TEORIAS DO ESPETÁCULO E DA RECEPÇÃO



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Transcrição:

TAPETE... O VOADOR TEORIAS DO ESPETÁCULO E DA RECEPÇÃO Marcus Mota * Universidade de Brasília-UnB marcusmota@unb.br Robson Corrêa de Camargo ** Universidade Federal de Goiás UFG robson.correa.camargo@gmail.com * Professor de Teoria e História do Teatro na Universidade de Brasília. Coordena o Laboratório de Dramaturgia e Imaginação Dramática. Autor de A dramaturgia Musical de Ésquilo [Brasília: Editora Universidade de Brasília,2008]. Dramaturgo, libretista e cancionista. Website www.marcusmota.com.br. ** Encenador e Crítico Teatral. Professor Adjunto do Curso de Teatro da Universidade Federal de Goiás, UFG. Coordena a Rede Goiana de Pesquisa em Performances Culturais, financiamentos CNPq, FAPEG, CAPES, FUNAPE. Web site http://ufg.academia.edu/robsoncamargo/papers

2 Yoshi Oida (1933), ator japonês da arte do Noh, que integra, desde 1968, a companhia de Peter Brook, descreve as experiências na África da sua trupe, procurando a comunicação da arte teatral numa experiência radical. Improvisavam sobre um tapete real para pessoas de outra cultura e outra língua, e, principalmente, para aqueles que não possuíam nenhuma experiência prévia teatral, durante a época da preparação do espetáculo A Conferência dos Pássaros (1970). Cem dias de África. 1 Nelas, entre outras coisas, estão preocupados em construir o Teatro do Invisível Tornado-Visível, construir em cena o que, como ele descreve, está no espaço entre o dedo do ator que aponta a lua e a lua propriamente dita. Para ele esta é a principal tarefa de um artista de teatro, construir este espaço ausente. Aqui nós vamos viajar também em um tapete, outro tapete, não para improvisar, mas para conhecer algumas reflexões sobre o teatro e perceber alguns dos espaços que existem entre o dedo e a lua. Este é o segundo dossiê do GT Teorias do Espetáculo e da Recepção, publicado pela Fênix Revista de História e Estudos Culturais. O grupo de trabalho pertence à Associação Brasileira de Pesquisadores de Artes Cênicas (ABRACE). Fundado em 2004 realizará em novembro de 2010 seu quinto encontro. 2 Os seus primeiros trabalhos foram apresentados no congresso da ABRACE, no Rio de Janeiro, em 2006 e foram publicados, alguns, em forma expandida, na Fênix Revista de História e Estudos Culturais (vol. 3 ano III NÚMERO 4 - out/dez 2006). Estes poderão ser acessados no dossiê /Teorias do Espetáculo e da Recepção (http://www.revistafenix.pro.br/artigos9.php) desta revista. O GT Teorias do Espetáculo e da Recepção é um agrupamento multidisciplinar de pesquisadores de várias universidades do país e reúne artistas, diretores e analistas de formações diferenciadas e formados nas áreas de antropologia, etnomusicologia, cinema, crítica cultural, história cultural, literatura, música, dança, pedagogia, teatro, performance... Local privilegiado de convergência, intersecção e 1 2 Oida, Yoshi. Um Ator Errante. São Paulo, Beca, 1999. http://www.portalabrace.org/index.php?option=com_content&view=article&id=12:gt-teorias-doespetaculo-e-da-recepcao&catid=926:grupos-de-trabalho&itemid=115. Portal Abrace, site do GT Teorias do Espetáculo e da Recepção.

3 reflexão dos distintos olhares que atravessam o espetáculo, em suas múltiplas relações com a plateia, nas distintas configurações culturais. Yoshi Oida. Retrado de Mamoru Sakamoto O GT Teorias do Espetáculo e da Recepção procura fomentar a prática e a troca interdisciplinar entre seus membros e ampliar as diferentes percepções do espetáculo, refletindo sobre a sua constituição a partir de novos recortes. Novas contribuições, de qualquer campo de estudo, que aprofundem, interliguem ou apenas pretendam iniciar e discutir distintos pontos de vista, na malha desta diversidade, serão sempre bem-vindas. Duas importantes atividades realizadas por integrantes do GT, no primeiro semestre de 2010 foram o Encontro Nacional de Antropologia da Performance, (17 a 19 de março de 2010 MAC SP) organizado pelo Napedra (coordenação John Cowart Dawsey), o encontro regional da ANPUH MG em julho (Uberlândia) e o Simpósio Internacional Performances Culturais, em Goiania, 29 a 30 de julho. Neste mês de novembro de 2010 os membros do GT estarão envolvidos em duas atividades, O Congresso da ABRACE a ser realizado em São Paulo (UNESP), nos dias 9 a 12 de novembro de 2009, onde serão apresentados 34 trabalhos dentro do GT, e o V Simpósio Nacional de História Cultural da ANPUH, a ser realizado em Brasília entre os dias 8 a 12, que se proporá a discutir as Paisagens Subjetivas e Sociais. Todos locais privilegiados de discussão desta procura interdisciplinar de conhecimento do objeto artístico e cultural.

