A ARTE DO REENCONTRO J. M. CARVALHO

Documentos relacionados
NADA É POR ACASO. um roteiro. Fábio da Silva. 02/09/2008 até 22/09/2008

79 Dias. por. Ton Freitas

A Viagem. por. Ton Freitas

EU E MEUS VÍCIOS J. M. CARVALHO

Em Círculos. Mateus Milani

Rio Vermelho. Por. José Nilton Ribeiro da Silva Palma. Fatos Ficticios

1X10 PONTO FRACO CENA1/CASA DE NÉLIO/QUARTO DE MURILO/INT./DIA

A MULHER VESTIDA DE PRETO

Não Fale com Estranhos

A minha vida sempre foi imaginar. Queria ter um irmãozinho para brincar...

A minha vida sempre foi imaginar. Queria ter um irmãozinho para brincar...

Altos da Serra - Capítulo Altos da Serra. Novela de Fernando de Oliveira. Escrita por Fernando de Oliveira. Personagens deste Capítulo

Suspeitas. por. Ton Freitas

MÃE, QUANDO EU CRESCER...

Altos da Serra - Capítulo Altos da Serra. Novela de Fernando de Oliveira. Escrita por Fernando de Oliveira. Personagens deste Capítulo

O VELÓRIO DA DONA JUSTINA

Nossa, até o número é legal! Bonito o número! - Ah, que isso! - É sério! Tem gente que tudo é bonito! Rosto, corpo, papo...

A LOIRA DO CEMITÉRIO. Por JULIANO FIGUEIREDO DA SILVA

"Caixa de Saída" Roteiro de. Jean Carlo Bris da Rosa

Na escola estão Pedro e Thiago conversando. THIAGO: Não, tive que dormi mais cedo por que eu tenho prova de matemática hoje.

Uma lição de vida. Graziele Gonçalves Rodrigues

Bárbara uma mulher de 25 anos, queria atrasar o livro de uma escritora famosa chamada Natália, Bárbara queria contar uns segredos bombásticos antes

Um amor inacabado. Beatriz conversando com Rafael. No mesmo instante, Alison fala para Cecília:

Um dia normal no consultório dentista. Por. Matheus de Carvalho

Helena Foi sem querer, Dona Maria Luísa... Se a senhora quiser, eu posso costurar pra senhora.

AURORA O CANTONOVELA Luiz Tatit

"ESPELHO, ESPELHO MEU" Roteiro de. Deborah Zaniolli

Muito além da amizade. Por. Stoff Vieira. Baseado em relatos reais

O SEGUIDOR DE GAROTAS SENSÍVEIS. Peça de uma única cena

Regional São Paulo Leste

Suelen e Sua História

O Mistério da bolsa Grande

HERÓI OU BANDIDO. RITA (O.S.) Pai é do orfanato. DAVI Estou indo, filha.

A MORTE DOS FIGUEREDO - Quero matar você hoje, mamãe TEXTO DE: ARTHUR CANDOTTI. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

Tais (risos nervosos) Tem muita gente ne? (Se assusta com alguém que esbarra na corda) as pessoas ficam todas se esbarrando

Minha História de amor

O Jogo de Azar. Versão 1. Argumento de Luis Gustavo de Oliveira Ramp. Roteiro de Jean Carlo Bris da Rosa

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Puc Sp

COMO ESCREVER UM ROTEIRO EM SETE DIAS Por AUGUSTO FERREIRA

ENTREVISTA USF CARUARU USUARIA DIABETES 14/07/14. R - não. Porque eu to deficiente. Eu trabalho m casa. Amputei a perna.

Anexo Entrevista G2.5

Bebel tem Dia de Princesa e realiza sonho de ir à pizzaria

Os três filhos entram no Labirinto e seguem o percurso da mãe através do sangue.

TRABALHANDO OS 6 PONTOS

PEÇA TEATRAL: AMOR E. De: ARTHUR R. CANDOTTI ATO 1. Bebel sai. Pausa por alguns segundos. Fernando pega na mão da Drika.

A Rata Era uma vez uma rata que estava sozinha na toquinha. Ela morava com sua mãe e seu padrasto no castelo do rei, ela não tinha medo de nada.

Godofredo e Geralda sentados na mesa no centro do palco.

Tempos Melhores. Por. Paulo Moisés

Capítulo 1 - Um Novo Herdeiro

SENSO DE URGÊNCIA PARA CONQUISTAR TUDO

USE MARCHINHAS DE CARNAVAL

À flor da Pele(Curta) Cena I:

Indice: Cap. 1: 2004 Colegio Tobias de Aguiar. Cap. 2: A volta da Bulimia.

