A Basílica de Mafra: o Templo e a Cidade

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1 A Basílica de Mafra: o Templo e a Cidade Mafra, 17 de novembro de 2016 Veio sua Ilustríssima Reverendíssima [o Patriarca de Lisboa] benzendo os alicerces de todo o templo com erva hissope e orações dedicadas a este fim. Depois se cantou pelos Músicos da Patriarcal Noa, e pelos mesmos a Missa, que disse sua Ilustríssima Reverendíssima, a qual acabada, chegou El Rei e os seus Camaristas com outros fidalgos, e achando preparados treze cestos com pedras dentro e alguns coches de cal, pegou El Rei no seu cesto, que era dourado, e os mais os seus, que eram prateados; e foram administrar as tais pedras; acto que causou suma admiração, edificação e gosto, o que clara e evidentemente manifestavam as copiosas lágrimas vertidas pelos olhos de todos 1. É deste modo que termina a descrição que Fr. Fr. João de S. José do Prado faz da bênção da primeira pedra desta Basílica em que nos encontramos, faz hoje precisamente 299 anos. A obra, publicada em 1751 e intitulada Monumento Sacro da Fábrica e Soleníssima Sagração da Santa Basílica do real Convento que junto à vila de Mafra dedicou a Nossa Senhora e Santo António a Majestade Augusta do Máximo Rei D. João V, descreve ao pormenor a celebração ainda mais faustosa da sagração desta Basílica, ocorrida a 22 de Outubro de Fr. João de S. José foi o primeiro mestre de cerimónias de Mafra, e nas suas narrações é bastante pormenorizado em nomes e lugares, dando a entender que foi testemunha ocular dos acontecimentos. Certamente que as suas descrições estavam marcadas não tanto pela vontade de agradar ao rei (falecido um ano antes da publicação da obra) quanto, sobretudo, por uma intenção edificante, religiosa, de alguém que, desse preciso modo viveu os acontecimentos, sem esquecer a vontade de fazer memória dos mesmos e memória do próprio Rei que os protagonizou. O ambiente deste final dos ritos de bênção da primeira pedra foi pois descrito com estas perspectivas; mas não deixa de ser significativo o modo como Fr. João de S. José nos coloca perante a comoção de todos e do próprio Rei. Ou seja: não nos encontramos, absolutamente, perante a representação artificial dum papel de teatro mas perante um momento que com todo o seu esplendor não deixou de tocar o coração dos que nele participaram. 1 FR. JOÃO DE S. JOSÉ, Monumento Sacro da Fábrica e Soleníssima Sagração da Santa Basílica do real Convento que junto à vila de Mafra dedicou a Nossa Senhora e Santo António a Majestade Augusta do Máximo Rei D. João V, Lisboa, 1751, 9. 1

2 Muitos dos que depois sobre ele escreveram, impregnados de não poucos preconceitos, ridicularizaram a construção de Mafra; outros reduziram (e querem reduzi-la) a uma mera função do que diziam ser o Portugal de 700, um cenário de ópera, armado numa igreja 2. Mafra terá sido o fruto da vontade de um rei que se desejava impor e ao seu poder através da grandiosidade de uma construção; mas é também, no dizer do próprio Herculano, pouco mais ou menos o que foi Portugal na primeira metade do séc. XVIII 3. Nele, no fundo, se revia e eventualmente se gosta ainda hoje de rever todo o Portugal. Depois de uma breve evocação da data que hoje comemoramos e que aqui nos reúne, coloquemo-nos também nós a questão do significado do Templo. Não o faremos a partir de uma perspectiva sociológica ou das ciências históricas mas da teologia, pois que a fé cristã sempre esteve genuinamente ligada a este edifício, e ele não se compreende sem ela. E não nos move apenas um interesse histórico quanto, sobretudo, o significado de que ainda hoje nos podemos apropriar quando confrontados com esta magnífica basílica. 