LEI PENAL NO TEMPO E NO ESPAÇO

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1 LEI PENAL NO TEMPO E NO ESPAÇO CAPÍTULO 1 LEI PENAL NO TEMPO E NO ESPAÇO QUESTÕES 1. (DEFENSOR PÚBLICO DPE/RJ 2010) MARIANA, empresária, ofereceu queixa-crime contra JOÃO no dia 28/04/2008, imputando-lhe a seguinte conduta: No dia 23/03/2008, no interior da residência localizada na Rua do Socorro, nº 27, cobertura 01, Tijuca, Rio de Janeiro, por volta de 22h00min, ao final de um churrasco oferecido pela querelante em comemoração ao seu aniversário, o querelado, consciente e voluntariamente, aproveitado-se da impossibilidade de resistência, manteve com a querelante conjunção carnal e ainda praticou diversos outros atos libidinosos. Para conseguir seu intento, o querelado colocou substância sonífera na bebida da querelante, levado-a a sono profundo, oportunidade em que aproveitou para satisfazer a sua libido e seus instintos bestiais. Ante o exposto, encontra-se o mesmo incurso nas penas dos artigos 213 e 214 c/c 224, alínea c, a forma do artigo 69, todos do Código Penal. Recebida a exordial, o MM. Juiz ordenou a citação do querelado, que só foi efetivada em fevereiro de 2010, oportunidade em que ele ofereceu a resposta e arrolou testemunhas. O juiz designou audiência de instrução e julgamento para o dia 20 de março de 2010, que não se realizou porque as testemunhas de acusação não compareceram. Remarcada a audiência para o dia 20 de abril, a mesma também não se realizou porque a querelante não compareceu ao ato, atravessando, posteriormente, uma petição por seu advogado, na qual fazia representação para que o Ministério Público retomasse a ação como parte principal em face das mudanças ocorridas nos crimes contra a dignidade sexual. Os autos foram encaminhados a você, Defensor Público nomeado para a defesa do querelado. MANIFESTE-SE JUSTIFICADAMENTE EM FAVOR DO SEU ASSISTIDO. 17

2 ESPAÇO EM BRANCO PARA RESPOSTA

3 LEI PENAL NO TEMPO E NO ESPAÇO QUESTÕES COMENTADAS 1. (DEFENSOR PÚBLICO DPE/RJ 2010) MARIANA, empresária, ofereceu queixa-crime contra JOÃO no dia 28/04/2008, imputando-lhe a seguinte conduta: No dia 23/03/2008, no interior da residência localizada na Rua do Socorro, nº 27, cobertura 01, Tijuca, Rio de Janeiro, por volta de 22h00min, ao final de um churrasco oferecido pela querelante em comemoração ao seu aniversário, o querelado, consciente e voluntariamente, aproveitado-se da impossibilidade de resistência, manteve com a querelante conjunção carnal e ainda praticou diversos outros atos libidinosos. Para conseguir seu intento, o querelado colocou substância sonífera na bebida da querelante, levado-a a sono profundo, oportunidade em que aproveitou para satisfazer a sua libido e seus instintos bestiais. Ante o exposto, encontra-se o mesmo incurso nas penas dos artigos 213 e 214 c/c 224, alínea c, a forma do artigo 69, todos do Código Penal. Recebida a exordial, o MM. Juiz ordenou a citação do querelado, que só foi efetivada em fevereiro de 2010, oportunidade em que ele ofereceu a resposta e arrolou testemunhas. O juiz designou audiência de instrução e julgamento para o dia 20 de março de 2010, que não se realizou porque as testemunhas de acusação não compareceram. Remarcada a audiência para o dia 20 de abril, a mesma também não se realizou porque a querelante não compareceu ao ato, atravessando, posteriormente, uma petição por seu advogado, na qual fazia representação para que o Ministério Público retomasse a ação como parte principal em face das mudanças ocorridas nos crimes contra a dignidade sexual. Os autos foram encaminhados a você, Defensor Público nomeado para a defesa do querelado. MANIFESTE-SE JUSTIFICADAMENTE EM FAVOR DO SEU ASSISTIDO. WILLIAM AKERMAN GOMES Antes do advento da Lei nº /2009, os crimes contra a liberdade sexual eram delitos de ação penal privada, na forma do art. 225, caput, do CP. Com a alteração legislativa levada a efeito, a ação penal dos crimes em questão passou a ser, em regra, pública condicionada à representação, na forma do mesmo dispositivo do Estatuto Repressor, com a redação atual. Como a Lei nº /2009, no ponto, ostenta natureza híbrida (processual e material) e constitui novatio legis in pejus, não pode ser aplicada a fatos anteriores à sua vigência, sob pena de malferir o postulado da irretroatividade da lei penal que não beneficie o réu (art. 5º, XL, da CF e art. 2º, parágrafo único, do CP). 19

