Cogeração de Biomassa
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- Aníbal Prado Bergmann
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1 Estudo de Baixo Carbono para o Brasil Cogeração de Biomassa Tema K Relatório Técnico Equipe Técnica: Universidade Estadual de Campinas Arnaldo Walter 2010
2 Brazil Low Carbon Study Sub-Project K Cogeneration with Biomass Arnaldo Walter ([email protected]) Universidade Estadual de Campinas Brasil Parte I - Introdução: O objeto da avaliação apresentada neste capítulo é a geração de eletricidade excedente a partir da biomassa residual da cana de açúcar. O segmento industrial produtor de cana de açúcar é aquele no qual existe o maior potencial de produção de eletricidade a parir da biomassa residual: a capacidade ora instalada, segundo a ANEEL (2009), é quase quatro vezes superior à capacidade instalada nas indústrias de celulose e papel (a partir do licor negro) 1, e quinze vezes superior à capacidade de geração com resíduos de madeira 2. Por outro lado, as perspectivas de significativo crescimento da geração de eletricidade são reais nas usinas de cana de açúcar, em função dos investimentos já em andamento e aqueles previstos em curto prazo, e muito menores a partir das demais biomassas residuais 3. Em função de tais aspectos, a análise apresentada neste capítulo é restrita ao potencial de geração de eletricidade a partir da biomassa residual da cana de açúcar. A contribuição da opção aqui analisada, para a redução das emissões de gases de efeito estufa, está associada ao fato de que a biomassa que pode ser utilizada para tal propósito (bagaço e palha) é renovável e é residual da produção de cana 4, que é empregada na produção de açúcar e etanol. Uma vez que a produção de cana é determinada pelos mercados de açúcar e etanol, nacional e internacional, pode ser considerado que não há emissões adicionais associadas a disponibilização da biomassa nas usinas. Ou seja, é aceito o critério de alocação em que todas as emissões do processo produtivo são imputadas ao etanol e/ou ao açúcar. No Brasil, todas as usinas são eletricamente autossuficientes no período da safra e, portanto, a situação analisada corresponde à produção de eletricidade excedente com consequente deslocamento de outras opções de geração de eletricidade. Assim, as emissões evitadas no setor elétrico estão associadas às mudanças da matriz de geração de eletricidade no período Na Figura 1 é apresentada a evolução da geração de eletricidade a partir da biomassa residual da cana (unicamente bagaço, no caso), em kwh por tonelada de cana moída, no período A geração de eletricidade acima de 12 kwh/tc (linha horizontal na figura) corresponde ao nível de autossuficiência no abastecimento elétrico (em média, para usinas sem acionamento elétrico de equipamentos de grande porte). Pode-se ver que, em média, a produção de eletricidade excedente no Brasil só foi viabilizada a partir de meados da década de Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL, 2009), a capacidade instalada a partir de bagaço em Julho de 2009 era GW, com GW a partir de licor negro MW a partir de resíduos de madeira. As demais biomassas (biogás, casca de arroz e carvão vegetal) contribuem com menos de 100 MW. No total, a capacidade instalada a partir da biomassa soma MW. 3 Ainda segundo a ANEEL, há mais MW em construção e quase MW outorgados, em um total de mais de MW possíveis de serem viabilizados em curto prazo a partir da biomassa (portanto, 93% do total). 4 No futuro, com a viabilização comercial das chamadas tecnologias de segunda geração de biocombustíveis, haverá competição entre a produção de eletricidade (excedente) e de biocombustíveis.
3 25 Geração de eletricidade (kwh/tc) Fontes: EPE-MME (2008) (eletricidade gerada) e MAPA (2009) (cana processada) Figura 1. Geração de energia elétrica a partir de bagaço de cana 1990 a 2007 No caso objeto de análise, a estimativa da eletricidade que pode ser gerada depende dos seguintes aspectos: (i) primeiro, da disponibilidade de biomassa, que está associada à cana necessária à produção de etanol e açúcar, bem como à recuperação de palha no canavial, para ser utilizada como combustível nas usinas 5 ; (ii) segundo, às configurações dos sistemas de cogeração, consideradas pressão e temperatura do vapor gerado, operação apenas durante a safra ou durante todo o ano, demandas energéticas do processo industrial (i.e., potência necessária e demanda de vapor), da configuração do processo produtivo (i.e., puramente convencional ou com unidade de hidrólise anexa 6 ); (iii) das taxas de penetração de tecnologias inovadoras, como a que permite a geração de eletricidade em ciclos nos quais a biomassa gaseificada é queimada em turbinas a gás (ciclos BIG-GT, do Inglês Biomass Integrated Gasifier to Gas Turbines). Como acima mencionado, uma vez que é assumido que as emissões de gases de efeito estufa (GEE) são nulas no caso da produção de eletricidade a partir da biomassa residual da cana, as emissões evitadas dependem da matriz de geração elétrica considerada no período objeto de análise. Para tanto, foi adotado o perfil de geração elétrica previsto no Plano Nacional de Energia (PNE), que tem como horizonte o ano Os fatores de emissão considerados são os mesmos apresentados no PNE 2030 (EPE, 2008). Parte II. Metodologia II.1 Metodologia de desenvolvimento do trabalho As produções estimadas de cana de açúcar, nos Cenários de Referência e de Baixas Emissões de Carbono, serão detalhadas mais a frente. O montante de cana de açúcar a ser produzido, ano a ano, entre 2010 e 2030, foi determinado a partir da consideração das produções de açúcar e etanol, para os mercados domésticos e de exportação. O mercado de açúcar é igual em ambos cenários. Já no caso do etanol, o mercado doméstico foi definido pela equipe do sub tema Transportes, e reflete um aumento significativo do consumo interno. No caso das exportações, o Cenário Referência é coerente com as hipóteses apresentadas no PNE 2030, enquanto no Cenário Baixo Carbono foi considerado significativo aumento ao longo do período. 5 Como será apresentado mais a frente, esses parâmetros foram definidos conjuntamente como a equipe do sub-projeto F, que trata da produção de etanol em larga escala. 6 E, nesse caso, as eficiências do processo produtivo por hidrólise são parâmetros importantes.
4 O potencial de geração elétrico foi calculado a partir de simulações das configurações técnicas consideradas, supondo essas totalmente integradas a usinas típicas. Foi assumida a hipótese de que a capacidade das novas destilarias cresce a cada ano (em termos da capacidade de moagem), variando de 2 milhões de toneladas de cana moídas para as destilarias instaladas em 2010, até 4,5 milhões de toneladas para aquelas instaladas em Os custos de geração elétrica a partir da biomassa residual da cana foram calculados tendo por base dados de investimentos reais, no caso dos sistemas de cogeração com turbinas a vapor (que representam tecnologia convencional), e de estimativas de custos da primeira unidade e do impacto do efeito de aprendizado, no caso das tecnologias BIG-GT. II.2 Detalhamento das hipóteses II.2.1 Produção de cana No Cenário Referência, a estimativa é que a produção de cana evoluirá de 643 milhões de toneladas de cana em 2009 para milhões em Fundamentalmente, tais valores correspondem às premissas apresentadas pela Empresa de Pesquisa Energética EPE, no PNE 2030, com posteriores ajustes feitos pela equipe do ICONE para adequar aquela série aos valores verificados em anos recentes. No mesmo Cenário, a produção de etanol evoluiria de 30,6 bilhões de litros em 2009 para 75,6 bilhões de litros em Seguindo premissas apresentadas no PNE 2030, milhões de litros de etanol em 2030 seriam produzidos por hidrólise (9,4% do total). A produção de açúcar cresceria de 35,6 milhões de toneladas em 2008 para 55,9 milhões em No Cenário Baixo Carbono, não há diferença em relação ao Cenário Referência no que diz respeito à produção de açúcar (consumo doméstico e exportações). Por outro lado, há diferenças significativas no consumo doméstico e nas exportações de etanol. No caso do mercado interno, o consumo total cresceria de 63,5 bilhões de litros em 2030, no Cenário Referência, para 74,4 bilhões de litros no Cenário Baixo Carbono. Já no caso das exportações, no Cenário Referência o volume exportado em 2030 seria 13,1 bilhões de litros, enquanto no Cenário Baixo Carbono as exportações em 2030 chegariam a 69,7 bilhões de litros. Cabe observar que no Cenário Referência foi respeitada a hipótese apresentada no PNE 2030 de que as exportações cairiam continuamente após 2020 (na série ajustada neste trabalho, de 18,2 bilhões de litros em 2020 para 13,1 bilhões em 2030). No Cenário Baixo Carbono, a estimativa do volume exportado teve por base a hipótese de que a participação das exportações brasileiras evoluiria de 7,7% em relação ao consumo mundial, em 2008, para 12,3% em O consumo mundial em 2008 foi estimado em 66,6 bilhões de litros, enquanto o mercado em 2030, em condições favoráveis ao consumo de etanol, chegaria a 566 bilhões de litros (Walter et al, 2008) 8. Na Figura 2 é apresentada a evolução da produção de etanol nos Cenário Referência e Baixo Carbono, entre 2006 e No Cenário Referência a produção de etanol foi estimada em 75,6 bilhões de litros em 2030, enquanto no Cenário Baixo Carbono a produção chegaria a 147,3 bilhões de litros. 7 Em 2008 o consumo doméstico foi estimado em 10,6 milhões de toneladas e as exportações em 19,9 milhões de toneladas (produção de 34,3 milhões de toneladas, no total); em 2030 essas parcelas foram estimadas em 15,6 e 36,8 milhões de toneladas, respectivamente. 8 No trabalho de referência, o resultado desse cenário corresponde ao deslocamento de 21% da demanda projetada de gasolina em 2030, que resultaria do cumprimento das metas de uso de etanol nos EUA e na Europa naquele ano (divulgadas até o início de 2008), e emprego de misturas E15 em todos os demais países (exceto o Brasil).
