Memorial da Resistência de São Paulo PROGRAMA LUGARES DA MEMÓRIA CEMITÉRIO MUNICIPAL DE AREIA BRANCA Endereço: Avenida Nossa Senhora de Fátima, 768, Areia Branca, Santos,SP. Classificação: Cemitério Identificação numérica: 052-04.001 Inaugurado em 29 de agosto de 1953, em uma área de aproximadamente 48 mil metros quadrados, o cemitério está localizado a noroeste da cidade de Santos, no bairro que o nomeou, Areia Branca. A avenida em que fica localizado é considerada uma importante via de acesso a este bairro periférico, que se desenvolveu inicialmente sem planejamento urbano. Além dos espaços funerários (túmulos), o cemitério dispõe de capela, sala de administração, almoxarifado e sanitários. Os funcionários são coveiros, ajudantes gerais, pedreiros e uma equipe administrativa. As condições físicas do cemitério Areia Branca são razoáveis, mas é possível encontrar jazigos depredados e alguns sem identificação. Mas apesar da precariedade de muitos túmulos, dois estão sempre cuidados, com placas e mensagens por graças alcançadas, sendo bastante visitados. 1
Trata-se do jazigo do menino Onofre Gonçalves (morto em 23/04/1956, com apenas cinco anos de idade) e do jazigo da menina Condilia Maria Rosa dos Santos (morta em 05/09/1968, com apenas sete anos de idade). Ambos considerados por muitos moradores da cidade como santos, através dos quais, muitos milagres foram realizados. Imagem 01 e 02: Respectivamente da direita para esquerda, Jazigo da menina Condilia Maria, e Jazigo do menino Onofre Gonçalves. Foto: Eulâmpia Requejo Rocha. Fonte: Novo Milênio. Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0204e.htm, acessado em 10/11/2014. 2
Em gratidão, os devotos das crianças mortas, beatificadas pela população local, cuidam da limpeza dos túmulos e se encarregam de fixar flores e placas com referencia aos pedidos alcançados. Segundo relatos apresentados por Leda Mondin, no jornal A Tribuna de Santos em 26/08/1982 e reproduzido no site Novo Milênio 1, Onofre é filho de Pedro Gonçalves e morreu na Santa Casa, vítima de meningite. Já a menina Condília nasceu na Vila São Jorge, sua família ainda mora no bairro. De acordo com Leda Mondin os populares afirmam que Condília sabia que ia morrer, e que chegou a pedir à mãe que impedisse a avó de viajar. "Vou durar três dias", teria dito ela, para falecer exatamente três dias depois. Outros corpos enviados para o cemitério Areia Branca puseram o lugar nas páginas dos jornais em todo o Estado de São Paulo. Foi o caso dos restos mortais do militante Eduardo Leite, popularmente conhecido como Bacuri. EXUMAÇÃO DO CORPO DO MILITANTE BACURI A repressão aos que não estavam de acordo com o regime implantado por meio do golpe militar foi intensa em todo o Estado. Muitos dos que eram presos na capital, por motivos diversos, eram encaminhados para prisões no litoral e interior. Um dos presos políticos transferidos da Delegacia de Ordem Politica e Social de São Paulo para o litoral foi o Bacuri. Preso pelos militares em 1970, Bacuri militou em diversas organizações de resistência à ditadura, como na Política Operária POLOP, na Vanguarda Popular Revolucionária VPR e na Ação Libertadora Nacional ALN. Em 1969, Bacuri se tornou líder da Resistência Democrática REDE, que reuniu diversas organizações da esquerda contra a ditadura. Por sua intensa atuação na militância armada, Bacuri era um dos perseguidos políticos mais procurados em todo o Estado. E em agosto de 1970 é preso no Rio de Janeiro, enquanto preparava uma ação para libertar sua companheira que estava grávida Denise Crispim, presa no DEOPS de São Paulo. Bacuri passou por prisões no Rio de Janeiro e em São Paulo, nos quais, viveu 1 Para acesso a matéria completa de Leda Mondin, consultar: http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0100b17b.htm, acessado em 10/11/2014. 3
109 dias ininterruptos de torturas. Ainda preso no DOPS de São Paulo em outubro de 1970, Bacuri recebeu dos militares um jornal com a divulgação de que teria fugido. Sua morte estava anunciada, pois não havia mais registros de que estava preso em poder dos militares. Imagem 03: Ilustração sobre o percurso da prisão e tortura de Bacuri. Matéria 109 dias de tortura da Revista Isto É. Edição nº 2171, publicada em 17 de junho de 2011. Disponível em: http://www.istoe.com.br/reportagens/142634_109+dias+de+tortura, acessado em 11/11/2014. Dias depois Bacuri foi levado do DOPS para uma casa de propriedade de um colaborador da repressão, sendo posteriormente enviado para o Forte dos Andradas no Guarujá. Neste local foi mantido preso clandestinamente, sendo assassinado no dia 08 de dezembro de 1970. 4