4 FÁBIO CALIARI JOÃO PEREIRA ANDRADE FILHO ILANA MARTINS NATHAN CASTELO BRANCO ROBERTO BORGES GOMES WILLIAM AKERMAN GOMES Na hipótese, como o crime fora cometido, segundo a denúncia, em 23/03/2008, antes, portanto, da alteração promovida pela Lei nº /2009, a natureza da ação penal não se alterará, devendo-se reconhecer a ocorrência da perempção, diante da ausência da querelante à AIJ designada para o dia 20 de abril, nos termos do art. 60, III, do CPP, extinguindo-se, por conseguinte, a punibilidade, na forma do art. 107, IV, última figura, do CP, com a improcedência da pretensão punitiva. DOUTRINA TEMÁTICA 20 No entanto, se a entendermos como de natureza material, deverá ser aplicado o princípio da retroatividade benéfica, previsto tanto no parágrafo único do art. 2º do Código Penal quanto no inciso XL do art. 5º da Constituição Federal, que diz que a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. Poderá, ainda, como defendem alguns processualistas, ser entendida como norma híbrida ou mista, ou seja, uma norma processual com reflexos penais, posição com a qual concordamos. (GRECO, 2013, p. 733) grifado pelo autor Ora, uma norma que passou a exigir a representação para o exercício da ação penal em relação a alguns crimes tem um aspecto material, visto que o não oferecimento da representação acarretará a decadência e a extinção da punibilidade, matéria do Direito Penal (art. 107 do Código Penal); mas é também norma processual, pois é uma condição de procedibilidade da ação penal (art. 38 do Código de Processo Penal). Destarte, nos processos em andamento, cuja ação penal se iniciou mediante queixa não existe providência a ser tomada pelo Juiz de Direito, senão a marcha normal do procedimento, observando-se o principio do tempus regit actum, pois a nova disposição não aproveitaria ao réu: uma ação penal de iniciativa privada é mais benéfica (em tese) para o acusado que a ação penal pública, seja condicionada ou não (do ponto de vista da iniciativa). Basta lembrar que a ação penal de iniciativa privada é disponível, sendo possível, em favor do querelado, o perdão e a perempção. O mesmo raciocínio serve para aqueles casos em que o processo iniciou-se por denúncia (independentemente de representação) e a nova lei também não a exige. (MOREIRA, Rômulo de Andrade. Ação penal nos crimes contra a liberdade sexual e nos delitos sexuais contra vulnerável a Lei /09. Disponível em id=6762&revista_caderno=22. Acessado em: 07 mai. 2009) JURISPRUDÊNCIA TEMÁTICA STJ HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO. DESCABIMENTO. COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E DESTE SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. MATÉRIA DE DIREITO ESTRITO. MODIFICAÇÃO DE ENTENDIMENTO DO STJ, EM CONSONÂNCIA COM O DO STF. CRIMES PREVISTOS NOS ARTS. 213 E 214 DO CÓDIGO PENAL. FATOS ANTERIORES À LEI Nº /09. LEGITI- MIDADE DOS REPRESENTANTES LEGAIS DA OFENDIDA. VÍTIMA, À ÉPOCA, COM 10 ANOS DE IDADE. DECADÊNCIA E PEREMPÇÃO NÃO CONFIGURADAS.

