TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 19ª REGIÃO VARA DO TRABALHO DE SÃO MIGUEL DOS CAMPOS (AL) SENTENÇA DE CONHECIMENTO - PROCESSO N. 0000986-60.2010.5.19.0062 RELATÓRIO. MANOEL AMARO DOS SANTOS, devidamente qualificado na petição inicial, ajuizou reclamação trabalhista em face de USINA CAETÉ S/A, pleiteando os pedidos constantes da inicial, fls. 02/03. Alega, em síntese, que a reclamada lhe deve horas extras, horas de percurso, indenização pela não concessão de intervalo durante a jornada, indenização por danos morais. Pede, ainda, a declaração de nulidade da demissão e reintegração no emprego. Com a petição inicial foram coligidos documentos, inclusive procuração, fls. 04/17. Na audiência designada, fls. 21/22, presentes as partes, foi apresentada defesa pela reclamada, fls. 23/31, contestando, no mérito, todas as alegações da inicial. Com a resposta, juntou documentos, fls. 32/82. Alçada fixada conforme a inicial. O advogado do reclamante manifestou-se sobre a defesa e os documentos, fls. 84/86, juntando novos documentos, fls. 87/88. Na assentada em prosseguimento, fls. 89/90, prosseguindo na instrução do feito, o juiz que presidiu a Sessão interrogou a preposta da reclamada, determinando, em seguida, a realização de perícia médica. A reclamada manifestou-se sobre o documento juntado pelo reclamante, fls. 91, indicando assistente técnico e quesitos, fls. 92/93. O autor apresentou quesitos, fls. 94/95. Laudo pericial, fls. 97/102. Manifestação do autor, fls. 103/111. Manifestação do perito, fls. 112/115. Na assentada seguinte, ata às fls. 116, sem outras provas a instrução foi encerrada. As razões finais foram reiterativas pela reclamada, prejudicadas as razões finais do reclamante, bem como a conciliação. Autos conclusos para julgamento. É o relatório. FUNDAMENTAÇÃO. 1. JORNADA DE TRABALHO. HORAS EXTRAS. HORAS IN ITINERE. INDENIZAÇÃO DO INTERVALO INTRAJORNADA. PROCEDÊNCIA PARCIAL. Alega o reclamante que apanhava o transporte fornecido pela reclamada às 05h00min, iniciando o serviço as 06h00min até as 17h00min, com trinta minutos de intervalo, retornando para casa chegando às 18h00min. Aduz que as fazendas em que trabalhou eram de difícil acesso e não servidas por transporte público regular. Sustenta que as horas extras e horas in itinere não eram corretamente pagas e que não usufruía do intervalo intrajornada. A reclamada nega os fatos articulados na petição inicial, sustentando que os horários de trabalho estão registrados nos controles de horário, com remuneração das 09/12/2010 16:26:06 Sistema de Acompanhamento de Processos em 1ª Instância pág. 1 / 5
horas extras nos períodos em que trabalhou por unidade tempo e não por produção, e que o reclamante usufruía uma hora de intervalo durante a jornada. Obtempera que havia transporte regular para os locais de trabalho. Pois bem. A reclamada juntou os controles de horário e recibos de salário referente ao primeiro contrato de trabalho, de 12 de setembro de 2007 a 2 de março de 2009, nada coligindo em relação ao segundo contrato, de 17 de setembro de 2009 a 23 de fevereiro de 2010. O autor impugnou os controles de jornada referentes ao primeiro contrato ao argumento de que retratam horários invariáveis, aduzindo a confissão em relação à jornada do segundo contrato. Pois bem. Quanto ao primeiro contrato examinei os controles de ponto e não constatei a invariabilidade das anotações. Não houve produção de prova testemunhal, pelo que reconheço a idoneidade dos controles de ponto do primeiro contrato. A ausência de provas que contraponham as informações retratadas nos controles de ponto, inclusive quanto a concessão de intervalo intrajornada, impedem o acolhimento do pedido respectivo quanto ao primeiro contrato, cujos cartões detalham declaração do trabalhador de usufruição de intervalo de uma hora. Destarte, não há horas