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Calor Final do século XVIII: duas hipóteses alternativas 1) Fluido indestrutível (calórico) que preencheria os poros dos corpos, escoando-se de um corpo mais quente para um mais frio, mantendo constante a quantidade total de calórico Lei de conservação do calor (Lavoisier) 2) Consiste em um minúsculo movimento de vibração das partículas dos corpos (Bacon, Hooke e Newton) Em meados do século XIX James Joule e outros mostraram que o calor é uma forma de energia (trabalho pode ser convertido em calor através, p.e., do atrito) e que energia poderia ser adicionada ou removida de um sistema tanto por realização de trabalho, sobre ou pelo sistema, quanto por aquecimento, levando ao conceito de energia interna de um sistema e ao Princípio de Conservação de Energia, o qual se aplica a todos os fenômenos conhecidos: mecânicos, elétricos, magnéticos, físico-químicos, biológicos, etc.

Quantidade de Calor: Definição fervura 1 l de leite tempo t T Q 2 l de leite tempo 2t T 2Q Q = quantidade de calor (unidade = caloria (cal), por razões históricas) Definição: uma caloria é a quantidade de calor necessária para elevar a temperatura de 1g de água de 14,5 o C para 15,5 o C. Se a massa fosse de 1kg de água, nas mesmas condições, seria necessária uma quantidade de calor de 1kcal = 10 3 cal, pois a quantidade de calor é proporcional à massa da substância.

Quantidade de Calor: Calor Específico Calor Específico C: é a quantidade de calor necessária para elevar de 1 o C a temperatura de uma substância, é medido em cal/g o C e, geralmente, depende da temperatura Calor Específico da água entre 14,5 o C e 15,5 o C : C = 1 cal/g o C Calor Específico da água entre 0 o C e 1 o C : C = 1,008 cal/g o C desprezamos esta variação Para que C esteja bem definido é preciso especificar em que condições a temperatura, da substância, foi variada: 1) Pressão constante: C P (calor específico a pressão constante) 2) Volume constante: C V (calor específico a volume constante) Para líquidos e sólidos: C P C V Para gases: C P C V

Valores do calor específico a pressão constante de 1 atm e temperatura ambiente

Quantidade de Calor: Capacidade Térmica substância pura com m gramas e calor específico C Q Q = = quantidade de de calor calor para para elevar elevar a a tem- temperatura peratura de T de T calor específico Capacidade térmica de um sistema formado de m 1 gramas de uma substância com calor específico C 1, m 2 gramas de uma substância com calor específico C 2, etc., é

Capacidade Térmica Se o intervalo de temperatura T = T f T i for grande o suficiente tal que o calor específico C = C(T), então a quantidade de calor Q é obtida através de Como medir C? Utilizando um Calorímetro de misturas

Calorímetro de Misturas Uma amostra A de massa m A, calor específico C A, aquecida a uma temperatura T A, é mergulhada dentro de uma massa m de água, de calor específico C, contida em um calorímetro (recipiente com paredes adiabáticas * ). A água está inicialmente à temperatura T i < T A. paredes adiabáticas água m A Após o equilíbrio térmico ter sido atingido, a temperatura do sistema é T f (medida pelo termômetro). A quantidade de calor perdida pela amostra A é inteiramente cedida à água * paredes adiabáticas isolamento térmico perfeito não há troca de calor com o meio externo * paredes diatérmicas transparente ao calor há troca de calor com o meio externo

Calorímetro de Misturas Quantidade de calor perdida pela amostra A: Quantidade de calor cedida à água: Com isso, calculamos C A (calor específico médio da amostra A) no intervalo entre T A e T f, através da igualdade a quantidade de calor cedida ao recipiente não foi considerada

Capacidade Térmica Molar Capacidade Térmica Molar: É a capacidade térmica de 1 mol (molécula-grama) de substância, que é obtida multiplicando-se o seu calor específico pela massa atômica ou molecular 1 mol massa em gramas igual à massa atômica ou molecular Sabendo que C V (Al) = 0,22 cal/g o C e M(Al) = 27 g/mol, sua Capacidade Térmica Molar é (0,22)(27) = 5,94 cal/mol o C Lei de Dulong e Petit: A capacidade térmica molar de todos os sólidos, a temperaturas elevadas, aproxima-se de 6 cal/mol o C (para baixas temperaturas este resultado não concorda com dados experimentais e a explicação só pode ser obtida através da teoria quântica)

Reservatório Térmico: definição sofre uma va- Como vimos, um sistema de capacidade térmica riação de temperatura pela transferência de uma quantidade de calor Q Como, podemos ter T << 1 aumentando suficientemente a massa do sistema, permitindo uma transferência de calor sem que sua temperatura se altere. Tal sistema é chamado de Reservatório Térmico. Exemplos: oceano e atmosfera ou qualquer recipiente de tamanho adequado contendo um fluido em equilíbrio térmico