5 LEI PENAL NO TEMPO E NO ESPAÇO AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. ORDEM DE HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDA. 1. O Excelso Supremo Tribunal Federal, em recente alteração jurisprudencial, retomou o curso regular do processo penal, ao não mais admitir o habeas corpus substitutivo do recurso ordinário. Precedentes: HC /PR, 1.ª Turma, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, julgado em 07/08/2012, DJe de 10/09/2012; HC /RJ, 1.ª Turma, Rel. Min. ROSA WEBER, julgado em 28/08/2012, DJe de 05/09/2012. Decisões monocráticas dos ministros LUIZ FUX e DIAS TOFFOLI, respectivamente, nos autos do HC /AC (DJe de 27/08/2012) e HC / RJ (DJe de 27/08/2012). 2. Sem embargo, mostra-se precisa a ponderação lançada pelo Ministro MARCO AURÉLIO, no sentido de que, "no tocante a habeas já formalizado sob a óptica da substituição do recurso constitucional, não ocorrerá prejuízo para o paciente, ante a possibilidade de vir-se a conceder, se for o caso, a ordem de ofício." 3. Na hipótese em apreço, os representantes legais da ofendida (à época dos fatos com 10 anos de idade) ofereceram queixa- -crime contra o Paciente, pela prática, em tese, dos delitos tipificados nos arts. 213 e 214 do Código Penal. Em razão da entrada em vigor da Lei nº /09, o Ministério Público ofereceu denúncia contra o Paciente pelos mesmos fatos. O Juízo Processante recebeu a denúncia e habilitou a ofendida como assistente da acusação, sob o entendimento de que a nova lei alterou a natureza da ação penal em caso de crimes sexuais cometidos contra vítima menor de idade, passando de privada para ação penal pública incondicionada. 4. Por sua vez, o Tribunal de origem, em decisão benéfica ao Paciente, determinou o trancamento da ação penal pública oferecida pelo Parquet, e, acertadamente, permitiu a continuidade da ação penal privada, que havia sido intentada dentro do prazo de 06 (seis) meses, não havendo que se falar em decadência. 5. Na espécie, o Juízo de primeira instância sequer havia recebido a queixa-crime inicialmente apresentada, o que afasta, também, a configuração da perempção, nos termos da jurisprudência desta Corte. 6. Assim, não resta configurada ilegalidade manifesta que permita a concessão da ordem de ofício. 7. Ordem de habeas corpus não conhecida. (HC /RS, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 24/09/2013, DJe 02/10/2013) grifado pelo autor QUESTÕES DE CONCURSO RELACIONADAS 01. (FCC Defensor Público DPE/MA 2009) Sobre a aplicação da lei penal e da lei processual penal no tempo, desde que não sejam de natureza mista: vigoram princípios diferentes em relação a cada uma das leis. Assertiva correta. 21

6 TEORIA DO CRIME CAPÍTULO 2 TEORIA DO CRIME QUESTÕES 1. (VUNESP DEFENSOR PÚBLICO DPE/MS 2008) Dolo direto; dolo indireto; culpa inconsciente; culpa consciente e preterdolo. Com objetividade e utilizando-se de casos hipotéticos (exemplos práticos), narre uma situação que configure cada um deles. ESPAÇO EM BRANCO PARA RESPOSTA

7 FÁBIO CALIARI JOÃO PEREIRA ANDRADE FILHO ILANA MARTINS NATHAN CASTELO BRANCO ROBERTO BORGES GOMES WILLIAM AKERMAN GOMES