extras e horas de intervalo a serem deferidas referentes ao primeiro contrato de trabalho. No tocante ao segundo contrato, sucumbiu à reclamada quanto ao encargo que lhe competia, quanto aos horários de trabalho e o regime remuneratório de produção, pois não juntou aos autos os controles de ponto e recibos de salário do período em referência. No caso, deve prevalecer a tese da inicial. Reconheço, formalmente, que no período de 17 de setembro de 2009 a 23 de fevereiro de 2010, trabalhou o reclamante no horário das 06h00min às 17h00min, com trinta minutos de intervalo, de segunda a sábado. Defiro o equivalente a 15 horas extras por semana, com adicional de 50% sobre o valor da hora normal e repercussão nas parcelas de aviso prévio, férias com um terço, décimo terceiro e FGTS mais 40%. Defiro indenização pela não concessão do intervalo intrajornada no equivalente a 01 hora extra por dia (hora acrescida do adicional de 50%), observando a jornada reconhecida de segunda à sábado, limitada ao segundo contrato de trabalho. Não há provas de que o local de trabalho do autor era de difícil acesso e não servido por transporte público regular. Indefiro o pedido de horas in itinere nos dois contratos de trabalho. 2. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. NULIDADE DA DEMISSÃO. REINTEGRAÇÃO. PROCEDÊNCIA PARCIAL. O reclamante pleiteia indenização por danos morais advindos de transtornos psicológicos e de natureza alimentar oriundos da demissão indevida e pela piora na doença adquirida. Para tanto sustenta que trabalhava no corte de cana queimada adquirindo tuberculose pulmonar agravada no decorrer do segundo contrato. Obtempera a nulidade da demissão, postulando a reintegração no emprego. A reclamada sustenta que o reclamante foi demitido sem apresentar patologia e em boas condições de saúde, e que o exame que indicou a doença é datado de 18 de março de 09/12/2010 16:26:06 Sistema de Acompanhamento de Processos em 1ª Instância pág. 2 / 5
2010, ou seja, após a dispensa, não existindo responsabilidade da reclamada. Pois bem. O juízo determinou a realização de perícia médica que atestou tratar-se a tuberculose de doença causada por microorganismo, cujo contágio se dá pelo ar contaminado por outro indivíduo portador do microorganismo. Aduziu o senhor perito que o ambiente de trabalho do reclamante, exposto ao sol, não era propício à transmissão da doença e que a provável causa da contaminação do reclamante foi, de acordo com narrativa dele, um vizinho que apresentou a doença. Concluiu o senhor perito que não há nexo causal entre o ambiente de trabalho e os serviços prestados e a patologia adquirida e que o reclamante submeteu-se a tratamento e está curado, inexistindo restrição ao trabalho. A reclamada não juntou atestado demissional referente ao segundo contrato de trabalho. O perito atestou em seu laudo que o reclamante foi demitido já contaminado pela tuberculose. De fato, nesse contexto, o reclamante não poderia ter sido demitido, mas, apresentando a doença, ser encaminhado ao INSS. Entretanto, não posso descurar que o reclamante hoje está curado e sem restrições ao trabalho. Tal fato não pode ser desconsiderado (art. 462, CPC). Não há se falar em doença ocupacional a assegurar eventual período de estabilidade, muito menos o estado de saúde atual do reclamante demande tratamento a justificar eventual concessão de benefício previdenciário. Logo, mesmo que o juízo declarasse nula a demissão e determinasse a reintegração do reclamante, nada impediria a empregadora, dentro do seu direito potestativo, de incontinenti demitir o trabalhador. De sorte que considerados os fatos de que o reclamante está curado e sem restrição ao trabalho, consoante laudo pericial médico, não há fundamento para o acolhimento da pretensão de declaração de nulidade da demissão e conseqüente reintegração ao