O desenho e sua interpretação: quem sabe ler? Sonia Campos Magalhães Em seu artigo Uma dificuldade da psicanálise de criança, Colette Soler 1 lança uma questão aos psicanalistas que se ocupam desta prática, ao afirmar que as crianças colocam à prova algo que diz respeito à ética da psicanálise. Ela vai levantar alguns pontos relativos à ética da interpretação, relacionados tanto aos desenhos infantis quanto à análise de não analfabetizados, não que pretendo trazer para discussão. Lembrando que a psicanálise opera sobre a letra do sintoma, tomado aí como escrita, traço, testemunho, condensador de gozo, Soler aponta que esta operação se faz pelo viés da decifração, o que supõe, portanto, associações transferenciais do sujeito. É um fato já consagrado a possibilidade de se estabelecer a transferência na criança desde a mais tenra idade o que nos permite afirmar que uma criança pode vir a ser um analisando. Portanto, a dificuldade apontada por Soler na clínica com crianças diz respeito não à transferência, mas à interpretação. Duas questões são levantadaspela autora: Pode-se tratar o encadeamento dos jogos, os comportamentos e, especialmente, os desenhos da criança, como uma cadeia associativa? 121
DESENHO: POR QUE NÃO? 122 O que é que a criança coloca sobre a folha? Não está excluído que seja, na ocasião, a própria cifra de seu gozo e que o desenho faça escrita. 2 Para a autora, a primeira das questões é uma suposição no mínimo necessária, sem a qual não haveria psicanálise de crianças pequenas, isto é, daquelas que, ainda que estejam presas, como todos os sujeitos, na estrutura da palavra, não estão em condições de associar, verbalmente, na transferência. A segunda questão prende-se especificamente à leitura dos desenhos e de seu uso. Minha proposta de trabalho vem situar-se em torno destas questões, sobretudo no que diz respeito ao desenho e sua interpretação. Antes, porém, gostaria de lembrar, de acordo com a própria Soler, que muito já se tem trabalhado sobre a decifração de um sintoma na articulação da palavra, porém, sem avançar em relação às palavras desenhadas. Para ela, será preciso classificar os desenhos em dois tipos: um deles é o desenho-escrita, escrita que é sintoma, que não demanda nada de ninguém, que nada quer saber, que é gozo; o outro, em oposição ao primeiro, é o desenhopalavra, um desenho que é sintoma, que demanda interpretação do Outro, oferecendo-se à leitura da psicanálise. A autora lembra que a interpretação visa o que se inscreve por meio dos equívocos da linguagem, aquilo que Lacan chamou de ao lado da enunciação. Os equívocos, homofônicos, gramaticais ou lógicos, não existem senão em função da escrita. Como, sem a escrita, jogar com a diferença entre cálice e cale-se, entre sem e cem, ou com a diferença entre aço e asso e entre possuir e posso ir? Freud faz coincidir o conceito de latência com a idade escolar, porque a escrita tem uma incidência sobre a palavra; por assim dizer, a escrita instala o recalque, o que Soler vai chamar de segundo tempo da efetuação da estrutura, fazendo-o coincidir com o conceito de castração. Devemos aqui lembrar que se há o segundo tempo, é porque há o primeiro, o que Freud aponta como fort/da. A partir daí, a questão que se coloca é como se elaborar respostas para o problema crucial da análise dos não
O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO analfabetizados, daqueles que, como as crianças pequenas, ainda não tiveram acesso à escrita. Para trabalhar a primeira questão, proponho reformulá-la em outra pergunta: seria a fala iluminista? Se partirmos de Lacan, 3 que afirma ser a fala obscurantista, podemos responder a esta primeira questão de forma afirmativa, ou seja, dizendo que o desenho, tal como a fala, é um encadeamento associativo de alíngua que admite interpretação. A dificuldade apontada pela autora nesta primeira questão só se coloca na medida em que restringimos a cadeia significante à fala articulada. Assim como se pode propor uma fala-gozo em oposição à falasignificante, poder-se-ia, também, fazer uma oposição entre desenho-escrita e desenho-palavra. A segunda questão de Soler nos coloca diante do mesmo problema, e a resposta mais imediata é que a criança, ao desenhar, coloca sobre a folha de papel uma cifra, um signo, o que nos faria, talvez, pensar que o significante falado seria mais claro e que, de preferência ao significante desenhado, elucidaria o sentido. Mas não poderíamos dizer que é um vício mental supor que há sentido do sentido? Lacan já indicou que o máximo de sentido, ou seja, a dimensão mais extrema do sentido, é o enigma. Se, em vez de perseguirmos o sentido, perseguíssemos o signo, então o desenho, de preferência à fala, poderia ser considerado material significante encadeado. A estrutura se escreve melhor no desenho do que na fala é o que se poderia dizer, ou, melhor dizendo ela se escreve de modo tão obscuro quanto na fala. Não é difícil fazer a demonstração disto se partirmos de uma definição de Lacan segundo a qual a estrutura é de furo, de falta tomada como objeto, tal como encontramos no caso específico da histeria. Aí, o sujeito toma a falta como objeto que satisfaz o desejo, ou seja, toma o nada como objeto de satisfação e, na medida em que este não o satisfaz, mantém o desejo insatisfeito. 123
DESENHO: POR QUE NÃO? Podemos, no desenho, ler a falta? Quem, então, saberá lê-lo? Freud provou que sabia. Ele pôde ler um desenho como estrutura de linguagem. É o que ele fez, por exemplo, quando leu o traço que Hans quis acrescentar ao desenho da girafa como significante do falo. 4 124 Desenhei uma girafa para Hans, que mais tarde esteve em Schonbrunn diversas vezes. Ele me disse: Desenhe também o pipi dela. Desenhe você mesmo, respondi; ao que ele acrescentou essa linha à minha fi gura. 5 Sabemos hoje, a partir do conceito de significante assemântico, que, embora a cadeia significante prometa um sentido, este não passa de uma promessa. Podemos considerar a escrita de Joyce tão enigmática quanto o desenho. Pela definição de enigma não diríamos, no entanto, que é uma escrita sem sentido; ao contrário, é o cúmulo do sentido. Lacan, com Joyce, vai rearticular sua teoria do sintoma. 6 Ao situar o sintoma como função de uma letra, definindo-a pela identidade de si a si, Lacan vai falar não mais de uma função de metáfora que fixa o significado ao significante, mas de uma função da letra que fixa o gozo sem o Outro. Esta teoria, da foraclusão generalizada, é trazida por Colette Soler em seu artigo A experiência enigmática do psicótico De Schreber a Joyce, 7 dando margem a avanços nas colocações do seu artigo de 1991.