ELA. por Raquel Schaedler. Peça para três personagens: O homem A mulher ELA

Falso Amor. De Débora Costa

Semana de 10/04/17 a 16/04/17

De Débora Costa. Personagens:

MONÓLOGO MAIS UMA PÁGINA. Por Ana Luísa Ricardo Orlândia, SP 2012

A sanita mutante! Coleção. Os Mutantes. Já publicados A sanita mutante. A publicar Os óculos mutantes A esferográfica mutante

ainda não Luciano Cabral prostituta, vinte e cinco anos cliente, sessenta anos

PROCURA-SE UMA VIÚVA. Por CARLA GIFFONI

Roteiro para curta-metragem. Aparecida dos Santos Gomes 6º ano Escola Municipalizada Paineira NÃO ERA ASSIM

1 X 1. Peça de Tássio Ferreira

Cena 4. Pausa. O homem velho mete metade do corpo no latão e afunda nos sacos de lixo.

Um corvo está sentado numa árvore o dia inteiro sem fazer nada. Um pequeno coelho vê o corvo e pergunta:

PORTA ABERTA. Por RODRIGO MESSIAS CORDEIRO. Baseado no Conto Porta Aberta de RODRIGO MESSIAS CORDEIRO

A Patricinha. Ninguém é realmente digno de inveja, e tantos são dignos de lástima! Arthur Schopenhauer

A ÚLTIMA BELEZA. O JOVEM TURISTA Amor. Vou levar... É tão lindo. Parece vivo. Olhe. A JOVEM TURISTA Será que ele sairá do quadro e voará até nós?

Poetisa de. Saturno. Amanda Rêgo

YAHUVAH falou com ele mesmo ele

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

StoryBoard Prof. Eliseu Linguagem Audiovisual e Games

Adeus, transeunte. por. danilo crespo

Poesia Acústica #3 Capricorniana Clube do Violão. (Intro) Em7 Bm C7M D2. Eu tava doido pra cantar pra ela nosso som C7M D2

O criador de ilusões

INFORMAÇÃO Nº 009/2016-GT/LAVAJATO/DRCOR/SR/DPF/PR

A Procura. de Kelly Furlanetto Soares

Iracema ia fazer aniversário. Não

Ela não merecia. Por. Stoff Vieira

Como Usar Este Manual? Capítulo 1 Leitura Inicial Capítulo 2 Encarando a Realidade Capítulo 3 Vivendo Sob Uma Aliança...

Os Principais Tipos de Objeções

Page 1 of 5. Amor & Sociologia Cultural - Caetano Veloso & Cazuza

EU TE OFEREÇO ESSAS CANÇÕES

Àhistória de uma garota

Agendamento. A alma do nosso negócio!!!!

Quando o Sol se apaixonou pela Lua. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Curso Superior de Tecnologia em Jogos Digitais 2016

SEGUE-ME! ESTOU CONTIGO NO JEJUM!

VIVA OS PAIS PAI, MELHOR AMIGO!

ALICE DIZ ADEUS 4º TRATAMENTO* Escrito e dirigido por. Simone Teider

Microssérie de Cleiton Cardoso. Escrita por. Cleiton Cardoso. Direção *** Direção Geral *** Núcleo *** Personagens deste capítulo

Título: Poemas da verdade e da mentira. Autor: Luísa Ducla Soares. Ilustação: Ana Cristina Inácio. Edição original: Livros Horizonte, 2005

DNA Capítulo 34. Falso Amor

DNA Capítulo 33. Falso Amor

VERBOS Parte 1. Nesse vídeo você vai aprender o que é, ficar, esquentar, fechar, lembrar, esquecer, precisar, brincar, vir, arrumar, e fazer.

Novela de Cleiton Cardoso. Escrita por Cleiton Cardoso. Direção *** Direção Geral *** Núcleo ***

BRUNA RAFAELA. EDITORA BPA Biblioteca Popular de Afogados. Creative Commons

Transcrição:

A ARTE DO REENCONTRO by J. M. CARVALHO

SINOPSE (IDEIA ORIGINAL DE AUDREY RIBEIRO) Mãe e filha se encontram num banheiro público de um shopping. A mãe é faxineira desse banheiro e a filha é uma empresária bem sucedida, que foi almoçar com alguns colegas e passou no banheiro para retocar a maquiagem. Muito pobre, a filha sempre lutou muito pois tinha o sonho de se formar e sair da favela. A mãe, sempre submissa, apanhava do marido e se via numa situação bem complicada de pobreza. A filha também sofreu abusos do pai. Na adolescência, ela participava de cursos oferecidos para a comunidade carente com bolsas de estudo. Ela aproveitava as oportunidades. Até que veio a tão sonhada bolsa da faculdade. Com muito esforço consegue estudar e já consegue estágio. Os abusos do pai continuam com menos intensidade. Ela conta pra mãe que está juntando dinheiro pra ir embora e que quando se formar quer que a mãe vá junto e que comecem uma vida nova. A mãe não aceita, não se vê longe do marido e da casa. Passado um tempo a filha formada decide ir embora e a mãe inconformada bate na cara da filha e a chama de mal agradecida. A mãe magoada diz que não quer mais vê-la e ela vai embora. Os anos passam e a filha continua mantendo ligações telefônicas com a mãe de tempo em tempo até que deixa de ligar de vez. A filha continua se aperfeiçoando, está numa ótima empresa, se casa, tem um filho, mora em bairro nobre e de certa forma esconde seu passado. Até que acontece o encontro mais inesperado da sua vida... Em um banheiro encontra a mãe faxinando. As duas se reconhecem. Chegou o momento de falar tudo que está entalado na garganta? A mãe envelheceu bastante. É hora de lavar a roupa suja? 1. INT. - BANHEIRO PÚBLICO - 2019 - DIA Diane está no shopping com as colegas de trabalho. Ela entra no banheiro feminino.

2. (FALANDO PARA A AMIGA) Espera aí, Clau. Já volto. Preciso retocar a maquiagem... Você lembra quanto ficou o nosso MAC novo? Pega pra mim a nota fiscal. Temos que entregar pro seu Juarez. Diane entra e vai direto ao espelho. Há uma senhora limpando o chão, próxima à pia. (SEM OLHAR PARA ) Boa tarde! (SEM OLHAR PARA ) Boa tarde, senhora. Diane começa a passar o batom, mas sua cabeça dá um estalo. Ela reconhece a voz da mãe. As duas se olham pelo espelho e ficam petrificadas. 2. INT. - CASA DE - 2003 - DIA Enquanto estuda numa mesa da cozinha, Diane ouve a mãe e o pai discutirem no quarto do casal. Preocupada, ela para de estudar e começa a escutar a discussão. OSVALDO (EM OFF) Tu merece é apanhar, sua cadela sem-vergonha! Pensa que eu não vejo tu se engraçando com os vizinhos. Quenga! Tu tá louco, Osvaldo? Eu só tenho tempo de cuidar da casa, trabalhar feito uma condenada nas costuras e dar de comer pra Diane. Se acha que saio de casa, tu tá é doido. Tu bebe demais, seu descarado. OSVALDO (EM OFF) Tu não venha pra cima de mim não! Porque se não eu... Tu o quê? Fala!!!! Osvaldo bate em Neide. Diane sente como se fosse nela. Imediatamente corre pro quarto, mas a porta está trancada.

3. Mãe! Mãe! Sai daí, mãe! Pelo amor de Santo Cristo! Não é a primeira vez. Deixe, filha. Já estamos nos entendendo. (PARA O PAI) Se você encostar na minha mãe, eu acabo com você, seu merda! Olha a língua, Diane! Respeite seu pai. (PARA O PAI) Eu corto sua mão! Tá ouvindo? Nunca mais vai bater em mulher nenhuma. Covarde!! Abre aqui, mãe! Abra a porra dessa porta! Vá estudar, minha filha. Vá estudar, está tudo bem. Diane volta para a cozinha. 3. INT. - SALA DA CASA DE - 2005 - NOITE Diane e Neide conversam na sala, enquanto tomam um café. Mãe, eu preciso contar uma coisa pra senhora. Quer uma bolachinha? Eu compro pão, se quiser. Mãe, me escuta! O que tu tá inventando, menina? Como a senhora sabe, eu passei na faculdade. Esta é a novidade? Que vai ser estudar contabilidade?

4. Administração, mãe... mas esta não é a novidade não. Eu... Vou fazer um bolinho de fubá. Quer? Neide se levanta para ir à cozinha. Mãe! Estou indo embora. Neide, abalada, volta a se sentar. Tu não me ama, né? A senhora é que não se ama! Como? Como uma mulher permite ser espancada, machucada, humilhada, por tantos anos a fio, sem denunciar um traste como o que chama de meu pai? Como uma mulher pode aguentar anos de privação, de desrespeito, de calúnias? Onde está o seu amor? Como pode falar que me ama se não ama nem a si mesma? (CHORANDO) Escuta aqui! Eu te amo sim! Mais que a minha própria alma. Mas também amo aquele que me deu você. Mãe, acorda! Ele deu uma gozada na senhora. Foi uma trepada! Neide dá um tapa em Diane. Imediatamente, Diane lembra das dezenas de tapas que levou em toda a sua adolescência. FLASHBACKS: OSVALDO (NÃO VEMOS SEU ROSTO) ATACA A FILHA EM 5 MOMENTOS DIFERENTES. EM UM DELES, ACARICIA SEUS SEIOS...