emprego, situação de fato, repito, de apreensão neste momento de prolação de sentença, pedidos que julgo, portanto, improcedentes. Quanto ao pedido de indenização por danos morais causados pelos transtornos advindos da demissão indevida, tenho por acolhê-lo, pois calcado no laudo pericial de que o reclamante foi demitido doente e, portanto, não deveria o contrato de trabalho ser rescindido naquela oportunidade, mas sim, após o encaminhamento do trabalhador ao INSS e, em caso de concessão do benefício previdenciário, após a cessação do mesmo, não havendo dúvidas do prejuízo suportado pelo obreiro, até porque ato eivado de ilegalidade. O fato de a reclamada não ter juntado o exame demissional, obrigatório, é emblemático. Presentes os elementos que aparelham o pedido indenizatório, quais sejam, o ato ilegal da reclamada em rescindir o contrato de trabalho de empregado doente, o nexo causal e o prejuízo, evidenciados pelos transtornos causados ao obreiro por ter sido demitido quando doente. Considerados os elementos dos autos, fixo a indenização em R$ 2.000,00 (dois mil reais), observadas a potencialidade do fato e o caráter pedagógico da medida. 3. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. Honorários advocatícios não são devidos em razão do não preenchimento das condições 09/12/2010 16:26:06 Sistema de Acompanhamento de Processos em 1ª Instância pág. 3 / 5
legais, a teor das Súmulas 219 e 329 do Colendo TST ("k"). 4. BENEFÍCIOS DA JUSTIÇA GRATUITA. Defiro ao autor os benefícios da justiça gratuita ("j"). 5. HONORÁRIOS PERICIAIS. A reclamada sucumbiu no pedido objeto da perícia, devendo arcar com os honorários periciais que arbitro em R$ 1.000,00 (um mil reais). DISPOSITIVO. Ante o exposto e considerando o mais que dos autos consta, julgo PROCEDENTES EM PARTE os pedidos formulados na inicial, para condenar a reclamada USINA CAETÉ S.A. a pagar ao reclamante MANOEL AMARO DOS SANTOS, com juros e correção monetária na forma da Súmula 200 do TST, a importância a ser apurada em regular liquidação de sentença, por simples cálculos, referente às seguintes parcelas: a) equivalente a 15 horas extras por semana, com adicional de 50% sobre o valor da hora normal e repercussão nas parcelas de aviso prévio, férias com um terço, décimo terceiro e FGTS mais 40%, no período de 17 de setembro de 2009 a 23 de fevereiro de 2010; b) indenização pela não concessão do intervalo intrajornada no equivalente a 01 hora extra por dia (hora acrescida do adicional de 50%), observando a jornada reconhecida de segunda à sábado no período de 17 de setembro de 2009 a 23 de fevereiro de 2010; c) indenização por danos morais de R$ 2.000,00 (dois mil reais). Honorários periciais na forma dos fundamentos. Tudo nos termos da fundamentação que passa a integrar o presente dispositivo como se aqui estivesse fielmente transcrito. Custas pela reclamada no valor de R$ 70,00, calculadas sobre o valor de R$ 3.500,00, arbitrado à condenação. Em cumprimento ao disposto no artigo 832, 3º da CLT, declara-se que possui natureza jurídica salarial e integra o salário de contribuição para efeitos de incidências previdenciárias, as verbas de: horas extras e repercussões no aviso prévio e décimo terceiro. Contribuições previdenciárias incidentes de responsabilidade de ambas as partes, e quanto às respectivas deduções tributárias, observar o contido na Súmula no. 368 do Colendo TST. Partes cientes desta decisão, na forma do Enunciado 197 do TST. São Miguel dos Campos (AL), 10 de dezembro de 2010. E para constar, foi lavrada a presente ata, que vai assinada na forma da lei. 09/12/2010 16:26:06 Sistema de Acompanhamento de Processos em 1ª Instância pág. 4 / 5
VALTER SOUZA PUGLIESI - Juiz(a) do Trabalho SERGIO LUIS LISBOA CALHEIROS- Diretor(a) de Secretaria 09/12/2010 16:26:06 Sistema de Acompanhamento de Processos em 1ª Instância pág. 5 / 5