5 160, ,000 Etanol - produção [mil m3] 120, ,000 80,000 60,000 40,000 Referência Baixo C 20, Figura 2. Evolução da produção de etanol nos Cenários Referência e Baixo Carbono No Cenário Baixo Carbono, a produção de etanol por hidrólise cresceria continuamente até representar 11,7% da produção total em 2030 (i.e., 17,3 bilhões de litros). Neste trabalho foi mantida a hipótese de que a produção comercial de etanol por hidrólise começaria já em 2010, empregada no PNE 2030, embora não mais faça sentido. O início da produção de etanol por hidrólise seria com 130 mil m 3 em 2010, e cresceria a taxas médias anuais de 26,2% até Até 2020, a produção de etanol por hidrólise seria aproximadamente igual nos dois Cenários, havendo diferenças significativas a partir de então. Na Figura 3 é apresentada a evolução das produções estimadas de etanol por hidrólise nos Cenários Referência e Baixo Carbono, de 2010 a ,000 18,000 Etanol - hidrólise [mil m3] 16,000 14,000 12,000 10,000 8,000 6,000 4,000 2,000 Referência Baixo C Figura 3. Evolução da produção de etanol por hidrólise nos Cenários Referência e Baixo Carbono Na média, a taxa de crescimento da produção por hidrólise seria 14,7% no período , e 13,6%, em média, no período
6 A produção da cana no Cenário Baixo Carbono foi calculada considerando-se a evolução do rendimento da produção de etanol a partir da hidrólise, os consumos previstos de etanol e açúcar, e a evolução do ATR da cana, que cresceria de 143 em 2009 para 162 em A hipótese de evolução do ATR da cana é a mesma nos cenários Referência e Baixo Carbono. A produção necessária de cana foi estimada em milhões de toneladas em 2030, ou seja, 36% maior em relação ao Cenário Referência. Como pode ser visto na Figura 4, diferenças significativas seriam verificadas após 2020 (até então a diferença entre os Cenários chegaria a no máximo 10%). As taxas médias anuais de crescimento da produção de cana no Cenário Baixo Carbono foram estimadas em 4,5% no período , sendo 1,3% ao ano para a produção de açúcar e quase 6% ao ano para a produção de etanol. Uma importante hipótese diz respeito ao perfil das unidades industriais no período Foi considerada que a moagem de cana nas usinas existentes em 2009 ( milhões de toneladas, dependendo do Cenário) permaneceria praticamente constante a partir de então, e quase toda a produção adicional de cana seria processada em novas usinas (destilarias). As usinas existentes em 2009 produziriam todo açúcar, e ajustariam o perfil de produção (entre açúcar e etanol) ao longo do tempo. As novas unidades, construídas a partir de 2010, seriam apenas destilarias. Em decorrência da hipótese de evolução da produção de etanol por hidrólise, e da evolução do rendimento do processo, a cana que seria processada em usinas com hidrólise anexa cresceria continuamente no período, chegando a 12,2% em Para que não fosse perdida a referência de comparação do PNE 2030, foi mantida a premissa de acelerada modernização das usinas existentes, mas com pequenas alterações em relação ao que foi apresentado naquela publicação 11. Essa hipótese diz respeito apenas à penetração de tecnologias de produção de potência elétrica em sistemas de cogeração, e não afeta os resultados relativos à produção de etanol. 2,000,000 1,800,000 Cana de açúcar [mil t] 1,600,000 1,400,000 1,200,000 1,000, , , , ,000 Referência Baixo C Figura 4. Evolução da produção de cana nos Cenários Referência e Baixo C, entre 2010 e Foi estimado que haverá 400 usinas em operação em 2010, o que é coerente com os números recentemente apresentados pelo setor. Novas destilarias seriam instaladas a partir de 2010, e em 2030 o número de novas unidades chegaria a 259. O número de novas destilarias instaladas a cada ano é influenciado pela hipótese de contínuo crescimento da capacidade moagem. A evolução do número de unidades em operação no período é apresentada na Figura ATR significa Açúcares Total Redutores; o parâmetro indica a produtividade da produção de açúcar e de etanol por tonelada de cana. O crescimento no período, por simplificação, foi considerado linear. 11 A modernização começaria em 2010 (32 usinas modernizadas), e ocorreria de forma acelerada até 2015 (62 por ano). A partir de então, a modernização cairia para 5 usinas/ano até 2020, e apenas uma por ano a partir de então. Essa hipótese é irrealista em curto prazo, mas a redução da velocidade de modernização das usinas significaria grande alteração em relação ao PNE De acordo com o PNE 2030, a modernização dos sistemas de cogeração nas usinas existentes deveria ter começado em 2008 e seria muito acentuada até Neste trabalho, ajustes foram feitos aos resultados de geração elétrica a partir da biomassa da cana apresentados no PNE 2030 (Cenário Referência).
7 É importante observar que, do ponto de vista do potencial de geração elétrica, não há diferença entre a consideração de unidades antigas que seriam modernizadas com a instalação de sistemas de cogeração (com turbinas de extração e condensação), e novas destilarias que teriam sistemas similares. Assim, pequenas diferenças entre o número de usinas existentes em , que seriam modernizadas, e novas destilarias, que seriam construídas a partir de então, não afetam os resultados de potencial e têm pequeno impacto nos custos da eletricidade gerada Unidades industriais Novas Modernizadas Não modernizadas Figura 5. Número de unidades industriais em operação no período II.2.2 Evolução e penetração das tecnologias de produção de eletricidade O detalhamento das hipóteses requer primeiramente a consideração de dois grupos de usinas/destilarias. As usinas existentes até 2009 seriam modernizadas com a conversão dos sistemas de cogeração existentes em sistemas com turbinas de extração e condensação, geração de vapor a 90 bar, 520 C 13, operação ao longo de todo o ano, e uso como combustível de todo o bagaço disponível e mais 50% da palha disponível no campo 14. O ritmo de modernização é indicado na Figura 5, e 15,4 GW seriam instalados em 386 usinas que seriam modernizadas entre 2010 e No caso das novas destilarias, três situações foram consideradas. A solução de referência é a implantação de sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação, exatamente iguais aos descritos acima. Por outro lado, algumas destilarias terão produção integrada de etanol por hidrólise e, nesse caso, a hipótese é que a produção de etanol seja prioritária. Como bagaço deve ser prioritariamente destinado à planta de etanol, nesse caso foram considerados sistemas de cogeração com turbinas de contrapressão que operam apenas durante o período de safra. Esses sistemas teriam geração de vapor a 90 bar, 520 C. Finalmente, também foi considerado que algumas novas destilarias, sem produção de etanol por hidrólise, instalarão sistemas de cogeração baseados na gaseificação da biomassa e no uso do gás combustível em turbinas a gás (os chamados sistemas BIG-CC). 12 O número de usinas em 2009 foi estimado pela hipótese de moagem de cana no ano e pela capacidade média em termos de moagem (1,6 milhão de toneladas de cana por safra). Para capacidade de moagem igual a 1,5 milhão de toneladas de cana, o número de usinas em 2009 seria 425. O impacto sobre os custos de geração de eletricidade seria por causa do impacto da capacidade dos sistemas de cogeração sobre o investimento. 13 A melhor tecnologia comercialmente disponível no Brasil tem geração de vapor a 100 bar, 530 C. Em termos de potencial, a diferença não é muito significativa. A opção pelos parâmetros 90 bar, 520 C, deveu-se à existência de resultados de referência, de estudos anteriores. 14 A recuperação de 50% da palha disponível no campo e seu emprego como combustível não será possível em curto prazo, mas é adequada no horizonte máximo do estudo.
8 Os sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação seriam instalados já a partir de 2010, em todas as novas usinas que não tivessem planta de hidrólise anexa. Foi considerado que tais sistemas seriam instalados até 2025, e que, a partir de então, todas as novas destilarias optariam por maximizar a produção de etanol instalando unidades anexas de produção por hidrólise (processo que teria alcançado máximo rendimento) ou por maximizar a produção de eletricidade com a instalação de sistemas BIG-CC. Entre 2010 e 2025 seriam instalados 14,2 GW em sistemas de cogeração a vapor, com turbinas de extração e condensação. A principal hipótese quanto aos sistemas BIG-CC é de que a tecnologia estaria disponível a partir de 2018 e, entre 2018 e 2024 seriam instalados anualmente dois módulos em novas destilarias (dois módulos por unidade industrial). Entre 2025 e 2030, na média, seriam instalados sete módulos de sistemas BIG-CC a cada ano. No total, seriam instalados sistemas BIG-CC em 29 destilarias (58 módulos), com capacidade variando entre 160 MW (2018) e 240 MW (2030) por destilaria, em função do aumento da capacidade de moagem ao longo do tempo. No total, a capacidade a ser instalada de geração elétrica com sistemas BIG-CC chegaria a 6,2 GW em Destilarias com unidades anexas de produção de etanol por hidrólise seriam instaladas a partir de No início (até 2015) a cada ano apenas uma unidade com tal característica seria instalada, e a taxa passaria a duas por ano entre 2016 e 2025 e, finalmente, quatro por ano no período No total, 30 novas destilarias teriam unidades anexas de produção de etanol por hidrólise. Em função do crescimento da capacidade de moagem e da evolução da eficiência da produção por hidrólise, as capacidades de geração por destilaria cresceriam de 36 a quase 100 MW. No total, a capacidade instalada em todo o período chegaria a 2,3 GW. No total, a capacidade elétrica excedente 15 a ser instalada no Cenário Baixo Carbono chegaria a 39,5 GW em 2030, sendo quase 40% desse total nas usinas já existentes, que seriam modernizadas no período (majoritariamente até 2015, como visto anteriormente). A evolução da capacidade de geração de eletricidade excedente no período é apresentada na Figura 6. No Cenário Baixo Carbono, a geração de eletricidade excedente foi estimada em 200,8 TWh/ano, em No PNE 2030, é apresentado que a capacidade de geração elétrica que permitiria a produção de eletricidade excedente chegaria a 6,8 GW em 2030, com geração de 44,1 TWh/ano. Neste trabalho, em função do ajuste que foi feito à série histórica de produção de cana, a produção de eletricidade excedente no Cenário Referência chegaria a 49,1 TWh/ano em Capacidade instalada [GW] BIG-CC CP, c/ hidrólise CEST, novas CEST, moder. Notas: BIG-CC; sistemas baseados na gaseificação da biomassa, com geração de potência elétrica em ciclos combinados; CP sistemas de cogeração com turbinas de contrapressão, a serem instalados em destilarias que terão unidades produtoras de etanol por hidrólise, anexas às destilarias convencionais; CEST sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação, a serem instalados em destilarias novas (sem hidrólise anexa), e em usinas que serão modernizadas. Figura 6. Capacidade instalada de geração elétrica no Cenário Baixo Carbono, cogeração com biomassa residual da cana de açúcar. 15 Em relação à capacidade de geração que assegura o abastecimento elétrico da própria unidade industrial.
