O CONSENTIMENTO DO OFENDIDO



Documentos relacionados
TEORIAS DA CONDUTA DIREITO PENAL. Cléber Masson + Rogério Sanches + Rogério Greco

BuscaLegis.ccj.ufsc.br

FATO TÍPICO CONDUTA. A conduta é o primeiro elemento integrante do fato típico.

PONTO 1: Concurso de Crimes PONTO 2: Concurso Material PONTO 3: Concurso Formal ou Ideal PONTO 4: Crime Continuado PONTO 5: PONTO 6: PONTO 7:


TEMA: CONCURSO DE CRIMES

FATO TÍPICO PROFESSOR: LEONARDO DE MORAES

LEGÍTIMA DEFESA CONTRA CONDUTAS INJUSTAS DE ADOLESCENTES: (IM)POSSIBILIDADE DIANTE DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL?

TESTE RÁPIDO DIREITO PENAL CARGO TÉCNICO LEGISLATIVO

PONTO 1: Teoria da Tipicidade PONTO 2: Espécies de Tipo PONTO 3: Elementos do Tipo PONTO 4: Dolo PONTO 5: Culpa 1. TEORIA DA TIPICIDADE

Classificação da pessoa jurídica quanto à estrutura interna:

Inexigibilidade de conduta diversa e exclusão da culpabilidade penal

RESPONSABILIDADE DOS ATORES POLÍTICOS E PRIVADOS

Parte I - Conceitos Fundamentais, 1

Exercícios de fixação

CULPABILIDADE RESUMO


Prova de Direito Civil Comentada Banca FUNDATEC

EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE

O MENSALÃO E A PERDA DE MANDATO ELETIVO

DIREITO PENAL DO TRABALHO

Questões Potenciais de Prova Direito Penal Emerson Castelo Branco

L G E ISL S A L ÇÃO O ES E P S EC E IAL 1ª ª-

VI Exame OAB 2ª FASE Padrão de correção Direito Penal

CÓDIGO PENAL: PARTE ESPECIAL

CRIME DOLOSO E CRIME CULPOSO PROFESSOR: LEONARDO DE MORAES

Tema DC - 01 INTRODUÇÃO DO ESTUDO DO DIREITO CONSTITUCIONAL RECORDANDO CONCEITOS

ASPECTOS DA DESAPROPRIAÇÃO POR NECESSIDADE OU UTILIDADE PÚBLICA E POR INTERESSE SOCIAL.

PONTO 1: Conduta PONTO 2: Resultado PONTO 3: Nexo Causal PONTO 4: Tipicidade 1. CONDUTA CAUSALISMO ou NATURALÍSTICA Franz Von Liszt

LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA

A ESCOLA DO SERVIÇO PÚBLICO

PRINCÍPIO DA TIPICIDADE CONGLOBANTE E A VIOLAÇÃO DE DIREITO AUTORAL: INAPLICABILIDADE

Embriaguez e Responsabilidade Penal

Do Dano. Do Dano. Artigo 163 CP ( Dano Simples) Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.

Responsabilidade Civil

Interpretação do art. 966 do novo Código Civil

BuscaLegis.ccj.ufsc.Br

A Responsabilidade civil objetiva no Código Civil Brasileiro: Teoria do risco criado, prevista no parágrafo único do artigo 927

PROFESSORES: Selma Santana, Gamil Föppel, Thaís Bandeira e Fábio Roque SEMESTRE DE ESTUDO: 2º Semestre

PROCESSO PENAL COMNENTÁRIOS RECURSOS PREZADOS, SEGUEM OS COMENTÁRIOS E RAZÕES PARA RECURSOS DAS QUESTÕES DE PROCESSO PENAL.

Plano de Ensino de Disciplina

ORGANIZAÇÃO DE COMPUTADORES MÓDULO 1

CÓDIGO CRÉDITOS PERÍODO PRÉ-REQUISITO TURMA ANO INTRODUÇÃO

RESPONSABILIDADE CIVIL NO DIREITO AMBIENTAL

DISCIPLINA: Direito Penal III SEMESTRE DE ESTUDO: 4º Semestre. CH total: 72h

PROCEDIMENTOS DE AUDITORIA INTERNA

DIREITO PENAL II PROGRAMA. 3º Ano, Turma da Noite

Nota técnica nº 001/2010.

