JACÓ, O PAI E A BENÇÃO.



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Transcrição:

Hortelinda Gal (Licenciada em teologia) JACÓ, O PAI E A BENÇÃO. Uma família disfuncional Um dos aspectos mais extraordinários da Revelação Divina é o facto de Deus ter escolhido falar-nos não através de grandes discursos teológicos, cansativos e fáceis de esquecer, mas através da Sua relação e interacção com um povo, com famílias, com pessoas. As experiencias e dinâmicas nas vidas dos personagens bíblicos facilitam o despertar das consciências através do processo de modelagem e de identificação, tornando-se numa fonte, excelente, de ensinos sempre vivos e actuais. A relação parental estabelecida entre Isaque e Rebeca e os seus dois filhos é disso um exemplo eloquente. Como em muitas famílias de hoje, esta relação é problemática, diríamos mesmo, disfuncional, entravando o processo de amadurecimento de uns e de outros. Essa disfuncionalidade manifesta-se plenamente na célebre cena em que Jacó, mascarado de Esaú engana grosseiramente o pai, rouba a bênção ao irmão, desencadeia uma crise familiar que, para além do sofrimento de todos, lhe valeu a ele uma fuga apressada que se tornaria numa errância de 20 anos. As Causas As causas do Drama vinham de longe tendo a sua origem, mais evidente, no favoritismo dos pais por cada um dos filhos. Diz-nos o texto, como para nos dar a explicação do que vem a seguir que: cumprindo-se os seus dias para dar à luz, eis gémeos no seu ventre. E saiu o primeiro ruivo e todo como um vestido cabeludo; por isso chamaram o seu nome Esaú. E depois saiu o seu irmão agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; por isso se chamou o seu nome Jacó. E era Isaque da idade de 60 anos quando os gerou. E cresceram os meninos, e Esaú foi varão perito na caça, varão de campo; mas Jacó era varão simples, habitando em tendas. E amava Isaque a Esaú, porque a caça era de seu gosto; mas Rebeca amava a Jacó. A preferência é como uma espécie de selecção natural dos relacionamentos. Preferimos aqueles com quem nos identificamos mais, ou aqueles cuja relação nos exige menos, nos questiona menos e, por isso, nos satisfaz mais, ainda que, por certo, nos enriqueça menos. Rebeca preferiu Jacó por o pressentir mais sensível, talvez por o identificar com o eleito de Deus Para Isaque, era evidente que Esaú era o futuro chefe da tribo, do clã; desde o nascimento transportava as marcas duma varonilidade extraordinária, era todo peludo, o que fez o orgulho do pai Esta preferência levou-o a passar-lhe todos os seus gostos, todo o seu saber fazer. Esaú torna-se caçador como o pai, tendo deste toda a admiração. Essa transmissão de gostos e vocações implicou tempo de qualidade passado entre pai e filho e teve como resultado uma grande cumplicidade entre ambos. Jacó, por sua vez, do que é que gostava? Nem sabemos! Diz o texto que Era varão simples, parece querer dizer sem gosto, sem desejo, agarrado às saias da mãe, sem orientação porque, sem pai. Esta preferência vai marcar negativamente toda a vida dos filhos, vai prejudicar o seu desenvolvimento emocional, psicológico e social. O problema com as preferências é 1