1. A bênção da primeira pedra da Basílica A obra de Fr. João de S. José do Prado, que constitui no seu conjunto uma narração bastante credível 4, descreve, como dissemos, os ritos da sagração da Basílica de Mafra. Contudo, no seu primeiro capítulo, conta-nos também a história da decisão real de dar início à construção da Basílica, bem como a celebração do lançamento da sua primeira pedra. De acordo com Fr. João de S. José, D. João V não foi o primeiro a escolher esta vila para a construção de um convento. Bem antes, em 1622, D. João Luís de Menezes tinha procurado obter licença régia para uma construção que providenciasse directores espirituais e ministros dos sacramentos para as populações destes lugares. O mesmo aconteceu com os seus sucessores que, no entanto, viram sempre negado o seu pedido sob o pretexto de estar o Reino cheio de Conventos mendicantes 5. Confiantes de que a construção do referido convento era vontade de Deus, ficaram os religiosos e o Visconde desfalecidos mas não desanimados. No entanto, só passados três anos o projecto se veio a concretizar: foram os mesmos três anos que decorreram sem que a rainha desse sinais de gravidez e, deste modo, sem sinal de um sucessor para o trono. Foi por essa altura que teve lugar o célebre episódio que ligou o nascimento de um herdeiro de D. João V à Vila de Mafra, e que é narrado deste modo por Fr. João de S. José do Prado: 2 Oliveira Martins cit. in A. F. PIMENTEL, Arquitectura e poder. O real edifício de Mafra, Lisboa, Horizonte, 2002, Cit. in A. F. PIMENTEL, Arquitectura e poder, Cf. A. F. PIMENTEL, Arquitectura e poder, FR. JOÃO DE S. JOSÉ, Monumento Sacro, 2. 2

3 Um dia que numa sala do Paço que chamam da Galé, se achavam conversando em diferentes matérias o eminentíssimo Cardeal Cunha, ainda Bispo Capelão Mor, e o Marquês de Gouveia D. Martinho Martins Mascarenhas, Mordomo Mor, ainda Conde de Santa Cruz, entrou na dita sala Frei António de S. José (chamado da Índia por ter ido com o nosso Bispo a Malaca e ter estado na cidade de Goa todo o governo do Conde de Vila Verde), a quem o Marquês por sua virtude tinha elegido por seu compadre, e vendo-o o chamou e lhe tomou com sumo respeito e devoção a bênção. Disse-lhe então o Cardeal: Padre, encomende El Rei a Deus para que se digne de lhe dar filhos e ao Reino sucessão; e satisfazendo Fr. António esta súplica tão somente com o dizer: Ele terá filhos se quiser, se despediu de ambos com toda a modéstia e cortesia 6. A resposta dada por Fr. António ( terá filhos se quiser ) soou a estranho, e as palavras envolvidas num quê de misterioso: por um lado, era de todos conhecida a ânsia de D. João V de ter descendência (a resposta parecia, pois, ser dispensável); por outro lado, o conceito que todos faziam de virtude da pessoa de Fr. António de S. José impedia que as suas palavras caíssem em saco roto. Assim, pouco tempo depois, os mesmos personagens voltaram a encontrar-se no mesmo lugar. E a conversa tornou a ser semelhante, certamente com o objectivo de perceber um pouco do significado daquela resposta enigmática. Mas, desta vez, Fr. António foi mais claro: Que El rei teria filhos se fizesse voto a Deus de fundar um Convento dedicado a Santo António na Vila de Mafra. O Cardeal e o Marquês apressaram-se a comunicar o sucedido a D. João V e à Rainha, que logo fizeram o voto. A 4 de Dezembro de 1711, nascia a princesa D. Maria Bárbara. Seguros da nova fundação, logo se dirigiram para Mafra três religiosos arrábidos: Frei Bonifácio do Rosário; Frei Carlos da Madre de Deus; e Frei João de Santa Maria, hospedados em quatro pequenas celas da Albergaria do Espírito Santo. Coube a António Rebello da Fonseca, homem de confiança do rei, encontrar o local para a edificação. Dois anos demorou a procura. Afirma Fr. João de S. José do Prado: Pareceu mais acertado o sítio chamado da Vella, em pouca distância da Vila para a parte do Nascente, para o que mandou El Rei que se avaliassem as terras, que naquele sítio tinham vários donos, para que prontamente se lhes pagassem 7. Escolhido, de entre vários, o projecto do arquitecto João Frederico Ludovici 8, o Rei determinou que a primeira pedra fosse lançada a 17 de novembro de 1717: No sítio em que se havia de edificar a Igreja, estava feita outra de madeira, que ocupava o cruzeiro, composta e ornada com toda a perfeição; e não obstante dois dias antes soprarem com tanta valentia os ventos, que com a eficácia dos seus furiosos assopros se viu toda aquela fábrica por terra; el Rei, porém, com a sua eficaz resolução, ordenou que dentro do mesmo tempo novamente se erigisse, ornasse e compusesse outra, o que tudo se executou com todo o asseio e prontidão. No dia 16 do referido mês foi D. Filipe de Sousa, Chantre da Santa Sé Patriarcal, benzer a Cruz, que se ergueu por quatro sacerdotes no lugar em que hoje existe o Altar mor, e estava também fabricado outro de 6 FR. JOÃO DE S. JOSÉ, Monumento Sacro, 3. 7 FR. JOÃO DE S. JOSÉ, Monumento Sacro,. 8 Cf. A. F. PIMENTEL, Arquitectura e poder,

