CONSULTA Nº 3.188/2011



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Transcrição:

1 CONSULTA Nº 3.188/2011 Assunto: Sobre internações compulsórias. Relator: Conselheiro Mauro Gomes Aranha de Lima. Ementa: Não se pretende esgotar todos os procedimentos previstos em lei para a internação involuntária e compulsória, sendo indispensável a busca permanente de orientação específica do psiquiatra e do estabelecimento hospitalar a respeito, assim como interações entre psiquiatria e Poder Judiciário. A presente Consulta foi enviada a este Regional pelo consulente Dr. Q.C.J., Diretor Técnico de Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental, localizado em cidade do Estado de São Paulo, que encaminha ofício para comunicar ao CREMESP a situação atual concernente às internações compulsórias do CAISM, bem como solicitar orientação sobre como proceder diante da situação apresentada. Neste sentido, refere que: Na unidade - inteiramente destinada aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) - além de atendimentos ambulatoriais e de emergência psiquiátrica - há também o objetivo de reabilitar os pacientes, entretanto, este último intento vem sendo prejudicado devido ao grande número de internações compulsórias. O problema, que mencionado, foi observado logo que assumiu a Diretoria Técnica do CAISM. Naquela ocasião, notou que grande parte dos leitos da unidade masculina, estavam preenchidos por pacientes internados através de ordem judicial, tal situação foi se agravando à medida que outros eram enviados para cá, o que juntamente com os demais pacientes passou a desencadear superlotação.

2 Visando suprir a falta de leitos, resolveu destinar aqueles que chegavam de forma compulsória à observação do PS, local este que não possui estrutura adequada para tais pacientes. Essa demanda afeta negativamente tanto os pacientes quanto aos funcionários. Sendo assim, ressalta a dramática situação vivida pelo CAISM, pois a assistência aos pacientes está comprometida, face o grande número de internações compulsórias, inclusive a estes últimos que, assim como os demais, veem seus direitos garantidos pela lei federal nº 10.216, de 6 de abril de 2001 - que versa sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais visivelmente aviltados. Com tudo isso, também estão sendo desrespeitados a Autonomia e o Ato Médico, quando uma internação judicial é contrária a avaliação técnica do médico assistente. Entrementes, a unidade corre o risco de não cumprir com seu objetivo maior: de prestar atendimento adequado aos pacientes com transtornos mentais, como também não oferecer condições dignas a atuação dos médicos e demais funcionários do CAISM. Dessa forma, solicita orientação sobre como proceder em casos de internações compulsórias e, como encontrar equilíbrio entre a ética médica e determinações judiciais. PARECER A Lei nº. 10.216, de 6 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, distingue três espécies de internação do paciente psiquiátrico, a saber: I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; e III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça. Em pleno processo de reforma psiquiátrica, os leitos hospitalares vêm sendo insuficientemente substituídos por ofertas alternativas deficitárias.