que os filhos que não são preferidos sentem-se não amados; os pais podem amar o filho preferido 100% e o filho não preferido 99,99%, apenas 0,1% a menos, mas o não preferido sentir-se-á, simplesmente, não amado. Resultado na vida dos Filhos A Esau, vai faltar-lhe muito de mãe, possivelmente o seu carácter agressivo, a falta de sensibilidade e fineza, que se vê na sua atitude para com o direito de primogenitura, mostra que Esaú tem uma personalidade tosca ; ter-lhe-ia feito muito bem uma maior presença materna no seu crescimento, que o tivesse ajudado a desenvolver algumas qualidades ditas femininas, como a sensibilidade A Jacó, faltou-lhe, com toda a evidência, muito de pai. A sua personalidade, e a sua existência, vão ser marcadas pela, assim sentida, ausência de pai. Como primeira consequência, negativa, para Jacó, o défice de pai valeu-lhe o dobro de mãe. Demasiado de mãe e pouco de pai vão fazer de Jacó um homem inseguro e mal na sua própria pele. Jacó é habitado por um único desejo: apoderar-se do que é do irmão. Só lhe faltava o que era do outro A bênção era o seu grande desejo porque a falta da bênção era o seu grande problema! Não se sentindo amado, reconhecido, confirmado na sua identidade de homem pelo único que o poderia fazer, o pai, Jacó sente-se desabençoado. Direito de primogenitura, bênção e tudo o resto, só tinham valor para ele porque representavam o reconhecimento do seu valor e dignidade pelo pai. Podemos perguntar, porque foi Jacó tão longe na sua ousadia? Na realidade não foi apenas uma ousadia ou brincadeira de mau gosto, foi o resultado duma ânsia, dum desejo não satisfeito, sufocado ao longo da infância e da juventude, que não podia mais ser contido. Era o momento esperado e desejado durante anos para obter a única coisa que para ele fazia sentido: A bênção! Jacó e a bênção, a busca incansável Jacó vai toda a vida procurar essa bênção e não a vai encontrar. Nas suas peregrinações em casa de Labão é vítima de engano e exploração. Há quem veja nos enganos de Labão a punição do que Jacó tinha feito ao irmão. Numa leitura moral do texto, talvez; mas numa leitura psicológica podemos dizer que Jacó recebe, sobretudo, o quinhão da sua insegurança e baixa auto-estima, forjadas pela rejeição paterna. Os inseguros são presa fácil para os aproveitadores de todos os géneros, tempos e lugares. É quando se sente fraqueza que se abusa. Ainda hoje são os jovens inseguros que são vítimas dos traficantes, dos gurus, dos espertos O vau do Jaboque e a bênção Vinte anos depois, Jacó regressa a casa, e a sua angústia no Vau do Jaboque, é bem a prova de que ainda não se sente abençoado. Não te deixarei partir se me não abençoares! diz para o anjo. A resposta do Anjo é também sintomática da necessidade de Jacó: O teu nome não se dirá mais Jacó mas Israel, Lutador de Deus. Sim lutaste com os homens e com Deus e venceste. 2

Esta bênção dá, finalmente, a Jacó o reconhecimento, a confirmação do valor e da dignidade que tinha buscado toda a sua vida. Ser chamado Vencedor com Deus, é muito diferente de ser chamado Enganador A partir desse momento Jacó é um homem calmo, sossegado, reconciliado consigo mesmo e com o irmão, é um homem abençoado. A importância do papel do pai Pergunto aos pais de hoje: sentem-se os vossos filhos abençoados? Não pergunto se amam os vossos filhos? Mas, se eles se sentem abençoados? O papel do pai, durante séculos e em quase todas as culturas, foi trabalhar para alimentar os filhos e para os defender de agressões externas. A maioria dos pais identificou-se bem de mais com esse papel e muitos, ainda hoje, pensam que cumprem o seu dever de pais ganhando para o suprimento das necessidades da família. São, muitas vezes, ausentes na educação dos filhos e insuficientes na relação com eles. Existe, segundo alguns autores, um DÉFICE de pai no desenvolvimento dos indivíduos. Esta ausência pode ser física morte, divórcio, viagens de negócios Mas pode ser também ausência de interesse, de afecto, de envolvimento, de limites, em suma, ausência duma verdadeira relação; ou então presença negativa, quando violenta, tirânica ou alcoólica As mães, ainda que reclamem e, algumas, até possam sentir-se vítimas, por terem que assumir, com frequência, os dois papéis, lá no fundo não é assim tão desagradável que os filhos as prefiram, dependam delas, não possam passar sem elas, etc. Mas quem paga a factura pela ausência do pai não é a mãe, são os filhos! O pai e o processo de identificação Identificação sexual: A identificação é um processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade ou um atributo de outro e se transforma total ou parcialmente a partir desse modelo. Para poder ser idêntico a si próprio é necessário ser primeiro idêntico a alguém de outro, o ser humano estrutura-se incorporando, imitando, alguém. A primeira identificação de toda a criança é efectuada sobre a mãe. Ora para tornar-se homem, o rapaz deve passar desta primeira identificação com a mãe à identificação com o pai. Esta transferência de identificação é complexa e deve ser ajudada e facilitada por uma presença positiva e adequada do pai Ao duo mãe - filho, deve substituir-se o trio pai mãe filho. Se o pai está ausente esta transferência de identificação faz-se dificilmente e pode mesmo não se fazer. A ausência de pai implica, automaticamente, uma influencia acrescida de mãe tornando-a demasiado forte como modelo. O pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe. Ainda antes de ser o pai, ele é o não mãe. Ele, e só ele, provoca a diferença. O pai é a alternativa que permite a diferenciação e separação da mãe Quando o pai esteve, significativamente, ausente ou teve uma presença muito negativa, o filho terá dificuldade na sua identificação de homem. Estudos têm revelado que a tendência homossexual está, frequentemente, relacionada com a ausência de pai. A nível 3