A versão oficial da morte de Bacuri, divulgada pelos militares no período foi decorrente de um tiroteio do militante com os órgãos de segurança. Considerando a divulgação na imprensa de que o local do suposto tiroteio teria sido nas imediações de São Sebastião, a decisão de enviar o corpo de Bacuri para o Cemitério de Areia Branca se deu pela proximidade com o local divulgado. A nota oficial emitida pela Delegacia de Polícia do Guarujá relata que com a descoberta da localização do militante, numa estrada do litoral de São Paulo, este havia iniciado uma troca de tiros com a polícia e, em decorrência disso, foi baleado. Imagem 04: Reprodução do Título da matéria do jornal folha de São Paulo que noticiou a morte de Bacuri em 09 de dez. 1970. Fonte: Acervo Folha de São Paulo. Disponível em: < http://acervo.folha.com.br/fsp/1970/12/09/2/>, acessado em 11/11/2014. Após os registros oficiais do suposto tiroteio, o corpo de Bacuri foi levado para o necrotério do município, no Gabinete de Medicina Legal que fica dentro do Cemitério Areia Branca. Denise Crispim, companheira de Bacuri, perseguida política em estado de liberdade condicional, ao saber do ocorrido se dirigiu ao Cemitério Areia Branca onde estava o corpo do militante assassinado. Eles não me deixaram nem entrar na parte do necrotério, pois ele estava enfiado ali dentro do saco, numa gaveta qualquer lá. Vi o corpo dele quando já tinha sido limpo. Eles tinham tirado um pouco da barba. Ele estava magríssimo. Tinha um corte transversal no rosto que pegava desde o osso da maça do rosto até o outro lado da sobrancelha. Tinha sinais de manchas e queimaduras em todo o corpo. Não tinha 5
um lugar onde pudesse dizer: aqui não bateram, conta Denise, entre lágrimas (GONÇALVES, 2011, 175). O clima era de tensão no Cemitério Areia Branca. Bacuri era uma pessoa muito estimada em todos os setores da esquerda, de modo que a ocasião de sua morte poderia atrair outros militantes e perseguidos políticos procurados pelos militares. A irmã de Bacuri, Edmeia Leite, afirmou que os agentes da repressão promoveram uma intensa vigilância e repressão no local. quando chegamos, o cemitério estava cheio de militares atrás dos túmulos. Do lado havia policiais com metralhadoras e todos os que entravam no cemitério eram cercados pela polícia para verificar quem eram. Sei que a Denise entrou em pânico e foi atrás de um telefone para ligar para os jornais e contar o que estava acontecendo, mas acho que não apareceu ninguém (GONÇALVES, 2011, 175). O corpo de Bacuri foi levado do local por seus familiares para ser enterrado em outro lugar. Mas o Cemitério Areia Branca ficou marcado como o lugar do (re) encontro dos familiares de Bacuri com o militante, uma vez que enquanto preso, ele não tinha direito a visitas. O cemitério Areia Branca é repleto de histórias que fazem parte da comunidade local, com apropriações e significados peculiares a história da comunidade. Mas também, foi cenário de histórias que tiveram repercussões em todo o Estado de São Paulo, como foi à exumação do corpo de Eduardo Leite, o Bacuri. Lugar de vigilância e repressão durante o período ditatorial, mas também lugar de (re) encontro de muitas memórias que precisam ser preservadas. ATUALMENTE E/OU ACONTECIMENTOS RECENTES Os restos mortais do gari Edson Rogério dos Santos, uma das vítimas dos chamados Crimes de Maio que aconteceram em 2006, foi exumado em junho de 2012, no Cemitério Areia Branca. O pedido foi da mãe da vítima, Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio. O objetivo foi encontrar os projéteis alojados na coluna cervical do gari, morto a tiros na noite de 15 de maio daquele ano. Os familiares do gari receberam uma indenização no valor de R$ 165 mil pelo 6
Estado de São Paulo. Outros 12 corpos de vítimas dos Crimes de Maio estão enterrados no Cemitério da Areia Branca. ENTREVISTAS RELACIONADAS AO TEMA Exumação do corpo de vítima dos "Crimes de Maio" é realizada em Santos. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=swmbwjaq8uo>, acessado em 10/11/2014. REMISSIVAS Forte dos Andradas, Delegacia de Ordem Política e Social de São Paulo. REFERENCIAS BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Direitos Humanos. Habeas corpus: que se apresente o corpo. Secretaria de Direitos Humanos Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2010. Comissão de Familiares e Desaparecidos Políticos, Instituto Estudos sobre a violência do Estado. Dossiê ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985). São Paulo: Imprensa Oficial. 2ed. 2009. GONÇALVES, Vanessa. Eduardo Leite Bacuri. São Paulo: Plena Editorial, 2011. COMO CITAR ESTE DOCUMENTO: Programa Lugares da Memória. Cemitério Municipal de Areia Branca. Memorial da Resistência de São Paulo, São Paulo, 2014. 7