Eventos independentes

L G E ISL S A L ÇÃO O ES E P S EC E IAL 2ª ª-

A introdução da moeda nas transações comerciais foi uma inovação que revolucionou as relações econômicas.

OFENSIVIDADE PENAL E TIPICIDADE: uma perspectiva conglobada


FAZEMOS MONOGRAFIA PARA TODO BRASIL, QUALQUER TEMA! ENTRE EM CONTATO CONOSCO!

Daniela Portugal 1. "Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei" (Manoel Bandeira)

XI - REGIMES POLÍTICOS E DEMOCRACIA (DEMOCRÁTICO NÃO DEMOCRÁTICO)

CARTILHA SOBRE DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL APÓS A DECISÃO DO STF NO MANDADO DE INJUNÇÃO Nº 880 ORIENTAÇÕES DA ASSESSORIA JURIDICA DA FENASPS

CRIME = FATO TÍPICO + Antijurídico + Culpável

FALSIDADE DOCUMENTAL

COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA E DE CIDADANIA PROJETO DE LEI N o 652, DE (Apensos: PL s nºs 2.862/2011 e 2.880/2011)

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL XVII EXAME DE ORDEM UNIFICADO


ILANA FINKIELSZTEJN EILBERG

EMBARGOS DECLARATÓRIOS - EDCL.

O bem jurídico tutelado é a paz pública, a tranqüilidade social. Trata-se de crime de perigo abstrato ou presumido.

Direito Penal. Prof. Davi André Costa TEORIA GERAL DO CRIME

NEXO CAUSAL PROFESSOR: LEONARDO DE MORAES

Probabilidade e Estatística I Antonio Roque Aula 11 Probabilidade Elementar: Novos Conceitos

Índice. 5. A escola moderna alemã Outras escolas penais 65

Notas técnicas. Introdução

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA À DISTÂNCIA SILVA, Diva Souza UNIVALE GT-19: Educação Matemática

A política e os programas privados de desenvolvimento comunitário

A PROTEÇÃO INTEGRAL DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES VÍTIMAS.

COMENTÁRIOS DA PROVA DE DIREITO PENAL ANALISTA PROCESUAL MPU 2004

USUCAPIÃO FAMILIAR E A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE Amanda Nunes Stefaniak amanda-stefaniak@bol.com.br; Orientadora: Doutora Jeaneth Nunes Stefaniak

PARAMETROS DO ESTRITO CUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL

Resumo Aula-tema 05: Legislação empresarial especial

36) Levando-se em conta as regras da Lei 8.112/90, analise os itens abaixo, a respeito dos direitos e vantagens do servidor público federal:

Introdução ao direito penal. Aplicação da lei penal. Fato típico. Antijuridicidade. Culpabilidade. Concurso de pessoas.

A APLICAÇÃO DO REGIME DE CAIXA NA APURAÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA SOBRE AS VERBAS PAGAS A DESTEMPO, ACUMULADAMENTE, POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL

Ressarcimento de danos elétricos em equipamentos

CRIMES IMPRESCRITÍVEIS

OS SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA DO PROFESSOR 1. Entendemos que o professor é um profissional que detém saberes de variadas

IMPORTÂNCIA DAS CLASSIFICAÇÕES, EXCESSOS E ANÁLISE DO DOLO, DA CULPA E DO ERRO EM MATÉRIA JURÍDICO-CRIMINAL

A Teoria da Endogeneidade da Moeda:Horizontalistas X Estruturalistas

ATENA CURSOS EMÍLIA GRANDO COMPREENDENDO O FUNCIONAMENTO DO AEE NAS ESCOLAS. Passo Fundo

DO PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE TEMPERADA

ISS TRANSPORTE DE CANA-DE-AÇÚCAR

Transcrição:

O CONSENTIMENTO DO OFENDIDO Rodrigo Fragoso O consentimento do ofendido constitui objeto de intenso debate entre os penalistas que, divergindo quanto à sua posição na estrutura do delito, atribuem efeitos práticos distintos para o agente que atua com a consciência e em função do consentimento. Para a maioria dos autores, ele é causa de justificação, que exclui a antijuridicidade, salvo se funcionar como circunstância elementar do tipo, caso em que exclui a tipicidade. Nesse caso, o consentimento é também chamado, por HANS-HEINRICH JESCHECK, de acordo. Para uma minoria, da qual faz parte CLAUS ROXIN, o consentimento teria o efeito de excluir sempre a tipicidade. Examinemos, pois, em breve síntese, as razões dos distintos posicionamentos dentro da estrutura do delito. Historicamente o consentimento da vítima sempre provocou divergências entre as escolas do Direito. A Escola Histórica do Direito rechaçava por princípio a influência do consentimento sobre a punibilidade do agente porque entendia que o Direito Penal, como forma de manifestação histórica de ordem estatal, não podia estar sujeito à disposição do indivíduo. A Escola Sociológica do Direito, por seu turno, ao explicar o delito como lesão de interesses, chegava ao resultado contrário, de que o consentimento excluía absolutamente (também, por exemplo, em ataques à integridade física ou à vida) a infração jurídica de quem atua. Para a doutrina clássica, no entanto, não parece haver dúvida de que há 02 (duas) hipóteses bastante distintas de consentimento: (i) a primeira é aquela que resulta do consentimento dado sobre bens jurídicos disponíveis, ou seja, bens exclusivamente de interesse privado, que são tutelados pela lei penal somente se são atingidos contra a vontade do titular. Nessas situações, o consentimento do ofendido excluiria a antijuridicidade, subsistindo a

ação típica; (ii) a segunda hipótese, por seu turno, é aquela também conhecida por acordo, em que a atuação contrária à vontade constitui circunstância elementar da própria ação típica, como na invasão de domicílio (art. 150, CP). Nesse caso, havendo acordo, ou seja, não havendo atuação contrária à vontade da vítima, exclui-se a própria tipicidade. No primeiro caso, o consentimento traz consigo, segundo WELZEL, uma renúncia à proteção jurídica que exclui a ilicitude. Só é válido, por óbvio, se a pessoa for capaz de consentir e, do ponto de vista subjetivo, será indispensável que o agente tenha consciência e atue em função desse consentimento. O consentimento posterior é irrelevante, podendo gerar apenas efeitos práticos nas ações penais privadas ou públicas condicionadas à representação. Se o proprietário permite, por exemplo, que terceiro danifique sua casa, segundo a doutrina dominante, o consentimento não remedia que a coisa tenha sido danificada, nem que a propriedade resulte tipicamente lesionada. O consentimento excluiria apenas a antijuridicidade posto que a renúncia à proteção do bem jurídico estaria no âmbito do direito de autodeterminação individual e sobre a base constitucional de liberdade de ação. Da mesma forma, quem se deixa submeter a um experimento científico que impeça durante um tempo de ter contato com o mundo exterior, abandona transitoriamente sua liberdade de movimento (Jescheck). De outro lado, em certos preceitos penais a ação típica se dirige, segundo o teor literal ou o sentido da descrição legal, diretamente contra a vontade da vítima, sendo inofensiva se ela é realizada em conformidade com a sua vontade. Em tais casos, a circunstância que fundamenta o injusto consiste na contradição da vontade da vítima. Se ela está de acordo, a ação punível se converte en un proceso normal entre ciudadanos en el marco del orden social dado. (Jescheck).