4 madeira com ricos paramentos, tocheiras e castiçais de prata, que ainda não tinham servido. Não iremos prosseguir com a descrição do ritual e das celebrações que há 299 anos aqui tiveram lugar. Vale antes a pena procurar o significado de uma igreja como localização, presença de Deus numa determinada comunidade e num determinado espaço humano e cristão, tanto mais que toda a tradição judaico-cristã parece refiro-me aos seus textos fundantes, as Sagradas Escrituras voltar as costas ao Templo como edifício construído por mãos humanas. 2. O lugar onde Deus habita Com efeito, seja o Antigo seja o Novo Testamento relativizam claramente o Templo como habitação de Deus, até para contrastar com as concepções dos povos vizinhos. De facto, é conhecida a concepção das religiões que vêem o templo como lugar onde Deus habita. Trata-se de um conceito vindo de cultos imemoriais, bem anteriores ao cristianismo. Uns que tiveram a sua origem por serem lugares de encontro com o sagrado por causa de uma sua manifestação ou experiência; outros por serem fruto de vontades humanas, erguidos para glorificação sincera dos deuses ou para deificação dos homens poderosos. Como quer que seja, o templo era o espaço para a divindade que, deste modo, deixava tudo o resto para os homens. Com efeito, não apenas o tempo como também o espaço são realidades essenciais numa qualquer existência humana. E se o tempo é consagrado pelas festas, o espaço é consagrado pelo templo. No templo habitava a divindade que, deste modo, se tornava acessível aos pedidos humanos. Mas o Antigo Testamento, desde os seus primeiros livros, é testemunha de um longo processo de relativização do espaço como lugar de Deus. Tal processo irá marcar não apenas a fé da Antiga Aliança como também e de um modo radical o cristianismo. Aquele conceito de templo como espaço de Deus podemos encontrá-lo nas chamadas tradições patriarcais (coincidentes em grande parte com o livro do Génesis, e que dizem respeito aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob). Elas dão-nos conta de vários lugares de encontro dos patriarcas com Deus. Vejamos, como exemplo, o texto de Gen 28,10-19: 10 Jacob saiu de Bercheba e tomou o caminho de Haran. 11 Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. 12 Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e, ao longo desta escada, subiam e desciam mensageiros de Deus. 13 Por cima dela estava o SENHOR, que lhe disse: «Eu sou o SENHOR, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaac. Esta terra, na qual te deitaste, dar-ta-ei, assim como à tua posteridade. 14 A tua posteridade será tão numerosa como o pó da terra; estender-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul, e todas as famílias da Terra serão 4

5 abençoadas em ti e na tua descendência. 15 Estou contigo e proteger-te-ei para onde quer que vás e reconduzir-te-ei a esta terra, pois não te abandonarei antes de fazer o que te prometi.» 16 Despertando do sono, Jacob exclamou: «O SENHOR está realmente neste lugar e eu não o sabia!» 17 Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» 18 No dia seguinte de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro e, depois de a erguer como um monumento, derramou óleo sobre ela. 19 Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz. 20 Jacob fez, então, o seguinte voto: «Se Deus estiver comigo, se me proteger durante esta viagem, se me der pão para comer e roupa para vestir, 21 e se eu regressar em paz à casa do meu pai, o SENHOR será o meu Deus. 22 E esta pedra, que eu erigi à maneira de monumento, será para mim casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo quanto Ele me conceder.» Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu : o temor e o tremor são a experiência do encontro entre o homem e Deus, que ficará relacionado com aquele determinado lugar, Betel casa de Deus. A esse espaço regressará o homem sempre que desejar a renovação desse estar com Deus. Mas este passo da Escritura dá-nos conta já de uma significativa mudança: Jacob está preso àquele lugar; mas Deus apresenta-se como o Deus de seus pais e afirma-lhe que estará com ele e o protegerá para onde quer que for. O livro do Êxodo continuará esta linha. Assim, se é verdade que a experiência do Sinai é a de um lugar santo, ela é também a expressão de um encontro com Deus na história, na relação com o seu povo, com a situação concreta de escravidão que Israel sofre no Egipto. Veja-se, por exemplo, o capítulo 3 daquele livro, que narra a vocação de Moisés: Deus chamou-o [Moisés] do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele disse: «Eis-me aqui!» 5 Ele disse: «Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa.» 6 E continuou: «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» Moisés escondeu o seu rosto, porque tinha medo de olhar para Deus. Encontramos aqui, de um modo claro, unidas as duas concepções de espaço sagrado: por um lado a terra sagrada que Moisés pisa, sendo convidado a descalçar as sandálias em sinal de respeito; mas, por outro, o cuidado de Deus com o seu povo, onde quer que ele se encontre ao definir-se agora como o Deus de Abraão de Isaac e de Jacob. É assim que o mesmo livro do Êxodo nos dá conta da célebre tenda do encontro originalidade e clara descontinuidade do povo de Israel em relação aos povos vizinhos. Depois do pecado da adoração do bezerro de ouro, Moisés renova a Aliança entre Deus e Israel. Perante a possibilidade de abandono do povo por parte de Deus, Israel despoja-se dos adornos que trouxera do Egipto, e a tenda deixa de se encontrar no seio do seu acampamento. Continua o autor de Êxodo: 5

6 7 Moisés pegou na tenda e foi colocá-la a certa distância do acampamento. Deu-lhe o nome de tenda da reunião. E todos aqueles que desejavam consultar o SENHOR iam à tenda da reunião, fora do acampamento. 8 Quando Moisés se dirigia para a tenda, todo o povo se levantava, permanecendo cada um à entrada da própria tenda, para o seguir com os olhos, até Moisés entrar na tenda. 9 Logo que Moisés entrava na tenda, a coluna de nuvem descia e mantinha-se à entrada, e o SENHOR falava com Moisés. 10 E, ao ver a coluna de nuvem que permanecia à entrada da tenda, todo o povo se levantava e se prostrava, cada um à entrada da sua tenda (Ex 33,7-10). A tenda é, portanto, um não-lugar sagrado, à semelhança do próprio nome divino dado a Moisés em Ex 3 ( Eu sou Aquele que sou ). A tenda não é construída de um modo definitivo (não é de pedra); pelo contrário, a tenda para além de ser uma habitação semelhante à do próprio povo acompanhará Israel na sua peregrinação pelo deserto até à Terra Prometida. Mas, ao mesmo tempo, ela não se encontra no meio das demais tendas dos israelitas: ela é o espaço de Deus que acompanha o Povo, que se deixa invocar, mas que, simultaneamente, não se deixa aprisionar ou condicionar pela vontade humana, permanecendo fora do acampamento, porque Deus está sempre para além do pensar e do agir humanos. Esta relativização do Templo marcará todo o modo veterotestamentário de entender o espaço sagrado. É o que sucede quando, séculos mais tarde, David quer construir uma casa para Deus, como lemos em 2Sam 7,1-15: 1 Quando o rei se instalou em sua casa, e o SENHOR lhe deu paz, livrando-o dos seus inimigos, 2 disse David ao profeta Natan: «Não vês que eu moro num palácio de cedro, enquanto a Arca de Deus está abrigada numa tenda?» 3 Natan respondeu-lhe: «Pois bem, faz o que te dita o coração, porque o SENHOR está contigo!» 4 Mas, naquela mesma noite, o SENHOR falou a Natan, dizendo-lhe: 5 «Vai dizer ao meu servo David: Diz o SENHOR: «És tu que me vais construir uma casa para Eu habitar? 6 Desde que tirei da terra do Egipto os filhos de Israel até ao dia de hoje, não habitei em casa alguma; mas peregrinava alojado numa tenda que me servia de morada. 7 E, durante todo o tempo em que andei no meio dos israelitas, disse, porventura, a algum dos chefes de Israel que encarreguei de apascentar o meu povo: 'Porque não me edificais uma casa de cedro?' 8 Dirás, pois, agora, ao meu servo David: Diz o SENHOR do universo: Eu tirei-te das pastagens onde apascentavas as tuas ovelhas, para fazer de ti o chefe de Israel, meu povo. 9 Estive contigo em toda a parte por onde andaste; exterminei diante de ti todos os teus inimigos e fiz o teu nome tão célebre como o nome dos grandes da terra. 