O sujeito e o tempo das escolhas 1



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Transcrição:

O sujeito e o tempo das escolhas 1 Rita Bícego Vogelaar Trabalho apresentado na Jornada de Encerramento das FCFCL-SP- 2005 Estou chegando esse ano ao Fórum e fiquei pensando nesse espaço, nessa Jornada das Formações Clínicas. Como me utilizar dele? Fazer um trabalho para me fazer reconhecer? Pelo que? Acrescentar algo, baseado na minha experiência no campo da psicanálise? Como diz Helena Bicalho, é preciso ter muito conhecimento de um campo para criar algo a partir dele. Ainda falta um tempo. Porém, escolhi escrever, colocar em movimento o que apreendi esse ano... arejar um pouco as minhas palavras... que rapidamente se fecham em herméticas frases solenes, caso eu não as ventile constantemente. Atrapalhar um pouco as significâncias, como diria Manuel de Barros. Existem textos que são uma compilação de um saber já concluído. São bons e eu os utilizo. Porém esse não é o meu propósito nesse momento. Vou escrever tentando articular esse recém-conhecido conceito de tempo lógico, cujo desafio consiste justamente em concluir apesar de uma falta de saber. 1º. Tempo: Instante de ver : Fazendo alusão ao sofisma dos três prisioneiros, se encontramos um analista com um circulo preto nas costas, ou seja, como nos oferecendo a solução pronta, só nos resta ir embora de imediato do seu consultório. É por isso que, nós analistas, de preferência, vestimos sempre círculos não preenchidos. Frente ao tema desse ano, o que vi nesse instante de ver (e esse é o fio que vou seguir nesse texto), não foram círculos brancos, mas letras brancas... uma frase absolutamente branca... vazia de sentido (a partir do meu ponto de vista, é claro). Essa frase, esse chamado branco, era o próprio tema do ano: O sujeito e o tempo das escolhas. O sujeito e o tempo das escolhas?? O que se queria dizer com isso? O que eles queriam que eu entendesse com isso? Afinal, o sujeito tem escolha? Mas o sujeito não é aquilo que um significante representa para outro? De que sujeito está se falando? De que escolhas? De que tempo? 1 Tema do ano de 2005 1

Momento de trauma, de furo, de encontro com o real. Que se trate da fissura pouco natural, ou da descoberta da suposta privação do pênis materno... ou do chamado de uma frase branca como essa... inscreve-se aí o hiato em torno do qual a pulsão girará. O corpo, no caso do sujeito, se transforma, então, em corpo pulsional. O texto, no meu caso aqui... num texto pulsional. De forma que, tanto na constituição do sujeito, assim como nesse texto, é importante determinar o que norteia a passagem do silêncio à palavra, fazendo passar o sujeito (ou esse texto), assim como Adão e Eva, do gozo eterno da árvore da vida ao gozo limitado da árvore do conhecimento. No caso deles o chamado não foram palavras brancas... mas sim maçãs vermelhas. Frente a esse furo, a essa frase branca, escrita pelo Outro, não vendo uma solução imediata para o impasse, o que resta é ter uma noção sobre o que o Outro quer dizer. Estamos no campo da sincronia, da metáfora, do S1... falando mais teoricamente. É absolutamente notável que seja somente emitindo-se uma hipótese falsa melhor dizendo - sem sentido - que a via da solução correta se abra. 2º. Tempo: Tempo para compreender : Já, o tempo para compreender tem um lugar bem diferente, seja na constituição do sujeito, seja numa análise, seja na construção de um texto, pois constitui o trabalho historicizante. É quando se efetua um leito nesse corte significante. Em palavras mais técnicas é o campo da diacronia, da metonímia, do S2. Seja na constituição do sujeito, seja o que se observa em algumas análises ou, seja na construção de alguns textos - a história do sujeito ou o conteúdo do texto que se inscreve nesse fading retorna a uma espécie de fixidez. No caso da constituição do sujeito, isso ratifica o primeiro movimento (de metaforizarão) e projeta a topologia do sujeito no instante do que chamamos fantasma e o sela impedindo que ele se saiba como efeito de fala. No caso de algumas análises, se a coisa fica só por aí, é o momento da perenizarão da relação analista/paciente. E, no caso de alguns textos, esse seria o exato momento em que o dobraríamos e, bocejando, o enfiaríamos na gaveta, para sempre. O fundamental é que, o psicanalista, numa análise... ou o autor, na construção de um texto, decidindo-se entre raciocínio e ato, entre o desenvolvimento na fala (da hipótese) e a atualização silenciosa, cuide para que se leve tão longe quanto necessário a hipótese falsa, fazendo calar (o que não é nem um pouco fácil) todas as objeções racionalistas ou realistas que viriam fazer obstáculo à chegada ao ponto de absurdo. 2

