NOTIFICAÇÃO Nº 11 /2010 O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ, por intermédio da representante da 30ª Promotoria de Justiça abaixo firmada, com fundamento no art. 38, inciso I, letra a e inciso V, da Lei Orgânica Estadual (Lei Complementar n 12, de 18.12.93), bem como, no art. 225 da Constituição Federal, na Lei 4.771 de 15 de setembro de 1965, na Lei 11.428 de 22.12.2006, no Decreto 6.660 de 21.11.2008 e nas Resoluções CONAMA 26/94 e 388/07: CONSIDERANDO que, tramita junto à 30ª Promotoria de Justiça o Procedimento Preparatório 63/2010, para apuração da observância do devido processo legal do licenciamento ambiental do loteamento Alphaville, no Município de Teresina; CONSIDERANDO que, com a Constituição Federal de 1988, o princípio da função social da propriedade evoluiu agregando-se ao conceito original, a preservação do meio ambiente, resultando assim, no princípio da função socioambiental da propriedade cujo escopo é garantir a qualidade de vida a partir do desenvolvimento sustentável; CONSIDERANDO que, as florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade, com as limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem (art. 1, Lei 4.771/65). CONSIDERANDO que, a Lei Federal 11.428, de 22/12/06, que dispõe sobre proteção e a utilização da Mata Atlântica e formações florestais nativas, bem como encraves florestais do Nordeste e áreas de tensão ecológica 1, tem por objetivo geral o desenvolvimento 1 Áreas de Tensão Ecológica Constituem os contatos entre tipos de vegetação que podem ocorrer na forma de Ecótono, quando a transição se dá por uma mistura florística, envolvendo tipologias com estruturas fisionômicas semelhantes ou claramente distintas; ou na forma de Encrave quando a distinção das tipologias vegetacionais, ou mosaicos entre distintas regiões ecológicas, reflete uma transição edáfica e resguarda sua identidade ecológica. No caso dos encraves é um artifício cartográfico usado quando a escala de mapeamento não permite separar os tipos de vegetação presentes na área, indicando, porém sua ocorrência. O mapa inclui apenas os seguintes contatos vegetacionais, que ocorrem no Bioma Mata Atlântica: Floresta Ombrófila/Floresta Ombrófila Mista (OM); Floresta Estacional/Floresta Ombrófila Mista (NM); Savana/Floresta Ombrófila
sustentável, e, por objetivos específicos, a salvaguarda da biodiversidade, da saúde humana, dos valores paisagísticos, estéticos e turísticos, do regime hídrico e da estabilidade social, observando-se para tanto dentre outros princípios a função socioambiental da propriedade, a eqüidade intergeracional, a prevenção e a precaução. CONSIDERANDO que, dispõe a Lei Federal 11.428, de 22/12/06, sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, associando-se a este bioma a Floresta Estacional Decidual e Floresta Estacional Semidecidual, que em Teresina representam 1.755,698 ha (um milhão setecentos e cinqüenta e cinco mil, seiscentos e noventa e oito hectares), configurando assim 66,58% (sessenta e seis vírgula cinqüenta e oito por cento) da área do Município, segundo mapa do IBGE aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente MMA; CONSIDERANDO que, define a Resolução CONAMA 26/94, convalidada pela Resolução CONAMA 388/07, a vegetação primária e secundária nos estágios inicial, médio e avançado de regeneração da Mata Atlântica, no Estado do Piauí; compondo-se a vegetação primária de formações florestais denominadas Floresta Estacional Decidual (Florestas das Terras Baixas, Floresta Submontana e Floresta Montana), Floresta Estacional Semidecidual (Floresta Submontana e Floresta Montana), restingas e manguezais; sendo a vegetação secundária ou em regeneração resultado dos processos naturais de sucessão, após supressão total ou parcial de vegetação primária por ações antrópicas ou causas naturais, podendo ocorrer árvores remanescentes da vegetação primária. CONSIDERANDO que, ao tomar conhecimento do desmatamento realizado para a implantação do loteamento Alphaville no Município de Teresina, requisitou o Ministério Público do Estado do Piauí ao IBAMA vistoria na área a fim de avaliar a (SO); Savana/Floresta Ombrófila Mista (SM); Savana/Floresta Estacional (SN); Savana Estépica/Floresta Estacional (TN); Estepe/Floresta Ombrófila Mista (EM); Estepe/Floresta Estacional (EN); Savana/Savana Estépica/Floresta Estacional (STN). (...) NOTA EXPLICATIVA Assim sendo, as tipologias de vegetação às quais se aplica a Lei 11.428, de 2006, são aquelas que ocorrem integralmente no Bioma Mata Atlântica, bem como as disjunções vegetais existentes no Nordeste brasileiro ou em outras regiões, quando abrangidas em resoluções do CONAMA específicas para cada estado. (definição e explicação contida no Mapa do IBGE, de acordo com o previsto na Lei 11.428/06. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/default_prod.shtm#mapas e http://www.caaoby.org.br/img/materias/mapa_mataatlantica.pdf )
