O desenho e sua interpretação: quem sabe ler?



Documentos relacionados
Clínica Psicanalítica e Ambulatório de Saúde Mental

UMA TOPOLOGIA POSSÍVEL DA ENTRADA EM ANÁLISE 1

Por que há sonhos dos quais não nos esquecemos?

O corpo para a psicanálise: notas sobre inibição e psicossomática. 1

O Planejamento Participativo

Introdução. instituição. 1 Dados publicados no livro Lugar de Palavra (2003) e registro posterior no banco de dados da

A PSICANÁLISE E OS MODERNOS MOVIMENTOS DE AFIRMAÇÃO HOMOSSEXUAL 1

AFORISMOS DE JACQUES LACAN

Elaboração e aplicação de questionários

2- Ruptura com o Gozo Fálico: como Pensar a Neurose e a Psicose em Relação à Toxicomania?

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira!

A fala freada Bernard Seynhaeve

A sua revista eletrônica CONTEMPORANEIDADE E PSICANÁLISE 1

escrita como condicionante do sucesso escolar num enfoque psicanalítico

Adolescência Márcio Peter de Souza Leite (Apresentação feita no Simpósio sobre Adolescência- Rave, EBP, abril de 1999, na Faculdade de Educação da

Considerações acerca da transferência em Lacan

5 Dicas Testadas para Você Produzir Mais na Era da Internet

A Maquina de Vendas Online É Fraude, Reclame AQUI

Clínica psicanalítica com crianças

Estórias de Iracema. Maria Helena Magalhães. Ilustrações de Veridiana Magalhães

Eventos independentes

Redação do Site Inovação Tecnológica - 28/08/2009. Humanos aprimorados versus humanos comuns

outrarte: estudos entre arte e psicanálise

Unidade IV. Ciência - O homem na construção do conhecimento. APRENDER A APRENDER LÍNGUA PORTUGUESA APRENDER A APRENDER DINÂMICA LOCAL INTERATIVA

Cotagem de dimensões básicas

Considerações sobre a elaboração de projeto de pesquisa em psicanálise

o hemofílico. Meu filho também será?

A formação moral de um povo

A ENERGIA DO BRINCAR: UMA ABORDAGEM BIOENERGÉTICA

Estatística II Antonio Roque Aula 9. Testes de Hipóteses

Esta é uma breve análise de uma peça publicitária impressa que trabalha com o

LIVROS DE AUTO AJUDA E AS SEITAS EVANGÉLICAS

UMA ESPOSA PARA ISAQUE Lição 12

Exercícios Adicionais

O QUE OS ALUNOS DIZEM SOBRE O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: VOZES E VISÕES

Exercícios Teóricos Resolvidos


PROJETO LÍNGUA DE FORA

Coleta de Dados: a) Questionário

O discurso histérico. asexo(ualidade)

Dra. Nadia A. Bossa. O Olhar Psicopedagógico nas Dificuldades de Aprendizagem

18/11/2005. Discurso do Presidente da República

FILOSOFIA SEM FILÓSOFOS: ANÁLISE DE CONCEITOS COMO MÉTODO E CONTEÚDO PARA O ENSINO MÉDIO 1. Introdução. Daniel+Durante+Pereira+Alves+

Compartilhando a Sua Fé

Afonso levantou-se de um salto, correu para a casa de banho, abriu a tampa da sanita e vomitou mais uma vez. Posso ajudar? perguntou a Maria,

APO TAME TOS SOBRE A A GÚSTIA EM LACA 1

Meu nome é Rosângela Gera. Sou médica e mãe de uma garotinha de sete anos que é cega.

HIPERATIVIDADE: NOVOS SINTOMAS DE ORDEM E DESORDEM HYPERACTIVITY: NEW SYMPTOMS TO ORDER AND DISORDER. Simone Bianchi. Introdução

As crianças adotadas e os atos anti-sociais: uma possibilidade de voltar a confiar na vida em família 1

FANTASIAS SEXUAIS INFANTIS, AS CRIANÇAS FALAM. A intenção deste trabalho foi escutar crianças pequenas a respeito da

Diagnóstico: um sintoma? O diagnóstico em psiquiatria tem uma história. Sua principal função é de ser um instrumento

5 Equacionando os problemas

Latusa digital ano 0 N 2 setembro de 2003

COMO ENSINEI MATEMÁTICA

O Princípio da Complementaridade e o papel do observador na Mecânica Quântica

COMO TER TEMPO PARA COMEÇAR MINHA TRANSIÇÃO DE CARREIRA?