3 Certas cautelas procedimentais obrigam o médico responsável pela internação, assim como o estabelecimento hospitalar, no sentido de prevenir possíveis abusos por parte do psiquiatra e do estabelecimento hospitalar que recebe o paciente, a informar o ato ao Ministério Público Estadual nas primeiras 72 horas. Elas estão instituídas na Lei 10.216/2001 e podem resumir-se, de um modo geral, nos seguintes preceitos: (i) A internação voluntária ou involuntária somente será autorizada por médico devidamente registrado no CRM do Estado onde se localize o estabelecimento (art. 8º caput da Lei 10.216/2001). (ii) O médico que realiza a internação involuntária fará constar do prontuário as razões da internação, bem como os motivos da ausência de consentimento do paciente, devendo, neste caso, buscar o consentimento de um responsável legal. Se houver oposição do paciente à internação, o médico que realiza o procedimento admissório deve fazer constar do prontuário médico uma justificativa detalhada para o procedimento. Impõe-se ainda, ao responsável técnico do estabelecimento no qual tenha ocorrido a internação, que preencha formulário próprio (Termo de Comunicação de Internação Psiquiátrica Involuntária, conforme modelo constante do Anexo à Portaria MS nº 2.391, de 26/12/2002), o qual conterá laudo de médico especialista pertencente ao quadro de funcionários do estabelecimento de saúde responsável pela internação (Portaria MS nº 2.391/2002, art. 5º; Lei 10.216/2001, art. 6º), a ser remetido ao Ministério Público do Estado conforme esclarecido a seguir. (iii) O término da internação involuntária dar-se-á por solicitação escrita do familiar ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo especialista responsável pelo tratamento (Lei 10.216/2001, art. 8º 2º). No caso de alta do paciente, deverão os mesmos procedimentos de comunicação acima referidos (Lei 10.216/2001, art. 8º 1º in fine). Essas regras aplicam-se também, se, no decurso de uma internação psiquiátrica voluntária, o paciente, após sucessivas tentativas de persuasão pela equipe terapêutica, exprimir discordância quanto à continuidade de sua internação, passando a caracterizar-se uma internação psiquiátrica involuntária. Neste caso, os prazos contar-se-ão a partir da manifestação de discordância, devidamente assinada pelo paciente (Portaria MS nº 2.391, de 26/12/2002, art. 7º). A internação psiquiátrica involuntária é realizada sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiros. Habitualmente, são os familiares que solicitam a internação do paciente, mas é possível que o pedido venha de

4 outras fontes. Situações como doença mental com alto risco de autoagressão ou heteroagressão, bem como transtorno grave que comprometa a capacidade do paciente de reconhecer a necessidade do tratamento e de aceitá-lo, dentre outras, são freqüentes indicações de internação involuntária. A internação involuntária terminará com a alta médica dada pelo psiquiatra responsável pelo tratamento. No entanto, ela poderá também ser interrompida mediante solicitação escrita do familiar ou responsável legal. Enquanto, as internações voluntárias e involuntárias mostram-se regulamentadas, não é o caso quanto às internações compulsórias, devendo ser conduzidas por alguns parâmetros institucionais e pelas necessidades próprias de cada caso. ocorrer: De um modo geral algumas situações podem Internação compulsória com medida de segurança decretada juridicamente: o juiz determina o procedimento cabendo ao psiquiatra perito (distinto do psiquiatra assistente) a feitura do laudo de verificação de cessação de periculosidade ficando a desinternação a cargo do juiz. Internação compulsória como medida de tratamento e involuntária: o juiz determina o procedimento, mas o paciente se recusa a ser internado. Nesse caso, o psiquiatra procede à internação, comunicando-a ao Ministério Público nas primeiras 72 horas. Se na avaliação o psiquiatra não constatar a necessidade da internação ou a continuidade da mesma prescreverá a alta do ponto de vista médico e encaminhará ao departamento jurídico do hospital ou afim encaminhará a oportuna comunicação ao judiciário, aguardando a sua autorização. Internação compulsória como medida de tratamento, mas voluntária: o juiz determina o procedimento e o paciente também deseja a internação. O psiquiatra procede a internação nos moldes tradicionais. Se na avaliação o psiquiatra não constatar a necessidade da internação ou a continuidade da mesma prescreverá a alta médica, comunicará ao judiciário e ficará no aguardo de sua autorização. Internação involuntária, mas não compulsória: o psiquiatra indica, obtém o consentimento do responsável legal, realiza a internação e comunica ao Ministério Público em um prazo de 72 horas.

5 Registre-se, por fim, que não se pretende esgotar todos os procedimentos previstos em lei para a internação involuntária e compulsória, sendo indispensável a busca permanente de orientação específica do psiquiatra e do estabelecimento hospitalar a respeito, assim como interações entre psiquiatria e Poder Judiciário. Este é o nosso parecer, s.m.j. Conselheiro Mauro Gomes Aranha de Lima APROVADO NA REUNIÃO DA CÂMARA TÉCNICA DE SAÚDE MENTAL, REALIZADA EM 17/12/2011. APROVADO NA REUNIÃO DA CÂMARA DE CONSULTAS, REALIZADA EM 13.01.2012. HOMOLOGADO NA 4.463ª REUNIÃO PLENÁRIA, REALIZADA EM 17.01.2012.