8 TEORIA DO CRIME QUESTÕES COMENTADAS 1. (VUNESP DEFENSOR PÚBLICO DPE/MS 2008) Dolo direto; dolo indireto; culpa inconsciente; culpa consciente e preterdolo. Com objetividade e utilizando-se de casos hipotéticos (exemplos práticos), narre uma situação que configure cada um deles. WILLIAM AKERMAN GOMES O dolo direto (determinado ou imediato) é marcado pela consciência e vontade. Age com dolo direto o sujeito que quer determinado resultado (art. 18, I, primeira parte do CP). Subdivide-se em dolo direto de primeiro grau e dolo direto de segundo grau (dolo de consequências necessárias). Tem-se o primeiro quando o dolo abrange a produção do fim em si mesmo. Ex.: o agente realiza disparos de arma de fogo contra a vítima, com intenção de matá-la. Já o dolo direto de segundo grau diz respeito aos efeitos colaterais, às consequências necessárias do meio escolhido. Nesse caso, o agente prevê e quer a produção do resultado como consequência inevitável da combinação dos fins pretendidos com os meios escolhidos. Ex.: o agente, para matar seu inimigo (fim proposto), coloca uma bomba no avião em que ele se encontra, vindo a matar, além de seu inimigo (dolo direto de primeiro grau), todos os demais que estavam a bordo, como consequência necessária do meio escolhido (dolo direto de segundo grau). De outro vértice, há dolo indireto quando a vontade do sujeito se dirige diretamente a determinado resultado. Subdivide-se em dolo eventual (dolo de consequências possíveis) e dolo alternativo. O primeiro se verifica quando o agente não quer diretamente a realização do tipo, mas a aceita como consequência possível ou até provável, assumindo o risco da produção do resultado (art. 18, I, in fine, do CP). Ex.: agente, para matar seu desafeto (fim colimado), efetua vários disparos de fuzil, prevendo que, além dele, poderia atingir também um transeunte, o que vem a ocorrer. Em relação a esse transeunte, tem-se o dolo eventual. O dolo alternativo, por seu turno, ocorre quando a vontade do sujeito se dirige a um ou outro resultado (alternatividade objetiva), ou a uma ou outra pessoa (alternatividade subjetiva). Ex.: agente lança a vítima para fora de seu 55

9 FÁBIO CALIARI JOÃO PEREIRA ANDRADE FILHO ILANA MARTINS NATHAN CASTELO BRANCO ROBERTO BORGES GOMES WILLIAM AKERMAN GOMES carro em movimento com intenção de ferir ou matar; desfere disparo de arma de fogo querendo atingir um ou outro indivíduo. No que tange à culpa (art. 18, II, do CP) que consiste na inobservância do dever objetivo de cuidado, manifestada numa conduta negligente, imprudente ou imperita, produtora de um resultado não querido, objetivamente previsível, fala-se em culpa inconsciente (ex ignorantia), quando o agente, ao praticar a conduta, não prevê o resultado, embora fosse previsível. Ex.: pai esquece seu filho trancado no interior do automóvel, no estacionamento de seu trabalho, vindo a criança a falecer. Tem-se, porém, a culpa consciente (ex lascivia) quando o agente representa a possibilidade da ocorrência do resultado que acaba por se verificar e não assume o risco de produzi-lo, acreditando, levianamente, que não ocorreria. Ex.: motorista de veiculo ingressa numa rua em que um pedestre inicia a travessia; acreditando que não atingirá o transeunte, acelera o veículo para desviar e acaba por atropelá-lo. Por fim, o preterdolo ou preterintenção se verifica quando a conduta do agente é dolosa, dirigida a determinado resultado, mas lhe sobrevém um resultado mais grave, não desejado e que lhe é imputado a título de culpa (art. 19 do CP), porque deriva de um excesso de força na execução da intenção inicial, Diz-se, pois, que há dolo no antecedente e culpa no consequente. Ex.: agente que quer causar lesão corporal numa gestante, conhecendo seu estado de gravidez, mas sem desejar diretamente o aborto, nem assumir o risco de sua ocorrência. DOUTRINA TEMÁTICA 56 No dolo direto, o sujeito visa a certo e determinado resultado. Por exemplo: o agente desfere golpes de faca na vítima com intenção de matá-la. O dolo se projeta de forma direta no resultado morte. Há dolo indireto quando a vontade do sujeito não se dirige a certo e determinado resultado. Possui duas formas: a) dolo alternativo; e b) dolo eventual. Há dolo alternativo quando a vontade do sujeito se dirige a um ou outro resultado. Por exemplo: o agente desfere golpes de faca na vítima com intenção alternativa: ferir ou matar. Ocorre o dolo eventual quando o sujeito assume o risco de produzir o resultado, i. e., admite e aceita o risco de produzi-lo. (JESUS, 2009, p. 71) Dolo direto de primeiro grau: o agente tem a consciência (representação) de que sua conduta causará um resultado, bem como a vontade de praticar a conduta e produzir o resultado. (AZEVEDO, 2012, p. 199) Dolo direto de segundo grau (dolo de consequências necessárias): previsão dos efeitos colaterais (resultado típico) como consequência necessária do meio escolhido. (Ibidem) A alternatividade do dolo pode ser: subjetiva (quando se referir à pessoa), e objetiva (quando disser respeito ao resultado). (GRECO, 2013, p. 62)