9 Parte III. O Cenário de Referencia para o Subsetor III.1 O Cenário Referência O Cenário Referência corresponde a um ajuste do PNE A disponibilidade de biomassa (bagaço e palha) influencia o potencial de geração de eletricidade por cogeração, ou seja, a produção de cana (disponibilidade de bagaço e palha) e a recuperação de palha afetam diretamente o potencial. Outro aspecto importante diz respeito às tecnologias consideradas e às suas taxas de penetração, uma vez que as hipóteses do PNE 2030 são mais conservadoras do que as adotadas no Cenário Baixo Carbono do presente estudo. Por exemplo, no Cenário Referência, e em todo o período , grande parte da geração elétrica (e.g., 82% em 2010, 67% em 2020 e 58% em 2030) ocorreria em sistemas de cogeração com turbinas de contrapressão, com índices de geração de eletricidade estimados como 50 kwh/tonelada de cana. Também para os sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação e para os sistemas BIG-CC, os índices de geração elétrica considerados no PNE 2030 são conservadores (e.g., 70 kwh/tonelada de cana e 185 kwh/t para a operação na safra, respectivamente). Assim, resulta que a produção de eletricidade excedente no Cenário Referência cresce de forma pouco acentuada no período , passando de 22 kwh/tonelada de cana em 2010 para 38,6 kwh/tonelada de cana em III.2 Projeções das emissões evitadas Como praticamente todas as usinas brasileiras são (e continuarão a ser) autossuficientes do ponto de vista elétrico durante o período da safra, as emissões evitadas de gases de efeito estufa correspondem apenas à produção de eletricidade excedente. É considerado que não há emissões de gases de efeito estufa associadas à geração de eletricidade a partir da biomassa residual da cana e, então, as emissões evitadas são aquelas dos sistemas de geração elétrica que seriam deslocados. Em função do conjunto de hipóteses adotado, as emissões evitadas de CO 2 devido à expansão da geração de eletricidade a partir da cogeração com biomassa residual da cana cresceriam de 811,6 mil toneladas de CO 2, em 2010, para mil toneladas de CO 2, em A redução acumulada das emissões no período seria de 48,3 milhões de toneladas de CO 2, enquanto, na média, a redução das emissões seria igual a 2,3 MtCO 2 /ano. As emissões evitadas de dióxido de carbono (médias anuais em quatro períodos entre 2010 e 2030) são apresentadas na Tabela 1. Tabela 1. Emissões evitadas de CO 2 em função da produção de eletricidade excedente Cenário Referência (MtCO 2 /ano) Cenário Referência 1,5 2,2 2,5 3,2 Parte IV. Opções de mitigação e/ou seqüestro IV.1 Identificação e justificativas A opção de mitigação objeto de análise é a ampliação da geração de eletricidade excedente em sistemas de cogeração, a partir da biomassa residual da cana de açúcar. Em relação ao Cenário Referência, o crescimento em quatro vezes na produção de eletricidade excedente deve-se (i) ao aumento da produção de cana, em função da maior produção de etanol; (ii) à maior recuperação de palha; e (iii) à maior eficiência de geração elétrica, devido às alternativas consideradas (configurações e número de unidades mais eficientes). A evolução da geração de eletricidade excedente no período , nos Cenários Referência e Baixo Carbono, é apresentada na Figura Foi anteriormente mencionado que a série de produção de cana de açúcar no horizonte foi corrigida em função dos ajustes feitos, tendo em conta a produção real de cana no período
10 250 Eletricidade excedente (TWh) Referência Baixo Carbono Figura 7. Evolução da geração de eletricidade excedente a partir da biomassa residual da cana, em sistemas de cogeração, nos Cenários Referência e Baixo Carbono Entre as ações já em andamento, com resultados positivos para a mitigação das emissões de GEE, o Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas (Brasil, 2008) dá certo destaque à produção de etanol e à geração de eletricidade excedente a partir da biomassa residual da cana. No caso específico da cogeração, são mencionados resultados do PNE 2030; o potencial associado a projetos no contexto do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL); e os potenciais ganhos sistêmicos, uma vez que o máximo da geração pode ocorrer justamente quando há menor disponibilidade de água nos reservatórios e, tradicionalmente, são despachadas as termelétricas movidas a combustíveis fósseis. Aspecto importante, em se tratando de um documento do próprio Governo Brasileiro, no Plano Nacional de Mudanças Climáticas há o reconhecimento explícito de que (i) os potenciais ganhos sistêmicos provocados pelas energias alternativas renováveis (entre elas a biomassa residual da cana) ainda não são considerados pelo modelo do setor elétrico; e (ii) há um longo caminho a ser percorrido para a promoção da cogeração. No contexto da produção de eletricidade excedente a partir da biomassa residual da cana, neste trabalho três opções técnicas são consideradas, tanto no Cenário Referência quanto no Cenário Baixo Carbono. Duas alternativas correspondem a sistemas de cogeração com turbinas a vapor, sendo que em um caso são consideradas apenas turbinas a vapor de contrapressão (operação somente no período da safra), e, em outro, turbinas de extração e condensação (com possível operação ao longo de todo o ano). A diferença entre os Cenários Referência e Baixo Carbono é que, no último, são considerados sistemas com maior pressão e temperatura do vapor gerado. Neste trabalho, os parâmetros considerados correspondem a 90 bar, 520 C. Tecnicamente, não há diferença entre os sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação nas usinas que serão modernizadas e aqueles que serão instalados em novas destilarias (sem hidrólise anexa e sem sistemas BIG-CC). A consideração de instalação dos sistemas BIG-CC deve-se ao objetivo de que a geração de eletricidade excedente seja maximizada. A tecnologia ainda não é comercial, e foi considerado que o primeiro sistema seria instalado em IV.2 Descrição técnica das opções IV.2.1 Sistemas com turbinas de contrapressão No Cenário Baixo Carbono, a tecnologia de cogeração com turbinas de contrapressão foi considerada apenas para as (novas) destilarias que terão produção de hidrólise anexa às destilarias convencionais. Nesse caso, a produção de etanol deveria ser maximizada, e o dimensionamento foi feito de sorte a que todo bagaço possível pudesse ser enviado à unidade de produção por
11 hidrólise. Ainda nesse caso, sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação não seriam possíveis, uma vez que a biomassa a ser empregada no sistema de potência só permite o atendimento da demanda de vapor de processo 17. A geração de eletricidade excedente poderia ser ampliada com sacrifício da produção de etanol por hidrólise, ou com melhoria dos parâmetros do sistema de cogeração (i.e., pressão e temperatura do vapor gerado). Em relação à situação definida no dimensionamento, a redução da geração de eletricidade excedente não permitiria maior produção de etanol por hidrólise. A redução na produção de eletricidade excedente, caso fosse esse o objetivo, só ocorreria com piora dos parâmetros do sistema de cogeração (i.e., pressão e temperatura do vapor gerado). Foi considerado que todos os sistemas que forem instalados no período terão geração de vapor a 90 bar, 520 C. A queima da palha em geradores de vapor (i.e., queima controlada), ao invés da queima da palha no campo, anterior à colheita, traz benefícios ambientais em função da redução das emissões de material particulado, de óxidos de nitrogênio e de metano. O benefício pode ser indiretamente atribuído à maior geração de eletricidade excedente, mas é, na realidade, decorrência do processo de mecanização da colheita, que será obrigatório em grande parte do Brasil até o fim da próxima década. Como nesses sistemas não há necessidade de condensação de vapor, não existiriam os eventuais efeitos negativos associados à captação de água para uso em sistemas de resfriamento. IV.2.2 Sistemas com turbinas de extração e condensação No Cenário Baixo Carbono, a tecnologia de cogeração com turbinas de extração e condensação foi considerada tanto no caso da modernização dos sistemas de potência das usinas existentes, quanto para uso nas novas destilarias que não terão produção de hidrólise anexa. No caso, o objetivo é maximizar a produção de eletricidade, empregando-se para tanto todo o bagaço disponível na unidade industrial e mais 50% da palha disponível no campo (que seria recuperada quando da colheita mecanizada, e transportada para a usina/destilaria). No caso dessa tecnologia, a geração de eletricidade é função da demanda de vapor de processo, sendo tanto maior quanto menor for o consumo industrial. Como o fluxo de vapor extraído das turbinas é minimizado com a redução da demanda de vapor de processo, mais vapor pode ser levado à condensação. Assim, a geração de eletricidade é maximizada, mas há de se considerar eventuais restrições para a captação de água para resfriamento. Neste trabalho, foi considerado que todos os sistemas que forem instalados no período terão geração de vapor a 90 bar, 520 C, e a demanda de vapor de processo será 300 kg/tonelada de cana processada. Essas hipóteses foram aplicadas aos sistemas a serem instalados quando da modernização de usinas existentes, bem como nas novas destilarias. Quanto à redução da demanda de vapor de processo, a hipótese é plenamente justificável em médio prazo, mas pouco provável em curto prazo. Os mesmos comentários sobre a queima controlada da palha, apresentados na seção anterior, são também válidos aqui. IV.2.3 Sistemas BIG-CC No Cenário Baixo Carbono, o emprego dos sistemas de produção de potência baseados na gaseificação da biomassa, com uso do gás combustível em turbinas a gás, foi considerado após Por hipótese, foi considerado que a alternativa seria suficientemente competitiva em 2025, a ponto de que após essa data apenas sistemas BIG-CC seriam construídos quando o objetivo fosse a maximização da produção de eletricidade excedente 18. A completa integração dos sistemas BIG-CC a uma unidade industrial requer significativa redução da demanda de vapor de processo. Foi considerado que a demanda de vapor de processo seria reduzida para 300 kg de vapor/tonelada de cana processada, ou seja, o mesmo parâmetro considerado no caso dos sistemas CEST. O potencial de geração de eletricidade é maior se for possível reduzir ainda mais a demanda de vapor de processo. 17 Nos sistemas de cogeração com turbinas de contrapressão, quanto menor a demanda de vapor de processo, menos eletricidade é gerada. Nesse caso, mais biomassa poderia ser destinada à produção de etanol por hidrólise. 18 O seja, após 2025 apenas sistemas BIG-CC seriam construídos nas novas destilarias que não tivessem hidrólise anexa. Essa hipótese inicial não se mostrou totalmente consistente, uma vez que os custos da eletricidade produzida em sistemas BIG-CC ainda seriam 67% a 40% maiores do que os custos de geração nos sistemas CEST, entre 2026 e Cabe mencionar que, conservadoramente, foi considerado progress ratio 0,85, e que esse poderia ser menor.
