PROJETO DE LEI COMPLEMENTAR Nº 022/2011 Regulamenta o sistema financeiro estadual, conforme previsto pelo art. 68, Parágrafo Único, inciso I, da Constituição Estadual. A Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo D E C R E T A Art. 1º. O sistema financeiro estadual é estruturado de forma a cumprir os objetivos da política de desenvolvimento estadual. 1º. As instituições públicas de caráter financeiro incorporadas, fundidas ou criadas com o objetivo expresso neste artigo integrarão o sistema financeiro estadual. 2º. A criação, fusão, cisão, incorporação, alienação e extinção, ressalvada neste caso a competência da União, de instituição pública estadual de caráter financeiro dependerão de autorização expressa da Assembléia Legislativa. 3º. Não dependerão de autorização expressa da Assembléia Legislativa as operações que não impliquem alienação do controle majoritário acionário da instituição pública estadual de caráter financeiro. 4º. A criação de instituição pública estadual de caráter financeiro somente poderá ser feita por lei específica. 5º. A criação de subsidiárias de instituição pública estadual de caráter financeiro, assim como a participação de qualquer delas em empresa privada, depende de autorização legislativa.
Art. 2º. As instituições integrantes do sistema financeiro estadual que exerçam atividade de fomento elaborarão, observada a Lei de Diretrizes Orçamentárias, a política de aplicação de seus recursos direcionada, preferencialmente, para o desenvolvimento da produção, de serviços e de geração de tecnologia que atendam ao mercado interno. Art. 3º. As instituições financeiras destinadas a apoiar programas de alta relevância econômica e social e, principalmente, os destinados ao fomento da pequena produção agrícola, à democratização do acesso à terra, às terras particulares cobertas com florestas nativas, à habitação popular, ao saneamento básico e a obras de urbanização, poderão ser agraciadas com recursos, na forma do caput do art. 221 da Constituição Estadual, respeitados sempre o Plano Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Art. 4º. As disponibilidades de caixa do Estado e dos seus Municípios, bem como dos órgãos ou entidades dos seus Poderes e das empresas por eles controladas, serão depositadas em instituições financeiras oficiais, ressalvados os casos previstos em lei. 1º. A opção pela mudança da instituição financeira oficial que recepcionar as disponibilidades de que trata este artigo, será feita mediante a prévia observância: I- da lei federal 8.666/93, que regulamenta o art. 37, XXI, da Constituição Federal, ou da norma que a suceder, assegurando a todas instituições financeiras oficiais, inclusive àquela da qual se propõe a retirada das disponibilidades, a apresentação de propostas. II- da lei complementar federal 101/2000, que trata da Responsabilidade Fiscal, ou da norma que a suceder. 2º. Ficam vedados:
I- o recebimento antecipado de valores da instituição financeira oficial para qual se deseja migrar as disponibilidades de caixa, em troca de pagamento periódico de tarifas de serviços, tendo em vista caracterizar operação equiparada à antecipação de crédito violadora dos preceitos da responsabilidade fiscal, nos termos dos arts. 35 e 37, II, da lei complementar federal 101/2000. II- a realização da mudança da instituição financeira oficial, receptora das disponibilidades de caixa, no último ano do mandato do Governador ou Prefeito Municipal, tendo em vista o disposto no art. 38, IV, b, da lei complementar federal 101/2000 e o princípio da moralidade administrativa. Art. 5º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Sala das Sessões, 19 de setembro de 2011. DEPUTADO GILSINHO LOPES
J U S T I F I C A T I V A Embora a Constituição Estadual tenha sido promulgada em 1989, ainda não houve a regulamentação do sistema financeiro estadual. A regulação prevê o seguinte: - Os preceitos constitucionais do Sistema Financeiro Estadual são trazidos para a legislação reguladora, de forma a ressaltar a sua importância. - O Poder Executivo poderá vender a maioria da sua participação no Banestes ou em outra instituição do gênero. No entanto, se pretender abrir mão do controle acionário, deverá ser autorizado previamente pela Assembléia Legislativa. A proposta está de acordo com a posição do Supremo Tribunal Federal em diversos precedentes, destacando-se os seguintes: ADI 1348 / RJ - RIO DE JANEIRO AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA Julgamento: 21/02/2008 Órgão Julgador: Tribunal Pleno Publicação DJe-041 DIVULG 06-03-2008 PUBLIC 07-03-2008 EMENT VOL-02310-01 PP-00051 RTJ VOL-00204-01 PP-00088 LEXSTF v. 30, n. 354, 2008, p. 68-87 Parte(s) REQTE.: GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ADV.: RAUL CID LOUREIRO E OUTRO
