Medicalização da vida e Doença de Alzheimer

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1 Medicalização da vida e Doença de Alzheimer Juliane Cristina de Almeida (Profissional Faculdade Guairacá), Ana Paula de Almeida (IC Unicentro), Bárbara Luisa Fermino (IC Unicentro) Juliana Sartori Bonini (Orientadora) RESUMO: O intuito da presente revisão bibliográfica foi demonstrar a importância implícita na medicalização da vida, uma vez que graças a ela alcançou-se uma maior expectativa de vida e uma constante busca por qualidade de vida. Junto com a longevidade alcançada, surgiram doenças que são próprias da comunidade idosa, como a Doença de Alzheimer, e que vêm aumentando suas frequências de ocorrência, motivo pelo qual se faz necessário o estudo e desenvolvimento de fármacos e alternativas que tragam melhoria para essas pessoas e suas famílias, visando não apenas mais tempo de vida, como também uma velhice sem transtornos funcionais. Palavras-chaves: Doença de Alzheimer, Medicalização, Idoso INTRODUÇÃO Segundo a Organização Mundial da Saúde (2005) o aumento do número de pessoas com mais de 60 anos, cresce com média superior às demais faixas etárias. Estima-se que a população senil, hoje responsável por 10% da população mundial, representará em % do contingente populacional, em consequência do aumento da expectativa de vida e redução das médias de natalidade na maior parte dos países, principalmente os considerados em desenvolvimento. Isto significa, em números, um salto de 516 milhões de idosos em 2010 para 1,6 bilhões em 2050 (dados obtidos pelo International Database U.S. Census Bureau, 2009). Em 2025 o Brasil será o sexto país com maior população de idosos do mundo, com a expressiva quantidade de 31,8 milhões de idosos, com expectativa de vida por volta dos 80 anos (Silvestre et al., 1998). O aumento da longevidade, aos níveis existentes mundialmente, cresce paralelamente à inovação e melhorias cientificas, desde agrícola, com o melhoramento genético de cultivares, trazendo maior produção de alimentos, exatas, humanas,

2 estudando as mudanças no comportamento social do ser humano e principalmente os avanços na saúde, às vacinas que aumentaram seu poder de cobertura contra as mais diversas enfermidades (Veras, 2000). Com esse crescente avanço nas pesquisas voltadas à saúde e desenvolvimento de fármacos, prolongou-se também a expectativa de vida e, com isso, houve aumento de diagnósticos de doenças vinculadas à idade, incluindo demências como a Doença de Alzheimer (DA). Estima-se que a neurodegeneração na DA comece de 20 a 30 anos antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos (Athié, 2010). Atualmente, os custos globais anuais para o tratamento da demência somam U$ 422 bilhões (Wimo et al., 2010), distribuídos de forma desproporcional entre países desenvolvidos (77% do valor total) e subdesenvolvidos (23% do valor total) (Wimo et al., 2007). No Brasil, rivastigmina, donepezil e galantamina são os fármacos distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). METODOLOGIA Para a efetivação dos objetivos realizou-se uma busca de artigos nas bases de dados LILACS, SCIELO, SCIENCE DIRECT, PUBMED e Banco de teses e dissertações da CAPES, com as palavras-chave medicalização, Alzheimer, longevidade. Foram encontrados 43 artigos, dos quais 26 foram selecionados. Os artigos escolhidos foram publicados entre os anos de 1998 e 2011 e relacionavam as palavras-chave pesquisadas. Como critério de exclusão, descartou-se os artigos que tratavam isoladamente de cada palavra-chave, não sendo condizentes com o objetivo da presente revisão bibliográfica, pois buscava-se a intercontextualidade dos temas. OBJETIVOS O presente resumo, tem por objetivo realizar uma revisão bibliográfica que relacione a fisiopatologia da Doença de Alzheimer com os medicamentos que estão sendo estudados e desenvolvidos no momento. Nesse sentido, visamos apontar o que há de mais moderno no âmbito farmacêutico, mostrando, inclusive, o mecanismo de ação de cada um desses novos fármacos com pesquisas em andamento., demostrando, assim, a importância da medicalização na DA.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO De acordo com Martins (2008), o século XX foi marcado por um período de grandes mudanças e avanços tecnológicos nas mais diversas áreas, como informática, tecnociência, tecnobiologia, biociências e principalmente na área da saúde, trazendo novas aplicações no domínio da saúde humana. Essas tecnologias, quando combinadas, podem trazer não só melhorias, como redefinições na saúde, além de novas estratégias de controle e conduta. Ainda no século XX, o autor ressalta o desenvolvimento da psicofarmacologia, através da descoberta de novos medicamentos capazes de modificar o estado psíquico. Quando se pensa em saúde mental, em nível científico, pensa-se concomitantemente em cérebro, neurônios, sinapses: sistema nervoso. Tudo que haja fora da normalidade no funcionamento cerebral, indica que existe um transtorno da saúde mental podendo trazer distúrbio cognitivo. Cognição é o conjunto dos processos mentais usados no pensamento e na percepção, também na classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado e soluções de problemas. As perdas cognitivas podem ser causadas por patologias cerebrais. Exemplo de patologia cerebral é a DA, caracterizada de acordo com o Ministério da saúde (2006), como uma das demências mais prevalentes dentre todas as outras, chegando a representar 50 a 70% dos casos de demência diagnosticados nos países ocidentais. Ela afeta, inicialmente, a formação hipocampal, com posterior comprometimento de áreas corticais associativas (Herrera et al, 2002). A fisiopatologia na DA está associada à neurodegeneração decorrente da formação de placas senis com o acúmulo da proteína beta amiloide (βa) e de emaranhados neurofibrilares, relacionados às alterações do estado de fosforilação da proteína tau no espaço intracelular (Monge- Argiles et al, 2010). Existem diversas evidências de que os agregados de βa são neurotóxicos (Wirths, Multhaup, Bayer, 2004) e começam a se formar nas fases iniciais da doença, antes do aparecimento dos sintomas cognitivos (Selkoe, 2001). A etiologia da Doença de Alzheimer não é totalmente conhecida, conforma afirmou Chaves (2000), indicando que os fatores genéticos são extremamente relevantes, uma vez que, além da idade, existindo um membro da família com a doença,