12 Os sistemas foram dimensionados supondo a gaseificação atmosférica da biomassa, que corresponde à tecnologia que deve atingir estágio comercial antes da gaseificação pressurizada em larga escala, mas que impõe restrições ao sistema do ponto de vista da eficiência de geração elétrica. Os mesmos comentários sobre os benefícios indiretos da queima controlada da palha, anteriormente mencionados, poderiam ser aqui repetidos. No caso do consumo de água, por estarem sendo considerados ciclos combinados, a captação de água necessária ao resfriamento do vapor seria menor na comparação com os sistemas CEST. IV.2 Informações sobre a implementação das opções IV.2.1 Sistemas com turbinas de contrapressão Sistemas de cogeração com turbinas de contrapressão correspondem à tecnologia usualmente empregada nas unidades industriais que processam cana de açúcar. Neste trabalho, no Cenário Baixas Emissões de Carbono, a diferença em relação aos sistemas convencionais está no fato de que foi considerada a implementação dessa tecnologia exclusivamente nas usinas que terão unidades anexas de produção de etanol por hidrólise. Como o objetivo é maximizar a produção de etanol, os sistemas foram dimensionados de sorte a que operem unicamente com o fluxo de vapor que permite o atendimento da demanda térmica do processo industrial. Uma vez que foi imaginado que geradores de vapor que operam a 90 bar, 520 C, serão opção padrão em alguns anos 19, foi considerado que em todos os sistemas a serem construídos a geração de vapor ocorrerá nessas condições. O investimento para uma unidade com 25 MW de capacidade total instalada foi estimado em R$/kW em Dezembro de A avaliação foi feita a partir dos parâmetros de avaliações econômicas de sistemas de cogeração a partir da biomassa, com turbinas a vapor de contrapressão, cujos valores foram corrigidos pelo IGP-M. Na avaliação obteve-se uma função de custos específicos por capacidade instalada, de sorte a que efeitos de escala pudessem ser considerados. Por outro lado, efeitos de aprendizado tecnológico não foram considerados, pois tal efeito não tem sido verificado no Brasil no que diz respeito aos sistemas de potência a vapor. Foi considerado que em cada destilaria serão instalados dois módulos de igual capacidade (i.e., gerador de vapor, turbina a vapor e alternador), para aumentar a confiabilidade do sistema. Foi estimado que os custos de interconexão com a rede elétrica correspondem a 35% do valor do investimento do sistema de potência, percentual que foi calculado para uma distância de km entre a unidade industrial e a rede elétrica. Para efeito de cálculo dos custos da eletricidade excedente, foi descontado o investimento correspondente ao sistema de cogeração que assegura a autossuficiência da unidade industrial. Os custos anuais de O&M foram estimados como equivalentes a 3% do valor do investimento do sistema de potência. O custo do bagaço foi estimado como sendo R$ 22,60/tonelada de biomassa seca (custo de oportunidade) e o custo da palha foi estimado como sendo R$ 40,70/tonelada de biomassa seca (custo de recuperação). Valores constantes foram assumidos em todo o período No caso dos sistemas de potência nas destilarias que têm unidades anexas de produção de etanol por hidrólise, foi atribuído custo a toda a palha consumida como combustível (i.e., todo o custo da palha foi alocado à eletricidade), mas não foi atribuído custo ao bagaço consumido pois, nesse caso, a queima do bagaço para geração de potência é significativamente menor do que nos sistemas convencionais ora existentes 20. IV.2.2 Sistemas com turbinas de extração e condensação Sistemas de cogeração com turbinas de extração e condensação correspondem à tecnologia comercial, mas de emprego limitado nas unidades industriais que processam cana de açúcar, no Brasil, em função das oportunidades restritas de comercialização da eletricidade excedente. No Cenário Baixo Carbono, o emprego dessa tecnologia foi considerado em associação com a hipótese de maximização da geração de eletricidade e de sua comercialização. A tecnologia seria empregada em todas novas unidades antigas, que serão modernizadas ao longo do período , e também nas novas destilarias que não terão hidrólise anexa (em algumas serão instalados sistemas BIG-CC). O investimento para construir uma unidade com 40 MW de capacidade total instalada, por exemplo, foi estimado em R$/kW em Dezembro de A avaliação foi feita a partir de uma função de custos específicos, ajustada a uma série de custos de empreendimentos reais cujos valores foram corrigidos para Dezembro de 2008 pelo IGP-M. Tampouco foram considerados os efeitos 19 Embora existam algumas unidades sendo construídas para geração de vapor a 100 bar, 530 C, mas com pequena vantagem termodinâmica em relação aos sistemas aqui considerados. 20 Ou seja, a consideração é que o aumento da geração de eletricidade excedente não causa aumento do consumo de bagaço em relação aos sistemas atuais.
13 de aprendizado tecnológico. No caso das novas destilarias, foram considerados os efeitos de escala, uma vez que a capacidade de moagem das usinas aumenta no período. Já no caso das usinas existentes, que serão modernizadas, não foi considerado o efeito de escala pois a avaliação foi feita para uma usina com capacidade média de moagem de 1,6 milhão de toneladas de cana por safra. Em outras palavras, nessa situação o investimento é igual em todas as usinas modernizadas. Foi considerado que em cada destilaria haverá dois módulos de igual capacidade (i.e., gerador de vapor, turbina e alternador). Foi estimado que o investimento na interconexão com a rede elétrica corresponde a 25% do valor do investimento no sistema de potência, no caso de novas destilarias (16-18 km de distância entre a unidade industrial e a rede), e a 15% no caso das usinas já existentes (mais próximas da rede, e com infraestrutura já existente). Para efeito de cálculo dos custos da eletricidade excedente, foi descontado o investimento correspondente a um sistema de cogeração que assegura a autossuficiência da unidade industrial. Os custos anuais de O&M foram estimados como equivalentes a 2% do valor do investimento do sistema de potência. O custo do bagaço foi estimado como sendo R$ 22,60/tonelada de biomassa seca (custo de oportunidade) e o custo da palha foi estimado como sendo R$ 40,70/tonelada de biomassa seca (custo de recuperação) (Hassuani et al., 2005). Valores constantes foram assumidos em todo o período Foi atribuído custo a toda a palha consumida como combustível, mas à eletricidade foi apenas alocado o custo do bagaço que corresponde a 12% da disponibilidade total (consumo adicional estimado em relação ao sistema convencional que assegura a autossuficiência elétrica). IV.2.3 Sistemas com gaseificação da biomassa (BIG-CC) Sistemas baseados na gaseificação da biomassa, e emprego do gás combustível na alimentação da turbina a gás de ciclos combinados, não representam tecnologia comercialmente disponível. No Cenário Baixo Carbono foi considerado que a tecnologia passaria a ser empregada em 2018, em completa integração térmica com as unidades industriais (destilarias), e que haveria crescimento do ritmo de instalação de sorte a que 29 destilarias contariam com tal tecnologia em No dimensionamento feito foi estimado que os módulos de sistemas BIG-CC terão capacidade variável entre 80 e 120 MW, em função da capacidade de moagem das destilarias. Cada destilaria teria dois módulos de igual capacidade, para aumentar a confiabilidade e reduzir os custos. A primeira unidade (dois módulos de 80 MW), a ser construída em 2018, teria custo equivalente a US$/kW instalado 21 ; pelo efeito de aprendizado (progress ratio = 0,85), os custos específicos seriam reduzidos para US$/kW em O investimento na interconexão com a rede elétrica foi estimado como sendo 25% do valor do investimento no sistema de potência, supondo 35 km de distância entre a unidade industrial e a rede elétrica. Na avaliação de custos da eletricidade gerada, foi descontado o investimento do sistema convencional que assegura autossuficiência elétrica. Os custos de O&M foram estimados em 15,5 US$/MWh para o primeiro módulo, com tendência de redução pelo efeito de aprendizado tecnológico; os custos chegariam a 6,8 US$/MWh para as unidades construídas em Para a biomassa, os custos foram estimados em função de seu consumo, consideradas as mesmas hipóteses descritas no caso dos sistemas de cogeração com turbinas a vapor de extração e condensação. Tabela 2. Hipóteses da analise técnico-econômica Valores em milhões de US$ no período Cumulativo Cenário de Referência Cenário Baixo Carbono Biomassa Biomassa Proposta considerada Investimento O&M Investimento O&M Contrapressão Extração e condensação modernizadas Hipótese conservadora, baseada na avaliação da TPS indústria Sueca que tem condições de fornecer os sistemas de gaseificação atmosféricos, de alimentação da biomassa e de limpeza do gás, de que as primeiras unidades, com capacidade líquida de 5-30 MW, custariam entre Euro/kW (líquido). 22 Para progress ratio 0,80, considerado o mesmo custo da primeira unidade comercial e o mesmo número de unidades construídas, o custo unitário em 2030 chegaria a 870 US$/kW instalado, ou seja, seria 30% menor.
14 novas destilarias BIG-CC Total O investimento total para a construção de unidades para geração de eletricidade em larga escala em todas as novas destilarias, bem como para a modernização de grande parte das usinas existentes, corresponde a 52,3 bilhões US$ no período no Cenário Baixo Carbono e a 16,8 bilhões US$ no Cenário Referência. A diferença entre os dois cenários é igual a milhões US$. Os investimentos totais no Cenário Baixo Carbono incluem a interconexão para a venda de eletricidade excedente, investimento que é estimado em quase 10 bilhões US$. A capacidade a ser instalada no Cenário Baixo Carbono no período seria quase igual a 39,5 GW (24 GW em novas unidades industriais), o que resultaria custo médio de US$/kW instalado (no período ), incluindo interconexão, ou US$/kW, sem os custos de interconexão. Os custos médios são afetados pela consideração de construção de sistemas BIG-CC em 29 destilarias, com custos unitários que variariam de US$/kW para a primeira unidade, até US$/kW para as unidades construídas em Assim, em 2030 o custo unitário dos sistemas BIG-CC seria equivalente ao custo dos sistemas convencionais a vapor, com turbinas de extração e condensação, mas os custos da eletricidade gerada ainda seriam mais altos. O cronograma de realização dos investimentos é ilustrado na Figura 8, na qual são apresentados os investimentos necessários em quatro sub períodos entre 2010 e A concentração de investimentos até 2015 deve-se à hipótese de acelerada modernização dos sistemas de potência das usinas existentes; embora o período de modernização tenha sido ampliado em relação ao que é apresentado no PNE 2030, o impacto ainda é grande e evidente. 30,000 Investimento requerido (MUS$) 25,000 20,000 15,000 10,000 5,000 Referência Baixo C Figura 8. Investimentos requeridos para geração de eletricidade em larga escala, em cogeração, a partir da biomassa residual da cana. IV.3 Potencial de redução das emissões As emissões evitadas de dióxido de carbono foram calculadas supondo que a geração de eletricidade excedente em sistemas de cogeração, a partir da biomassa residual da cana de açúcar, permite o deslocamento de emissões de outras unidades de geração elétrica que atenderão o sistema interligado no período Como havia sido comentado anteriormente, a suposição é que a geração de eletricidade em cogeração não causa emissões de dióxido de carbono, pois a biomassa usada é renovável e outras emissões de GEE são atribuídas ao etanol, que é o produto principal da atividade.