O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO Desse modo, podemos dizer que o equívoco é determinado pelo fato de que a linguagem não pode nomear tudo, de que há coisas indizíveis. Há equívoco lá onde não pode haver relação biunívoca. 8 No que se refere propriamente à questão sobre os não analfabetizados e às suas possibilidades de ter acesso à análise, poderíamos dizer que eles têm condições de vir a se analisar. O analfabetismo não joga no mesmo nível da estrutura. Digamos que há um primeiro nível infraestrutural, primário, no qual se joga o equívoco, e que se poderia chamar analfabetismo generalizado, o que Lacan chamou debilidade mental de todo ser falante, na medida em que há, em cada falasser (parlêtre), alguma recusa de saber, algum não querer saber, o nível em que se situa o escrito. Há um outro nível, e este poderia ser chamado superestrutural, habitualmente chamado secundário, e que depende do fato da escrita, do acesso à escolaridade, mas que não impede o acesso à psicanálise. Se o não analfabetizado tem direito de acesso ao lapso, ao chiste, ao sonho e ao sintoma, isto quer dizer que ele tem direito de acesso à experiência analítica, do mesmo modo que as crianças pequenas não escolarizadas. Para tanto basta que o analista, face aos brinquedos, à fala e aos desenhos infantis, saiba como operar, mantendo-se no eixo da ética psicanalítica. Notas 1 C. Soler, Uma difi culdade da psicanálise de criança, em Artigos clínicos, pp. 104-107. 2 Ibidem, p. 105. 3 J. Lacan, Le moment de conclure, pp.1-6 (Seminário inédito, tradução de Jairo Gerbase, Campo Psicanalítico de Salvador Bahia). 125
DESENHO: POR QUE NÃO? 4 S. Freud, Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, Obras completas, vol. X, pp. 15-154. 5 Ibidem, p. 23. 6 J. Lacan, O Seminário, Livro 23: O Sinthoma. 7 C. Soler, L Expérience énigmatique du psychotique, de Schreber à Joyce, em La cause freudienne revue de psychanalyse, fev. 1993, pp. 50-59. 8 Segundo Gerbase, em Teoria generalizada do sintoma a eficácia da metáfora paterna (Imagem Rainha, EBP, p. 135), o que na teoria dos conjuntos se chama relação biunívoca é a relação na qual a todo ponto de uma figura corresponde um ponto na outra. O conceito de biunivocidade se aplica, por exemplo, quando uma criança conta em seus dedos as figurinhas de um álbum; esta operação lhe permite conhecer, reduplicativamente, que há do outro lado. Seus dedos não são as figurinhas, nem estas são os seus dedos, mas há algo que liga cada um ao outro e que os identifica. A experiência analítica incide sobre uma relação fundamental a relação sexual na qual não pode haver biunivocidade porque não existe o elemento significante nos dois conjuntos, do homem e da mulher, que entrem em relação. Há o significante do falo para representar o conjunto homem, mas o conjunto mulher não pode ser representado senão pelo conjunto vazio (N. da A.). Referências bibliográficas FREUD, Sigmund. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Ed. standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol. X. Rio de Janeiro: Imago, 1980. GERBASE, Jairo. Teoria generalizada do sintoma a eficácia da metáfora paterna. Imagem Rainha, EBP. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. 126
O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 23, O Sinthoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.. A tagarelice (1 a aula, 15.11.77). O Seminário, Livro 25: O momento de concluir. Inédito. Salvador: Campo Psicanalítico de Salvador, 2000, tradução de Jairo Gerbase. SOLER, Colette. Uma dificuldade da psicanálise de criança. Artigos clínicos. Salvador: Fator, 1991. p. 104-107.. L Expérience énigmatique du psychotique, de Schreber à Joyce. La Cause freudienne Revue de psychanalyse. Paris: ECF, fevereiro de 1993.. Le désir du psychanalyste. Où est la différence?. La lettre mensuelle, n. 131. Paris: ECF, julho de 1994. 127