Fundamentos da Ecologia da Restauração
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- Margarida Cavalheiro Prado
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1 Fundamentos da Ecologia da Restauração Giselda Durigan Instituto Florestal de São Paulo Floresta Estadual de Assis
2 Restauração Ecológica x Prática Ecologia da Restauração Ciência
3 Prática Ciência
4 RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA: Processo de auxiliar a recuperação de um ecossistema que tenha sido degradado, danificado ou destruído (Society for Ecological Restoration - SER 2004)
5 ECOLOGIA DA RESTAURAÇÃO: Disciplina que investiga cientificamente a restauração de ecossistemas, gerando conceitos claros, modelos, metodologias, ferramentas, generalizações e predições, que podem proporcionar avanços na prática da restauração ecológica.
6 EXEMPLO 1972 RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA 2009 Fazenda Cananéia: 20 ha restaurados em 38 anos, 215 espécies arbóreas.
7 Exóticas 32% Mata ciliar da Faz. Cananéia: proporção das espécies plantadas quanto à origem Nativas da floresta estacional semidecidual 40% EXEMPLO ECOLOGIA DA RESTAURAÇÃO Nativas de outros biomas 28% Fazenda Cananéia: Mata ciliar da Faz. Cananéia: origem dos regenerantes Competição Adaptação Nativas de outros biomas 9% Exóticas 13% Nativas da floresta estacional semidecidual 78% Pulitano et al 2004
8 Pulitano et al 2004 EXEMPLO ECOLOGIA DA RESTAURAÇÃO Fazenda Cananéia: Processos sucessionais
9 A. Teorias Ecológicas conceitos, modelos preditivos e modelos matemáticos para explicar padrões e processos em sistemas ecológicos B. Ecologia da Restauração Processo científico de desenvolvimento teórico para guiar a restauração e utilização da restauração para proporcionar avanços na ecologia C. Restauração Ecológica Prática de restaurar sistemas ecológicos degradados Benefícios das interações: Oportunidades de estudos manipulativos Oportunidades de testar as teorias Oportunidades para que os ecólogos contribuam em esforços reais de restauração Alicerce intelectual para a restauração Possibilita o entendimento das interações múltiplas em um único projeto de restauração Aumenta a quantidade e a efetividade dos esforços de restauração Palmer et al 2006
10 Restauração: Um teste ácido para a Ecologia. A teoria tem de fazer sentido na prática. A prática da restauração deve servir como um campo de teste, que pode ajudar a melhorar as teorias ecológicas. (Bradshaw, 1987)
11 QUESTÕES PARA A ECOLOGIA DA RESTAURAÇÃO 1. Plantios de baixa diversidade estão condenados ao fracasso? 2. Sem introdução de espécies pioneiras não é possível restaurar? 3. Podemos salvar espécies ameaçadas introduzindo-as nos plantios? 4. É melhor utilizar genótipos locais ou uma mistura de alta diversidade genética? 5. A restauração pode comprometer a produção de água? 6. Se forem plantadas espécies exóticas elas vão dominar os ecossistemas restaurados? 7. Plantios de enriquecimento são possíveis em projetos antigos de restauração? 8. Até que distância um fragmento é capaz de fornecer propágulos para recolonizar uma área em restauração? 9. Até quando é necessário controlar gramíneas invasoras? 10.Até quando é necessário controlar formigas cortadeiras? 11.Restaurar corredores traz mais benefícios do que ameaças? 12.Quais espécies vão persistir no tempo? 13.Plantando apenas árvores, as outras formas de vida virão naturalmente? 14.O controle de lianas proporciona a reversão dos efeitos de borda? 15. A aplicação de herbicida contamina os ecossistemas?