10 TEORIA DO CRIME Na culpa inconsciente o resultado não é previsto pelo agente, embora previsível. É a culpa comum, que se manifesta pela imprudência, negligência e imperícia. Na culpa consciente, também denominada negligência consciente e culpa ex lascivia, o resultado é previsto pelo sujeito, que confia levianamente que não ocorra, que haja uma circunstância impeditiva ou que possa evitá-lo. Por isso, é também chamada culpa com previsão. (JESUS, 2009, p. 79) Crime preterdoloso ou preterintencional é aquele em que a conduta produz um resultado mais grave que o pretendido pelo sujeito. O agente quer um minus e seu comportamento causa um majus, de maneira que se conjugam o dolo na conduta antecedente e a culpa no resultado (consequente). (Idem, p. 84) JURISPRUDÊNCIA TEMÁTICA STF DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. CRIME DE COMPETÊN- CIA DO TRIBUNAL DO JÚRI. "RACHA" AUTOMOBILÍSTICO. HOMICÍDIO DOLO- SO. DOLO EVENTUAL. NOVA VALORAÇÃO DE ELEMENTOS FÁTICO-JURÍDICOS, E NÃO REAPRECIAÇÃO DE MATERIAL PROBATÓRIO. DENEGAÇÃO. 1. A questão de direito, objeto de controvérsia neste writ, consiste na eventual análise de material fático-probatório pelo Superior Tribunal de Justiça, o que eventualmente repercutirá na configuração do dolo eventual ou da culpa consciente relacionada à conduta do paciente no evento fatal relacionado à infração de trânsito que gerou a morte dos cinco ocupantes do veículo atingido. 2. O Superior Tribunal de Justiça, ao dar provimento ao recurso especial interposto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, atribuiu nova valoração dos elementos fático- -jurídicos existentes nos autos, qualificando-os como homicídio doloso, razão pela qual não procedeu ao revolvimento de material probatório para divergir da conclusão alcançada pelo Tribunal de Justiça. 3. O dolo eventual compreende a hipótese em que o sujeito não quer diretamente a realização do tipo penal, mas a aceita como possível ou provável (assume o risco da produção do resultado, na redação do art. 18, I, in fine, do CP). 4. Das várias teorias que buscam justificar o dolo eventual, sobressai a teoria do consentimento (ou da assunção), consoante a qual o dolo exige que o agente consinta em causar o resultado, além de considerá-lo como possível. 5. A questão central diz respeito à distinção entre dolo eventual e culpa consciente que, como se sabe, apresentam aspecto comum: a previsão do resultado ilícito. No caso concreto, a narração contida na denúncia dá conta de que o paciente e o co-réu conduziam seus respectivos veículos, realizando aquilo que coloquialmente se denominou "pega" ou "racha", em alta velocidade, em plena rodovia, atingindo um terceiro veículo (onde estavam as vítimas). 6. Para configuração do dolo eventual não é necessário o consentimento explícito do agente, nem sua consciência reflexiva em relação às circunstâncias do evento. Faz-se imprescindível que o dolo eventual se extraia das circunstâncias do evento, e não da mente do autor, eis que não se exige uma declaração expressa do agente. 7. O dolo eventual não poderia ser descartado ou julgado inadmissível na fase do iudicium accusationis. Não houve julgamento contrário à orientação contida na Súmula 07, do STJ, eis que apenas se procedeu à revaloração dos elementos admitidos pelo acórdão da Corte local, tratando-se 57