10 Fixarei um lugar para Israel, meu povo; nele o instalarei, e ali habitará, sem jamais ser inquietado; e os filhos da iniquidade não mais o oprimirão, como outrora, 11 no tempo em que Eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. A ti concedo uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. Além disso, o SENHOR faz hoje saber que será Ele próprio quem edificará uma casa para ti. 12 Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. 13 Ele construirá um templo ao meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio. 14 Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele cometer alguma falta, hei-de corrigi-lo com varas e com açoites, como fazem os homens, 15 mas não lhe tirarei a minha graça. 6

7 Duas notas importantes surgem aqui neste texto: por um lado a recusa por parte de Deus da construção de um Templo: o verdadeiro Templo será construído pelo próprio Deus e consistirá na casa, na descendência de David e daqui surgirá o chamado messianismo, quer dizer: a esperança do povo na vinda de um Messias, da descendência de David, que cumprisse plenamente as promessas feitas a David; mas, por outro lado, Deus anuncia a construção de um Templo, não por David mas pela mão de seu filho, Salomão. E assim virá a suceder. Não temos aqui oportunidade para narrar toda a história do Templo de Jerusalém, nas suas várias épocas, até chegar ao esplendor máximo do chamado terceiro Templo com Herodes o Grande, e a sua posterior destruição pelos exércitos romanos (ano 70) aquando da Guerra Judaica (anos 66-73). Basta-nos recordar a relativização que os profetas do Antigo Testamento fazem do próprio Templo. Vejamos, apenas como exemplo, Jer 7: 4 Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: 'Templo do SENHOR, templo do SENHOR! Este é o templo do SENHOR. 5 Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obras, se verdadeiramente praticardes a justiça uns com os outros, 6 se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes neste lugar o sangue inocente, se não seguirdes, para vossa desgraça, deuses estrangeiros, 7 então, Eu permanecerei convosco neste lugar, nesta terra que dei desde sempre e para sempre a vossos pais. Uma relativização ainda maior que a dos profetas nos aparece no Novo Testamento. Recordemos, apenas como exemplo, o célebre episódio da Purificação do Templo, narrado em todos os evangelistas e, em particular, no evangelho de S. João: 13 Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14 Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. 15 Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; 16 e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma casa de comércio.» 17 Os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devora. 18 Então os judeus intervieram e perguntaram-lhe: «Que sinal nos dás de poderes fazer isto?» 19 Declarou-lhes Jesus, em resposta: «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!» 20 Replicaram então os judeus: «Quarenta e seis anos levou este templo a construir, e Tu vais levantá-lo em três dias?» 21 Ele, porém, falava do templo que é o seu corpo. 22 Por isso, quando Jesus ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que Ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido (Jo 2,13-22). Esta relativização atinge o seu cume no livro do Apocalipse, quando S. João nos descreve a Nova Jerusalém, a cidade definitiva de Deus com os homens: 7

8 [Um dos sete Anjos] transportou-me, em espírito, a uma grande e alta montanha e mostroume a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus. 11 Tinha o resplendor da glória de Deus: brilhava como pedra preciosa, como pedra de jaspe cristalino; 12 tinha uma grande e alta muralha com doze portas; nas portas havia doze anjos e em cada uma estava gravado o nome de uma das doze tribos de Israel: 13 ao oriente havia três portas, ao norte três portas, ao sul três portas e ao ocidente três portas. 