vegetação que fora erradicada, da mesma forma que procedeu de moto próprio, por intermédio de seu corpo técnico, vistoria no local (documentos em anexo), sendo constatado através destas duas vistorias que se aplica na área a Lei 11.428/06 e o Decreto 6.660/08, porque recobria a mesma a Floresta Estacional Semidecidual, cuja vegetação, antes do desmatamento efetuado para a instalação do empreendimento, encontrava-se em estado secundário médio de regeneração; CONSIDERANDO que, de acordo com o art. 5 o da mencionada lei, a vegetação primária ou a vegetação secundária em qualquer estágio de regeneração do Bioma Mata Atlântica não perderão esta classificação nos casos de incêndio, desmatamento ou qualquer outro tipo de intervenção não autorizada ou não licenciada ; CONSIDERANDO que, não foi cumprido o estabelecido no art. 12 da Lei 11.428/06, os novos empreendimentos que impliquem o corte ou a supressão de vegetação do Bioma Mata Atlântica deverão ser implantados preferencialmente em áreas já substancialmente alteradas ou degradadas ; CONSIDERANDO que, nas zonas urbanas, nos perímetros estabelecidos após a edição da Lei 11.428/06, conforme dispõe seu art. 31, 2º, é permitida apenas a supressão de vegetação secundária em estágio médio, até o limite de 50% da área total coberta pela vegetação; CONSIDERANDO que, de acordo com o art. 17 da lei 11.428/06 o corte ou a supressão de vegetação primária ou secundária nos estágios médio ou avançado de regeneração do Bioma Mata Atlântica, autorizados por esta Lei, ficam condicionados à compensação ambiental, na forma da destinação de área equivalente à extensão da área desmatada, com as mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica, sempre que possível na mesma microbacia hidrográfica, e, nos casos previstos nos arts. 30 e 31, ambos desta Lei, em áreas localizadas no mesmo Município ou região metropolitana ; CONSIDERANDO que, não foi obedecido o disposto no art. 19 do Decreto 6.660/08, que regulamenta a Lei 11.428/06, que determina que para que possa o órgão estadual competente autorizar a supressão de vegetação torna-se necessária a anuência prévia do IBAMA, quando o loteamento se encontrar em zona urbana e a vegetação secundária, em
estágio médio ou avançado de regeneração, ultrapassar o limite de três hectares, isolada ou cumulativamente; CONSIDERANDO que, não foi atendido o disposto no art. 16, 8º da Lei 4.771/65 (Código Florestal), que determina a averbação à margem do Registro de Imóveis pelo proprietário, de ao menos vinte por cento da área do terreno a título de Reserva Legal. Portanto, não tendo sido cumprido o requisito legal, transfere-se a obrigação propter rem ao adquirente; RESOLVE INFORMAR aos representantes legais do EMPREENDIMENTO ALPHAVILLE TERESINA que é imprescindível a adequação do empreendimento ao disposto nas normas mencionadas, para tanto é necessário que sejam tomadas pelo empreendedor as medidas a seguir: 1. Que adquira área CONTÍGUA ao loteamento, correspondendo esta a extensão da área indevidamente desmatada, atendendo-se assim ao disposto no art. 31, 2º da Lei 11.428/06, da mesma forma que poderá também ser computada com o fim de compor a área de Reserva Legal, conforme disposto no art. 35 da mencionada lei; 2. Que seja destinada área à compensação ambiental, na forma do art. 17 da Lei 11.428/06, que estabelece que a mesma deva ter área equivalente a extensão da área desmatada, com as mesmas características ecológicas, na mesma bacia hidrográfica, preferencialmente na mesma microbacia, no mesmo Município ou região metropolitana. RESOLVE, por fim NOTIFICAR aos representantes legais do EMPREENDIMENTO ALPHAVILLE TERESINA, para que compareçam às 16 horas do dia 22 do corrente mês e ano, na sede da 30ª Promotoria de Justiça, localizada na Rua Álvaro Mendes 2294/ 1º andar, Centro, Teresina, a fim de informar a esta Promotoria quais medidas pretende adotar quanto a matéria tratada no presente ato executivo de caráter preparatório. Teresina, 20 de setembro de 2010.
Maria Carmen Cavalcanti de Almeida Promotora da 30ª Promotoria de Justiça