15 As emissões foram calculadas considerando-se a geração de eletricidade excedente nos dois Cenários e os fatores de emissão de dióxido de carbono da operação do sistema elétrico nacional, estimados para o período Essa estimativa foi feita a partir do perfil de expansão do sistema elétrico brasileiro no período (PNE 2030), e de fatores de emissão típicos das várias fontes e tecnologias de geração elétrica. Os fatores de emissão variam de 94 kgco 2 /MWh em a 69 kgco 2 /MWh em , ou seja, são baixos, mas coerentes com a hipótese de que a expansão da capacidade de geração elétrica se dará majoritariamente com geração hidroelétrica. As emissões médias de dióxido de carbono associadas à operação do sistema elétrico brasileiro em 2008, quando termoelétricas operaram com certa regularidade, variaram de 66,8 kgco 2 /MWh (em Fevereiro) a 33,4 kgco 2 /MWh (em Novembro); em 2009, de acordo com as estimativas para o período Janeiro-Junho, os fatores de emissão estão abaixo das estimativas para 2008 (23,7-40,5 kgco 2 /MWh) (MCT, 2009). As emissões evitadas totais no período , considerada a diferença entre o cenário Baixo Carbono e o cenário Referência, foram estimadas em 157,9 MtCO 2, sendo 7,5 MtCO 2 /ano a média das emissões evitadas no período. O crescimento das emissões evitadas no período é apresentado na Figura Emissões evitadas (MtCO2) Figura 9. Emissões evitadas entre 2010 e 2030 diferenças entre Cenário Baixo Carbono e Cenário Referência em relação às alternativas de expansão do sistema elétrico (Base PNE 2030) Para o cenário Baixo Carbono, em relação ao cenário Referência, o custo de abatimento médio no período foi estimado como sendo 262,8 US$/tCO 2, para taxa de desconto de 8% ao ano. Este custo é aquele que iguala os custos de geração elétrica no período (maior cogeração com biomassa da cana vis-à-vis alternativas de geração previstas no PNE 2030), e é alocado integralmente às emissões evitadas. Este é o custo marginal de abatimento associado a cogeração com biomassa residual da cana. Como pode ser visto na Figura 9, o custo da cogeração a partir da biomassa residual da cana no cenário Baixo Carbono, para taxa de desconto de 8% ao ano, é bastante menor do que o custo médio de expansão previsto no PNE 2030, o que resulta custos de mitigação negativos em todo o período (custo de 36,60 US$/MWh cogeração com biomassa residual da cana vis-à-vis 56,57 US$/MWh custo marginal de expansão da geração). Já para a taxa de desconto de 18% ao ano, que é pretendida pelos empresários tradicionais do setor sucroalcooleiro para investimentos em cogeração 23, o custo médio de mitigação é 27,9 US$/tCO 2 ; para taxa de desconto de 18% os custos de expansão via cogeração são maiores do que os custos referenciais de expansão do sistema elétrico brasileiro a partir de 2018, conforme pode ser observado na Figura 10 (na média, 58 US$/MWh vis-à-vis 56,57 US$/MWh). 23 Para investimentos no core business do setor i.e., produção de açúcar e etanol a taxa de desconto usual é 15% ao ano. Para a geração de eletricidade excedente, que não é a atividade padrão do setor, e com a qual o empresariado tem maior percepção de risco, a taxa de desconto esperada é maior.
16 70 60 Custo da eletricidade (US$/MWh) Custo médio expansão 20 Cogeração (8%) 10 Cogeração (18%) Figura 10. Estimativa de custos médios de geração elétrica PNE 2030 em relação a sistemas de cogeração com biomassa residual da cana (taxas de desconto 8% e 18% ao ano). A avaliação alternativa do custo de abatimento é o break-even carbon price, que é feita para a taxa de desconto esperada pelo investidor típico na geração de eletricidade em sistemas de cogeração a partir da biomassa residual da cana (18%). Foi calculado o valor da tonelada de dióxido de carbono que permite, em adição à venda da eletricidade excedente pelo custo marginal de expansão, que o investidor alcance a remuneração pretendida no investimento feito. Para a venda de eletricidade excedente ao custo marginal de expansão (média de 56,57 US$/MWh no período ), o break-even carbon price foi avaliado em 27,9 US$/tCO 2. Na Tabela 3 são sintetizados os resultados de emissões evitadas e custos de abatimento da cogeração a partir da biomassa residual da cana. Na Figura 11 são apresentados os custos marginais e o break-even carbon price estimados para o período Tabela 3: Emissões evitadas (diferença entre os Cenários Baixo Carbono e Referência) e custo de abatimento (custo marginal e break-even) Opções de mitigação ou seqüestro Potencial de redução bruto entre (tco 2 e) Custo de abatimento médio no período (US$/tCO 2 ) taxa de desconto (8%)¹ Break-even carbon price (US$/tCO 2 )² Emissões evitadas ,77 27,89 Notas: ¹ Valor da tco 2 que iguala os custos da eletricidade gerada a partir da cogeração com biomassa e a geração convencional, considerada a expansão prevista no PNE ² Valor da tco 2 que permite rentabilidade de 18% ao ano para o investidor que gerar eletricidade excedente e vendê-la ao custo marginal de expansão.
17 Custo de abatimento (US$/tCO2) MAC B-E Figura 11. Evolução do custo marginal de abatimento (MAC) e do break-even (B-E) no período , para cogeração a partir da biomassa residual da cana de açúcar. O custo de abatimento (US$/tCO 2 ), em função da taxa de desconto requerida, é apresentado na Figura 12. Conforme pode ser observado na figura, para taxas de desconto acima de 17%, aproximadamente, o custo de mitigação passa a ser positivo Custo de abatimento (US$/tCO2) Taxa de desconto (%) Figura 12. Custo de abatimento das emissões de CO 2 em função da taxa de remuneração do capital esperada pelo investidor IV.4 Barreiras/impedimentos para a geração de eletricidade excedente em larga escala A seguir são apresentadas barreiras que farão com que seja impossível, em curto prazo, a geração de eletricidade excedente em sistemas de cogeração a partir da biomassa residual segundo as premissas do cenário Baixo Carbono aqui apresentado. As barreiras são classificadas de acordo com sua natureza.
18 Barreiras tecnológicas Entre as tecnologias consideradas, a única que no momento não é comercialmente disponível é a dos sistemas BIG-CC. No estudo foi considerado que a primeira unidade seria posta em operação em 2018, o que é bastante improvável dado que, para essa tecnologia, investimentos significativos em P&D não têm ocorrido nos últimos anos. Cabe mencionar que para essa tecnologia, até agora, esforços de P&D não foram feitos no Brasil, e o desenvolvimento necessário deverá ser feito em vários países 24 ; portanto, não se trata de uma barreira que deve ser superada exclusivamente com esforços internos. Mesmo que a tecnologia esteja comercialmente disponível em 2018, é improvável que módulos de 80 MW possam ser instalados em tão curto período (capacidade estimada dos primeiros módulos que seriam instalados em 2018, para completa integração térmica com as destilarias). Por outro lado, mesmo que qualquer sistema BIG-CC venha a ser construído no período, e sistemas convencionais com turbinas a vapor de extração e condensação sejam construídos em seu lugar, o potencial de geração elétrica seria reduzido em menos de 10% em 2030 (em relação ao estimado no cenário Baixo Carbono); Mas, nesse caso, os custos médios de geração elétrica seriam reduzidos. Portanto, essa barreira não deve impactar significativamente os resultados aqui apresentados, em termos de potencial, enquanto os impactos poderiam ser positivos em termos de custos. Com efeito, conforme apresentado na Figura 13, os custos de geração de eletricidade com sistemas BIG-CC são maiores do que os custos de geração em sistemas a vapor, com turbinas de extração e condensação (custos calculados para taxa de desconto 18% ao ano, para destilarias com mesma capacidade de moagem, em cada ano). Os custos de geração em sistemas a vapor, com turbinas de extração e condensação, no período , foram calculados por extrapolação dos custos em anos anteriores. A diferença dos custos, ponderada pelo total de eletricidade gerada com sistemas BIG-CC, representa o custo adicional que precisaria ser coberto; no caso, o custo no período foi estimado em 6,2 bilhões de US$ (para taxa de desconto 18%; 3,2 bilhões US$ para taxa de desconto 8% ao ano), sendo que 55% desse custo são devidos à construção e operação dos primeiros oito módulos, em quatro destilarias, entre 2018 e Custo de geração (US$/MWh) BIG-CC CEST Figura 13. Custo de geração em sistemas a vapor, com turbinas de extração e condensação, e em sistemas BIG-CC (para taxa de desconto 18% ao ano). Barreira tecnológica bem mais significativa, e restritiva, está associada às atuais dificuldades de queima da palha da cana, em grande quantidade. A palha tem composição química distinta da do bagaço, e os riscos de problemas operacionais conhecidos como fouling e slagging são significativos. Caso não haja avanços em curto prazo, o potencial de geração elétrica poderia ser bastante prejudicado, pois, em todos os sistemas considerados o aporte energético da palha é muito relevante. No caso específico das destilarias que 24 Os custos de desenvolvimento poderiam ser repartidos entre vários países, se houvesse uma espécie de consórcio com tal objetivo. De qualquer forma, todas as etapas que envolvem o pré processamento e o sistema de alimentação do gaseificador teriam de ter participação decisiva do Brasil, já que outros países não terão interesse em desenvolver tecnologia específicas para biomassa residual da cana de açúcar.