4 este é o único fator sistematicamente associado, estando presente em 32,9% de casos diagnosticados. De acordo com Athié (2010), apesar da grande influência do ambiente, a doença de Alzheimer tem demonstrado apresentar um componente genético importante. De fato, existem duas formas da doença, a DA de início precoce ou familial (rara) e a DA de início tardio ou esporádica (mais frequente). Os genes presenilina 1 (PS1), presenilina 2 (PS2), Apolipoproteína E (ApoE), e Proteína precursora de amiloide (APP) são os mais amplamente estudados e relacionados com a doença de Alzheimer. Embora os vários fatores de risco genético APP, PS1 e PS2 estejam associados à DA, calcula-se que o alelo e4 de APOE seja responsável por grande parte da suscetibilidade para o desenvolvimento da doença de Alzheimer esporádica (Raeber et. al.,2004). Além da genética, outros fatores devem fazer parte do processo da doença, caracterizando sua multifatoriedade. Sabe-se, por exemplo, que a prevalência da Doença de Alzheimer dobra a cada cinco anos após os 65 anos de idade e que problemas cardiovasculares como hipertensão, diabetes, miniderrames e aterosclerose são fatores que aumentam o risco para DA (Sum et al, 2008). Mais de uma década após a aprovação de uso de inibidores da acetilcolinesterase em pacientes com DA, ainda não há um tratamento ou terapia combinada que possa efetivamente parar ou reverter a progressão da doença, atualmente o tratamento farmacológico atua apenas nos sintomas. Sabe-se que com o tratamento apropriado os pacientes apresentam melhoras, demorando mais tempo para atingir as fases mais graves da enfermidade. Os medicamentos de escolha para o tratamento do declínio cognitivo são os inibidores de acetilcolinesterase, os quais exibem algum tipo de melhora em aproximadamente 30 40% dos pacientes portadores da Doença de Alzheimer leve a moderada. (Kihara et al, 2004). A saber, acetilcolinesterase, trata-se de uma enzima que degrada o neurotransmissor acetilcolina em colina e acetatos. Atualmente existe no mercado farmacêutico os seguintes inibidores de acetilcolinesterase: tacrina, galantamina, rivastigmina, e donepezil, que atuam

