Direito das Obrigações (7.ª Aula)



Documentos relacionados
São aquelas em que há uma multiplicidade de sujeitos. Posso ter na obrigação vários devedores, vários credores ou vários credores e vários devedores.

Sumário. Palavras Prévias 10ª edição Prefácio Apresentação As Obrigações em Leitura Civil-Constitucional... 25

DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES OBRIGAÇÕES DIVISÍVEIS E INDIVISÍVEIS

Prezado, Assim define o mencionado artigo:

Aula 07 4) OBRIGAÇÕES DIVISÍVEIS

AULA 04. OBRIGAÇÕES DE FAZER e OBRIGAÇÕES DE NÃO FAZER.

Planejamento Tributário Empresarial

Sumário COLEÇÃO SINOPSES PARA CONCURSOS GUIA DE LEITURA DA COLEÇÃO NOTA DOS AUTORES À 4ª EDIÇÃO Parte I DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL V EXAME UNIFICADO PADRÃO DE RESPOSTA PROVA DO DIA 4/12/2011 DIREITO EMPRESARIAL

OAB GABARITO COMENTADO SEGUNDA FASE EMPRESARIAL. Artigo 9º e 4º do artigo 10 Lei /2005, procuração, CPC e estatuto da OAB.

AULA 7 30/03/11 A NOTA PROMISSÓRIA E O CHEQUE

Direito das Obrigações. IV - Modalidades Obrigacionais

FACULDADE DE DIREITO DE SOROCABA FADI 2016

Direito Civil III Contratos

ATIVIDADES PRÁTICAS SUPERVISIONADAS

AULA 21 FALÊNCIA. Do ponto de vista jurídico, exprime a impossibilidade do devedor de arcar com a satisfação de seus débitos.

Resumo Aula-tema 04: Direito Civil - Parte Geral.

1.1.1 SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE

Direito aplicado à logística

CIRCULAR GEPE N.º 007/2005. Gerências Regionais de Recursos Humanos, Unidades de Controle de Pessoal das demais Secretarias, gerências da GEPE.

NOTA TÉCNICA Nº 0011/2012

COMISSÃO DE FINANÇAS E TRIBUTAÇÃO

DECRETO Nº DE 1 DE AGOSTO DE 2011 (DOM 02/08/2011)

Impactos Fiscais das Avaliações a Valor Justo

EDITAL N.º 02/2015 DISPÕE SOBRE O PROCESSO DE MATRÍCULA PARA OS CURSOS TÉCNICOS, CONCOMITANTES E SUBSEQUENTES AO ENSINO MÉDIO

Direito Administrativo

- Obrigações COMPOSTAS, PLURAIS ou COMPLEXAS, que poderão ser: - Fracionárias divisíveis ou indivisíveis - Solidárias

PREFEITURA MUNICIPAL DE POMPÉU PRAÇA GOVERNADOR VALADARES, 12 CENTRO FONE: (37) FAX: (37) POMPÉU/MG

CAPÍTULO 8 NOTA PROMISSÓRIA

MINUTA DO CLAUSULADO DO ACORDO DE DAÇÃO EM PAGAMENTO

Despesas. Generalidades sobre BDI Benefícios e Despesas Indiretas

Estágios da Despesa Pública

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

PREFEITURA MUNICIPAL DE PALMAS SECRETARIA MUNICIPAL DE GOVERNO

Teoria Geral da Execução

DECRETA: Art. 2º A prova de regularidade perante a Fazenda Pública Municipal de Teresina será efetuada mediante a apresentação de:

DENUNCIAÇÃO DA LIDE (Artigos 125 a 129 do Código de Processo Civil)

Direito de empresa Títulos de Crédito

Concurso de 2015 REGULAMENTO RELATIVO ÀS DESPESAS ELEGÍVEIS

A GARANTIA DE NEGOCIAÇÃO DE DÍVIDAS EM TEMPOS DE CRISE. César Fiuza Maria Alice Oliveira de Freitas Mattos

LEI MUNICIPAL Nº 2.041/15, de 31 de Julho de 2015.