4 Este dossiê, com trabalhos apresentados nos anos de 2008/2009 no GT Teorias do Espetáculo e da Recepção, traz os seguintes artigos: Primeiro uma abordagem instigante e polêmica de Marcus Mota, diretor teatral e professor da UNB. Em seu artigo Por uma abordagem não agonística das teorias teatrais: o caso Meyerhold, apresenta um princípio e uma proposta metodologica a ser trabalhada nos estudos da arte. Mota, partindo de alguns estudos de Meyerhold, apresenta a necessidade da não generalização dos procedimentos na análise de qualquer obra ou artista, a partir de alguns dos escritos ou época do artista em tela. Questiona Mota a tentativa de formação de um corpus único coerente ou de se procurar uma plataforma lógica no trabalho de determinado artista ou em sua produção artística, propõe que se deva ir atrás do diverso e do contraditório nas práticas e teorias artísticas, pois assim é o seu objeto. A prática artística é histórica e fundamenta-se em superações e contradições, e como tal deve ser entendida a teoria por ela emanada. Não como plataforma de ou para determinadas tendências. A análise relacional da prática artística e da teoria que sempre a acompanha deve ser realizada em constante diálogo, nas determinações dos paradoxos e contradições. Não na acomodada na certeza de suas impossíveis coerências, mas apoiada num diálogo com a obra em seus diferentes tempos e incoerências. O segundo artigo que temos o prazer de apresentar é a importante discussão de A mediação teatral como experiência estético-educativa, de Ney Wendell, aluno do programa de pós-graduação em Artes Cênicas da UFBA. No terreno da recepção aborda o diálogo entre a obra e o espectador, discutindo esta mediação teatral como possibilidade estética formadora, em aspectos desta questão como instrumento educativo. Debruça-se em experiências desenvolvidas pelo projeto e espetáculo teatral do mesmo nome Cuida Bem de Mim. O espetáculo realizou diversas ações artísticopedagógicas nas escolas públicas de Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Esta análise se concentra nas atividades realizadas no período de 2002 a 2007 em 14 escolas públicas. O terceiro artigo se dirige ao Teatro de rua, recepção e identidades: Oigalê, tchê! da mestre e professora do curso de licenciatura em teatro da Universidade Federal de Pelotas. Taís Ferreira trata de interessantes questões relativas à recepção do teatro de rua a partir de experiências da Cooperativa de Artistas Teatrais Oigalê (RS). Para tanto, discutem-se técnicas e estratégias de encenação voltadas à recepção destes espetáculos.

5 O quarto artigo O rei Stanislavski no castelo da pós-modernidade. Traduções, traições, omissões e opções de Michel Mauch, Adriana Fernandes e Robson Corrêa de Camargo, fruto das pesquisas do Grupo Máskara de Pesquisas do Teatro, Dança e Performance. Discorre sobre imprecisões no entendimento do trabalho do diretor russo, a partir de imperfeições nas traduções de seus livros no ocidente, principalmente nas reflexões sobre o trabalho do ator ao enfrentar as experiências de vanguarda em seu tempo. Um artigo necessário dentro das discussões das práticas teatrais pós contemporâneas. O quinto texto se dedica a análise de Dalcroze, a música e o teatro. Fundamentos e práticas para o ator compositor da professora de voz da Universidade Federal da Paraíba Adriana Fernandes. Este artigo cruza as frutíferas experiências do bigodudo Dalcroze e de sua rítmica sensória, importante nome que influenciará as práticas artísticas no início do século XX, inclusive as de Stanislavski e Appia. Aplica e discute a prática de Dalcroze na construção do trabalho vocal e corporal do ator, com sua conhecida compreensão da música pelo sentir corporal. Finalizando com a interessante descrição da experiência de Eugenio Barba e Julia Varley no texto O Tapete Voador numa oficina sobre o trabalho do ator, acontecida em Goiânia no ano de 2008. Um texto fundamental para a reflexão e prática do artista do palco, que irá incomodar alguns pensadores acomodados. O último texto a ser apresentado é Neva Leona Boyd e os Jogos Teatrais: Polifonias do teatro improvisacional de Viola Spolin, de Robson Corrêa de Camargo (UFG), fruto do trabalho de pesquisa realizado em Chicago e Urbana-Champaign sobre os paradigmas do trabalho de Viola Spolin e sua fundamental relação com a prática de Neva Boyd, mestre e professora de Spolin, junto aos bairros pobres de imigrantes nos EUA. Escolha qualquer um, comece a ler, e faça seus questionamentos.