Bitrem reduz custos em até 16% Graças à maior capacidade de carga, o bitrem corta sensivelmente os gastos por tonelada transportada Por Neuto Gonçalves dos Reis* O sucesso do bitrem significa um passo adiante no processo de redução de custos do transporte por meio do aumento da capacidade de carga dos veículos. Este processo nasceu na década de 50, com a própria indústria automobílistica, quando os operadores descobriram que podiam elevar a carga transportada de cerca de 8 a 9 t para 12 a 14 t, adaptando um teceiro eixo aos veículos a gasolina da época. Na década de 70, após a diesilização da frota, teve início o processo de substituição dos truques pelas carretas de dois eixos (20 t de carga) e três eixos (25 a 27 t de carga). Finalmente, nos últimos seis anos, as carretas convencionais começaram a dar lugar aos bitrens (entre 36 e 38,5 t de carga). Estima-se que, até o final de 2.004, existirão no país mais de 34 mil bitrens em circulação. Só em 2.003 foram produzidas 12.628 desses veículos De 2000 até o final de 2002, as associadas da Anfir fabricaram 18.500 bitrens. Hoje, a grande maioria dos cavalos 6x2 e 6x4 vendidos pelas montadoras destinam-se a tracionar bitrens. Esta tendência poderá se acentuar ainda mais após a entrada em vigor da Resolução n o 164/04 do Contran, que dispensa o bitrem de portar Autorização Especial de Trânsito (AET). A redução de custos proporcionada pelo bitrem resulta da sua capacidade de carga 45% maior. Utiliza, para tanto, apenas uma carreta adicional, dispensando um segundo e caro cavalo mecânico e um segundo motorista. Dados e critérios Para estimar esta redução de custos, foram montadas planilhas comparativas, utilizando-se dados do Decope/NTC (quadro 1). Quadro 1 - Parâmetros para cálculos dos custos Parâmetro Unidade Símbolo Carreta Bitrem Variação (%) Capacidade de carga toneladas CAP 26,0 37,8 +45,38 Custo fixo R$/mês CF 12.414,61 14.646,41 +17,98 Custo fixo/tonelada R$/t CF/t 477,49 347,47-18,85 Custo variavel R$/km Cv 1,1620 1,4395 +23,88 Custo variavel/tkm R$/tkm CV/tkm 0,0447 0,381-14,79 Fonte: Decope. Dados de novembro de 2.004.
Constata-se que, devido ao seu maior porte, o bitrem gera custos fixos adicionais de 17,98% e custos variáveis adicionais de 23,88%. Os maiores custos totais do bitrem resultam principalmente dos maiores preços implementos do bitrem e do cavalo (mais potente e trucado) do consumo de combustível, do maior número de pneus e do maior custo de manutenção (quadro 2). Quadro 2 Custos operacionais da carreta e do bitrem CUSTOS CARRETA BITREM Aumento (%) Remuneração do capital 3.3875,27 4.115,86 21,94 Salário do motortista/encargos 2.235,66 2.245,66 0,00 Salário de oficina/encargos 608,20 729,84 20,00 Reposição do veículo 2.336,02 2.582,84 10,55 Reposição das carretas 665,49 1.162,42 74,70 Licenciamento 322,46 360,73 11,87 Seguro do casco do veículo 2.325,42 2.607,95 12,15 Seguro do casco das carretas 424,53 739,84 71,92 Seguro RCF 111,67 111,67 0,00 CUSTO FIXO MENSAL 12.414,61 14,646,41 17,98 Peças 0,2933 0,3517 19,92 Combustível 0,6371 0,7645 20,00 Lubrificantes 0,0100 0,0100 0,00 Lavagem 0,0350 0,0438 25,00 Pneus 0,1866 0,2695 44,44 Custo variável/km 1,1620 1,4395 23,88 Fonte: Decope/NTC novembro 2.004). Apesar da elevação dos custos do veículo, graças à maior capacidade de carga, o bitrem reduz ocusto fixo por tonelada em 18,85% o custo fixo e custo variável por tonelada de capacidade em 14,79%. Um fator desvaforável ao bitrem é a menor velocidade comercial. Geralmente, para potências iguais, o aumento do peso bruto, de 41,5 t para 57 t, resulta em redução da relação potência/peso. Com isso, o veículo pode se tornando mais lento, especialmente em rodovias acidentadas. Este inconveniente pode ser eliminado com utilização de cavalos mais potentes para tracionar o bitrem. Neste estudo, adotou-se cavalo Scania R 124 com 360 hp de potência para tracionar o semi-reboque convencional e cavalo Scania R 124 com 420 hp de potência para tracionar o bitrem. Com isso, espera-se a mesma velocidade comercial (percurso/tempo total de viagem, incluindo paradas para refeições e descanso), estimada em 60 km/h para as duas configurações. Adotou-se também um tempo de carga e descarga (TCD) 25% maior para o bitrem(5 horas contra 4 horas para o semi-reboque), devantagem que nem sempre ocorre no prática,