RESOLUÇÃO Nº 2682 RESOLVEU:

Fontes das Obrigações: Contratos Especiais, Atos Unilaterais, Responsabilidade Civil e outras Fontes (DCV0311)

PARECER Nº, DE RELATOR: Senador JOSÉ PIMENTEL

TERMO DE ACORDO DE PARCELAMENTO JUDICIAL

PREFEITURA MUNICIPAL DE VÁRZEA PAULISTA ESTADO DE SÃO PAULO

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA. Lei n.º 53/2011 de 14 de Outubro

Avaliação econômica da floresta nativa em propriedades rurais, em face do novo Código Florestal

CONCURSO PÚBLICO ATRIBUIÇÃO DE UMA LICENÇA DE TÁXI PARA TRANSPORTE DE PESSOAS COM MOBILIDADE REDUZIDA, FORA DO CONTINGENTE, PARA O CONCELHO DE OVAR

LEI MUNICIPAL N 4.774, DE 13 DE JUNHO DE 2013.

CONTRATOS PRELIMINARES

Dos Bens. Profª. MSc. Maria Bernadete Miranda

1. DIREITO DAS OBRIGAÇÕES - INTRODUÇÃO.

RESOLUÇÃO SEPLAG Nº. 106, DE 14 DE DEZEMBRO DE 2012

II - ao Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens e Direitos - ITCMD;

PEÇA PRÁTICO PROFISSIONAL

CIRCULAR. Gabinete Jurídico-Fiscal. Assunto: Segurança Social Processo Executivo da Segurança Social

Decreto n 3.391/2.013

CARTILHA SOBRE NOÇÕES BÁSICAS DA EXECUÇÃO DA DESPESA PÚBLICA

[Digite aqui] GUIA PARA OS CMDCAS A RESPEITO DA RESOLUÇÃO 164/2014

DOMICÍLIO = "É o local no qual a pessoa estabelece a sua residência com ânimo definitivo" RESIDÊNCIA = "Local no qual a pessoa habita.

Ação de Exigir Contas

EDITAL N.º 06/2016 PROCESSO SELETIVO SIMPLIFICADO PARA INGRESSO NO CURSO DE EXTENSÃO DE INTRODUÇÃO À PROGRAMAÇÃO

MARATONA ENEM 2016 REGULAMENTO LOCAL

CONCESSÃO PARA AMPLIAÇÃO, MANUTENÇÃO E EXPLORAÇÃO DO AEROPORTO INTERNACIONAL DO RIO DE JANEIRO/GALEÃO

DIREITO AMBIENTAL. Prof.: LEONARDO BARRETO

DECRETO Nº , DE 23 DE AGOSTO DE 2012.

OS PLANOS DO MUNDO JURÍDICO

DIREITO DO TRABALHO LC ESQUEMATIZADA Prof. Antonio Daud Jr (

Sumário. Agradecimentos Edital sistematizado (Para facilitar a pesquisa e otimizar seu estudo) Apresentação da coleção...

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

GLEBA LEGAL. PROVIMENTO 07/2005-CGJ e artigo 527 e seguintes da CNNR

PROJETO DE LEI Nº DE 2008

EFEITOS DOS CONTRATOS COM RELAÇÃO A TERCEIROS

INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 01 / 2011.

Parcelamento Especial ou Pagamento à Vista da Lei nº /2014 e MP 651/2014. Refis da Copa (Reabertura do Refis da Crise )

CAPA DE PROCESSO E PASTA PAPEL SUPREMO PREÂMBULO

PROCESSO SELETIVO SIMPLIFICADO PARA PROFESSOR VOLUNTÁRIO NA ÁREA DE CONHECIMENTO: DIREITO

DOM DE 03/09/2014 Republicada, no DOM de 09/09/2014, por ter saído incompleta. Alterada pela IN nº 36/2014, no DOM de 15/10/2014.

Regulamento para a participação de trabalhos científicos e acadêmicos no 5º Congresso Internacional CBL do Livro Digital

Vejam, pois, que se trata de questão recente e que pode, perfeitamente, ser explorada no concurso do ISS SP no domingo.

RESOLUCAO N /2008

MANUAL DE CONTABILIDADE APLICADA AO SETOR PÚBLICO 7ª Edição

18/08/2010 TRIBUTOS EM ESPÉCIE IMPOSTOS IMPOSTOS. Impostos Estaduais. Impostos Estaduais IPVA ICMS ITCMD. Legislação Comercial e Tributária

PROFESSOR AO VIVO. Revisão Prof. Darlan Barroso. Estudo Dirigido Execução

DECRETO Nº3172 DE 10 DE JULHO DE 2013

REGULAMENTO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM ENGENHARIA ELÉTRICA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FEI TÍTULO I

Ciências Contábeis PRODUÇÃO TEXTUAL INTERDISCIPLINAR EM GRUPO

Referências econômico-financeiras. Orientações sobre garantias financeiras e ativos garantidores