14 A muralha da cidade tinha doze alicerces, nos quais estavam gravados doze nomes, os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro. [ ] Templo, não vi nenhum na cidade; pois o senhor Deus, o Todo-Poderoso, e o Cordeiro são o seu templo (Ap 21, ). Para o Novo Testamento, o mesmo é dizer, para o cristianismo, Jesus Cristo, o Cordeiro, é o verdadeiro e único Templo. É na Sua vida que tem lugar o verdadeiro culto divino, o louvor e o sacrifício. E é enquanto membros do corpo de Cristo (Ef 1,23) que os cristãos são igualmente chamados templo de Deus : Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós (1Cor 3,16-17). Recorde-se, no entanto, como, apesar disso, os discípulos não deixaram de ir ao Templo de Jerusalém para orar. Vemo-lo imediatamente depois do Pentecostes (Act 2,46): Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. 3. O Templo cristão Como devemos, então, entender o Templo cristão? Deve ou não existir? Qual o seu significado? Os primeiros cristãos, porque eram perseguidos, não tinham qualquer possibilidade de possuir edifícios onde reunir a Igreja, a Assembleia, a ecclesia. Como vimos, em Jerusalém, nos primeiros anos, frequentavam o Templo; frequentavam igualmente as sinagogas até serem expulsos delas. Contudo, a comunidade reunia-se nas próprias casas, como escutámos também, celebrando aí a Eucaristia: partiam o pão em suas casas. A comunidade passou, deste modo, a ser designada como a Igreja que se reúne em casa de, ou simplesmente, os da casa de (Rom 16,3). É o que sucede nas célebres Domus ecclesiae, de que ainda temos alguns exemplos em Roma (S. Clemente, Santa Prisca): casas privadas que após o falecimento dos seus proprietários, se tornaram propriedade da comunidade cristã e onde esta se reunia. Ainda que não existisse liberdade de culto para os cristãos, nem sempre estes se encontravam numa situação de perseguição efectiva. Desse modo começaram a surgir grandes espaços onde [os cristãos] se reúnem para rezar, como diz o escritor pagão Porfírio, em 268. Eusébio de Cesareia ( ), por seu lado, diz-nos que por esta altura os cristãos já não se contentavam com as construções do passado e em cada cidade surgiam amplas e imponentes igrejas. De 8

9 um modo particular, são célebres as ruínas de Dura Europos, uma habitação construída por volta de 230, situada próximo da cidade de Palmira, no actual Iraque. Trata-se de um edifício com dois andares, que em baixo apresenta um amplo espaço para as celebrações da comunidade e no primeiro andar o que seria um espaço de habitação. Não deve pois espantar que após o ano de 313 e a liberdade concedida aos cristãos pelo Imperador Constantino, imediatamente se construíssem igrejas por todo o Império, algumas delas patrocinadas pelo próprio Imperador ou por sua mãe, Santa Helena (como no caso da Basílica de S. João de Latrão). No entanto, como modelo destas construções não foi tomada a arquitectura dos templos pagãos que abundavam em Roma e nas demais cidades dos Império (e que, por isso, eram sobejamente conhecidos). Os cristãos assumiram antes a arquitectura das basílicas, lugares públicos, a-religiosos, onde se administrava a justiça e se faziam os negócios mais importantes, grandes espaços para grandes assembleias de que ainda hoje subsistem alguns exemplos em Roma. O espaço, habitualmente dividido por meio de vários grupos de colunas, era dominado ao fundo pela abside, onde se encontrava uma estátua do imperador (basileos) que, deste modo, mostrava a sua tutela sobre a vida da cidade. A escolha do esquema arquitectónico da basílica adoptado pelos edifícios cristãos depois de 313, é significativa. Com ela recusa-se claramente a noção pagã de templo como espaço delimitado onde habita a divindade; prefere-se uma arquitectura civil, que não se pudesse assimilar aos cultos pagãos da antiguidade, mas capaz de acolher um grupo considerável de cristãos (já nos encontramos longe do pequeno grupo que se reunia numa casa). Evidencia-se, deste modo, a dimensão comunitária da oração cristã, que sempre marcou a vida da Igreja de facto, Jesus ensinou-nos a rezar Pai nosso, se bem que não dispensasse (pelo contrário) a oração individual realizada no silêncio do quarto (Mt 6,6). A oração cristã é, antes de mais, a que tem lugar no momento de reunião da Assembleia da ecclesía, da Igreja, pois que esse era o nome dado no Antigo Testamento à reunião de todo o Israel para escutar a vontade de Deus e O louvar. Mas a ordenação do espaço não deixa de ser objecto de mudanças significativas. Em particular no que toca à imagem do Imperador que antes tutelava a vida da basílica e da cidade, e a quem era prestado culto. Esta