu para que Descartes chegasse ao conhecimento de que a certeza primeira que se pode ter é que se ele pensa ele existe. 657

E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la sem escrúpulo, como o primeiro principio da Filosofia que procurava. (DESCARTES, 1996, p.92). A sequência dos argumentos é que, ele é uma substância onde sua essência consiste apenas no pensar e que, para poder ser não é preciso nenhum lugar. Estas foram às certezas que Descartes encontrou. Depois disso, considerei em geral o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e certa; pois, como acabava de encontrar uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. (DESCARTES, 1996, p.92). Mas o autor continua a considerar que para pensar é preciso existir e a regra para tal fato são as coisas que concebemos clara e distintamente, pois são todas verdadeiras. Os argumentos citados acima são os principais para o entendimento e conhecimento de seu método. Mas analisando bem, existem algumas discordâncias no próprio argumento do autor. Sendo assim, inicio a segunda parte que é a crítica de Heidegger aos fundamentos de Descartes que são as bases do seu conhecimento. CRÍTICAS DE HEIDEGGER AOS FUNDAMENTOS DE DESCARTES: Heidegger, filósofo do inicio do século XX, tendo como obra principal Ser e Tempo, em que o autor trata sobre a questão do ser, crítica Descartes e o modo como lida com o ser que é pensante. 658

A teoria heideggeriana pretende pensar sobre um sentido ao ser. Mas antes de chegar a este sentido o autor fala de um ente, ser-aí (Dasein), que compreende sua própria existência no mundo. Ou seja, este Dasein se auto compreende e está no mundo. E este Dasein por ser um questionador ele se diferencia dos demais entes. Em relação à primeira parte do método cartesiano, Heidegger não faz nenhuma objeção no que diz respeito sobre duvidar de tudo. A crítica inicia quando Descartes diz que não existe qualquer mundo ou lugar onde o ser do Cogito pensante existe, ou seja, na teoria heideggeriana para existir ser ele tem que estar no mundo, pois ser é e para ser ele tem que estar inserido no mundo. O modo como Descartes apresenta o ser do Cogito pensante, ele está flutuando, pois ele não esta inserido e não necessita do mundo. Descartes em outro momento diz: para pensar, é preciso existir. (DESCARTES, 1996, p.92). Ou seja, se o ser do Cogito pensante não precisa do mundo, mas como pode existir? Na visão da teoria heideggeriana isto é uma contradição, pois ser é um Ser-no-mundo. Se não existe mundo para o ser do Cogito pensante, necessariamente entende-se que não temos a noção do tempo na teoria de Descartes. Esta questão sobre o tempo é motivo de duras críticas por parte de Heidegger a toda tradição filosófica; e a teoria de Descartes não escapa dela, pois nem sequer Descartes cita o tempo ao se referir ao Cogito pensante. Uma segunda crítica surge quando Descartes afirma: Compreendi por aí que era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. (DESCARTES, 1996, p.92). Para Heidegger, o problema é a confusão conceitual que Descartes faz com o ser do Cogito pensante, pois quando afirma que se compreende como uma substância, o filósofo da modernidade confunde ser 659

com o ente. E existem algumas razões: 1º) Descartes define o ser como substância, mas para Heidegger um dos erros da tradição foi tentar definir o ser e se esqueceu de lhe dar um sentido. O 2º) erro foi à confusão conceitual de pensar o ser como ente e para Heidegger esta investigação é ôntica 1, sendo assim, não possui um primado ontológico 2. Heidegger identifica o erro de Descartes: A interpretação comprova que Descartes não só teve de omitir a questão do Ser como também mostra por que se achou dispensado da questão sobre o sentido do Ser do Cogito pelo de ter descoberto a sua certeza absoluta. (HEIDEGGER, 2011, p.63). Em outra obra de Heidegger, a saber, Nietzsche II, o filósofo alemão crítica outros pontos fundamentais dentro da teoria cartesiana e foca principalmente na confusão do ser com o ente e explicita outro termo de Descartes, a saber, Cogito, me cogitare. Com o método de Descartes o homem ( ser ) é pensado como sujeito, considerando assim, o homem em um lugar diferente referente aos antigos. Sendo assim, o homem se torna o sujeito predominante. O Cogito Sum, segundo Descartes é algo claro e distinto e é onde toda verdade tem seu fundamento. O novo da determinação da essência da verdade consiste no fato de a verdade ser agora certeza (HEIDEGGER, 2001, pg.110). Mas isso não estabelece todas as condições necessárias para compreender, ou seja, não é possível interpretá-lo, e Heidegger completa: posição fundamental cartesiana como condicionada e incompleta. (HEIDEGGER, 2001, pg.111). Heidegger define Cogitare: é um apresentar para si aquilo que é re-presentável. (HEIDEGGER, 2001, pg.112). O Cogitare se coloca na condição em que não há mais dúvidas sobre o que ele é ou como ele é, dessa 1 Ontico na obra de Heidegger é entendido como aquilo que é de fácil acesso ou manuseio, ou seja, são coisas triviais nas quais lidamos e sabemos o que elas significam. 2 Ontológico ou ontologia para Heidegger é aquilo que é preciso ser investigado com primazia, pois é algo que não é dado e não temos uma verdadeira compreensão. A ontologia se distancia das coisas onticas. 660

