Patrimônio em questão Nova lei? Não, não estou sabendo. Ou: Ah, sim, estou sabendo por alto. Foi assim que alguns dos especialistas consultados pelo Vida & Arte responderam quando o assunto era a nova lei municipal de proteção ao patrimônio histórico cultural e natural de Fortaleza. Em vigor desde o último dia 1 de abril, a Lei n 9.347/2008 normatiza os mecanismos de proteção aos bens de natureza material e imaterial, móveis e imóveis, públicos e privados, mas ainda não chegou ao conhecimento nem mesmo de pessoas diretamente ligadas ao tema. Carece de divulgação. Esta é a terceira lei municipal de Proteção Patrimonial do Município de Fortaleza. Antes vigoravam as leis n 8.023, de 20 de junho de 1997, e n 9.060, de 5 de dezembro de 2005. A nova lei traz, entre outras mudanças, a responsabilidade de proteção atribuída ao próprio cidadão, a criação de um conselho municipal de proteção e a inclusão de procedimentos de registro do patrimônio imaterial, que antes não era contemplado. Além do cuidado com os bens culturais imateriais, a lei regulamenta como deverão ser feitos a partir de agora os processos de tombamento dos bens materiais que serão protegidos pela Prefeitura de Fortaleza. Pelo texto, será formado o Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico-Cultural (COMPHIC) com 17 representantes de entidades representativas da sociedade, entre elas o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-CE), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE), a Associação dos Geógrafos do Brasil (AGB-CE), a Associação Nacional dos Profissionais Universitários de História (Anpuh-CE), além do governo estadual, por meio das secretarias de Cultura (Secult) e de Turismo (Setur). Esse conselho irá deliberar sobre o
tombamento e o registro de bens culturais, além de formular diretrizes para a política de preservação e valorização dos bens culturais. Mas o que muda? Segundo o arquiteto e membro do Conselho Estadual do Patrimônio, Domingos Cruz Linheiro, a nova lei representa um avanço na proteção do patrimônio histórico cultural de Fortaleza, já que a legislação anterior não tinha eficácia alguma. Essa lei agora é melhor e mais completa que a anterior (n 9.060, de 5 de dezembro de 2005) que foi revogada. Ela (lei anterior) era muito falha porque não previa a existência de um conselho. Já a anterior a essa (n 8.023 de 20 de junho de 1997) padecia de um pecado, ligado à administração. Ela previa o tombamento através de reuniões do conselho, entretanto, esse conselho jamais se reuniu, observa. A lei passou sem que houvesse nenhum tombamento, completa. Desta vez, segundo o arquiteto, o Conselho foi ampliado (com outras sete entidades) e deve representar melhor os anseios da população. Agora, por exemplo, os últimos tombamentos foram feitos através de decreto municipal. Não houve a participação da sociedade. Agora é diferente a sociedade está representada através desse vários segmentos, aponta. Para o arquiteto, a nova lei só será eficaz com a realização do Conselho. A responsabilidade de tombar um bem se transfere para toda a sociedade que está representada. É uma forma mais democrática e é assim que funciona no âmbito federal, com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), onde existe um conselho consultivo. Para o arquiteto e presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Ceará (IAB-CE), Antônio Custódio dos Santos Neto, a lei avança quando prevê os mecanismos de proteção ao patrimônio histórico cultural, através do apontamento dos procedimentos administrativos. Se a lei servirá na prática, para o arquiteto, vai depender da determinação política da Prefeitura. Na própria questão da comunicação com a