especialmente quando as duas carretas do bitrem são carregadas e descarregadas simultaneamente. Não se levou em conta o comprovado aumento da durabilidade dos pneus trazida pelo bitrem. Em compensação, não se leva em conta também a necessidade de motorista mas experiente para bitrem, para neutralizar o efeito da amplificação traseira, o que pode exigir salário maior. Em ambos os casos, admite-se que o veículo opere 230 horas por mês. Cálculos e resultados Para calcular os custos por tonelada em cada percurso foram utilizadas as fórmulas tradicoinais do Decope/NTC, para ida e volta com o veículo carregado: CT = Custo por tonelada = A + B 1. p +B 2.p = A + (B 1 +B 2 ).p p = Percurso em quilômetros A = Custo do tempo parado para carga e descarga = CF.TCD/H/CAP B 1 = Custo fixo por tonelada x quilômetro = com o veículo em movimento = CF/H/V/CAP B 2 = Custo variável por tonelada x quilômetro = Cv/CAP CF = Custo fixo mensal Cv = Custo variável por quilômetro H = Horas operadas por mês TCD = Tempo de carga e descarga V = Velocidade comercial Para o semi-reboque convencional, tem-se: A= (12.414,61x4/230/26) = 8,30 B 1 = (12.414,61/230/60/26 = 0,0346 B 2 = (1,1620/26) = 0,0447 B = B1 + B2 = 0,0346 + 0,0447 = 0,0793 Portanto: CT = 8,30 + 0,0793.p Para o bitrem, a equação de frete por tonelada é: A= (14.646,41x5/230/37,8) = 8,42 B 1 = (14.646,41/230/60/37,8) = 0,0281
B 2 = (1,4395/37,8) = 0,0381 B = B 1 + B 2 = 0,0281 + 0,0381 = 0,0662 Portanto: CT = 8,42 + 0,0662.p Conclui-se que, devido ao maior tempo de carga e descarga adotado, o custo por tonelada do bitrem parado resulta 1,4% superior ao do semi-reboque convecional. No entanto, seu custo de operação por t.km é 16,6% inferior. Assim quanto maior o percurso, maior será a vantagem do bitrem. Os resultados finais obtidos estão nos quadros 3, 4, e 5. Quadro 3 Custo da carreta (R$/tonelada) Custo fixo Custo variável Tempo parado Custo total Percurso (p) (km) (0,0346.p) (0,0447.p) (A) (A+B1.p+B2.p) 50 1,73 2,23 8,30 12,27 500 17,30 22,35 8,30 47,95 1.000 34,60 44,69 8,30 87,60 2.000 69,20 89,38 8,30 166,89 3.000 103,80 134,08 8,30 246,18 4.000 138,40 178,77 8,30 325,47 5.000 173,00 223,46 8,30 404,77 6.000 207,60 268,15 8,30 484,06 Custo fixo/tonelada = (12.414,61/230/60/26) x percurso = 0,0346.p Custo variável/tonelada = (1,1620/26)xpercurso = 0,0447.p Custo do tempo parado/tonelada = (12.414,61/230/26)x4 = 8,30 Quadro 4 Custo do bitrem (R$/tonelada) Percurso (km) Custo fixo (0,0281) Custo variável (0,0381.p) Tempo parado (A) Custo total 50 1,40 1,90 8,42 11,73 500 14,04 19,04 8,42 41,50 1.000 28,08 38,08 8,42 74,58 2.000 56,16 76,16 8,42 140,74 3.000 84,23 114,25 8,42 206,90 4.000 112,31 152,33 8,42 273,06 5.000 140,39 190,41 8,42 339,22 6.000 168,47 228,49 8,42 405,38 Custo fixo/t = (14.646,41/230/60/37,8)xpercurso = 0,0281.p Custo variável/tonelada = (1,4395/37,8)xpercurso = 0,0381.p Custo do tempo parado/tonelada = (14.646,41x5/230/37,8) = 8,42
Quadro 5 Comparação dos resultados (R$/tonelada) Percurso (km) Carreta Bitrem Redução (%) 50 12,27 11,73 4,38 500 47,95 41,50 13,45 1.000 87,60 74,58 14,86 2.000 166,89 140,74 15,67 3.000 246,18 206,90 15,96 4.000 325,47 273,06 16,10 5.000 404,77 339,22 16,19 6.000 484,06 405,38 16,25 Constata-se que, nas curtas distâncias, a redução de custos é discreta (4,38%). No entanto, para percursos superiores a 1.000 km esta redução varia de 14,88% até 16,25% (gráfico 1). Gráfico 1 - Redução de custos proporcionada pelo bitrem (%) 18,00 16,00 14,86 15,67 15,96 16,10 16,19 16,25 14,00 13,45 12,00 Redução (%) 10,00 8,00 6,00 4,00 4,38 2,00 0,00 50 500 1.000 2.000 3.000 4.000 5.000 6.000 Percurso (km) Estes resultados são sensíveis à velocidade média do veículo. Se devido às condições da rodovia, a velocidade comercial do bitrem caísse para 55 km/h e a do semi-reboque se mantivesse em 60 km/h, a redução de custos a partir de 1.000 km cairia para a faixa de 10,8% a 13,1%. Mesmo assim, a economia ainda seria significativa.
*Neuto Gonçalves dos Reis e mestre em Engenharia de Transportes e Chefe do DECOPE Departamento de Custos Operacionais e Estudos Econômicos da NTC.