12 DEGRADAÇÃO X RESTAURAÇÃO
13 Hobbs & Norton 2004
14 Níveis e etapas de degradação do ecossistema 1. Isolamento 2. Efeitos de borda 3. Invasões biológicas 4. Corte seletivo 5. Fogo 6. Desmatamento 7. Revolvimento do solo (cultivo) 8. Erosão 9. Cortes e aterros 10.Contaminação química a.endogamia b.imigração interrompida c.invasões biológicas d.modificação de habitat (microclima) e.extinção de espécies f.perda de banco de sementes g.modificação física e química do solo (ciclagem de nutrientes, armazenamento de água)
15 FRAGMENTAÇÃO a.endogamia b.imigração interrompida c.invasões biológicas d.modificação de habitat (microclima) e.extinção de espécies EFEITOS DE BORDA INVASÕES BIOLÓGICAS
16 Fragmentação e efeitos de borda: O que é restaurar nesses casos? Corredores ecológicos: + Fluxo gênico, número de espécies + Danos pelo fogo, zoonoses, plantas invasoras, predação, caça
17 Fragmentação e efeitos de borda: O que é restaurar nesses casos? Barreiras protetoras ( shelterbelts ):
18 Invasões Biológicas Espécies que se estabelecem e se reproduzem, sem intervenção humana, em ecossistemas nos quais não ocorrem naturalmente (Richardson et al. 2000). Pinus em áreas úmidas do Cerrado Guapuruvu em floresta estacional semidecidual
19 Invasões Biológicas Invasividade: Nenhuma espécie é igualmente invasora em todos os ecossistemas (Daehler 2003) Invasibilidade: a suscetibilidade de um ecossistema à invasão depende das características da espécie que oferece ameaça de invadir (Crawley 1987) Invasões biológicas têm de ser tratadas como um fenômeno biogeográfico e não como um determinismo taxonômico (Collautti & MacIsaac 2004), de modo que o diagnóstico se faz em nível de população.
20 Nem toda espécie exótica é invasora e nem toda espécie invasora é exótica (oriunda de outro país). No Brasil: pesquisas praticamente ausentes para diagnóstico e especialmente para erradicação de espécies invasoras!!!
21 Fogo: inimigo a combater ou ferramenta de manejo para restauração? Controle de invasões biológicas (Fisher et al., 2009; Sosa et al. 2009) Garantia de serviços ambientais ou para desencadear processos sucessionais (Davidson et al. 2009; Ford et al. 2009; Gosper et al. 2009).
22 Fogo no cerrado: processo ecológico natural
23 Fogo na Mata Atlântica: distúrbio
24 RESILIÊNCIA X RESISTÊNCIA
25 RESILIÊNCIA: capacidade do ecossistema recuperar suas condições anteriores ao distúrbio sem intervenção humana (medida em tempo) RESISTÊNCIA: capacidade do ecossistema sobreviver ao distúrbio sem perder suas propriedades e processos
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27 REBROTA NO CERRADO: Resistência ou resiliência???
28 CERRADO:
29 PROCESSO DE PERTURBAÇÃO Desmatamento Reflorestamento (exóticas) após desmatamento Fogo Pastoreio extensivo Agricultura ou pastagens de alta tecnologia Cortes (retirada de terra) Aterros mineração e CERRADO Técnica de recuperação Controle de incêndios e de espécies invasoras (gramíneas exóticas) Eliminação das árvores exóticas Controle de incêndios e de espécies invasoras (gramíneas exóticas) Controle de incêndios e de espécies invasoras (gramíneas exóticas) Suspensão de roçadas Controle de incêndios e gramíneas exóticas Plantio de espécies lenhosas longevas Controle de espécies invasoras Regeneração natural (lenta) Opcional: plantio de enriquecimento com espécies tolerantes a ambiente inóspito) >Recuperação do solo (estrutura e microrganismos) + plantio de espécies tolerantes a ambientes inóspitos FLORESTA Técnica de recuperação Supressão total do fogo Controle de espécies invasoras Controle de cipós Supressão total do fogo Eliminação das árvores exóticas Controle de cipós Controle de espécies invasoras Supressão total do fogo Controle de cipós Controle de espécies invasoras Plantio de enriquecimento Supressão total do fogo Eliminação de gramíneas Descompactação do solo Plantio: pioneiras + não pioneiras Controle de plantas invasoras Plantio: pioneiras + não pioneiras Alternativa: sistemas agroflorestais Recuperação do solo (estrutura e microrganismos) Plantio de espécies tolerantes a ambientes inóspitos Recuperação do solo (estrutura e microrganismos) >Plantio de espécies tolerantes a ambientes inóspitos Muito alto Alto Médio Baixo Muito baixo Nulo Resiliência: potencial de regeneração natural (Durigan et al 1998)
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31 ????