população. Não só do ponto de vista coercitivo, com a fiscalização, mas na divulgação desses bens tombados. O município pode usar a rede de escola para colocar o patrimônio dentro do ensino da história e trabalhar programas de visitação continuada. Você daria um grande salto. Os efeitos são de médio e longo prazo, diz. A prefeitura agora licitou a reforma do Paço Municipal. É um bem que tombado que poderia ser motivo de visitação das escolas, sugere. Para o presidente da Associação Nacional dos Professores Universitários de História no Ceará (Anpuh-CE), Alênio Carlos Noronha Alencar, a nova lei traz uma série de ganhos. Entre eles, a inclusão da proteção aos bens imateriais, a diversificação do Conselho (com a inclusão de entidades ligadas ao meio ambiente e a geografia), a preocupação com a visibilidade do bem tombado (poluição visual), a cooperação técnica de organismos públicos e privados e o acesso da sociedade aos processos de tombamento. A lei é importante para as políticas de preservação. Mas não basta ter uma lei. Tem que ter projeto. Porque a lei não vai dar conta da realidade, os projetos sim, vão lá e terão uma ação direta, acredita. Segundo o historiador, é fundamental que o Município planeje propostas de usos dos bens tombados. Senão, segundo ele, corre-se o risco de que imóveis protegidos por lei caiam num processo de engessamento. Ou seja, não tenham vitalidade para a população nem retorno financeiro para o proprietário. A lei é um ponto de partida, não de chegada. Aqui vão nascer as ações que o município está pleiteando. Isso é o grande ganho dessa lei, diz. Segundo o advogado e presidente da Comissão de Cultura da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), Ricardo Bacelar, com normas mais específicas, a implementação das políticas públicas de preservação e difusão do patrimônio cultural será mais efetiva. Contudo, uma nova lei não tem por si só o poder de transformar a postura dos agentes públicos e da comunidade em geral diante da necessidade de se reconhecer
e proteger o Patrimônio Cultural. É preciso ensinar isso às crianças, diz. Em entrevista por e-mail, o advogado apontou uma série de problemas técnicos de ordem jurídica na nova lei (veja quadro). Entre eles, há outras formas de proteção do Patrimônio Cultural, como a salvaguarda, inventários, registros, vigilância e a desapropriação que não foram previstos na nova norma. E ainda: na nova lei, o pedido de tombamento somente poderá ser feito por pessoas físicas ou pelo Município, não contemplando as pessoas jurídicas, associações, organizações não governamentais, empresas, ofendendo o Decreto-Lei Federal 25/37. Problemas Técnicos da Lei Municipal de Proteção ao Patrimônio Segundo o advogado e Presidente da Comissão de Cultura da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), Ricardo Bacelar, a lei n 9.347/2008, que normatiza os mecanismos de proteção ao patrimônio histórico-cultural e natural da cidade de Fortaleza, em vigor desde o último dia 1 de abril, apresenta problemas técnicos de ordem jurídica, dos quais faço uma crítica construtiva de alguns. São eles: As legislações mais recentes tratam do tema como Patrimônio Cultural, como na Constituição Federal de 1988, em detrimento da antiga denominação Patrimônio Histórico-Cultural. Os aspectos cognitivos, estéticos ou adjetivos previstos na lei não são requisitos objetivos. A Constituição Federal de 1988 trata unicamente de critérios de referência à identidade, ação e memória de determinados grupos formadores da sociedade. Há outras formas de proteção do Patrimônio Cultural, como a salvaguarda, inventários, registros, vigilância e a desapropriação que não foram previstos na nova norma. A competência pela preservação do Patrimônio Cultural é do Poder Público, com a ajuda do particular, como na CF de 1988 e não o contrário como na nova lei.
A Constituição Federal, em seu art. 7º, IV, veda a indexação em salários mínimos. Na nova lei, o pedido de tombamento somente poderá ser feito por pessoas físicas ou pelo Município, não contemplando as pessoas jurídicas, associações, organizações não governamentais, empresas, ofendendo o Decreto-Lei Federal 25/37. Não existe a prevalência da proteção do Município em relação aos tombamentos Estadual ou Federal com a nova norma sugere. Leva-se em consideração a relevância do bem enquanto Patrimônio Cultural para cada esfera da Federação. A lei deveria prever, e não o faz, que o tombamento deve ser cientificado, formalmente, ao Cartório da Zona Imobiliária a que pertence o imóvel, para averbação na matrícula. Impede-se, assim, que se compre um bem tombado sem o conhecimento prévio das restrições, na forma do Decreto-Lei Federal 25/37. Caso emblemático dessa falta de conhecimento, foi o Centro Artístico Cearense, na Duque de Caxias, que foi tombado pelo município de Fortaleza e, pelo próprio município foi autorizada sua demolição e a construção de uma nova edificação, hoje uma loja comercial. Fonte: Jornal O Povo