REQDO.: DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 364, CAPUT E PARÁGRAFO ÚNICO, DA CONSTITUIÇÃO DO RIO DE JANEIRO. NORMA QUE IMPEDE A ALIENAÇÃO DAS AÇÕES ORDINÁRIAS DO BANCO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - BANERJ - E DETERMINA A ARRECADAÇÃO DE RECEITAS E OS PAGAMENTOS DE DÉBITOS DO ESTADO, EXCLUSIVAMANTE, PELO BANCO ESTADUAL. 1. No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 234/RJ, ao apreciar dispositivos da Constituição do Rio de Janeiro que vedavam a alienação de ações de sociedades de economia mista estaduais, o Supremo Tribunal Federal conferiu interpretação conforme à Constituição da República, no sentido de serem admitidas essas alienações, condicionando-as à autorização legislativa, por lei em sentido formal, tão-somente quando importarem em perda do controle acionário por parte do Estado. Naquela assentada, se decidiu também que o Chefe do Poder Executivo estadual não poderia ser privado da competência para dispor sobre a organização e o funcionamento da administração estadual. 2. Conteúdo análogo das normas impugnadas nesta Ação; distinção apenas na vedação dirigida a uma sociedade de economia mista estadual específica, o Banco do Estado do Rio de Janeiro S/A - Banerj. 3. Aperfeiçoado o processo de privatização do Banco do Estado do Rio de Janeiro S/A, na forma da Lei fluminense n. 2.470/1995 e dos Decretos ns. 21.993/1996, 22.731/1997 e 23.191/1997. Condução do processo segundo o que decidido pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar mantida. 4. Ação Direta de Inconstitucionalidade julgada procedente. ADI 234 QO / RJ - RIO DE JANEIRO QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE Relator(a): Min. NÉRI DA SILVEIRA
Julgamento: 04/10/1995 Publicação Órgão Julgador: Tribunal Pleno DJ 09-05-1997 PP-18126 EMENT VOL-01868-01 PP-00001 Parte(s) REQTE. : GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO REQDO. : DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO EMENTA: - Ação direta de inconstitucionalidade. Questão de Ordem. 2. No julgamento da ADIN 234-1/600 - RJ, o STF, por unanimidade, julgou procedente, em parte, a ação e declarou a inconstitucionalidade do inciso XXXIII do art. 99 e do parágrafo único do art. 69, ambos da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, e, ainda, por maioria de votos, julgou procedente, em parte, a ação, relativamente ao caput do art. 69 aludido, para dar-lhe interpretação conforme a Constituição, segundo a qual a autorização legislativa nela exigida há de fazer-se por "lei formal específica", só sendo necessária, entretanto, quando se cuidar de alienar o controle acionário de sociedade de economia mista. 3. Publicada a decisão no Diário da Justiça da União, o Governador do Estado do Rio de Janeiro requereu a exclusão da ata de julgamento do termo específica, sustentando que não corresponde essa expressão ao que foi decidido pela Corte, a qual apenas exigiu, na hipótese do caput do art. 69 da Carta fluminense, a existência de "lei formal genérica". 4. Petição conhecida como embargos de declaração, após ter sido publicado o acórdão. 5. Reconheceu-se não existir inteira coincidência entre o que foi objeto da análise dos votos do Relator e do Presidente com os termos segundo os quais ficou proclamada a decisão e, assim, constante da ata de julgamentos da sessão plenária respectiva. 6. Verificou-se, entretanto, que não constituiu objeto de expressa discussão, no julgamento da ação direta de inconstitucionalidade, o ponto referente a ser necessária autorização legislativa, por lei formal específica, quando se cuida de alienação de ações do Estado em sociedade de economia mista implicando a perda de