19 teriam/terão unidades anexas de produção de etanol por hidrólise, a impossibilidade de queima da palha em larga escala praticamente inviabilizaria tal rota tecnológica a partir do bagaço. A necessidade de esforços em P&D é clara, e as iniciativas caberão quase que exclusivamente ao Brasil, uma vez que o interesse quanto ao uso energético da palha da cana é bastante diminuto em outros países. Barreiras associadas ao porte dos sistemas Efeitos de escala foram considerados na avaliação dos investimentos e, consequentemente, dos custos da eletricidade gerada. Se os sistemas de potência tiverem capacidade menor do que a estimada neste trabalho, os custos de geração serão maiores, o que implicaria tanto redução do potencial quanto elevação dos custos de mitigação das emissões de dióxido de carbono. Foi estimado que cerca de 40% da geração elétrica potencial em 2030 estarão em usinas já existentes, que seriam modernizadas. Por simplificação, a avaliação dos custos de geração foi feita supondo uma usina típica, com capacidade de moagem de 1,6 milhão de toneladas de cana por safra. Nessas unidades industriais, a capacidade a ser instalada foi estimada em 40 MW, em sistemas com turbinas a vapor de extração e condensação mas, em usinas muito menores, a mesma tecnologia talvez não possa ser empregada, pois os custos da eletricidade gerada seriam bastante elevados. Ainda a respeito dos sistemas a vapor com turbinas de extração e condensação, deve ser considerada a restrição potencial devido à necessidade de captação de água para condensação de vapor. Em algumas regiões não será possível a instalação de tais tecnologias e, consequentemente, haverá redução do potencial de geração de eletricidade, e de redução das emissões de dióxido de carbono. Barreiras regulatórias Uma importante barreira para a viabilização do potencial estimado neste trabalho diz respeito às restrições físicas (e.g., distância em relação à rede elétrica, sobrecarregamento das linhas existentes) e aos altos custos da interconexão à rede básica ou em troncos de subtransmissão. A instalação de usinas/destilarias em um dado local não é pautada por sua proximidade com as redes elétricas e pela facilidade de interconexão, ao contrário de termelétricas a combustível fóssil (e.g., a óleo combustível e óleo diesel) 25. Aspecto importante é que a regulação do setor elétrico imputa ao empreendedor em geração distribuída (o acessante) a responsabilidade de construção do sistema de conexão com a rede de distribuição ou de transmissão. As condições técnicas são definidas pela concessionária e/ou pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Os potenciais empreendedores em sistemas de cogeração a biomassa identificam os seguintes problemas relacionados a tal regulação: a) o ponto de interconexão é decisão da empresa elétrica, que muitas vezes alega razões técnicas e obriga a interconexão em um ponto mais distante e/ou, ainda, a necessidade de reforço da rede. Há assimetria de informações e o empreendedor não tem como saber se o que é exigido é realmente necessário, assim como se há alternativa mais barata. Essa é uma restrição clássica da geração distribuída e o sistema regulatório existente no Brasil não trata adequadamente essa questão. A solução regulatória não é justa no sentido de que não permite a identificação e a recompensa dos benefícios dos empreendimentos em cogeração, tanto quanto no que diz respeito à energia quanto à capacidade. Em Dezembro de 2008 a ANEEL aprovou, por Resolução Normativa, nova versão do PRODIST Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no Sistema Elétrico Nacional; até onde foi possível averiguar, os problemas mencionados neste relatório não foram sanados. b) o custo de interconexão pode ser muito significativo em relação ao investimento no sistema de potência (ver Figura 14), e esses custos podem afetar drasticamente a viabilidade do investimento; c) os empreendedores alegam que não têm familiaridade com investimentos dessa natureza, e que pagam bem mais do que as empresas elétricas por obras similares. Alegam que se os projetos fossem feitos para empresas elétricas, mesmo que pagos pelos empreendedores do setor canavieiro, os custos seriam menores. Na Figura 14 é apresentada estimativa de quanto representa o investimento em interconexão em relação ao investimento no sistema de cogeração com biomassa, com turbinas a vapor (sistema com turbinas de contrapressão e de extração e condensação com capacidade de geração de 40 e 80 MW, respectivamente). Observa-se que, para uma mesma distância, quanto menor a capacidade do sistema, maior a incidência do custo de conexão. Também, pode-se observar que, em vários casos, os custos de interconexão podem ser proibitivos para distâncias maiores do que, por exemplo, km. 25 Os projetos dos empreendimentos termelétricos a combustível fóssil, vencedores nos últimos leilões realizados, têm construção das plantas prevista em locais nos quais os custos de interconexão são muito baixos (por exemplo, no Espírito Santo, e próximas às subestações).
20 Deve ser observado que, no Brasil, a expansão da malha de subtransmissão é um problema não específico das unidades de cogeração a partir da biomassa, e que perdura desde a reforma do setor elétrico, nos anos Anos atrás foi concedido o benefício de redução das tarifas de uso do sistema de transmissão-distribuição 26 para as Pequenas Centrais Hidrelétricas PCHs, mas o mesmo não ocorreu para os sistemas de cogeração. Mais recentemente, para unidades de cogeração abaixo de 30 MW foram concedidos descontos de 50% para uso dos sistemas de transmissão/distribuição (30 MW é o limite para enquadramento como PCHs), mas tal capacidade é baixa para os empreendimentos que são considerados neste trabalho. 200% Interconexão/Cogeração 180% 160% 140% 120% 100% 80% 60% 40% 20% 0% CP 40 MW CEST 80 MW Distância (km) Nota: Conexão de um sistema com turbina de contrapressão (CP), com capacidade de geração de 40 MW, e de um sistema com turbina de extração e condensação (CEST), com capacidade de geração de 80 MW. Figura 14. Fração do investimento em interconexão sobre o investimento no sistema de cogeração, em função da distância entre o sistema de geração e o ponto de conexão. Para novos empreendimentos em geração distribuída em áreas nas quais a malha de transmissão existente tem baixa densidade espacial, como, por exemplo, no Centro-Oeste, a solução já encaminhada é a construção de Instalações Compartilhadas de Conexão Elétrica (ICGs), bem como a instalação da rede básica, para que os custos de interconexão sejam reduzidos. Estudos específicos já foram feitos considerando o potencial existente no Mato Grosso do Sul e em Goiás, e o leilão para viabilizar a construção das coletoras foi realizado no fim de 2008; a capacidade que pode ser conectada soma MW (Chipp, 2009). No caso de usinas já existentes em São Paulo, a ONS identificou as situações em que a potência gerada é absorvida pela carga, o que caracteriza geração local e permite a conexão à rede de distribuição, e não à rede básica (EPE, 2008). Segundo a Secretaria de Saneamento e de Energia de São Paulo, tipicamente os custos de interconexão no estado seriam relativamente baixos (equivalentes a 4-6 R$/MWh), desde que os custos sejam padrão (i.e., a interconexão seja feita no local adequado, e os custos sejam aqueles praticados pelo setor elétrico) (Negri, 2009). Tais ações minimizam o mencionado problema de conexão, mas não o resolve definitivamente. Barreiras culturais A lógica vigente no setor elétrico é que o aproveitamento do potencial hidroelétrico é prioritário, e que alternativas devem ser buscadas para que o aproveitamento da capacidade hidroelétrica já existente seja otimizado. Nesse sentido, por exemplo, foram criados leilões que favorecem a construção de termoelétricas a combustível fóssil, para as quais o melhor cenário 26 TUST Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão e TUSD Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição. Essas tarifas refletem os custos de transporte, perdas, encargos de conexão e encargos setoriais.
21 é a operação dessas unidades com baixo fator de capacidade e, melhor ainda, se nunca tiverem de operar, em função de seus custos e de seus impactos ambientais. Embora a potencial complementariedade da cogeração a partir da biomassa residual da cana seja muito grande em relação à geração hidroelétrica, principalmente na região Centro-Sul do país, jamais os benefícios de tal complementariedade foram reconhecidos na definição das tarifas de venda da eletricidade excedente. E a operação contínua dos sistemas de cogeração é ainda considerada injustificável diante da hipótese de que possa haver necessidade de vertimento d'água, mesmo que em situações esporádicas, embora aceite-se com certa naturalidade a necessidade de eventual queima de combustíveis fósseis. Por outro lado, há também barreiras culturais da parte do empresariado do setor sucroalcooleiro, que não tem a mesma motivação de investir na geração de eletricidade, como ocorre no caso dos investimentos para a produção de etanol e açúcar. Por não ser seu corebusiness, e por não estar familiarizado com o setor elétrico, sua percepção de risco é bem maior. Até recentemente, a rentabilidade que pode ser obtida na venda de eletricidade excedente não foi considerada suficiente. É também fato que o setor sucroalcooleiro passa por um processo de modernização empresarial, e que para alguns agentes já há outra percepção das oportunidades existentes na geração de eletricidade excedente. É razoável supor que empresários mais modernos, com visão da importância da diversificação das atividades, e que entendem a complexidade do setor energético, tendam a serem mais dinâmicos e invistam na geração de eletricidade em larga escala. A UNICA, por exemplo, avalia que já em 2015 a receita decorrente da venda de eletricidade excedente poderia representar 16% da receita total do setor (contra 1% em 2007), e tem buscado viabilizar o aproveitamento do potencial existente (Souza, 2009) 27. O setor sucroalcooleiro e seu empresariado são bastante heterogêneos, e a transformação cultural necessária tende a ser lenta. Nesse sentido, as políticas a serem implantadas devem, também, visar a mudança do paradigma. Barreiras relativas ao acesso ao capital desde vários anos existem linhas de financiamento específicas do BNDES para os investimentos em sistemas de cogeração. As linhas existentes, inclusive, visam motivar investimentos em sistemas de potência mais eficientes, que permitam melhor aproveitamento do potencial. Do lado dos potenciais investidores há críticas associadas às exigências e à burocracia, mas não é possível culpar a escassez de crédito pelos resultados até agora alcançados. Entretanto, o potencial avaliado neste projeto é muito grande, e os investimentos necessários, muito significativos. Portanto, os programas de financiamento teriam de ser reformulados para que o acesso ao capital não seja realmente uma barreira. Outro aspecto importante é quanto à necessidade de financiamento dos investimentos em interconexão. É importante que as linhas de financiamento induzam a redução dos custos e que, para tanto, haja respaldo regulatório, com maior transparência dos requisitos técnicos e divulgação de custos de referência. IV.5 Políticas e Mecanismos de Financiamento Existentes Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas O Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas (Brasil, 2008) menciona o potencial de mitigação de emissões de GEE associado à produção de eletricidade com biomassa residual da cana, e as oportunidades associadas à venda de certificados de emissões reduzidas (CERs), no âmbito do MDL. Entretanto, no Plano não são apresentadas políticas/mecanismos específicos em função das vantagens potenciais da geração elétrica a partir da biomassa. Em resumo, na prática, a menção ao potencial de cogeração com biomassa residual da cana é inócua do ponto de vista de sua efetiva viabilização. PROINFA Em função do reconhecimento das vantagens potenciais da geração de eletricidade a partir de fontes alternativas renováveis, entre elas a redução das emissões de GEE, foram criados alguns programas específicos. O mais importante deles é o PROINFA (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia), que foi criado em Abril de 2002 e, posteriormente, foi reformatado. Originalmente, o PROINFA visava à implantação de MW de capacidade, em instalações de produção com início de funcionamento previsto até 27 Essa avaliação, possivelmente, está baseada na identificação de um potencial de exportação de 10,2 GW até 2015, em 210 usinas localizadas em São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso do Sul (Jank, 2008).