Era uma vez um príncipe que morava num castelo bem bonito e adorava

_Márcio Moreno, 28 Sou um rapaz comum da geração do raprockandrollpsicodeliahardcoreragga. marciomoreno.com

Fraturas e dissonâncias das imagens no regime estético das artes

O mar de Copacabana estava estranhamente calmo, ao contrário

5 Considerações finais

RELAÇÕES HUMANAS. Renata Loretti Ribeiro Enfermeira Coren/SP


Desafio para a família

Entrevista com Petra Costa por Tânia Abreu

Exemplo: O pedido tem a finalidade de atender as necessidades previstas. O pedido tem a finalidade de atender às necessidades previstas.

QUESTÕES FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS: HEIDEGGER E O HUMANISMO

Educação Patrimonial Centro de Memória

Conteúdos: Pronomes possessivos e demonstrativos

AS CRIANÇAS E A MISSA DOMINICAL

UNIDADE 3: MUNDO PERDIDO PESSOAS PERDIDAS PRECISAM OUVIR A HISTÓRIA DE JESUS

JESUS ALIMENTA A MULTIDÃO Lição Objetivos: Mostrar a importância de dar graças a Deus pelas coisas que temos.

Desdobramentos: A mulher para além da mãe

2.6 Como ensinar às crianças a usar a Bíblia?

Índice. 1. Metodologia de Alfabetização Aprendizagem da Escrita Aprendizagem da Leitura...6

PEDAGOGIA EM AÇÃO: O USO DE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COMO ELEMENTO INDISPENSÁVEL PARA A TRANSFORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

Duplo sentido e ironia / Maria Irma Hadler Coudry. Caro Aluno:

4Distribuição de. freqüência

O processo de aquisição da linguagem escrita: estudos de A. R. Lúria e L. S. Vygotsky

DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL

3 PASSOS DE MILIONÁRIOS PARA SEUS FILHOS

Composição dos PCN 1ª a 4ª

Transcriça o da Entrevista

EX-SISTO, LOGO SÔO. O modo como soa o título do presente trabalho já nos faz suspeitar de que se trata de

A Morfologia é o estudo da palavra e sua função na nossa língua. Na língua portuguesa, as palavras dividem-se nas seguintes categorias:

SEU NOME SERÁ CHAMADO DE "EMANUEL"

Capítulo II O QUE REALMENTE QUEREMOS

MALDITO. de Kelly Furlanetto Soares. Peça escritadurante a Oficina Regular do Núcleo de Dramaturgia SESI PR.Teatro Guaíra, no ano de 2012.

ALEGRIA ALEGRIA:... TATY:...

:: aula 3. :: O Cliente: suas necessidades e problemáticas. :: Habilidades a ser desenvolvidas

Objetivos das Famílias e os Fundos de Investimento

Resolução de sistemas lineares

Correlação quando uma Variável é Nominal

O que é esse produto? Qual é a marca do produto? Que quantidade de produto há na embalagem? Em que país foi feito o produto?

Um jogo de preencher casas

TIPOS DE RELACIONAMENTOS

Aula 3 Introdução à Avaliação de Impacto

Transcrição:

O desenho e sua interpretação: quem sabe ler? Sonia Campos Magalhães Em seu artigo Uma dificuldade da psicanálise de criança, Colette Soler 1 lança uma questão aos psicanalistas que se ocupam desta prática, ao afirmar que as crianças colocam à prova algo que diz respeito à ética da psicanálise. Ela vai levantar alguns pontos relativos à ética da interpretação, relacionados tanto aos desenhos infantis quanto à análise de não analfabetizados, não que pretendo trazer para discussão. Lembrando que a psicanálise opera sobre a letra do sintoma, tomado aí como escrita, traço, testemunho, condensador de gozo, Soler aponta que esta operação se faz pelo viés da decifração, o que supõe, portanto, associações transferenciais do sujeito. É um fato já consagrado a possibilidade de se estabelecer a transferência na criança desde a mais tenra idade o que nos permite afirmar que uma criança pode vir a ser um analisando. Portanto, a dificuldade apontada por Soler na clínica com crianças diz respeito não à transferência, mas à interpretação. Duas questões são levantadaspela autora: Pode-se tratar o encadeamento dos jogos, os comportamentos e, especialmente, os desenhos da criança, como uma cadeia associativa? 121