Condução de Calor A transferência de calor, de um ponto a outro de um meio, se dá através de três tipos de processos: 1) Convecção: Fluido calor é transferido pelo próprio movimento do fluido (corrente de convecção). Ex.: vento, correntes marinhas, circulação de água no sistema de aquecimento central, etc. 2) Radiação: Transferência de calor através de ondas eletromagnéticas que são emitidas por um corpo aquecido, e pode ser absorvida por outro corpo, aquecendo-o. Exemplo: O Sol é uma fonte de radiação térmica para produção de calor. 3) Condução: Ocorre através de um meio material sem que haja movimento do material, sob efeito de diferenças de temperatura (sólidos e fluidos). Exemplo: Panela de água sobre uma chama (calor se transmite através da parede metálica da panela)

Condução de Calor A transferência de calor por condução se dá de acordo com: 1) O calor flui sempre de um ponto a temperatura mais alta para um ponto a temperatura mais baixa. 2) A quantidade de calor Q transportada durante um intervalo de tempo t é: (a) proporcional à diferença de temperatura T ; (b) inversamente proporcional à expessura x; (c) proporcional à área A; (d) proporcional à t Combinando (a) e (b) vemos que Q é proporcional à ( T / x), que é chamado gradiente de temperatura Fluxo de energia para

Condução de Calor Combinando todas as observações, temos que a condução de calor através de uma espessura infinitesimal dx de um meio, durante um tempo dt é o sinal negativo exprime o fato de que o calor flui de T 2 para T 1 (T 2 > T 1 ) e se o gradiente de temperatura é negativo, a corrente térmica dq/dt é positiva Fluxo de energia para

Condução de Calor Quanto maior o valor da condutividade térmica k, melhor condutora de calor é a substância. metais, que conduzem bem eletricidade, são bons condutores de calor (Lei de Wiedemann e Franz) melhores isolantes térmicos: gases líquidos são, em geral, maus condutores de calor, podendo transmití-lo por convecção Como medir k?

Condução de Calor com o auxílio deste sistema podemos medir k da barra

Condução de Calor Para este novo arranjo, em regime estacionário, temos Para um sistema composto de várias fatias:

Calor Latente Existem situações onde a transferência de energia não modifica a temperatura do sistema, como no caso da mudança de fase de uma substância. Duas mudanças de fase comuns são de sólido para líquido (fusão ou liquefação) e de líquido para gás (vaporização), que envolvem mudança na energia interna do sistema. Se energia Q é requerida para que haja uma mudança de fase de uma substância com massa m, então a razão L = Q/m caracteriza uma importante propriedade térmica da substância e é chamado de calor latente, que depende da natureza da mudança de fase, e das propriedades da substância. Assim, para uma substância pura, durante a mudança de fase temos que Q = ml f L f é o calor latente de fusão (sólido líquido) Q = ml v L v é o calor latente de vaporização (líquido gás) líquido-sólido: solidificação gás-líquido: condensação

Calor Latente

Calor Latente Exemplo: Vamos calcular a energia total necessária para converter 1g de gelo (T i = -30,0 o C) em vapor (T f = 120,0 o C) Parte A: De -30,0 o C até 0,0 o C a temperatura do gelo muda, mas ele ainda permanece na fase sólida. Como C gelo = 2090 J/(kg o C), a quantidade de calor (energia) que deve ser fornecida é: Parte B: Ao atingir a temperatura de 0,0 o C a mistura gelo-água permanece nessa temperatura até que todo gelo se liquefaça (funda). A quantidade de calor (energia) necessária para fundir 1g de gelo é

Calor Latente Parte C: Entre 0,0 o C e 100,0 o C não há nenhuma mudança de fase e como C água = 4,19 x 10 3 J/(kg o C), a quantidade de calor (energia) que deve ser fornecida é: Parte D: Ao atingir 100,0 o C a mistura água-vapor permanece nessa temperatura até que toda água se transforme em vapor. (mudança de fase). A quantidade de calor (energia) necessária para vaporizar 1g de gelo é:

Calor Latente Parte D: Entre 100,0 o C e 120,0 o C não há nenhuma mudança de fase. Como C vapor = 2,01 x 10 3 J/(kg o C), a quantidade de calor (energia) que deve ser fornecida é: A quantidade de calor (energia) total que deve ser fornecida para transformar 1g de gelo (T i = -30,0 o C) em vapor (T f = 120,0 o C) é a soma dos cinco valores: Q Total = 3,11 x 10 3 J

Gráfico da temperatura em função da energia adicionada para transformar 1g de gelo (T i =-30,0 o C) em vapor (T f =120,0 o C) Figura tirada do Serway

Mudança de Fase: Interpretação Podemos descrever as mudanças de fase em termos do rearranjo das moléculas (átomos) quando energia é adicionada ou removida do sistema. Líquido-Gás: No líquido as moléculas estão mais próximas e as forças entre elas são mais fortes do que no gás e é necessário fornecer energia (realizar trabalho sobre o líquido) para separar as moléculas L v é a quantidade de energia, por unidade de massa, que deve ser adicionada ao líquido para separar as moléculas

Mudança de Fase: Interpretação Sólido-Líquido: No sólido, a adição de energia causa aumento na amplitude de vibração, ao redor da posição de equilíbrio, das moléculas (átomos) que o compõe. No ponto de fusão, a amplitude é grande o suficiente para quebrar a ligação entre as moléculas e permitir que elas se movam para outras posições L f é a quantidade de energia, por unidade de massa, que deve ser adicionada ao sólido para transformar as ligações do tipo do sólido (mais fortes) na do tipo de líquido (mais fracas)