Trabalho realizado pela advogada dra. Marília Nascimento Minicucci, do escritório do conselheiro prof. Cássio de Mesquita Barros Júnior TRABALHADORES DOMÉSTICOS Foi publicado, no Diário Oficial da União do dia 2.6.2015, a emenda constitucional que regulamenta novos direitos dos trabalhadores domésticos e, por conseguinte, novas obrigações aos seus empregadores. Assim, faz-se necessário aos empregadores domésticos tomarem conhecimento de tal regulamentação, a fim de que não sejam autuados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, nem sofram reclamações trabalhistas desnecessárias. Dentre as novidades que mais podem causar dúvidas ao empregador doméstico está o SIMPLES DOMÉSTICO, que será obrigatório passados 120 dias da publicação da referida emenda, englobando os seguintes valores: (i) 8% a 11% de contribuição previdenciária, a cargo do segurado empregado doméstico; 8% de contribuição patronal previdenciária para a seguridade social, a cargo do empregador doméstico; 0,8% de contribuição social para financiamento do seguro contra acidentes do trabalho; 8% de recolhimento para o FGTS; 3,2%, a fim de garantir a indenização ao empregado doméstico em caso de rescisão contratual que não se dê por sua vontade ou culpa (tratando-se esta de indenização específica, não cabendo aos domésticos a multa de 40% sobre os depósitos do FTS); e imposto sobre a renda retido na fonte. Quanto à indenização em caso de rescisão contratual, tratada acima, nas hipóteses de dispensa por justa causa; de pedido do empregado; de término do contrato de trabalho por prazo determinado; de aposentadoria; e de falecimento do empregado doméstico, os valores previstos serão movimentados pelo empregador. Já na hipótese de culpa recíproca, metade dos valores previstos no caput será movimentada pelo empregado, enquanto a outra metade será movimentada pelo empregador.
Cabe esclarecer que a emenda também dá aos domésticos o direito ao saláriofamília, pago pela Previdência Social, no valor de R$37,18, por filho de até 14 anos incompletos ou inválidos, caso o sua renda seja de até R$ 725,02, caindo para R$26,20 por filho, nos casos em que os domésticos ganhem acima desse valor, até R$ 1.089,72. Ainda, caberá aos domésticos o seguro desemprego, de até três meses, e seguro contra acidente de trabalho, conforme as regras da previdência. Ademais, quanto ao FGTS, vale destacar que este depende de regulamentação pelo Conselho Curador do FGTS e pelo agente operador do fundo, momento a partir do qual será obrigatório. No que diz respeito ao salário, há que se pagar, ao menos, um salário mínimo ao mês, inclusive para os casos de trabalhadores que laboram apenas por meio período (25 horas na semana com, no máximo, seis horas diárias, mediante acordo escrito para aumentar no até uma hora ao dia). Com relação à contratação, é permitido que se faça por prazo determinado (até noventa dias), a título de experiência ou substituição transitória de outro empregado afastado, com contrato suspenso ou interrompido. No tocante à jornada de trabalho, será necessária sua anotação, por qualquer meio idôneo, pelo próprio empregado, ou com sua ratificação das anotações, sendo certo que não poderá ultrapassar oito horas diárias e quarenta e quatro horas semanais, em princípio, cabendo, em caso de acordo formal, o regime de doze horas de trabalho para trinta e seis de descanso. Quanto às horas extras, as mesmas poderão ser compensadas, com a redução da jornada em outro dia, conquanto tal compensação seja feita dentro de um ano, sob pena de pagamento das horas extras com base no último salário do empregado doméstico. Ademais, havendo horas extras acima de quarenta, as primeiras quarenta deverão ser pagas.