DESENHO: POR QUE NÃO? 122 O que é que a criança coloca sobre a folha? Não está excluído que seja, na ocasião, a própria cifra de seu gozo e que o desenho faça escrita. 2 Para a autora, a primeira das questões é uma suposição no mínimo necessária, sem a qual não haveria psicanálise de crianças pequenas, isto é, daquelas que, ainda que estejam presas, como todos os sujeitos, na estrutura da palavra, não estão em condições de associar, verbalmente, na transferência. A segunda questão prende-se especificamente à leitura dos desenhos e de seu uso. Minha proposta de trabalho vem situar-se em torno destas questões, sobretudo no que diz respeito ao desenho e sua interpretação. Antes, porém, gostaria de lembrar, de acordo com a própria Soler, que muito já se tem trabalhado sobre a decifração de um sintoma na articulação da palavra, porém, sem avançar em relação às palavras desenhadas. Para ela, será preciso classificar os desenhos em dois tipos: um deles é o desenho-escrita, escrita que é sintoma, que não demanda nada de ninguém, que nada quer saber, que é gozo; o outro, em oposição ao primeiro, é o desenhopalavra, um desenho que é sintoma, que demanda interpretação do Outro, oferecendo-se à leitura da psicanálise. A autora lembra que a interpretação visa o que se inscreve por meio dos equívocos da linguagem, aquilo que Lacan chamou de ao lado da enunciação. Os equívocos, homofônicos, gramaticais ou lógicos, não existem senão em função da escrita. Como, sem a escrita, jogar com a diferença entre cálice e cale-se, entre sem e cem, ou com a diferença entre aço e asso e entre possuir e posso ir? Freud faz coincidir o conceito de latência com a idade escolar, porque a escrita tem uma incidência sobre a palavra; por assim dizer, a escrita instala o recalque, o que Soler vai chamar de segundo tempo da efetuação da estrutura, fazendo-o coincidir com o conceito de castração. Devemos aqui lembrar que se há o segundo tempo, é porque há o primeiro, o que Freud aponta como fort/da. A partir daí, a questão que se coloca é como se elaborar respostas para o problema crucial da análise dos não

O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO analfabetizados, daqueles que, como as crianças pequenas, ainda não tiveram acesso à escrita. Para trabalhar a primeira questão, proponho reformulá-la em outra pergunta: seria a fala iluminista? Se partirmos de Lacan, 3 que afirma ser a fala obscurantista, podemos responder a esta primeira questão de forma afirmativa, ou seja, dizendo que o desenho, tal como a fala, é um encadeamento associativo de alíngua que admite interpretação. A dificuldade apontada pela autora nesta primeira questão só se coloca na medida em que restringimos a cadeia significante à fala articulada. Assim como se pode propor uma fala-gozo em oposição à falasignificante, poder-se-ia, também, fazer uma oposição entre desenho-escrita e desenho-palavra. A segunda questão de Soler nos coloca diante do mesmo problema, e a resposta mais imediata é que a criança, ao desenhar, coloca sobre a folha de papel uma cifra, um signo, o que nos faria, talvez, pensar que o significante falado seria mais claro e que, de preferência ao significante desenhado, elucidaria o sentido. Mas não poderíamos dizer que é um vício mental supor que há sentido do sentido? Lacan já indicou que o máximo de sentido, ou seja, a dimensão mais extrema do sentido, é o enigma. Se, em vez de perseguirmos o sentido, perseguíssemos o signo, então o desenho, de preferência à fala, poderia ser considerado material significante encadeado. A estrutura se escreve melhor no desenho do que na fala é o que se poderia dizer, ou, melhor dizendo ela se escreve de modo tão obscuro quanto na fala. Não é difícil fazer a demonstração disto se partirmos de uma definição de Lacan segundo a qual a estrutura é de furo, de falta tomada como objeto, tal como encontramos no caso específico da histeria. Aí, o sujeito toma a falta como objeto que satisfaz o desejo, ou seja, toma o nada como objeto de satisfação e, na medida em que este não o satisfaz, mantém o desejo insatisfeito. 123

DESENHO: POR QUE NÃO? Podemos, no desenho, ler a falta? Quem, então, saberá lê-lo? Freud provou que sabia. Ele pôde ler um desenho como estrutura de linguagem. É o que ele fez, por exemplo, quando leu o traço que Hans quis acrescentar ao desenho da girafa como significante do falo. 4 124 Desenhei uma girafa para Hans, que mais tarde esteve em Schonbrunn diversas vezes. Ele me disse: Desenhe também o pipi dela. Desenhe você mesmo, respondi; ao que ele acrescentou essa linha à minha fi gura. 5 Sabemos hoje, a partir do conceito de significante assemântico, que, embora a cadeia significante prometa um sentido, este não passa de uma promessa. Podemos considerar a escrita de Joyce tão enigmática quanto o desenho. Pela definição de enigma não diríamos, no entanto, que é uma escrita sem sentido; ao contrário, é o cúmulo do sentido. Lacan, com Joyce, vai rearticular sua teoria do sintoma. 6 Ao situar o sintoma como função de uma letra, definindo-a pela identidade de si a si, Lacan vai falar não mais de uma função de metáfora que fixa o significado ao significante, mas de uma função da letra que fixa o gozo sem o Outro. Esta teoria, da foraclusão generalizada, é trazida por Colette Soler em seu artigo A experiência enigmática do psicótico De Schreber a Joyce, 7 dando margem a avanços nas colocações do seu artigo de 1991.

