GRAÇA E FÉ por Rev. Fernando Almeida



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Transcrição:

1 GRAÇA E FÉ por Rev. Fernando Almeida Introdução Muitos de nós ouvimos, com certa freqüência, pregadores que ao fazerem apelo, dizem coisas do tipo: dê uma chance para Jesus ou ainda deixe Jesus entrar em seu coração. Afirmações como essas evidenciam o poder de decisão que o pecador tem para sua própria salvação. Será que a graça de Deus está atrelada à vontade humana de crer? Isso é fé? A. O estado do ser humano Como muitos já sabem, houve uma mudança no estado do ser humano após a Queda de Adão. Se antes do pecado o ser humano tinha harmonia com Deus, a Criação e seu semelhante, agora temos que conviver com conflitos. Houve a introdução da morte como conseqüência do pecado (Gn 2.17). 1. Morte Espiritual Paulo afirma que Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, (Ef 2.1). A natureza humana foi corrompida por causa do pecado e agora todos os seus sentimentos e pensamentos estão profundamente influenciados pelo pecado. Não há nenhuma área da vida humana que não tenha sido afetada pelo pecado; o ser humano caiu por inteiro e por causa disso está destituído da glória de Deus (Rm 3.23 - ARC). O que se cumpre na vida do ser humano até hoje é a palavra da serpente: como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (Gn 3.5). Assim como Adão e Eva fizeram, todos os seres humanos fazem a mesma opção: deixam Deus de lado e tornam-se eles mesmos seus próprios deuses. Não há naturalmente um interesse pelas leis de Deus, mas cada um quer fazer suas próprias leis e determinar o que vem a ser o certo e o errado. A melhor definição, portanto, para morte espiritual é o estado em que o ser humano se encontra de completa separação de Deus. A morte espiritual afetou profundamente o intelecto humano. Podemos perceber isso claramente através das palavras de Davi: Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer (Sl 14.2-3) Paulo faz uso dessas palavras de Davi para afirmar que todos igualmente estão debaixo do pecado e que suas mentes não têm capacidade de entender sem sequer enxergar Deus. (ver Rm 3.9-11) Não só a mente, mas também os sentimentos foram afetados pela morte espiritual. O profeta Jeremias diz que Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (Jr 17.9). A morte espiritual impõe

2 uma inimizade tão grande entre a criatura e o Criador que o ser humano sente prazer em desobedecer a Deus; essa é a mais pura e triste verdade: O coração deles está cheio de maldade, e a mente deles só vive fazendo planos perversos. Eles gostam de caçoar e só falam de coisas más. São orgulhosos e fazem planos para explorar os outros. Falam mal de Deus, que está no céu, e com orgulho dão ordens às pessoas aqui na terra (Sl 73.7-9 NTLH). Com mente e corações contaminados, o resultado não pode ser outro: a vontade do ser humano é escrava: entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; (Ef 2.3). Toda a vontade do ser humano é escrava do pecado e não reside nele a possibilidade de querer agradar a Deus: Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal (Jr 13.23). 2. Imputação Embora esta palavra (imputação) pareça estranha, seu significado é bastante claro. Paulo afirma que éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais (Ef 2.3). O que isso quer dizer? O que é ser filho da ira por natureza? Muita gente acha que a razão de alguém ir para o inferno está na negação da salvação, na rejeição ao evangelho. Embora concordemos que essa rejeição agrava a situação do pecador diante de Deus, não é ela a responsável pela sua condenação. Enquanto Adão tinha naturalmente acesso e comunhão com Deus quando foi criado, de seus filhos (todos nós) não se pode dizer o mesmo. Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26), mas seus filhos, porque vieram após o pecado, não nasceram mais perfeitamente à imagem de Deus e sim à imagem de seu pai: Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete (Gn 5.3). Embora Sete não tivesse comido do fruto proibido, ele nasceu sob as mesmas condições de seu pai. Como Adão já havia sido amaldiçoado, por causa da sua desobediência todos os seus descendentes sofreram a mesma maldição até chegar a nós. Isso é imputação: a atribuição da culpa como parte da própria natureza. Por causa dessa culpa inata, mesmo que existisse algum ser humano capaz de passar toda a sua vida sem cometer nem um pecado sequer (o que sabemos que é impossível conforme 1João 1.10), ele iria para o inferno. A maldição do pecado é transmitida de pai para filho. Concordando com isso, escreveu Davi: Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe (Sl 51.5). Todos, então, merecem a ira de Deus desde o ventre materno porque foram gerados em pecado e porque praticam o pecado assim que têm oportunidade. 3. Há lugar para o livre-arbítrio? Muitos crêem que Jesus morreu por todos sem exceção e que cada um decide se quer ou não ser salvo. Isso é a teoria do livre-arbítrio.