E qual é a hipótese falsa? E qual é o ponto de absurdo?... No final, vamos saber. O fato é que, se pensarmos na constituição do sujeito ou no percurso de uma análise, a verdade é que esse é o tempo para compreender logicamente - que tudo se funda no UM - S1 - um significante qualquer que não significa nada, mas que não tem outro. E num texto como esse? Ah, aqui, é o tempo para compreender que um texto é sempre o acontecimento de alguma coisa que vai vir a ser, de algo que não é. É absolutamente bizarro, mas é absolutamente verdadeiro que é somente dessa forma que se pode escrever um texto pulsional. De que outra forma seria possível eu estar escrevendo o corpo de um texto, já deste tamanho, inclusive com nome: O sujeito e o tempo das escolhas... entendendo nada dessa estranha frase branca? Tempo para compreender : Vamos lá! Significante A - Gilberto 2 - Tempo lógico Escritos ( pág 211) Basta fazer aparecer no termo lógico dos outros a menor disparidade para que se evidencie o quanto a verdade depende para todos, do rigor de cada um, e até mesmo que a verdade, sendo atingida apenas por uns, pode gerar senão confirmar, o erro nos outros. E também que se, nessa corrida para a verdade é apenas sozinho, não sendo todos, que se atinge o verdadeiro, ninguém o atinge, no entanto, a não ser através dos outros. Significante B - Dominique 3 - Função e Campo da fala Escritos - (pág 311) - Eu me identifico na linguagem, mas somente ao me perder nela como objeto. O que se realiza em minha história não é o passado simples daquilo que foi, uma vez que ele já não é, nem tampouco o perfeito composto do que tem sido naquilo que sou, mas o futuro anterior do que terei sido para aquilo em que me estou transformando. Significante C - Helena 4 - De uma questão preliminar Escritos - (pág 555) Pois uma verdade da experiência para a análise, é que a questão de sua existência coloca-se para o sujeito não sob a feição da angustia que ela suscita no nível do eu, e que é apenas um elemento de seu cotejo, mas como uma pergunta articulada: o que sou eu nisso. 2 Nome do Coordenador que, durante um mês, trabalhou o tema do ano no Seminário de Formações Clínicas, através do texto indicado ao lado de seu nome 3 Idem acima 4 Idem acima 3

Significante D - Gonçalo 5 - A direção do tratamento Escritos - (Pág 624) O analista dá sua presença, que a princípio é apenas a implicação de sua escuta, e esta é apenas a condição da fala. Aliás, por que exigiria a técnica que ela se fizesse tão discreta? É mais tarde que sua presença se faz notar. Além do mais, o sentimento mais agudo de sua presença está ligado a um momento em que o sujeito só pode se calar, isto é, em que recua até mesmo ante a sombra da demanda. Significante E - Christian 6 - Observações sobre o relatório de Daniel Lagache Escritos - (pág 667) É numa duplicidade fundadora do significante que o sujeito encontra desde logo o regato secreto por onde flui antes de brotar, veremos por qual fenda. Significante F - Ana Laura 7 - Subversão do sujeito Escritos - (pág 828) O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade : essa margem é a que a demanda, cujo apelo não pode ser incondicional senão em relação ao Outro, abre sob a forma da possível falha, que a necessidade pode aí introduzir, por não haver satisfação universal (o que é chamado angustia). Significante G - Silmia 8 Posição do inconsciente Escritos - (pág 863) Do lado do vivente, como ser que deve ser captado pela fala, como alguém que nunca pode enfim advir nela por inteiro, nesse para-aquém do limiar que no entanto não é dentro nem fora, não há acesso ao Outro do sexo oposto senão através das chamadas pulsões parciais, onde o sujeito busca um objeto que lhe responda a perda de vida que lhe é própria, por ele ser sexuado. Significante H Beth 9 Kant com Sade Escritos (pág 792) Se nos leram até esse ponto, sabem que o desejo apóia-se numa fantasia da qual pelo menos um pé está no Outro, e justamente o pé que importa, mesmo e sobretudo se vier a claudicar. E???? Conclusão parcial imediata: um significante não significa nada, sozinho! Um valor vai ser dado pelas combinações significantes. Nesse momento, (momento do tempo para compreender), a experiência da construção de um texto, assim como a de uma análise... e assim como da transmissão do ensino de psicanálise (ao meu ver) é somente o mise en scène da estrutura. 5 Nome do Coordenador que, durante um mês, trabalhou o tema do ano no Seminário de Formações Clínicas, através do texto indicado ao lado de seu nome 6 Idem acima 7 Idem acima 8 Idem acima 9 Idem acima 4