da identidade masculina o homem seria, segundo alguns, um colosso com pés de barro precisamente pela ausência ou não adequação do modelo paternal. A nível social o pai facilita a passagem do mundo da família ao da Sociedade. As crianças bem paternadas sentem-se mais seguras nos estudos, na escolha de uma carreira ou na tomada de iniciativas pessoais. Ter sido amado de maneira incondicional pelo pai, significa que este se mostrou atento, se interessou realmente pelos projectos dos filhos, ao mesmo tempo que teve o cuidado de colocar certos limites, criando assim um enquadramento seguro, indispensável a um desenvolvimento harmonioso. Identificação espiritual Também no que diz respeito à identificação espiritual a presença do pai é muito importante. Para que os filhos tenham uma identidade espiritual forte necessitam de se ter identificado espiritualmente com os pais, sobretudo aqueles cujos pais são crentes. O pai é o membro da família que faz a ponte entre o privado (família) e o público (sociedade). No momento em que os filhos devem assumir socialmente a fé, muitos encontram aí um problema. Particularmente os rapazes. Estes abandonam mais facilmente a igreja do que as raparigas, para estas a religião é sempre mais íntima e pessoal do que social. Para o rapaz o aspecto social, o seu lugar de homem no meio dos outros, é muito importante e, nesse momento, um modelo masculino forte espiritualmente, será uma força positiva no assumir da diferença que a fé implica. O pai adventista Face ao exposto, torna-se evidente que, para termos jovens espiritualmente assumidos são necessários pais que o sejam também. São necessários pais que construam relacionamentos profundos e afectuosos com os filhos, que tomem iniciativas espirituais, a nível do culto familiar, da partilha espiritual, da transmissão de valores e do sentido da vida, enfim que sejam os líderes espirituais das suas famílias e que não deixem essa tarefa só às mães, para que, na altura em que os filhos têm que posicionarse face à fé e às exigências da sociedade, o modelo de que disponham seja forte e transmita convicção. Diz E. White: O dever do pai para com os filhos não pode ser transferido à mãe. Se ela cumpre o seu próprio dever tem tarefa suficiente para levar. Unicamente trabalhando unidos podem, pai e mãe, dar desempenho à tarefa que Deus lhes pôs nas mãos. Lar Adv. Pág. 216 Deus, um modelo de Pai Os pais de hoje, que também sofreram de défice de pai, precisam de fortalecer a sua identidade de pais em Deus o Pai (talvez seja por conhecer antecipadamente este défice histórico do pai que Deus se apresente na Sua Palavra como Pai e não como mãe). Para isso precisam de estabelecer uma relação significativa com Ele, para interiorizar aquilo que significa ser pai. Foi em Deus que Jacó encontrou a bênção que fizera defeito ao longo de mais de metade da sua vida. Foi Deus quem o abençoou dando-lhe um novo nome, positivo e valorizante com o qual ele poude identificar-se, libertar-se e atingir a sua verdadeira estatura humana. O mesmo Deus está, hoje, pronto a conceder a bênção a todos os pais que dela necessitem, para poderem abençoar os 4

seus filhos a fim de que estes sejam homens, e mulheres, fortes na VIDA, no AMOR e na FÈ. Bibliografia E. White, o Lar adventista Guy Corneau, PÈRE MANQUANT, FILS MANQUÉ. Les Éditions de L Homme, 1989 Leonor Falé Balancho, SER PAI, HOJE. Editorial Presença, 2003 Didier Dumas, SANS PÉRE ET SANS PAROLE, Hachette Littératures, 1999 5