forma, o Cogitare de Descartes é um pensante. Mas desse modo, tudo o que eu represento também me representa todo ego cogito é cogito me cogitare. (HEIDEGGER, 2001, pg.113). Ou seja, todo representar humano ( ser ) é um representar-se. puro objeto. Descartes ao falar que, nós nos representamos, torna o homem Em verdade, com a determinação do cogito como cogito me cogitare, Descartes também não tem em vista que em todo ato de representar um objeto, eu mesmo, aquele que representa, também seria ainda representado enquanto tal e transformado em objeto. (HEIDEGGER, 2001, pg.114). Sendo assim, Descartes confunde ser com os objetos, isto é, com os entes e, por conseguinte, formula uma questão ôntica. Aquele que re-presenta, o homem, esta em todo re-presentar, mas ele está antes do objeto re-presentado, ou seja, aquele que re-presenta traz diante de si o re-presentado (anteceder-se a si mesmo). É preciso ter consciência de si para depois tomar consciência dos objetos. A consciência humana é essencialmente consciência de si. (HEIDEGGER, 2001, pg.115). O Cogito sum de Descartes, o ser se torna re-presentidade e, por conseguinte, a re-presentação torna os objetos como sendo sujeitos. Heidegger crítica à relação sujeito-objeto, pois ela se restringe apenas à história da metafísica moderna, ou seja, a relação sujeito-objeto não é a essência originária da metafísica. Esta relação com os objetos prioriza a relação do homem somente com o ente e, por conseguinte, deixa de lado como o homem se relaciona com o ser. Nesse sentido, é priorizado a relação do homem com o ente e não a do homem com o ser. 661

Por outro lado, Heidegger afirma que somos entes que mantemos contato com o ser constantemente, ou seja, o ente é importante na ligação com o ser. Nós no encontramos na distinção entre ser e ente. (HEIDEGGER, 2001, pg.155). E é preciso ter noção desta distinção de ser e ente, pois esta é uma relação ôntico-ontológica. 3 Heidegger fala do fundamento da ontologia, isto é, como dito acima, a distinção entre ser e ente, mas, segundo o autor, esta distinção não resolve a questão da ontologia, porém ela torna delimitar e denominar algo que se seja possível de ser questionado. O autor crítica o modo como a metafísica pensa o ser : como o que há de mais universal e, por conseguinte o mais vazio. A metafísica assim, esta generalizando o ente e, por conseguinte, a metafísica enxerga o ser com uma visão cotidiana e isto na concepção heideggeriana, deixa a metafísica distante da distinção entre ser e ente, ainda que a metafísica faça uso por toda parte dessa distinção. (HEIDEGGER, 2001, pg. 159). Heidegger reconhece que a metafísica está inserida na questão do ser, mas do modo que esta sendo feito, a metafísica esta ficando cada vez mais longe da distinção entre ser e ente. Portanto, Descartes, interpretado na visão heideggeriana, é um filósofo que seguiu a tradição da metafísica, ou seja, pautou o seu pensamento no que diz respeito ao ser, na metafísica utilizada por Platão, apesar de inverter os papeis do ser e do ente. Para Heidegger, seu método não trouxe luz ao sentido do ser e, por conseguinte, continuou encoberto pelos erros da tradição e fez menos, conseguiu encobrir mais o sentido do ser desencadeando um pensamento que foi utilizado pela ciência no século XX. 3 Em outro artigo, Críticas de Heidegger a ciência, é falado um pouco mais sobre esta distinção do ser e do ente e o modo possível de interpretar e compreender o ser. 662

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESCARTES, RENE, Discurso do Método. Descartes Vida e Obra, Rio de Janeiro, Nova Cultural, 1996, p. 65-127. HEIDEGGER, Martin, Nietzsche II, 2001; traduções de Gabriella Arnhold e Maria de Fátima de Almeida Prado. Editora Vozes Petrópolis, RJ., Ser e Tempo, 2011; tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5ª edição. Editora Vozes Petrópolis, RJ. STEIN, Ernildo. Pensar e Errar: um ajuste com Heidegger, 2011. Editora Unijuí. 663