imagem é simplesmente substituída pela figura de Cristo Pantocrator, Rei e Senhor do universo: é Cristo o verdadeiro Rei e o verdadeiro Templo de Deus; é Ele o Sacerdote, o altar e o sacrifício. É a sua presença que doravante domina o espaço onde se reune a comunidade. É Ele o verdadeiro Legislador, com a nova Lei, o Mandamento Novo do amor. É Ele que se encontra na origem da comunidade e no fundamento da comunhão que a todos anima. Por isso, também as basílicas cristãs se encontravam orientadas, ou seja, voltadas para oriente, de onde nos vem o sol de justiça, Jesus Cristo (Lc 1,78). E, no centro de tudo, encontra-se o altar, a pedra presença de Cristo, pedra angular, a mesa onde é celebrada a Eucaristia, sacrifício da Nova Aliança, tal como Jesus mandou durante a Última Ceia. E o altar encontra-se ladeado pelo ambão, lugar da proclamação da Sagrada 9

10 Escritura. E se nos tempos de perseguição a Eucaristia era não raras vezes celebrada sobre os túmulos dos mártires, em particular ao fazer memória do dia do seu martírio (do seu nascimento para o Céu), agora as relíquias dos santos são trazidas e colocadas debaixo do altar 9. Recorda-nos, já no séc. IV, o Bispo S. Ambrósio de Milão ( ), ao dedicar a Basílica dos Santos Gervásio e Protásio: Estas vítimas triunfais avançam para o lugar onde Cristo é oferta de sacrifício. Mas Ele [Cristo], que morreu por todos, está sobre o altar; estes que foram resgatados pela sua Paixão, ficarão sob o altar. Este lugar tinha-o eu escolhido para mim, porque é justo que um bispo repouse onde habitualmente oferecia o sacrifício; mas a estas vítimas sagradas cedo a parte direita: este lugar era devido aos mártires. Coloquemos pois as relíquias sacrossantas num lugar digno, e festejemos este dia com fé e devoção 10. A basílica cristã nunca foi, portanto, um simples espaço de reunião, onde por acaso se celebrava a Eucaristia. O lugar do culto cristão não foi nunca um simples espaço de reunião de pessoas. A Eucaristia que ali era celebrada e a dimensão que poderíamos dizer sacramental da própria comunidade reunida para celebrar os louvores de Deus e escutar a Sua palavra impediam que tais espaços fossem considerados como simples lugares neutros. Prova disso são os primeiros exemplos de arte cristã (mesmo nas casas onde a comunidade se reunia) que, um pouco por toda a parte, testemunham o destino específico desses lugares. Uma passagem de S. Mateus ajudar-nos-á a perceber isto mesmo. Em Mt 18,20 Jesus afirma: Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles. Esta afirmação de Jesus, ao falar da oração cristã, ajuda-nos a perceber o sentido do Templo cristão. Fala-nos de um onde ; de uma Presença e do estar reunido em nome de Jesus 11. O onde remete-nos necessariamente para o lugar da oração, o mesmo é dizer, para o Templo e a sua arquitectura. Ou seja, faz referência ao espaço para e, deste modo, ao espaço organizado, finalizado. A arquitectura do Templo cristão encontra aqui a sua raiz. Trata-se, com efeito, de organizar um determinado espaço de modo a que seja possível perceber a Presença de Jesus no seio daqueles que se reúnem em seu nome. E é tarefa da arquitectura, precisamente, constituir os lugares dentro dos quais vivem e se reúnem os homens 12. Não se afirma a impossibilidade de o encontro com Deus acontecer noutro lugar no seio da natureza, na 9 O primeiro testemunho é de 356, quando o Imperador levou de Éfeso a Constantinopla o corpo de S. Timóteo e o sepultou na Igreja dos Apóstolos. 10 AMBROSIO, Epistola 22:13 (PL 16). 11 Seguimos de perto a reflexão de S. BENEDETTI, A arquitectura sacra hoje: acontecimento e projecto, in Novas Igrejas de vários tempos. Actas do Colóquio sobre Arquitectura e Arte Sacra, Lisboa, Rei dos Livros, 1998, S. BENEDETTI, A arquitectura sacra hoje: acontecimento e projecto,