Transcrição:

Direito das Obrigações (7.ª Aula) 1) Classificação das Obrigações IV: Obrigações Divisíveis e Indivisíveis Ao lado das obrigações de dar, fazer, não fazer e alternativas o Código Civil também regulamenta uma outra espécie ou modalidade de obrigação, que são as chamadas divisíveis e indivisíveis, nos arts. 257 a 263. Quando o objeto da prestação for passível de ser fracionado ou dividido em porções ou parcelas menores que o todo, dir-se-á que a obrigação é divisível; porém, quando o objeto da prestação não permitir o seu fracionamento ou divisão em porções ou parcelas menores, dir-se-á que a obrigação é indivisível. Em linhas gerais, afirma-se que divisíveis são as obrigações possíveis de cumprimento fracionado e indivisíveis são aquelas que só podem cumprir em sua integralidade 1. Em princípio e de acordo com o art. 257, do Código Civil 2, a presunção legal é a de que se houver pluralidade de devedores e/ou credores o objeto da prestação poderá ser dividido ou fracionado em parcelas iguais e distintas de devedores e credores. Esta situação é também conhecida como concursu partes fiunt (as partes se dividem pelos sujeitos). Atenção: A divisibilidade ou não da obrigação diz respeito ao objeto (conteúdo) da prestação, e não ao seu objeto. Assim, a prestação considerada enquanto a atividade devida pelo devedor será sempre una (dar, fazer ou não fazer), porém o seu cumprimento ou execução é que poderá ser dividido ou parcelado. Eis o que diz o art. 314, do Código Civil: 1 VENOSA, Sílvio de Salvo. Teoria geral das obrigações e teoria geral dos contratos. Vol. 2. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2010, p. 103. 2 Art. 257. Havendo mais de um devedor ou mais de um credor em obrigação divisível, esta presume-se dividida em tantas obrigações, iguais e distintas, quantos os credores ou devedores.

Art. 314. Ainda que a obrigação tenha por objeto prestação divisível, não pode o credor ser obrigado a receber, nem o devedor a pagar, por partes, se assim não se ajustou. O artigo demonstra que a divisibilidade ou indivisibilidade diz respeito ao seu cumprimento (objeto), e não à prestação em si. Pois bem. Do ponto de vista rigorosamente técnico-legal, as obrigações divisíveis ou indivisíveis ganham importância nas situações em que há pluralidade de devedores e/ou credores, isto é, vários se apresentam como credores da mesma obrigação e/ou vários se apresentam como devedores, nos termos do art. 257, do Código Civil 3. Nestas hipóteses a doutrina afirma que há multiplicidade subjetiva. Atenção: Esta classificação só possui interesse se houver mais de um credor ou mais de um devedor. É que se houver apenas um devedor e apenas um credor, a obrigação deve ser cumprida por inteiro, pouco importando a divisibilidade ou não do objeto 4. Do ponto de vista material, em tese tudo poderia ser dividido em porções menores; todavia, do ponto de vista técnico somente será considerado juridicamente divisível o objeto cujas porções menores mantiverem as mesmas propriedades do todo, porque a finalidade principal da divisibilidade é a de permitir a satisfação de interesses sérios e úteis dos credores. Adotando esta mesma linha de raciocínio, segundo a doutrina 3 são as hipóteses possíveis de indivisibilidade, em razão do que dispõe o art. 258 do Código Civil 5 : 3 Art. 257. Havendo mais de um devedor ou mais de um credor em obrigação divisível, esta presume-se dividida em tantas obrigações, iguais e distintas, quantos os credores ou devedores. 4 SCAVONE JUNIOR, Luiz Antonio. Obrigações: abordagem didática. 4. ed. atual. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2006, p. 63. 5 Art. 258. A obrigação é indivisível quando a prestação tem por objeto uma coisa ou um fato não suscetíveis de divisão, por sua natureza, por motivo de ordem econômica, ou dada a razão determinante do negócio jurídico.