32 Sucessão secundária e Restauração RESTAURAÇÃO É O MANEJO PARA ACELERAR OS PROCESSOS DE SUCESSÃO
33 Sucessão secundária Cerrado X Floresta Sucessão de fisionomias Sucessão de espécies Campo sujo Campo cerrado Cerrado stricto sensu Cerradão Pioneiras Secundárias iniciais Secundárias tardias Climácicas
34 RESTAURAÇÃO: MANEJO DOS FILTROS ECOLÓGICOS: Recuperação do solo ou Preservação da condição de solo (raízes ou sementes) Facilitar processos naturais Introduzir sementes Introduzir mudas Transposição de top soil Irrigação Controle de formigas Controle de invasoras Mulching Controle de invasoras Desbaste Desrama
35 A restauração estará concluída quando o ecossistema tiver recuperado a resiliência (SERI 2002; Walker et al. 2002)
36 Pausa para respirar...
37 Filtros ecológicos e Regras de montagem (Assembly rules)
38 Teoria dos filtros Filtros são os fatores que atuam selecionando as espécies que farão parte do ecossistema e determinando o ritmo de restabelecimento dos processos ecológicos Filtros abióticos: Clima: temperaturas (máximas, mínimas, amplitude); chuva (volume e distribuição) Substrato: fertilidade, ciclagem de nutrientes, disponibilidade hídrica, saturação hídrica, toxicidade, compactação do solo Estrutura da paisagem: posição na vertente, uso anterior da terra, grau de isolamento Distúrbios: fogo, deslizamento de terra, vendavais
39 Teoria dos filtros Filtros bióticos: Biodiversidade pré-existente (raízes, banco de sementes, árvores isoladas, fragmentos próximos) Competição (com exóticas, entre espécies plantadas, entre árvores plantadas e regenerantes) Predação: lebre européia, gado, predadores de sementes Herbivoria: formigas cortadeiras, gado Mutualismo: micorrizas, bactérias fixadoras de N, polinização e dispersão, defesas Facilitação/inibição: mecanismos que favorecem ou impedem a entrada de novas espécies no ecossistema
40 Filtros socioeconômicos: Teoria dos filtros Limitação de recursos Falta de assistência técnica Falta de motivação Conflito de expectativas (Proprietários X outros): Conservar biodiversidade? Proteger recursos hídricos? Potencial de exploração comercial?
41 Regras de montagem (regras de assembléia, assembly rules): Fatores que determinam a trajetória de um ecossistema ao longo da sucessão. Baseiam-se, essencialmente, na Hierarquia e na Cronologia dos filtros atuantes no ecossistema
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43 THRESHOLD = LIMIAR
44 CLIMAX ÚNICO E PREVISÍVEL OU ESTADOS ALTERNATIVOS ESTÁVEIS (multiple stable states)???
45 O final de um processo sucessional não é unidirecional e previsível. Em vez disso, vários estados são possíveis, a depender de uma série de circunstâncias (Noble & Slatyer 1980; Hobbs 1994) Regras de montagem A meta da restauração não pode se basear em algo imprevisível!!!
46 ESTADOS ALTERNATIVOS ESTÁVEIS Lockwood & Samuels 2004
47 BEF: Biodiversity Ecosystem Function BIODIVERSIDADE - FUNCIONAMENTO A composição de espécies é imprevisível, mas a estrutura e o funcionamento são previsíveis!!! Naeem 2006
48 Metas e indicadores Se a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas ao final da trajetória sucessional são previsíveis, seria razoável estabelecer metas com base nesses elementos? Exemplos: 1. Biomassa (área basal) 2. Espectro biológico (proporção entre as formas de vida: árvores, arbustos, trepadeiras, pteridófitas, epífitas etc.) 3. Proporção entre grupos funcionais 4. Índice de área foliar ou cobertura de copas 5. Distribuição das plantas entre classes de tamanho 6. Presença de espécies invasoras
49 ECOSSISTEMAS DE REFERÊNCIA SERI 2004: Um ecossistema restaurado tem de ter: 1. Espécies e estrutura de um ecossistema de referência 2. Maioria de espécies nativas 3. Todos os grupos funcionais 4. Ambiente físico capaz de sustentar as espécies e seus processos reprodutivos 5. Funcionamento normal 6. Integração com outras unidades da paisagem (fluxos e trocas) 7. Ameaças eliminadas ou reduzidas 8. Resiliência Auto-sustentabilidade igual à do ecossistema de referência PROBLEMAS: 1. Nem sempre uma referência existe 2. Muitas vezes a referência é inatingível (limiares bióticos e abióticos) 3. A trajetória da biodiversidade é imprevisível 4. Mudanças climáticas (paleoecologia) 2008: NEOECOSSISTEMAS novel ecosystems
50 Neoecossistemas novel ecosystems Conjuntos de espécies que não evoluíram juntas, mas que interagem e proporcionam processos ecológicos semelhantes aos dos ecossistemas naturais