Com efeito, para aqueles que consideram o consentimento (ou melhor, o acordo) da vítima circunstância que exclui a tipicidade, a lesão do bem jurídico nessa renúncia autônoma do titular do direito de proteção seria apenas aparente. Quer dizer: apesar da realização formal do tipo penal faltaria materialmente uma lesão antijurídica do bem. O verdadeiro bem jurídico, advertem ALBIN ESER e BJÖRN BURKHARDT, não é propriamente a manutenção do objeto em questão, mas a liberdade de disposição individual. Por seu turno, é atípica a hipótese do ingresso de um visitante bem-vindo à residência do titular do direito de moradia. Faltaria aqui a invasão, que é e lemento objetivo do tipo penal. Da mesma forma, se alguém está de acordo com que outrem retire uma coisa do domínio daquele, não existe a subtração no sentido do artigo 155, do CP, sendo atípica a conduta; ou ainda quem rapta mulher com a concordância dela não pratica seqüestro. Isto porque pelo teor literal dessas condutas o tipo penal exige que a ação seja praticada contra a vontade do ofendido. Diante disso, é possível verificar com clareza a contraposição entre a natureza mais fática do acordo em comparação com o caráter jurídico do consentimento. A posição de Claus Roxin Para o Prof. CLAUS ROXIN o consentimento do ofendido, no entanto, exclui sempre a tipicidade porque constituiria legítimo exercício do direito de liberdade de ação do indivíduo. Se os bens jurídicos servem para o livre desenvolvimento dos indivíduos afirma o ilustre catedrático da Universidade de Munique não pode existir lesão alguma do

bem jurídico quando uma ação se baseia numa disposição do próprio portador do bem jurídico. Se o proprietário, através de uma decisão livre, assente com a destruição de sua coisa, não existe nenhuma lesão da posição de proprietário, mas apenas uma cooperação no exercício do seu direito de propriedade. ROXIN adverte ainda que a opinião contrária representa uma confusão entre o objeto do fato (objeto material da ação) e o bem jurídico. Se se produz uma deteriorização da coisa concreta, esta não representa necessariamente um ataque à propriedade (direito tutelado), mas um apoio ao exercício pleno desse direito. As lesões causadas por podólogo ou cirurgião plástico, por exemplo, não constituiriam fatos típicos, porém justificados por sua adequação social ou pelo exercício regular de um direito ou ofício. Tais lesões representariam apenas decorrências normais do desenvolvimento da personalidade no que tange ao tratamento que a pessoa concede ao corpo. Muito além do direito consuetudinário e da adequação social da ação, é o livre exercício do direito constitucional de liberdade de ação que fundamenta a exclusão da tipicidade. No caso de lesão a bens indisponíveis (de alto valor social), ROXIN reconhece a existência de limites à faculdade de disposição individual. Mas se esses limites são superados, o consentimento não há de ter eficácia de excluir nem a tipicidade, nem a antijuridicidade. Em oposição crítica àqueles que defendem a idéia de que o consentimento do ofendido excluiria sempre a tipicidade, JESCHECK afirma que tal entendimento importaria que o consentimento fosse tratado como um elemento subjetivo do tipo e, ainda, uma subjetivação do conceito de bem jurídico que transladaria a vigência do preceito penal ao arbítrio do titular do bem jurídico.

Por fim, tais divergências encontram seu alcance prático no tratamento do erro sobre os pressupostos do consentimento dependendo do seu enquadramento dentro da estrutura do delito. Por exemplo, o erro sobre os limites do conhecimento importa na caracterização de um erro de tipo (que exclui o dolo) ou erro de proibição (a excluir a culpabilidade). BIBLIOGRAFIA REFERIDA: - Eser, Albin e Burkhardt, Björn, Derecho Penal Cuestiones Fundamentales de la Teoría del Delito sobre la base de Casos de Sentencias, Madrid: editorial Colex, 1995; - Hungria, Nelson, Comentários ao Código Penal, Vol. I, Tomo II, Rio de Janeiro: ed. Forense, 1978; - Jescheck, Hans-Heinrich, Tratado de Derecho Penal, Parte General, Barcelona: Bosch, Casa Editorial, 1978; - Roxin, Claus, Derecho Penal Parte General, Tomo I, Madrid: Editorial Civitas, 1997;