seu controle acionário. 7. Em face disso, o Tribunal recebeu, em parte, os embargos de declaração para determinar seja retirada da ata de julgamento, na parte relativa ao feito, a expressão específica, passando a proclamação do resultado, neste ponto, a constar, nos seguintes termos: "E, por maioria de votos, julgou procedente, em parte, a ação com relação ao caput do art. 69, para dar-lhe interpretação conforme a Constituição, segundo a qual a autorização legislativa nela exigida há de fazer-se por lei formal, mas só será necessária, quando se cuide de alienar o controle acionário da sociedade de economia mista". Registre-se que este Deputado é contra a venda do Banestes, e defende que o banco somente possa ser vendido se o povo assim o desejar em plebiscito. No entanto, como foi rejeitada Emenda Constitucional neste sentido, faz-se necessária, por ora, a regulação da matéria conforme a posição do Supremo Tribunal Federal. - Finalmente, este Projeto de Lei Complementar vem tratar de um assunto essencial à defesa do sistema financeiro estadual, sobretudo do Banestes. O Banestes precisa ser defendido de possíveis ataques predatórios praticados pelo Banco do Brasil S/A, ou, possivelmente, pela Caixa Econômica Federal. Basta dar o exemplo do que aconteceu no Município de Vila Velha, onde no último ano de mandato do ex-prefeito as disponibilidades do Tesouro foram transferidas do Banestes para o Banco do Brasil.
Naquela ocasião, sem que houvesse qualquer levantamento de valores por parte da Municipalidade, ou seja, escorando-se unilateralmente em valores propostos pelo Banco do Brasil, sem fazer comparações de oferta junto à CEF e, sobretudo, ao Banestes, decidiu-se por transferir as disponibilidades do Tesouro mediante o recebimento de quase R$ 10 milhões, mediante o pagamento de prestações mensais de relevante valor a título dos serviços que viriam a ser prestados pelo Banco do Brasil. O que ocorreu, portanto, foi uma disfarçada operação de crédito, que na verdade consiste em antecipação de receita vedada pela lei de responsabilidade fiscal. Vedação essa tendo em vista que a LC 101 não permite que uma instituição oficial antecipe receita para ente Público. A receita que é antecipada pelo Banco, obviamente é recuperada através das prestações mensais que passa a receber pelos serviços que prestar. Aqui, podemos invocar o jargão tão utilizado pelos norte-americanos: Não existe almoço grátis. Ora, evidente que o Banco não dá dinheiro aos Municípios sem equacionar os lucros que irá obter. Esta lei não tem por objetivo impedir a transferência de recursos públicos que estão disponibilizados no Banestes para outros bancos oficiais, como o Banco do Brasil ou a CEF, pois isso é uma decisão que cabe ao Administrador. O objetivo é regular. Ou seja, a Proposta é disciplinar os procedimentos que devem ser respeitados para que não haja a utilização de artifícios ilegais, que se uma vez praticados por outros Municípios possam abalar seriamente a saúde financeira do Banestes. A proposta objetiva que, antes do Poder Público transfira recursos de uma instituição para a outra, seja obrigada a agir de conformidade com a moralidade administrativa, e respeitar, sobretudo: a) A lei de licitações, valendo destacar que mesmo quando a licitação for inexigível ou dispensável há formalidades que devem ser cumpridas.
b) A lei de responsabilidade fiscal. c) A oportunidade da instituição de onde o recurso será transferido participar do certame que irá decidir a respeito de onde serão depositados os recursos públicos. A observância de tais princípios implica na impossibilidade do recebimento de adiantamento da instituição financeira pelo órgão público, para fazer a transferência das suas disponibilidades, quando esse adiantamento venha a ser compensado com o pagamento mediante taxas de serviços bancários mensais, fixadas unilateralmente pelo Banco. A lei de Responsabilidade Fiscal, com sabedoria, vedou de forma ainda mais taxativa essas espécies de operação no último ano de mandato, pois obviamente compromete a futura Administração. É evidente que a utilização de expedientes mediante a oferta de expressivos valores adiantados, geram grande atrativo para Municípios abrirem mão de manter seus depósitos no Banestes. O que não é admissível quando ocorra de forma violadora ao sistema jurídico. Desta maneira, em Defesa do Banestes e do Sistema Financeiro Estadual, é proposta esta Lei Complementar.