3 À luz daquilo que estudamos até agora, precisamos ter a ciência de que não existe lugar para o livre-arbítrio, pois se cabe ao ser humano o papel de decidir a respeito de sua salvação ele nunca iria se decidir por aceitar a Cristo. Por ter vontade, emoção e razão sempre inclinados ao mal ele se encontra morto espiritualmente. Imagine um prato com a comida que você mais gosta. Se alguém te oferecer é lógico que você irá aceitar. Mas e se você estivesse morto? Você aceitaria? Um morto não pode aceitar nada e nem sequer reconhecer a necessidade de coisa alguma porque ele está morto e vai continuar sendo indiferente diante da melhor das ofertas, até que alguém lhe ressuscite. Ele precisa receber vida para saber o que é bom. Nossa salvação foi um ato unilateral de Deus. Ele não nos deu a chance de ser salvos, mas Ele de fato nos salvou. Como já vimos, Deus não tinha nenhuma obrigação de nos salvar, porém mesmo assim resolveu revelar seu amor e sua misericórdia: Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2.4-5a). TEMOS LIVRE ARBÍTRIO ANTES DA QUEDA? Sim. Adão e Eva não tinham uma natureza caída e nem inclinações ao pecado. Caíram porque livremente resolveram desobedecer a Deus, ouvindo a voz do tentador. ANTES DA SALVAÇÃO? Não. Nossa vontade, pensamentos e emoções são escravos do pecado. Paulo afirma que antes da conversão éramos estranhos e inimigos de Deus no entendimento (Cl 1.21). DEPOIS QUE SOMOS SALVOS? NA VIDA ETERNA? Não. Jesus nos comprou não para que novamente pudéssemos escolher entre o bem e o mal. O alto preço pago na cruz não foi para nos libertar do pecado, e sim para nos cativar em Cristo, ou seja, somos livres em relação ao pecado, mas não somos livres em relação a Deus. Se não temos outra escolha senão obedecer a Deus então não existe livre-arbítrio. Não. A Bíblia nos diz que o ser humano passará a eternidade no gozo da salvação. Por isso chamamos esse estado de vida eterna. Como é eterna então não haverá nova possibilidade de queda por dois motivos: 1) Porque Deus nos preservará em santidade; 2) Porque o sacrifício de Cristo foi capaz de redimir totalmente o ser humano; 3) Porque não existirá mais um Tentador no novo paraíso. Não haverá, portanto, possibilidade nem oportunidade de novas escolhas. É difícil de entender porque tantos crentes defendem a teoria do livre-arbítrio como se fosse uma grande bênção. No único momento em que esteve presente (antes da queda) foi a causa de o ser humano cair em pecado.e se ver separado de Deus.