11 FÁBIO CALIARI JOÃO PEREIRA ANDRADE FILHO ILANA MARTINS NATHAN CASTELO BRANCO ROBERTO BORGES GOMES WILLIAM AKERMAN GOMES de quaestio juris, e não de quaestio facti. 8. Habeas corpus denegado. (HC 91159, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Segunda Turma, julgado em 02/09/2008, DJe-202 DIVULG PUBLIC EMENT VOL PP-00281) grifado pelo autor STJ PENAL. PROCESSUAL. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. ALÍNEA "C" DO PERMISSIVO CONSTITUCIONAL. FALTA DE COTEJO ANALÍTICO. IMPOSSIBILI- DADE DE EXAME DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. HOMICÍDIO. ACIDENTE DE TRÂNSITO. DOLO EVENTUAL. CULPA CONSCIENTE. REVALORAÇÃO DE PRO- VAS. POSSIBILIDADE. INEXISTÊNCIA DE ELEMENTOS DO DOLO EVENTUAL. CIR- CUNSTÂNCIAS DO FATO QUE NÃO EVIDENCIAM A ANTEVISÃO E A ASSUNÇÃO DO RESULTADO PELO RÉU. DESCLASSIFICAÇÃO DA CONDUTA QUE SE IMPÕE. AGRAVO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. Quanto à divergência, falta o cotejo analítico, nos moldes do que determina o art. 255 do RISTJ, impedindo o conhecimento do recurso quanto a esse aspecto. De se referir que não basta a simples transcrição de ementas ou trechos do julgado divergente, devendo a parte realizar o confronto explanatório da decisão recorrida com o acórdão paradigma, a fim de apontar a divergência jurisprudencial existente. A falta de análise dos julgados com o fito de evidenciar sua similaridade fática evidencia o descumprimento das formalidades insculpidas nos artigos 541, parágrafo único, do Código de Processo Civil, e 255, 1º e 2º, do Regimento Interno desta Corte. 2. A doutrina penal brasileira instrui que o dolo, conquanto constitua elemento subjetivo do tipo, deve ser compreendido sob dois aspectos: o cognitivo, que traduz o conhecimento dos elementos objetivos do tipo, e o volitivo, configurado pela vontade de realizar a conduta típica. 3. O elemento cognitivo consiste no efetivo conhecimento de que o resultado poderá ocorrer, isto é, o efetivo conhecimento dos elementos integrantes do tipo penal objetivo. A mera possibilidade de conhecimento, o chamado conhecimento potencial, não basta para caracterizar o elemento cognitivo do dolo. No elemento volitivo, por seu turno, o agente quer a produção do resultado de forma direta dolo direto ou admite a possibilidade de que o resultado sobrevenha dolo eventual. 4. Considerando que o dolo eventual não é extraído da mente do acusado, mas das circunstâncias do fato, na hipótese em que a denúncia limita-se a narrar o elemento cognitivo do dolo, o seu aspecto de conhecimento pressuposto ao querer (vontade), não há como concluir pela existência do dolo eventual. Para tanto, há que evidenciar como e em que momento o sujeito assumiu o risco de produzir o resultado, isto é, admitiu e aceitou o risco de produzi-lo. Deve-se demonstrar a antevisão do resultado, isto é, a percepção de que é possível causá-lo antes da realização do comportamento. 5. Agravo a que se nega provimento. (AgRg no REsp /PR, Rel. Ministra JANE SIL- VA (DESEMBARGADORA CONVOCADA DO TJ/MG), SEXTA TURMA, julgado em 14/10/2008, DJe 03/11/2008) grifado pelo autor RECURSO ESPECIAL. PENAL. CRIME DE INCÊNDIO QUALIFICADO PELA MORTE DA VÍTIMA. PRETERDOLOSO. APLICAÇÃO DO ART. 258 DO CÓDIGO PENAL. AFASTA- MENTO DO NEXO DE CAUSALIDADE. VERBETE SUMULAR Nº 7 DESTA CORTE. 1. Os crimes de perigo comum são qualificados pelo resultado, nos termos do art. 258 do Código Penal. Exige-se dolo ou culpa na conduta antecedente, 58