51 Areieiras do Vale do Paraíba:
52 Areieiras do Vale do Paraíba: neoecossistemas
53 No contexto da paisagem, em algumas peças do mosaico a meta pode ser apenas uma forma de exploração mais saudável
54 Neoecossistema ( novel ecosystem ): funciona, mas é adaptado aos novos tempos!
55 DIVERSIDADE DE ESPÉCIES OU DIVERSIDADE FUNCIONAL? Síndromes de dispersão e polinização Fixação de N Bons forófitos Deciduidade Economia de água Contenção de processos erosivos
56 FRAMEWORK SPECIES (espécies estruturais + espécies-chaves + nurse trees ) Grupo de espécies que formam o alicerce e a estrutura do ecossistema e/ou desencadeiam processos ecológicos importantes para a autosustentabilidade Em cada condição ambiental este grupo terá composição diferente, em função dos filtros que atuam no ecossistema em cada local
57 Usina Ester, 2009 (54 anos após o plantio): A NATUREZA COMPLETA O TRABALHO!
58 Fazenda Cananéia: a natureza completa o trabalho! Pulitano et al 2004
59 Genética na restauração O desafio para a Restauração está em utilizar diversidade genética suficiente para permitir adaptação a novas circunstâncias e, ao mesmo tempo, evitar os efeitos adversos da introdução de genótipos mal adaptados ao ambiente (Rice & Emery 2003; Gustafson et al 2004) Restauração em UCs: genótipos locais Restauração em áreas degradadas sem resiliência: quanto maior a variabilidade, melhor.
60 Manejo adaptativo Correções ao longo do processo de restauração. Manejo dos filtros ao longo do tempo. Deve ser embasado na teoria e em experimentação e não em tentativa e erro. Exemplos: Erradicação de exóticas Controle de superdominância (desbaste) Enriquecimento???
61 Resiliência e paisagem Distância de áreas naturais (fluxo de sementes e pólen) A importância de árvores isoladas e pequenos fragmentos: Estado de SP: ha de vegetação nativa em áreas menores que 10 ha!!!! Exemplos: Tarumã (mata ciliar em FES, 10 anos, fragmento a 300m): 23 espécies não plantadas Assis (mata ciliar em região de cerrado, 17 anos, fonte de sementes contígua): 88 espécies não foram plantadas Cândido Mota (mata ciliar, 28 anos, fragmento a cerca de 2 km): 65 espécies não foram plantadas
62 SERVIÇOS AMBIENTAIS X PATRIMÔNIO NATURAL
63 PATRIMÔNIO NATURAL:
64 SERVIÇOS AMBIENTAIS Purificação do ar e da água Manutenção do equilíbrio no ciclo hidrológico Destoxificação e decomposição do lixo Regulação do clima Conforto térmico Recuperação da fertilidade do solo Polinização das culturas Serviços culturais: estéticos, espirituais, recreativos
65 Serviços ambientais: Proteção aos recursos hídricos
66 Proteção aos recursos hídricos
67 VEGETAÇÃO NATIVA AGRICULTURA Ago Jan Jul Ago Jan Jul Vazão dos rios Vazão dos rios
68 Segurança a do abastecimento de energia hidrelétrica
69 Proteção às s zonas de Recarga do Aquífero Guarani
70 Regulação da velocidade do vento: Controle da erosão eólica; Redução das perdas evaporativas
71 Polinização de culturas
72 Prevenção e controle de processos erosivos
73 Fixação de carbono
74 Fixação de carbono Erro comum: Estimativa de fixação de carbono por árvore. A quantidade máxima de Carbono que cabe em um hectare é limitada pela capacidade de suporte do meio (solo e clima). A capacidade de fixação por árvore dependerá de quantas árvores se planta em um hectare.
75 Fixação de carbono Matas Ciliares em Floresta Estacional Semidecidual Incremento Médio Anual ,8 9,1 9,0 6,8 5,8 5,2 5,3 3,9 2,5 2,3 1,6 0,6 0 1,3 IMA Carbono (Mg/ha/ano) 1 ano 1 ano 1 ano 3 anos 3 anos 3 anos 7 anos 9 anos 10 anos 13 anos 18 anos 28 anos Capoeira
76 Fixação de carbono Outro erro comum: Buscar árvores de crescimento rápido, que fixam carbono mais rapidamente. A diferença será o tempo para chegar na capacidade máxima. Quanto mais rápido o crescimento, mais cedo a floresta vai parar de acumular carbono.
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