indivisibilidade material jurídica voluntária A indivisibilidade material é aquela que decorre da própria natureza do objeto da prestação: a entrega de um cavalo 1, a realização de uma apresentação artística 2, a não-realização de uma ato 3 etc. A indivisibilidade jurídica é aquela que decorre de imposição legal: a impossibilidade de parcelamento de dívidas tributárias 1, a entrega de lotes de terreno que não pode ser inferiorà medida legal de 125 m 2 (2), de acordo com o art. 4., II, da Lei n. 6.766/79 6 etc. A indivisibilidade voluntária é aquela que decorre de negócio jurídico (manifestação de vontade) firmado entre 2 ou mais sujeitos: o devedor assume o dever de pagar, em parcela única, R$ 1.000,00 1, o pintor se obriga a pintar o quarto do credor em um só dia 2 etc. 1.1) Regras Específicas das Obrigações Indivisíveis e Divisíveis a) Pluralidade de Devedores: se a obrigação for indivisível e houver pluralidade de devedores, cada um será obrigado pela dívida toda, nos termos do art. 259 do Código Civil; assim, se João e Pedro se comprometem a entregar um automóvel de R$ 50.000,00 a Paulo, no dia em que a obrigação se tornar exigível o credor poderá exigir a entrega tanto de João como de Pedro, não sendo necessário exigi-la dos 2 devedores. 6 Art. 4º - Os loteamentos deverão atender, pelo menos, aos seguintes requisitos: (...) II - os lotes terão área mínima de 125 m 2 (cento e vinte e cinco metros quadrados) e frente mínima de 5 (cinco) metros, salvo quando a legislação estadual ou municipal determinar maiores exigências, ou quando o loteamento se destinar a urbanização específica ou edificação de conjuntos habitacionais de interesse social, previamente aprovados pelos órgãos públicos competentes; (Grifamos);

Neste caso, se apenas um dos devedores entregou o automóvel ao credor, poderá exigir do outro co-devedor que lhe reembolse em R$ 25.000,00, valor este que representa a metade do veículo devido. Logo, a obrigação nasceu indivisível, mas tornou-se indivisível. a.1) E nos casos que se enquadrarem no caput, do art. 259, do Código Civil, enuncia o parágrafo único do mesmo artigo que: Parágrafo único. O devedor, que paga a dívida, sub-roga-se no direito do credor em relação aos outros coobrigados. Assim, aquele devedor que pagou sozinho a dívida indivisível poderá cobrar dos outros a respectiva quota atribuível a cada um na dívida. Exemplo: Pedro, Carlos e João devem a Antonio a quantia de R$ 900,00, que deverá ser paga a este de 1 só vez (indivisibilidade voluntária). Antonio, porém, exige o pagamento apenas de Pedro que efetua, sozinho, o pagamento de R$ 900,00 ao credor. Nesta hipótese, o devedor que pagou sozinho a dívida toda (Pedro) poderá exigir que os demais co-devedores (Carlos e João) lhe reembolsem R$ 600,00, pois ocorrido o desconto da parte devida por aquele pagou (R$ 300,00) pois era também devedor -, cada um dos outros passou a ser devedor de Pedro pela quantia de R$ 300,00. Atenção: O parágrafo único do art. 259 do Código Civil, se vale da expressão sub-rogação que significa substituição do credor originário em todos os seus direitos, deveres, pretensões e ônus.

a.2) Por fim, nos termos do art. 263,, do Código Civil, se ocorrer o perecimento do objeto devido por culpa do(s) devedor(es), a obrigação perde o seu caráter de indivisibilidade: Art. 263. Perde a qualidade de indivisível a obrigação que se resolver em perdas e danos. 1 o Se, para efeito do disposto neste artigo, houver culpa de todos os devedores, responderão todos por partes iguais. 2 o Se for de um só a culpa, ficarão exonerados os outros, respondendo só esse pelas perdas e danos. Nestes casos, o Código Civil parte do pressuposto de que a obrigação de indenizar ou reparar os prejuízos será, basicamente, de entregar dinheiro, entregar quantia, de modo que a soma em dinheiro equivalente à indenização nesta hipótese sempre permitirá a sua divisão ou fracionamento. Nesse caso, só aqueles que agiram com culpa, que é personalíssima ou pessoal, pagarão as perdas e danos. Os outros responderão pelo equivalente 7. Exemplo: João e Pedro se comprometeram a entregar um automóvel de R$ 50.000,00 a Paulo, porém Pedro sofreu um grave acidente na direção do veículo que acarretou o seu perecimento total, em razão de ter dirigido embriagado. Neste hipótese, perecido o veículo não há mais como entregálo, devendo a entrega da coisa ser substituída pelo seu equivalente, isto é, pelo valor correspondente ao objeto em dinheiro. Logo, Pedro será devedor de R$ 25.000,00 a Paulo (½ do valor do objeto), além de também ser devedor de eventuais prejuízos (perdas e danos) que o credor sofreu por conta do descumprimento da obrigação, pois foi o único culpado pelo perecimento. João, porém, que também era 7 SCAVONE JUNIOR, Luiz Antonio. Obrigações: abordagem didática. 4. ed. atual. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2006, p. 66.