O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO Desse modo, podemos dizer que o equívoco é determinado pelo fato de que a linguagem não pode nomear tudo, de que há coisas indizíveis. Há equívoco lá onde não pode haver relação biunívoca. 8 No que se refere propriamente à questão sobre os não analfabetizados e às suas possibilidades de ter acesso à análise, poderíamos dizer que eles têm condições de vir a se analisar. O analfabetismo não joga no mesmo nível da estrutura. Digamos que há um primeiro nível infraestrutural, primário, no qual se joga o equívoco, e que se poderia chamar analfabetismo generalizado, o que Lacan chamou debilidade mental de todo ser falante, na medida em que há, em cada falasser (parlêtre), alguma recusa de saber, algum não querer saber, o nível em que se situa o escrito. Há um outro nível, e este poderia ser chamado superestrutural, habitualmente chamado secundário, e que depende do fato da escrita, do acesso à escolaridade, mas que não impede o acesso à psicanálise. Se o não analfabetizado tem direito de acesso ao lapso, ao chiste, ao sonho e ao sintoma, isto quer dizer que ele tem direito de acesso à experiência analítica, do mesmo modo que as crianças pequenas não escolarizadas. Para tanto basta que o analista, face aos brinquedos, à fala e aos desenhos infantis, saiba como operar, mantendo-se no eixo da ética psicanalítica. Notas 1 C. Soler, Uma difi culdade da psicanálise de criança, em Artigos clínicos, pp. 104-107. 2 Ibidem, p. 105. 3 J. Lacan, Le moment de conclure, pp.1-6 (Seminário inédito, tradução de Jairo Gerbase, Campo Psicanalítico de Salvador Bahia). 125

DESENHO: POR QUE NÃO? 4 S. Freud, Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, Obras completas, vol. X, pp. 15-154. 5 Ibidem, p. 23. 6 J. Lacan, O Seminário, Livro 23: O Sinthoma. 7 C. Soler, L Expérience énigmatique du psychotique, de Schreber à Joyce, em La cause freudienne revue de psychanalyse, fev. 1993, pp. 50-59. 8 Segundo Gerbase, em Teoria generalizada do sintoma a eficácia da metáfora paterna (Imagem Rainha, EBP, p. 135), o que na teoria dos conjuntos se chama relação biunívoca é a relação na qual a todo ponto de uma figura corresponde um ponto na outra. O conceito de biunivocidade se aplica, por exemplo, quando uma criança conta em seus dedos as figurinhas de um álbum; esta operação lhe permite conhecer, reduplicativamente, que há do outro lado. Seus dedos não são as figurinhas, nem estas são os seus dedos, mas há algo que liga cada um ao outro e que os identifica. A experiência analítica incide sobre uma relação fundamental a relação sexual na qual não pode haver biunivocidade porque não existe o elemento significante nos dois conjuntos, do homem e da mulher, que entrem em relação. Há o significante do falo para representar o conjunto homem, mas o conjunto mulher não pode ser representado senão pelo conjunto vazio (N. da A.). Referências bibliográficas FREUD, Sigmund. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Ed. standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol. X. Rio de Janeiro: Imago, 1980. GERBASE, Jairo. Teoria generalizada do sintoma a eficácia da metáfora paterna. Imagem Rainha, EBP. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. 126

O DESENHO E SUA INTERPRETAÇÃO LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 23, O Sinthoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.. A tagarelice (1 a aula, 15.11.77). O Seminário, Livro 25: O momento de concluir. Inédito. Salvador: Campo Psicanalítico de Salvador, 2000, tradução de Jairo Gerbase. SOLER, Colette. Uma dificuldade da psicanálise de criança. Artigos clínicos. Salvador: Fator, 1991. p. 104-107.. L Expérience énigmatique du psychotique, de Schreber à Joyce. La Cause freudienne Revue de psychanalyse. Paris: ECF, fevereiro de 1993.. Le désir du psychanalyste. Où est la différence?. La lettre mensuelle, n. 131. Paris: ECF, julho de 1994. 127