E assim uma análise (ou um texto) vai caminhando... nesse vai e vem - vai e vem da não cronologia. É tropeçando aqui, tropeçando ali, sem se dar muita conta... se dando conta. E, se existe ali um analista, chega-se irremediavelmente ao pior. Momento do tropeço, do abismo, do excesso. 3º. Tempo: Momento de concluir É função e dever do analista (e, às vezes, também, do autor de um texto), suspendendo todas as certezas do analisante (e do leitor), conduzi-lo, pelo ato, para esse ponto de não compreensão que o faz voltar sobre a seqüência significante que acaba de passar, para daí retirar a verdade do desejo que nela estava capturado. O fim de análise deve permitir ao sujeito renunciar ao que lhe dava a impressão, em sua fantasia, de lhe oferecer esse complemento de ser: a isso que ele não queria ver/saber que faltava. Porque, na travessia do fantasma (assim como na desse texto), não podendo ter garantia de sua ação em uma verdade prévia, resta uma aposta baseada em uma certeza a ser provada somente a posteriori. Há nada além da palavra, o que equivale a dizer que além da cena está o obs-ceno (fora da cena) e não um conhecimento maior. O que uma análise pode fazer não é eliminar a divisão do sujeito, mas propiciar que ele deixe de responder cegamente ao desejo inconsciente que é sempre desejo (de se fazer objeto) do desejo do Outro. Desse modo, tornar-se-á capaz de responsabilizar-se por sua condição desejante a qual consiste justamente na impossibilidade de satisfazer plenamente o desejo e, portanto, na permanente tarefa de realizá-la na produção simbólica. A psicanálise leva o sujeito a não gozar mais com seu corpo para um Outro suposto, mas com a letra. A passagem, não cronológica, por esses três tempos, permite situar o trajeto que, iniciado pelo encontro de um real sempre presente, faz passar por um raciocínio lógico dedutivo, cada vez diferente para chegar à verdade sem verdade de uma conclusão que produz o significante que engancha a presilha do simbólico àquela do real. De forma que desde que esta cartografia desse trajeto é operada, o real que a origina perde sua conotação de acidente, para se tornar uma dimensão inteiramente pertencente a estrutura de quem fala. 5

No final da análise, o próprio analisante poderá se colocar enquanto leitor de seu próprio texto, mesmo que este venha sob forma de sintoma que insiste, pois o que ele aprendeu a ler foi o engano que produziu aquele saber. Só se pode saber do engano. Dessa forma, se faz a cada momento a travessia da infância.... Da mesma forma que a finalidade de uma análise não é constituir um sujeito... a finalidade desse trabalho também não foi a constituição de um saber fechado. Afinal, o fim de uma análise, assim como o fim desse texto, não é a descoberta de uma verdade objetiva, mas a desilusão quanto a existência dessa. E não sem muito entusiasmo!! Apresentar essas palavras, hoje, aqui, é da ordem de um ato, de uma conclusão apesar de uma falta de saber. Uma lógica baseada na tensão entre aguardar e precipitarse, entre a vacilação e a urgência. Mas é só esse ato, tal qual o ato de saída no fim de uma análise... tal qual o ato dos prisioneiros de Lacan, que pode abrir caminho para a liberdade. Liberdade do escravo, como diz Nominé 10, mas também daquele que pode gozar da vida, mesmo que seja só trabalhando muito. Para não deixar as Conferências Mensais 11 de fora - o que a psicanálise talvez nos dê de melhor no final da história, é a certeza de que não existe Louva-Deus Gigante. É a certeza de que aquilo que botamos no rosto era só uma máscara... uma de algumas que se pode fazer circular. E, que a angustia, que tem a ver com a tremenda e fundamental confusão inicial que fizemos entre a máscara e esse nosso rosto (rosto esse do qual estamos irremediavelmente separados), no final - como diz Nominé 12 - depois de muito penar e pagar, a deixamos na soleira da porta dos nossos analistas, no último minuto antes de batermos o portão para sempre, às nossas costas. No final... mais do que deixar a angustia na soleira da porta... nós a damos para os nossos analistas. Porque é somente num ato de doação que realmente podemos nos despojar de algo definitivamente. Há nada além da palavra, e sendo a angustia o 10 Frase pronunciada por Bernard Nominé na Diagonal Epistêmica desse ano (2005). 11 Espaço reservado em 2005 para estudar dentro do tema do ano - o Seminário sobre a Angustia. 12 Frase pronunciada por Bernard Nominé na Diagonal Epistêmica desse ano (2005). 6

encontro com esse estranhíssimo objeto, dá-la a alguém é, realmente, assumir simbolicamente esse nada. No final... a-final... nos despojamos da angustia de ficar sempre paralisados entre: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. O fato é que o bicho está lá! Sempre vai estar. No final, escolhemos. No final, posicionamo-nos. Literalmente falando... falamos com 13 o bicho! Bibliografia 1. BARROS, M.; Livro sobre Nada. Editora Record. R.J.. 2004. 2. DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE: FREUD&LACAN, 2. Agalma, BA.. 2004. 3. FINGERMANN, D.. A temporalidade do sujeito. Stylus. R.J. 2004. 4. LACAN. J. Escritos. Jorge Zahar. R.J. 1998. 5. QUINET. A. As 4+1 condições da análise. Jorge Zahar. R.J. 2000. 6. TEIXEIRA. A. O saber a gente inventa. Associação Cientifica do Campo psicanalítico. BA. 2002. 13 Não no sentido imaginário (interpessoal) de falar com o bicho, mas sim no sentido gramatical de falar... utilizando-se... levando em conta o bicho. 7