Cerimónia de Assinatura Protocolo AICEP/CRUP Lisboa, 10 janeiro 2014 António Rendas Reitor da Universidade Nova de Lisboa Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas Queria começar por saudar esta iniciativa e todos aqueles que a tornaram possível. Gostaria de salientar, em especial, duas pessoas: o Engenheiro João Proença e o Professor Eduardo Marçal Grilo. Sem a persistência do primeiro e o estímulo facilitador do segundo não estaríamos hoje aqui. Portugal parte para este desafio, de uma aliança entre as empresas exportadoras e as universidades para a internacionalização do ensino superior, com considerável atraso, como vou seguidamente demonstrar. Ao contrário do que sucedeu com a ciência portuguesa, que recebeu um reconhecimento internacional muito significativo na última década, o ensino superior português não esteve, até hoje, vocacionado para uma internacionalização global, considerada no sentido de uma capacidade de atração significativa de estudantes estrangeiros, para lá da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Numa publicação recente onde se analisa a mobilidade dos estudantes que procuram o espaço europeu e de fora da Europa, com base numa colheita rigorosa dados internacionais, entre 2006 e 2011, verifica-se que Portugal apenas apresentou valores significativos de captação em relação ao Brasil. Efetivamente, a percentagem de estudantes brasileiros atingiu, em 2010, 25.5% da totalidade dos estudantes recebidos o que representa apenas 0,7% da população estudantil portuguesa que frequenta o ensino superior. Aliás, o mesmo sucedeu com a 1
Espanha que, no mesmo ano, recebeu, predominantemente, estudantes da Colômbia. Este padrão tem-se mantido constante ao longo dos anos. Também outros países europeus recebem, predominantemente, estudantes de apenas um outro país europeu como é o caso dos estudantes alemães na Holanda e dos estudantes do Reino Unido na Irlanda. Receber estudantes de um único país pode significar que o recrutamento depende apenas de semelhanças nas línguas e nas culturas. Pode refletir, igualmente, a ausência de uma estratégia nacional, orientada para o recrutamento estudantil no mercado global. Noutros países europeus como a Alemanha, o Reino Unido e a Suécia a maior percentagem do recrutamento corresponde a estudantes vindo dos países asiáticos, ocupando a China o primeiro lugar. O mesmo sucede com a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá, só para mencionar os principais. Desde 2010 que o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) vem desenvolvendo, em paralelo com as iniciativas individualizadas das universidades que o constituem, um conjunto de ações destinadas à captação de estudantes estrangeiros e que assentam nos seguintes eixos: Em agosto de 2012 o CRUP apresentou ao Governo uma proposta que definia o estatuto de estudante internacional para acesso ao 1º ciclo universitário. Continuamos a aguardar que seja publicada a respetiva legislação, sem a qual não será possível admitir esses estudantes nas universidades portuguesas; Operacionalização do Acordo já assinado entre Portugal e a República Popular da China, de modo a possibilitar o reconhecimento mútuo de graus académicos e de períodos de estudo nos dois países; 2
Estabelecimento de um acordo com a FLAD com vista à utilização da marca Study in Portugal como símbolo da identidade do ensino superior nacional a nível global e não apenas nos Estados Unidos de América; Articulação com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, no sentido de agilizar os processos de obtenção de vistos para os estudantes internacionais. Esta iniciativa tem-se revelado particularmente útil para os estudantes brasileiros. Este conjunto de ações teve, contudo e até aqui, um impacto reduzido pela dispersão das atividades de cada universidade e pela ausência de uma estratégia nacional orientada a chamada exportação do ensino superior português que, tirando alguns nichos bem sucedidos como a gestão, é pouco significativa quando comparada com outros países europeus que investem de uma forma significativa e organizada nesta área, há muitos anos. Por todas estas razões, esta parceria entre as universidades portuguesas e a AICEP, nas suas várias vertentes, poderá representar o primeiro passo na constituição de uma entidade executiva responsável pelo fomento da internacionalização do ensino superior português, à semelhança do que já existe em todos os países europeus. Portugal deve continuar a assumir o desafio da CPLP mas tem uma enorme capacidade de expansão na Europa e no resto do Mundo, desde a América do Sul, para lá do Brasil, passando pelo Magreb e restantes países árabes, e até ao continente asiático. É um grande desafio para as universidades portuguesas, e para Portugal, que vem bastante tarde. É verdadeiramente um atraso de séculos porque, se a AICEP existisse em 1290, este protocolo seria apenas assinado por uma universidade a de Coimbra, acabada de fundar. O mesmo sucederia em 1390 e em 1490. Em 1590 haveria duas universidades signatárias, uma vez que Universidade do 3
Espírito Santo, em Évora, tinha sido fundada em 1559 e o mesmo sucederia em 1690. Já em 1790 haveria de novo uma única universidade porque a Universidade de Évora tinha sido extinta em 1759. Isto significa que em 1890 haveria, de novo, apenas uma signatária. Só em 1911 haveria novamente três como resultado da criação das Universidades de Lisboa e do Porto a que se juntaria, em 1930, a Universidade Técnica de Lisboa. Em 1962 surgiriam mais duas, situadas no continente africano, em Angola e em Moçambique e, entre 1971 e 1973, mais quatro: as universidades Católica, Nova, de Aveiro e do Minho. A história mais recente já foi contada e é por isso que estamos todos aqui hoje. Concluindo, só a partir do século XX, ou seja, só mais de 600 anos depois do primeiro eventual protocolo entre a AICEP e o CRUP, em 1290. é que Portugal expandiu o seu sistema universitário. Não foi isso que aconteceu nos restantes países europeus, nem mesmo em Espanha. No que diz respeito a Portugal não posso deixar que me perguntar, de vos perguntar, como foi possível termos descoberto o Mundo sem nunca termos fundado uma universidade. É que as universidades não servem só para gerar novos conhecimentos, servem para os transformar, para os transmitir e, finalmente, servem para os guardar e expandir através das novas gerações. Se o tivéssemos feito, se tivéssemos fundado universidades nos seis séculos de história que atravessaram a Idade Média e a Idade Moderna, talvez o nosso património intangível estivesse mais preservado e esta nova navegação, que agora iniciamos, mais facilitada. Para além desta limitação, a priori, as universidades portuguesas vivem, atualmente, no meio de uma tempestade porque a sua autonomia é todos os dias posta em causa por razões que não compreendem. Esta perda da autonomia universitária, feita em nome da contenção, contrasta com uma prática que foi 4
sempre de rigor e de contenção. Impor mais contenção a quem já é contido pode ter consequências gravíssimas e imprevisíveis. O Cabo da Boa Esperança já foi ultrapassado há muito mas o risco de encalharmos nos rochedos é cada vez maior. O desafio da internacionalização do ensino superior português precisa de instituições saudáveis. Precisa também da confiança da sociedade e, nesse sentido, esta parceria pode vir a ser um importante na demonstração da importância da autonomia universitária. Esta nova missão é possível mas precisa de compromissos para lá do que aqui foi assinado. Na internacionalização, como a história muito bem demonstra, não chega descobrir, há que consolidar e construir com bases sólidas. Portugal e as suas universidades não podem correr mais riscos de falsas partidas e de faltas de rumo. Desejo a todos boas e partilhadas navegações. Muito obrigado. 5