22 o fim de 2006, e com compra da eletricidade assegurada pela ELETROBRÁS, por um período de 20 anos. A capacidade deveria ser igualmente distribuída entre energia eólica, Pequenas Centrais Hidrelétricas PCHs, e térmicas a biomassa (Agência Brasil, 2008) No início de 2009, dos 144 empreendimentos contratados (praticamente totalizando MW), 70 ainda não haviam entrado em operação, sendo que 30 sequer tinham suas obras iniciadas 28. Do total da capacidade contratada, MW estão atrasados em maior ou menor medida (MME, 2009). As razões dos sucessivos atrasos incluíram problemas no licenciamento e no fornecimento de equipamentos, além das baixas tarifas De toda a capacidade contratada, MW são de empreendimentos eólicos (456 MW em operação no início de 2009, e 325 MW em construção). Em PCHs, a capacidade contratada foi de MW, sendo que no início de 2009 havia 775 MW em operação e mais 405 MW em construção. O pior resultado foi obtido justamente com as térmicas a biomassa, pois a capacidade contratada ficou abaixo do esperado (685 MW contratados); a parcela em operação em 2009 equivale a 504 MW, e há mais 66 MW em construção 29 (MME, 2009). As térmicas a biomassa contratadas são majoritariamente unidades de cogeração que operam com biomassa residual da cana. No caso das térmicas a biomassa, a pequena adesão foi principalmente devido à baixa remuneração da eletricidade vendida (i.e., seu valor econômico), uma vez que a tarifa não assegurava a rentabilidade esperada. Em alguns casos, os potencias empreendedores não quiseram se comprometer por 20 anos com tarifas baixas, acreditando que depois teriam melhores oportunidades. Alega-se, também, que o aquecimento do mercado de equipamentos, por conta da expansão do setor canavieiro nos últimos anos, não possibilitou o cumprimento do percentual de nacionalização requerido pelo PROINFA. Em resumo, do ponto de vista do fomento à geração de eletricidade com fontes alternativas renováveis, o PROINFA foi relativamente bem sucedido no que diz respeito à energia eólica, e um fracasso quanto à geração a partir da biomassa. Desde o início dizia-se que a remuneração para a geração a partir da biomassa era muito baixa para motivar os potenciais investidores. Leilões de Energia de Reserva Nos leilões regulares para contratação de capacidade adicional de geração de energia elétrica, promovidos desde Dezembro de 2005, a parcela contratada de bioeletricidade (energia elétrica gerada a partir da biomassa) foi pífia, como pode ser observado na Tabela 4 (251 MW médios contratados desde 2005, em um total de 13,9 GW médios i.e., apenas 1,8% do total). Tabela 4. Resultados dos leilões de compra de energia elétrica (nova) expressos em capacidade contratada (MW médios) Capacidade (MWmédios) Leilão 1 Leilão 2 Leilão 3 Leilão 4 Leilão 5 Leilão 6 Leilão 7 Total Ano Classe do leilão A3¹ A3 A5² A3 A5 A3 A5 Hidroelétricas Termoelétricas (outras) Geração com biomassa³ Total contratado Biomassa/Total 2,9% 3,4% 5,5% 0,0% 0,0% 0,0% 1,1% 1,8% Notas: ¹ A-3, para novos empreendimentos, com venda prevista para o terceiro ano após a realização do leilão. ² A-5, para novos empreendimentos, com venda prevista para o quinto ano após a realização do leilão. ³ Principalmente bagaço de cana, mas inclui outras biomassas. Cabe observar que a viabilização da expansão da capacidade de geração em até cinco anos, através de leilões, tem beneficiado principalmente os empreendimentos termelétricos a combustível fóssil, com 73,5% da capacidade contratada em sete leilões 28 O prazo limite de entrada em operação era 31 de Dezembro de Entretanto, de acordo com a Lei n.º , de 28 de maio de 2009, o prazo para o início de funcionamento dos empreendimentos contratados passou a ser 30 de Dezembro de Há também cinco contratos sub júdice e/ou em rescisão contratual, totalizando mais de 100 MW. Essa capacidade não será viabilizada.
23 regulares, e 68,4% da capacidade contratada em todos os leilões nos quais a geração à biomassa teve participação efetiva (inclusive o de Fontes Alternativas e de Energia de Reserva, este exclusivo para biomassa). Tendo em vista a não competitividade das fontes alternativas renováveis em relação às tecnologias e fontes tradicionais de geração elétrica (e, principalmente, às termelétricas a óleo combustível, óleo diesel e carvão mineral), em meados de 2008 foi realizado o 1 o Leilão de Fontes Alternativas 30 (A3), no qual foram contratados 639 MW, sendo 542 MW de térmicas à biomassa (396 MW a partir de biomassa residual da cana). Analistas consideram que o resultado foi muito abaixo do esperado, uma vez que MW de térmicas a biomassa e PCHs estavam habilitados para participarem do leilão. A estratégia mais recente tem sido a realização de Leilões de Energia de Reserva, específicos por fonte. Para biomassa, no único leilão até agora realizado (em Agosto de 2008), foram contratados 548 MW médios de 31 unidades geradoras (30 unidades a bagaço e um empreendimento a capim elefante), a um preço médio de 58,84 R$/MWh, por 15 anos (CCEE, 2009). O leilão teve dois produtos, ou seja, para início da geração em 2009 ou em 2010, sendo que nos dois casos a capacidade máxima terá de estar disponível em três anos (2011 ou 2012, respectivamente). Houve grande expectativa quanto a esse leilão, que foi adiado várias vezes ao longo de Inicialmente, a EPE disse haver a oferta de MW em 118 empreendimentos (Silvestrin, 2008). Mais tarde, a EPE divulgou 96 empreendimentos habilitados tecnicamente, com capacidade total instalada de MW e garantia física de MW médios. Entretanto, à época do leilão, 44 empresas deram garantias para a geração de cerca de MW médios, sendo que 39 eram usinas de cana de açúcar (Valor Econômico, 2008). Os leilões de Energia de Reserva correspondem, na prática, à aquisição de um seguro para a melhor operação do sistema elétrico, que é de base predominantemente hidroelétrica 31. A forma de compra dessa energia, pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), equivale ao contrato de usinas merchant, que operam quando solicitadas; no caso das usinas de cana de açúcar, isso deve ocorrer nos meses de safra, e de forma inflexível. A operação inflexível requer (idealmente) sistemas com turbinas de extração e condensação, já que a condição de inflexibilidade, quando do emprego de sistemas com turbinas de contrapressão, pode impor ineficiências termodinâmicas e/ou perdas ao processo produtivo de açúcar e etanol. A inflexibilidade poderá exigir, também, a manutenção de certo estoque de biomassa residual da cana ou a disponibilidade de combustível alternativo. O cálculo do valor a ser pago para as usinas baseou-se em custo variável unitário praticamente nulo, situação que é razoável em curto a médio prazo, mas não a partir de quando houver custo de oportunidade para a biomassa residual da cana (e,g, para produção de etanol por hidrólise, a partir do bagaço) 32. De qualquer forma, segundo os resultados apresentados pela CCEE (2009), a remuneração fixa anual (média) dos empreendimentos contratados corresponde a cerca de R$/MW médio, ou algo como 550 R$/MW instalado, supondo fator de capacidade anual de 40%. De acordo com a base de dados empregada neste estudo, isso implica remuneração de 15% ao ano, em 15 anos, sobre todo o capital investido (inclusive custos de interconexão) para empreendimentos novos que tenham 28 MW de capacidade instalada. No conjunto de leilões até agora realizados, nos quais houve participação de empreendimentos de geração a partir da biomassa (sete leilões regulares, um de fontes alternativas, e um de energia de reserva), foram contratados 939 MW médios de geração a partir da biomassa, no total de MW médios (i.e., 6,4% do total). Portanto, tendo em conta as capacidades contratadas com biomassa, com o leilão de Energia de Reserva houve significativa melhoria nos resultados em relação aos leilões regulares. Os Leilões de Energia de Reserva resultaram de um processo de negociação entre os Governos Federal e estaduais (e.g., Casa Civil, SMA/CETESB, em São Paulo), os setores energético e elétrico (EPE, ANEEL, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), e agentes do setor canavieiro. Os agentes do setor canavieiro, inclusive, reconhecem o empenho na construção de uma ambiente adequado, mas reivindicam que esses leilões sejam regularmente realizados, como forma de dar continuidade aos investimentos. Os atrativos estão no fato de que são habilitáveis os empreendimentos existentes, mas com modernização, de que há garantia de receita 30 O Decreto nº 6.048, de 27 de fevereiro de 2007, regulamentou a realização de Leilões de Energia de Fontes Alternativas para a comercialização de energia gerada em empreendimentos como PCHs, geradores eólicos, e termelétricas partir de biomassa e biogás. 31 Por se tratar de uma espécie de seguro à operação do sistema elétrico, em função da energia extra assegurada, todos os consumidores pagarão a despesa adicional. 32 Quando da realização do Leilão de Energia de Reserva, o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, afirmou que a eletricidade gerada pela biomassa residual da cana, e comercializada nessas condições, pode reduzir em muito o preço da eletricidade no mercado spot (definido pelo custo variável da última usina colocada em operação) (Agência Brasil, 14/08/2008).