5. DEPOIS DE DAR UMA SURRA NELA. 4. INT. - PORTA DA SALA DE - 2009 - DIA Diane ficou na casa até se formar. Agora, Diane está na porta de casa, com a mala aos seus pés. A senhora não vem mesmo? Neide responde com a cabeça que não. (CONT'D) Lamento muito, pois ele não te merece. Neide começa a chorar. (CONT'D) Sabe, mãe. Ralei muito para ter as bolsas de estudo que tive, pra fazer os cursos que fiz. Me formei. Agora tenho um estágio. Estou preparada pra ser feliz, como nunca fui. E a senhora vai ficar aqui com ele, disposta a continuar nesse sofrimento sem fim... eu te amo, mas não vou voltar. As duas se abraçam e choram juntas. Minha vida é aqui, filha. Teu pai não vive sem mim. Ele não vale nada. Eu sei. Mas eu amo esse homem. (PAUSA) Você nunca vai entender, né? (PAUSA) Ele deixou de te agredir, filha... Diane! Olha pra mim! Neide dá um tapa em Diane. (CONT'D) Mal agradecida! Não quero mais te ver. Nunca mais! Diane pega a mala e sai. (DE LONGE) Filha. Ele te ama, filha... filha... olha pra mim... filha... Eu te amo, minha menina!

6. Diane não olha para trás e vai embora. 5. INT. - BANHEIRO PÚBLICO - 2019 - DIA Dez anos se passaram. Mas elas se reconhecem claramente. Meu Deus, mãe! Me dá um abraço! Neide, emocionada, abraça a filha. (CONT'D) Eu te amo, mãe! Eu tenho saudades! Eu também te amo. Muito. Estive magoada por muitos anos, mas eu te amo mais que tudo. Por que deixou de me ligar, minha menina? Não aguentei mais saber dele. Nunca aceitei sua decisão. Não consegui. Desculpa. As duas choram juntas. A amiga de Diane a chama do lado de fora. (CONT'D) Tudo bem, Clau. Vou depois pra empresa. Pode ir. CLAUDIA (EM OFF) Certeza, amiga? Sim, absoluta. Diane sorri para a mãe. Neide está preocupada e parece muito envelhecida depois de 10 anos sem ver a filha. Filha, preciso falar uma coisa. Diga, minha mãe. É que seu pai...

7. (CORTANDO) A senhora está bem de saúde? Está bem mesmo? Sabia que me casei? Senta aqui comigo. As duas se apoiam na pia do banheiro. Você se casou, minha menina? Nos Estados Unidos, me casei com um americano... lindo de morrer. Temos um filho lindo e uma empresa aqui perto. Como ele se chama? Andy. Tem 3 aninhos. Vamos tomar um café e conversar direitinho? Filha, me escuta... seu pai... (CORTANDO) Eu não quero saber. Seu pai precisa de ti, minha menina. Não me importa. Ele tem leucemia. Precisa de você. Deixa assim, que ele vai embora mais rápido. (IGNORANDO) Ele precisa de um transplante de medula óssea urgentemente. Pelo amor de Deus, Diane, ajuda o seu pai! Veja pelo menos se é compatível! Que morra! Diane se prepara para sair e, sem olhar para trás, pára na porta do banheiro.

8. (DE COSTAS) Ele continuou a te bater? Faz 7 anos que ele parou. Mudou muito. Ele te ama, minha menina! Ele é um novo homem. Pelo amor de Deus, Diane! (AINDA DE COSTAS) A senhora está falando a verdade? Juro por tudo o que é mais sagrado. Perdoa o seu pai! Salva seu pai, Diane! Pelo amor de Deus. Veja pelo menos se é compatível. Diane se volta para a mãe. Vemos que ela está com o rosto cheio de lágrimas. (CONT'D) Por Deus. Pelo Andy. Pelo amor que sente por seu marido. Diane olha para a mãe por um longo tempo, sem palavras. Por você. Diane corre para a mãe e a abraça. As duas choram e depois sorriem juntas. FIM (CONT'D)