12 TEORIA DO CRIME devendo a conduta conseqüente ser culposa. Dessa forma, incabível a tese defensiva de que inexistiu dolo na conduta conseqüente, visto que se existisse o animus necandi seria um crime contra vida e não crime de incêndio. 2. Afastar o nexo de causalidade entre o incêndio ocasionado pelo Réu e a morte da vítima requer exame de aspectos fáticos, o que é vedado no âmbito do recurso especial, em razão do óbice do enunciado nº 07 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça. 3. Recurso especial desprovido. (REsp /SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 27/03/2008, DJe 28/04/2008) grifado pelo autor QUESTÕES DE CONCURSOS RELACIONADAS 01. (FUNDEP Defensor Público DPE/MG 2006) A respeito dos delitos culposos, assinale a alternativa CORRETA. Na culpa inconsciente, o resultado naturalístico não é previsível. Assertiva errada. 02. (Cespe Defensor Público DPE/DF 2013) Para a caracterização do crime culposo, a culpa consciente se equipara à culpa inconsciente ou comum. Assertiva correta. 2. (DEFENSOR PÚBLICO DPE/RJ 2002) Beto, durante acalorada discussão com Chico, desfere-lhe um golpe de canivete na perna. Como no momento da briga Chico estivesse completamente embriagado, só horas depois veio a procurar o hospital em busca de atendimento médico. Ao dar entrada no pronto-socorro, a vítima já apresentava um quadro de infecção moderada para a qual a melhor técnica médica prescreveria tratamento à base de antibióticos e vacina antitetânica, além de limpeza local do ferimento. Ocorre, entretanto, que o médico plantonista vem a determinar a amputação da perna de Chico, supondo, erroneamente, ser este o único meio de evitar uma septicemia. Beto vem então a ser denunciado pelo crime previsto no art. 129, 2º, do Código Penal. Pergunta-se: a) Em tese, deve-se ter como correto esse posicionamento do Ministério Público? Justifique a resposta. b) Sendo negativa a resposta à pergunta anterior, qual o crime, em tese, teria praticado Beto? WILLIAM AKERMAN GOMES No caso em tela, o posicionamento do Ministério Público mostra-se incorreto. Isso porque a lesão corporal gravíssima apenas se configurou em razão do equívoco cometido pelo médico plantonista, que supôs, erroneamente, que a amputação da perna de Chico seria o único meio de evitar uma septicemia, quando a melhor técnica médica indicava procedimento diverso. 59

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