24 fixa por um período de quinze anos, e de que os empreendedores poderão também vender energia no mercado livre 33. As barreiras relativas à obtenção da licença prévia e da outorga para captação de água foram resolvidas, no estado de São Paulo, com a adoção de procedimentos simplificados por parte da SMA/CETESB. No contexto do potencial avaliado neste trabalho, uma importante questão (ainda a ser devidamente analisada) é em que medida o potencial total não será aproveitado com a sistemática adoção dos Leilões de Energia de Reserva, uma vez que a natureza inflexível da operação (da capacidade de geração contratada) pode limitar em muito o dimensionamento do sistema. Qualificação do cogeração O sucesso da cogeração nos EUA, que começou entre o final dos anos 1970 e a primeira metade dos anos 1980, é em grande parte atribuído à qualificação de empreendimentos de cogeração. A qualificação facilitava o acesso às linhas de financiamento, isenções tarifárias, garantia de venda da eletricidade produzida, etc. A qualificação tinha como condições necessárias uma relação mínima entre energia térmica e elétrica produzidas (para evitar que benefícios fossem atribuídos a termelétricas), padrões mínimos de eficiência (do ponto de vista termodinâmico) e a posse majoritária dos empreendimentos por parte de produtores independentes. No Brasil, durante anos defendeu-se a qualificação da cogeração, vislumbrando-se a reprodução do bem sucedida experiência norteamericana. Em 2002 foi regulamentado o processo de qualificação no Brasil, procedimento que foi alterado em A primeira experiência foi um fracasso enquanto instrumento de fomento à cogeração, em parte porque as exigências eram desnecessariamente rigorosas, mas principalmente porque os incentivos oferecidos aos (potenciais) cogeradores qualificados eram insuficientes para motivá-los. Em Novembro de 2006 a ANEEL alterou o dispositivo regulatório sobre cogeração qualificada. A parir de então, as unidades de cogeração a biomassa estão automaticamente qualificadas 34. Isso reduziu restrições à cogeração a partir da biomassa, mas segue ainda a questão dos limitados benefícios das chamada "políticas de incentivo à cogeração". IV.6 Medidas de Superação das Barreiras e Impedimentos O texto desta seção tem como referencial as sugestões apresentadas por representante da UNICA, que tem tratado especificamente dos interesses dos associados no que diz respeito a cogeração a partir da biomassa residual da cana 35. A seguir são destacados quatro aspectos: conexão, comercialização, financiamento e regulação. Comentários do autor deste relatório são apresentados após a apresentação dos comentários e/ou reivindicações do representante do setor canavieiro. Conexão A posição atual de grande parte do setor canavieiro não é de questionamento do dispositivo regulatório que exige que os custos de interconexão sejam assumidos pelo acessante (no caso, o cogerador). O que é ponderado é que esses custos podem ser muitos altos, e que a venda da eletricidade tem de remunerar o investimento feito. Mais especificamente, reivindicam-se linhas de crédito específicas para tal investimento. Os dois aspectos destacados acima são pertinentes. A questão associada à tarifa de venda será destacada mais a frente, pois envolve outros aspectos. A questão da existência de linhas de crédito específicas para os investimentos em interconexão dá oportunidade para uma sugestão, que visa redução dos custos e maior simetria de informações: o setor elétrico (e.g., a ONS) deveria calcular e divulgar custos de referência para a interconexão de centrais de cogeração com a rede elétrica. Os projetos de financiamento teriam de ser analisados pelo agente financiador à luz desses custos de referência. Outro aspecto importante é que novas destilarias, que devem ter custos de interconexão mais elevados, também devem ter sua localização definida a partir da consideração de vários aspectos, entre eles o custo de escoamento dos excedentes elétricos. Políticas e 33 Tais empreendimentos poderiam ser muito competitivos no mercado livre, pois como o custo fixo estaria já amortizado, apenas os custos variáveis teriam de ser remunerados, e os custos variáveis serão muito baixos em curto a média prazos. 34 Segundo o artigo 8 o da Resolução Normativa 235 da ANEEL, de 2006: "As centrais termelétricas que utilizam exclusivamente a biomassa como fonte primária de energia não necessitam de qualificação para fazer jus aos benefícios previstos na legislação, respeitadas as respectivas condições de aplicação." 35 Souza, ZJ (2009): A Importância da Bioeletricidade para a Indústria da Cana de Açúcar. Apresentação no Ethanol Summit, em 18 de Junho de 2009.
25 regulações precisam ser concebidas de sorte que (i) a expansão das destilarias seja locacionalmene induzida, (ii) impactos ambientais sejam minimizados (e.g., associados à mudança do uso da terra), e (iii) as unidades sejam projetadas para melhor aproveitar o potencial de geração de eletricidade. Por outro lado, a expansão da atividade canavieira precisa ser acompanhada, para que a necessidade de construção de outras Instalações Compartilhadas de Conexão Elétrica seja identificada com antecedência. Comercialização da eletricidade excedente A primeira reivindicação é para que haja leilões regulares e específicos para fontes de energia, e a segunda é que os preços nos leilões no âmbito do ACR Ambiente de Comercialização Regulada reflitam as chamadas externalidades positivas da geração de eletricidade a partir da biomassa (e.g., a maior capacidade de geração no período hidraulicamente desfavorável e as emissões nulas/baixas de CO 2 ). Sobre as duas questões, aspecto importante é que seja rompido o círculo vicioso. Por um lado, a participação nos leilões da cogeração com biomassa residual da cana é pequena porque os valores de referência são baixos. E, por outro lado, como a participação é pequena, não se vislumbra a necessidade/conveniência de mais leilões específicos. A definição de preços mais atrativos requer a mudança do atual paradigma do setor elétrico brasileiro, uma vez que, até o momento, o fomento às fontes renováveis de energia, e que permitem a redução das emissões de CO 2 na geração de eletricidade, foi mais retórica do que efetivo. Nesse sentido, a quantificação dos custos das emissões evitadas, feito neste trabalho, pode servir para a precificação de uma das externalidades positivas. Já a comercialização de eletricidade excedente gerada pela cogeração a partir da biomassa residual da cana no Ambiente de Comercialização Livre (ACL) é ainda uma novidade para o setor canavieiro, que precisa econtrar seu espaço de inserção nesse mercado. Financiamento Além do aspecto acima mencionado de financiamento dos investimentos em interconexão o setor canavieiro demanda linhas de crédito específicas e regulares, e que induzam a implementação de tecnologias mais eficientes para a geração de eletricidade. Efetivamente, a existência de linhas de financiamento adequadas é fator essencial ao sucesso de programas de fomento de tecnologias/fontes de energia. Aspecto fundamental é que os procedimentos sejam simplificados, e que sejam concedidas vantagens reais para empreendimentos de cogeração qualificados. Uma questão a ser analisada é se os investimentos em cogeração, no caso de novos empreendimentos, deveriam ser considerados conjuntamente no âmbito do financiamento das unidades industriais e dos investimentos na etapa agrícola. É importante que sejam concedidas vantagens para os empreendimentos que, em seu conjunto, tiverem mais externalidades positivas. Aspectos regulatórios O setor elétrico brasileiro foi, e é, concebido e gerenciado com foco na geração hidroelétrica. O setor canavieiro reivindica um esforço para a consideração, com maior atenção, de alternativas de geração como a bioeletricidade. Como anteriormente comentado neste relatório, a lógica do setor elétrico é a priorização da geração hidroelétrica, o que é compreensível e, até mesmo justificável, em função do potencial ainda remanescente e do domínio da tecnologia de construção dessas centrais. Entretanto, o setor elétrico precisa se adaptar para um momento de transição, uma vez que a construção de novas hidroelétricas tende a ser cada vez mais difícil e, os novos empreendimentos, mais caros. Por outro lado, a transição requerida também precisa ocorrer no setor canavieiro que é, na média, ainda bastante conservador e refratário à necessária modernização empresarial e tecnológica. Especificamente a respeito da geração de eletricidade com biomassa residual da cana, também é preciso haver um novo paradigma, para o qual muito ajudaria a participação de novos empreendedores, com maior entendimento do setor elétrico, menor percepção de risco e compreensão das oportunidades de diversificação da atividade produtiva. Nesse sentido, a flexibilização do self-dealing poderia viabilizar parcerias cogeradores-distribuidoras de energia elétrica; com empreendedores do próprio setor elétrico, com menor percepção de risco, os custos tenderiam a cair. O setor canavieiro avalia que em pouco mais de uma década a eletricidade poderia ser, para várias empresas do setor, produto mais importante do que o açúcar. Para que isso ocorra é preciso que os vários aspectos, acima mencionados, sejam devidamente tratados. Mas, também, é preciso que o setor entenda que a futura indústria da cana não poderá mais ser uma empresa de alimentos, mas sim e, bastante provável, simultaneamente uma empresa de energia e uma indústria química. Para tanto, é preciso posturas e estratégias distintas das até então usuais.
26 Finalmente, a respeito das condições de fomento necessárias, cabe lembrar que, em todo o mundo, programas de fomento à cogeração só foram bem sucedidos quando um amplo pacote de estímulos foi oferecido aos investidores (e.g., nos EUA, nos anos 1970 e 1980, e ns Espanha, nos anos 1980 e 1990); assim, claras vantagens são identificadas e a percepção de risco é drasticamente atenuada. Todas as barreiras precisam ser simultaneamente atacadas. Programas de estímulo parcial não são efetivos e, pelo contrário, desestimulam os agentes e desgastam as relações. Referências Agência Brasil Reportagem publicada em 14/08/2008. ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica Informações disponíveis em Brasil Plano Nacional sobre Mudança do Clima PNMC. Dezembro. 129 páginas. Câmara de Comercialização de Energia Elétrica Dados disponíveis em Chipp, H A Importância Bioeletricidade na Complementariedade da Hidroeletricidade. Apresentação no II Forum Cogen/CanalEnergia. São Paulo, Junho. EPE Empresa de Pesquisa Energética Plano Nacional de Energia 2030 (PNE 2030). Ministério das Minas e Energia. Brasília. EPE Empresa de Pesquisa Energética e MME Ministério das Minas e Energia Balanço Energético Rio de Janeiro- Brasília. Hassuani, SJ, Leal, MRLV, Macedo IC Biomass power generation: sugar cane bagasse and trash. Série Caminhos para a Sustentabilidade. Piracicaba: PNUD-CTC. Jank, M O despertar da bioeletricidade. Artigo publicado no O Estado de São Paulo, em 13/08/2008. Disponível em MAPA. Ministério da Agricultura e da Pecuária Informações disponíveis em MCT Ministério de Ciência e Tecnologia Fatores de Emissão de CO 2 pela geração de energia elétrica... Dados disponíveis em MME Ministério das Minas e Energia O PROINFA. Disponível em Negri, JC. Coordenador de Energia da Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo. Comunicação pessoal em Agosto de 2009.
27 Silvestrin, CR A Bioeletricidade na Expansão da Oferta de Energia Elétrica. Apresentação no Forum APINE-CanalEnergia Abastecimento Elétrico Fevereiro. Souza, ZJ A importância da bioeletricidade para a indústria da cana de açúcar. Apresentação no Ethanol Summit, em 18/06/2009. Valor Econômico Reportagens publicadas nos dias 12 e 14 de Agosto de Walter, A, Rosillo-Calle, F, Dolzan, P, Piacente, E, Cunha, KB. Perspectives on fuel ethanol consumption and trade. Biomass and Bioenergy, 32 (2008), pp Acrônimos ACL Ambiente de Comercialização Livre ACR Ambiente de Comercialização Regulada ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica ATR Açúcares Total Redutores B-E break-even BIG-GT Biomass Integrated Gasifier to Gas Turbines BIG-CC Biomass Integrated Gasifier to Combined Cycles BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CCEE Câmara de Comercialização de Energia Elétrica CERs Certificados de Emissões Reduzidas CEST Sistemas com turbinas a vapor com extração e condensação CETESB Companhia Ambiental do estado de São Paulo CP Sistemas com turbinas a vapor de contrapressão EPE Empresa de Pesquisa Energética GEE gases de efeito estufa ICONE Instituto de Estudo do Comércio e Negociações Internacionais IGP-M Índice Geral de Preços do Mercado ICGs Instalações Compartilhadas de Conexão Elétrica MAC - Custo Marginal de Abatimento MAPA Ministério da Agricultura e Pecuária MDL Mecanismo de Desenvolvimento Limpo MME Ministério das Minas e Energia O&M operação e manutenção ONS - Operador Nacional do Sistema PCHs Pequenas Centrais Hidrelétricas P&D pesquisa e desenvolvimento PNE - Plano Nacional de Energia PRODIST Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no Sistema Elétrico Nacional PROINFA (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia) SMA Secretaria do Meio Ambiente do estado de São Paulo TUSD Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição TUST Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão
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