5 aumentando a capacidade da acetilcolina em estimular os receptores nicotínicos e muscarínicos cerebrais (Grossberg, 2003). O primeiro inibidor de acetilcolinesterase utilizado para o tratamento de DA foi a tacrina (Cognex ). Contudo, seu uso causou hepatotoxicidade ao paciente levando a mais de 90% dos casos de hepatite medicamentosa (Serenik & Vital, 2008). Os receptores nicotínicos pre-sinápticos controlam a liberação de neurotransmissores, os quais são importantes para funções cerebrais como a memória e controle do humor. Foi verificado que o bloqueio dos receptores nicotínicos prejudica a cognição (Levin & Rezvani, 2000), o que pode ser revertido pela galantamina (Reminyl ), já que sua ligação com alguns subtipos de receptores nicotínicos melhorou a função cognitiva. Esse medicamento possui um duplo mecanismo de ação, já que além de inibir a acetilcolinesterase é capaz de modular os receptores nicotínicos que têm papel no controle da liberação de neurotransmissores. Um dos fármacos mais utilizados na atualidade é a rivastigmina (Exelon ), que atua tanto inibindo a acetilcolinesterase, quanto a butirilcolinesterase, uma enzima que também altera a função colinérgica, degradando a acetilcolina (Grossberg, 2003). Outro medicamento conhecido para o tratamento de DA é o donepezil (Aricept ), exibindo redução de 38% no declínio funcional dos pacientes, quando comparados com grupo de pacientes submetidos ao tratamento placebo (Fergusson, 2000) Existem inúmeras moléculas em diferentes fases de estudos, visando a mecanismos fisiopatogênicos da DA. O espectro de ação é bastante amplo abrangendo compostos que diminuem a formação de amilóide por inibição das enzimas β e γ secretases, imunização ativa e passiva, moléculas anti-tau, bloqueadores da agregação do amilóide, agonistas receptor colinérgicos subtipo M1 e nicotínicos, agentes antiinflamatórios, entre outros. Algumas pesquisas realizadas em fase clínica estão sendo realizadas com Bapineuzumab, que age como anticorpo monoclonal contra o β amiloide alvo N- terminal do peptídeo (fase III, em curso); Solanezumab atua no centro do peptídeo beta amilóide; Latrepirdine pensado para estabilizar a mitocôndria, protegendo os neurônios e impedindo-os de mau funcionamento (fase III em curso); Cloreto de metioninaimpede

6 que inibe a agregação de beta amiloide (fase III em planejamento); PBT2 um quelante de metal, pequena molécula que inibe a hiperfosforilação da proteína tau (fase II em planejamento); BMS inibe a formação de y-secretase (fase II em curso); Tideglusib/NP-12 (Nypta) inibidor da GSK-3, impedindo a hiperfosforilação da proteína tau (fase II em curso). CONCLUSÃO O desenvolvimento clínico de novos agentes para o tratamento sintomático da Doença de Alzheimer até o momento não tem mostrado resultados satisfatórios quando o intuito é bloquear a evolução da doença. O máximo efeito alcançado é a atenuação dos sintomas, mas ainda há progressão do quadro clínico. Entretanto, a diversidade de drogas e mecanismos de ação dos novos fármacos sob investigação, tornam altamente provável que nas próximas décadas novas opções de medicamentos se tornarão disponíveis para o tratamento de DA. Sobretudo, é de suma importância a atenção aos estudos genéticos referentes à Doença de Alzheimer, enfatizando os genes relacionados à doença, bem como seus alelos e, dessa forma, poder apontar um prognóstico para a DA, bem como encaminhamento genético. Faz-se necessário a investigação, pelos neurocientistas, de substâncias que retardem e, principalmente, bloqueiem a progressão da doença. Tratamento este, que pode ser iniciado assim que o prognóstico seja apontado. REFERÊNCIAS ATHIÉ, M.C.P., Análise da expressão gênica e proteômica em pacientes com doença de Alzheimer: busca de marcadores periféricos. Dissertação de mestrado, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, CHAVES, P. H. Novos paradigmas do modelo assistencial no setor saúde: Consequência da explosão populacional dos idosos no Brasil. Medicina Social. In: Veras, R. (org) Terceira Idade: Gestão Contemporânea em Saúde. Rio de Janeiro:

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