Ainda, no tocante à jornada de trabalho, a lei fez menção ao caso dos empregados domésticos que residem no mesmo local em que trabalham, deixando claro que apenas serão computadas as horas efetivamente trabalhadas, de modo que mesmo os domésticos que durmam com crianças, idosos ou deficientes não terão tal período computado como se de trabalho fosse. Do mesmo modo, em caso de viagens com o empregador, que poderão ocorrer mediante previsão em contrato, apenas deverão ser computadas as horas efetivamente trabalhadas pelo empregado doméstico, as quais deverão ser remuneradas com um acréscimo de 25% da hora normal, cabendo, alternativamente, cômputo no banco de horas. No que diz respeito ao intervalo para refeição e descanso, este deverá ser de uma hora, cabendo sua redução para 30 minutos, mediante acordo, por escrito, assinado pelo empregador e pelo empregado. Ainda, caso o empregado resida no local de trabalho, seu descanso poderá ser desmembrado em dois períodos, desde que cada um deles tenha, no mínimo, uma hora, obedecendo-se o limite de quatro horas diárias, sendo vedada sua anotação prévia. Além disso, caberá ao empregado doméstico, quando em serviço entre às dez da noite e às cinco da manhã, receber adicional noturno, de 20%, considerando-se, ainda, a hora reduzida de cinquenta e dois minutos e meio. Do mesmo modo, não folgando o doméstico em domingos e/ou feriados, terá direito ao pagamento em dobro de tais dias trabalhados. Com relação à segurança do trabalhador doméstico, ficou estabelecido que devem ser obedecidas as normas de higiene, saúde e segurança aplicáveis aos demais empregados. Para a regulamentação de direitos dos empregados domésticos, além daqueles estabelecidos na emenda constitucional, também serão de observância obrigatória as convenções coletivas da categoria. Dessa feita, o pagamento do auxílio-creche e
pré-escola dependerá de convenção ou acordo coletivo entre sindicatos de patrões e empregados. No tocante às férias, elas serão de trinta dias, cabendo o pagamento de mais um terço, sendo que, a critério do empregador, poderão ser fracionadas em dois períodos, um dos quais de, no mínimo, quatorze dias, sendo faculdade do empregado vender um terço de suas férias e também gozá-las na casa do empregador, se lá residir. Estabeleceu-se que é vedado ao empregador doméstico efetuar descontos no salário do empregado por fornecimento de alimentação, vestuário, higiene ou moradia, bem como por despesas com transporte, hospedagem e alimentação em caso de acompanhamento em viagem. Contudo, ao empregador foi dado o direito de efetuar descontos no salário do empregado em caso de adiantamento salarial e, mediante acordo escrito entre as partes, para a inclusão do empregado em planos de assistência médicohospitalar e odontológica, de seguro e de previdência privada, não podendo a dedução ultrapassar 20% (vinte por cento) do salário. Caso o empregado não resida no mesmo local que o empregador, conquanto acordado expressamente com o empregado, poderá ser descontado suas despesas com moradia. Estabeleceu-se, ainda, que o fornecimento de moradia ao empregado doméstico na própria residência ou em morada anexa, de qualquer natureza, não gera ao empregado qualquer direito de posse ou de propriedade sobre a referida moradia. De acordo com a emenda, aos empregados domésticos se aplicam a Lei 605/49, acerca do descanso semanal remunerado; a Lei 4090/62 e a Lei 4749/65, sobre o 13º salário; e a Lei 7418/85, que regulamenta o valetransporte, sendo certo, quanto a este último, que é facultado ao empregador, mediante recibo, dar ao empregado o valor das passagens e efetuar o desconto de 6% de sua cota-parte.
Apesar de não ser um direito novo, cabe lembrar que a empregada doméstica gestante tem direito à licença-maternidade de cento e vinte dias, sem prejuízo do emprego e do salário. Outra novidade da emenda constitucional foi, no rol de justas-causas do empregado, estabelecer-se a submissão a maus tratos de idoso, de enfermo, de pessoa com deficiência ou de criança sob cuidado direto ou indireto do empregado. Por fim, vale lembrar que será possível a verificação, pelo Auditor-Fiscal do Trabalho, do cumprimento das normas que regem o trabalho do empregado doméstico, no âmbito do domicílio do empregador, mediante prévio agendamento e entendimentos entre a fiscalização e o empregador, sendo certo que a fiscalização deverá ter natureza prioritariamente orientadora, cabendo autuações obedecendo-se o critério da dupla visita, ou seja, a primeira terá fins de orientação para, apenas em casos de não adequação, ser o empregador autuado. São Paulo, 17 de junho de 2015. Dra. Marília Nascimento Minicucci Mesquita Barros Advogados