devedor da entrega mas não agiu com culpa, nada fez de errado, deverá a Paulo apenas o valor equivalente a outra ½ do objeto, ou seja, R$ 25.000,00. b) Pluralidade de Credores: se a obrigação for indivisível e houver pluralidade de credores, qualquer um deles poderá exigir do devedor o cumprimento da dívida toda, nos termos do art. 260, 1.ª parte, do Código Civil; assim, se João se comprometeu a pagar a quantia de R$ 50.000,00 a Pedro, Paulo e Roberto, no dia em que a obrigação se tornar exigível qualquer um dos credores poderá exigir que o devedor em comum cumpra a sua obrigação de pagar, não sendo necessário que a dívida seja exigida por todos os credores ao mesmo tempo. Atenção: Porém, o devedor que vier a pagar uma dívida indivisível que lhe foi exigida por apenas 1 dos vários credores somente se exonerará ou se desobrigará eficazmente caso venha a pagar a todos conjuntamente, salvo se apenas 1 dos credores vier a exigir o cumprimento e der ao devedor caução de ratificação dos outros, nos termos do art. 260, 2.ª parte, do Código Civil. b.1) E o que vem a ser caução de ratificação? Sobre o tema, a doutrina apresenta, basicamente, 3 visões diferentes. Vejamos. Para LUIZ ANTONIO SCAVONE JUNIOR 8 é uma garantia de confirmação que todos os credores de obrigação indivisível concedem àquele que vier a exigir o cumprimento do devedor autorizando-o a receber a dívida em nome ou em favor dos outros. Em outras palavras, seria uma AUTORIZAÇÃO ESCRITA. 8 Cfe. Obrigações: abordagem didática. 4. ed. atual. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2006, p. 65.

Para MÁRIO LUIZ DELGADO RÉGIS 9, Esta caução nada mais é do que uma garantia oferecida pelo credor que recebe o pagamento de que os outros co-credores o reputam válido e não cobrarão posteriormente do devedor as suas cotas no crédito. Em razão deste posicionamento, pergunta-se: garantia pessoal ou real? Para FÁBIO HENRIQUE PODESTÁ 10, A caução mencionada consiste numa garantia real ou pessoal prestada pelo credor que recebe o pagamento integral do qual os outros credores concordam com sua perfeição, renunciando a eventual impugnação do negócio realizado. b.2) Seguindo a lógica do Código Civil, que é a da divisibilidade da obrigação, o seu art. 261 enuncia que Se um só dos credores receber a prestação por inteiro, a cada um dos outros assistirá o direito de exigir dele em dinheiro a parte que lhe caiba no total., cujo fundamento vem a ser o de evitar o enriquecimento sem causa daquele que recebeu sozinho a prestação que seria de todos os credores. b.3) Nos casos de extinção da quota atribuível a um dos credores, não importanto o fundamento, a sua parte deverá ser descontada do montante da dívida e acarretará o dever dos demais co-credores procederem a restituição ou pagamento da quota extinta ao devedor: Art. 262. Se um dos credores remitir a dívida, a obrigação não ficará extinta para com os outros; mas estes só a poderão exigir, descontada a quota do credor remitente. Parágrafo único. O mesmo critério se observará no caso de transação, novação, compensação ou confusão. Exemplo: João se comprometeu a entregar um automóvel de R$ 50.000,00 (indivisibilidade material) a Paulo e Pedro; Paulo, por sua vez, 9 In Novo código civil comentado. 3. ed. atual. [coord. Ricardo Fiuza] São Paulo: Saraiva, 2004, p. 250. 10 In Direito das obrigações. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008, p. 127.

decide perdoar (remitir remissão) a dívida de João, porém somente podendo fazê-lo no que diz respeito à sua quota no crédito, que equivale a R$ 25.000,00. Neste caso, João ainda deverá entregar um automóvel de R$ 50.000,00 a Pedro, mas como do total da dívida obteve o perdão equivalente à sua ½ ( R$ 25.000,00), poderá então condicionar a entrega do carro ao pagamento de R$ 25.000,00 porque neste caso o devedor continua a dever o objeto indivisível; no entanto torna-se ao mesmo tempo credor do sujeito ativo (co-credor) que não perdoou a dívida.