4 B. O lugar da graça Em boa parte desse estudo nos ocupamos em demonstrar o estado natural de desgraça no qual todo ser humano se encontra. Por que falar tanto sobre isso se o tema de nossa lição é Graça e Fé? O próprio apóstolo Paulo dá a razão: onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5.20). Se tivermos um conhecimento adequado da pecaminosidade humana, teremos também uma visão adequada da graça de Deus dispensada a fim de salvar esse pecador. É um conhecimento obtido no estudo dos contrastes: a graça contrasta com o pecado. Esses contrastes podem muito bem ser observados em nosso texto básico: a. 2.1 A graça significa o ato de Deus dar vida, a qual é contrastada com a morte nos delito e pecados. b. 2.4-5 A graça de Deus é traduzida por misericórdia, grande amor e vida juntamente com Cristo a despeito de estarmos mortos em nossos delitos. c. 2.8-9 A salvação pela graça faz contraste com não vem de vós e não por obras. Portanto, o estudo da graça não pode ser desvinculado do estudo da própria natureza humana. Paulo não mostra a graça de Deus até que se tenha tornado totalmente clara a carência desesperadora e a pecaminosidade universal do homem. 1 Por outro lado, qualquer tentativa de fazer o ser humano participar de seu processo de salvação é ao mesmo tempo uma tentativa de enfraquecer ou diminuir a graça de Deus. Se atribuirmos à vontade humana qualquer mérito, negaremos todo ou em parte a inabilidade total do homem se chegar a Deus bem como sua Graça. O maior mistério da graça de Deus está no fato dele ter amado, vivificado e perdoado seres tão odiosos. Ainda que esse amor seja misterioso ele é afirmado por toda a Bíblia (Dt 7.7-8; Is 48.11; Dn 9.19; Os 14.4; Jo 15.16; Rm 5.8; Ef 1.4; 1Jo 4.10). C. O lugar da Fé Paulo faz uma ligação bastante direta entre a graça e a fé: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; (Ef 2.8). Já sabemos o que é graça e como ela foi traduzida por misericórdia e amor aos perdidos. Mas sabemos o que é fé? Muitos crentes acham que fé é a decisão humana que leva a salvação. Para justificar essa definição interpretam o versículo acima do seguinte modo: Na salvação, a parte de Deus é a graça e a parte do pecador é a fé. Se o pecador tiver fé quando a salvação for oferecida, ele será salvo. 1 Francis Foulkes, Efésios introdução e comentários, (São Paulo, Vida Nova, 1981), p. 38.

5 Não podemos interpretar o texto dessa forma uma vez que o que Paulo faz a partir do versículo 1 é demonstrar a total inabilidade do ser humano de se chegar a Deus tendo em vista sua situação de pecado. Seria uma grande incoerência do apóstolo afirmar que os pecados nos fazem merecedores tão somente da ira de Deus (v. 3) e que esse mesmo Deus resolveu (unilateralmente) nos salvar, e depois afirmar que toda essa obra de salvação vai estar na dependência de uma resposta humana. Fé não é isso. Fé não é crer na salvação futura e sim na salvação presente, ou seja, o exercício da fé não é para receber a salvação e sim para desfrutar dela. Logo, a regeneração (receber vida) precede a fé. Quando a fé aparece é porque o processo de salvação já foi iniciado, pois a fé também procede de Deus assim como a graça. Aliás, tudo procede de Deus (Tg 1.17). A associação da graça com a fé pode ser é bastante clara se tivermos em conta a certeza de salvação. Por que podemos ter essa certeza? Porque Deus nos deu. Ela só é possível através da fé. Imaginemos que Deus poderia ter nos salvado e não ter dito nada a nós. Viveríamos toda a nossa vida na incerteza do que nos aconteceria após a morte. Mas a graça de Deus foi tamanha, que além de ter nos salvado, colocou em nós a certeza (fé) de que fomos salvos. Conclusão Paulo termina essa seção tratando de colocar os pingos nos is. De quem é a glória afinal? Ele responde essa pergunta de duas maneiras: primeiro ele diz de quem não é a glória; depois, de quem é verdadeiramente a glória (Ef 2.9-10). Ninguém pode se gloriar uma vez que a natureza humana é de tal forma caída que a única coisa que o ser humano merece de Deus é a sua ira. Ninguém deve se gloriar uma vez que salvação, graça e a própria fé são presentes de Deus aos eleitos. Somente Deus deve ser adorado e glorificado porque foi Ele quem nos gerou e também quem nos regenerou. Aplicação Pessoal O resultado da graça e da fé é uma vida piedosa diante de Deus. Faça uma auto-análise para saber se você tem respondido a essa obra de Deus também com boas obras.