11 solidão do quarto, ou até mesmo no meio da multidão. Mas o lugar reservado à oração do Povo de Deus é o «onde» criado pela arquitectura 13. É neste lugar que se reúne a comunidade. Dois ou três, diz Jesus. Não se trata aqui do crente isolado, que reza ao Pai no silêncio do seu quarto, como convida também Jesus noutra passagem, contrapondo a oração do discípulo com a dos fariseus que tudo fazem para serem vistos: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, tendo fechado a tua porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o segredo, há-de recompensar-te (Mt 6,6). Em Mt 18,20 encontramo-nos perante o nós do Pai nosso. É a oração litúrgica da comunidade, da Igreja. É aqui que Jesus promete a Sua Presença. Esta é a Presença de Cristo, o Verbo na carne, o Deus feito homem. Ele está presente no lugar da comunidade como Deus feito homem. É a Presença do Deus criador e redentor que o lugar não pode deixar de expressar. É bem mais que uma mera funcionalidade do espaço. É a Presença do próprio Deus a que o modo de conceber o lugar não pode ficar indiferente. É a Presença do fundamento de toda a realidade que veio ao mundo e se faz um de nós, que está no meio daqueles que se reúnem em seu nome. Afirma, a este propósito, o Prof. Arq.º Sandro Benedetti: É esta Presença que mata o templo pagão; é ela que anula essa concepção religiosa de um lugar para simulacro pagão de um deus longínquo; de um lugar especializado no templo separado do homem, que estabelece a distância entre o homem e a divindade própria das religiões pré-cristãs. O Templo cristão é, em vez disso, uma ecclesia: um estar-juntos dos homens entre si e com Cristo-Deus, descido ao mundo e presente no meio deles. É aqui, na celebração eucarística, na Missa, que se torna presente o Transcendente 14. Não nos iremos deter na organização e na expressão do espaço litúrgico cristão no seu interior, nem sequer temos neste momento a oportunidade de olhar para este espaço concreto de Mafra para o ler o todo e cada um dos seus detalhes numa perspectiva cristã. Importa-nos antes considerar a dimensão necessariamente dialógica do Templo cristão com o exterior, com a cidade onde se encontra construído. Outrora, a cidade erguia-se à volta da catedral. Esta estava no centro da sua vida. Espelhava o concreto da sua existência, os seus desejos e sonhos, as suas realizações e conquistas. Era a casa de todos e, por isso, pouco importava se a casa própria era pobre, modesta e claramente perecível, desde que, com todos e com o próprio Deus, se partilhasse a igreja. Esta, como casa comum, trazia consigo um complexo leque de significados. A igreja garantia a segurança de um lar aquela segurança que a habitação própria não era capaz de oferecer (recordemos, por exemplo, o direito de asilo, desde sempre reconhecido às igrejas e só no nosso tempo violado). 13 S. BENEDETTI, A arquitectura sacra hoje: acontecimento e projecto, S. BENEDETTI, A arquitectura sacra hoje: acontecimento e projecto,

12 A igreja era expressão da comunidade que a construiu; da sua riqueza material e espiritual; das profissões das suas gentes; dos grupos humanos e cristãos que não raro rivalizavam entre si para mostrar a prosperidade económica que detinham; das confrarias; das devoções individuais e comunitárias; da narração fundante dessa comunidade do milagre que lhe deu origem e do santo da sua devoção, sob cuja invocação toda a vida era colocada ; e da história dos antepassados, ali sepultados, repousando em paz à volta do altar de Cristo, à espera do dia definitivo e eterno de Deus. A igreja mostrava também, de um modo visível, a presença divina, penhor de bênçãos para a vida de todos e de cada um, bem como para as respectivas actividades assegurava, portanto, a companhia do Deus connosco, daquele Deus que não hesitou em fazer-se um de nós, participante da carne humana, mostrando o esplendor da vida divina na pobreza e transitoriedade da carne no tempo. A igreja era um apelo constante à conversão. Fazendo-se contemplar de todos os lugares em que o quotidiano era vivido, a igreja a todos recordava o Evangelho no qual tinham sido batizados e que constituía o ponto de referência da sua vida, dos seus gestos e palavras, das suas atitudes e pensamentos mais íntimos. A igreja recordava permanentemente a todos a existência de uma ordem que se encontrava acima das prepotências humanas, que as julgaria independentemente da condição social (a servos e a senhores, a súbditos e a imperadores), e que constituía, em última análise, a possibilidade de o pobre erguer a cabeça e perceber que, no final, todos se haveriam de encontrar perante o Deus justo e misericordioso, qualquer que fosse a sua condição. A igreja anunciava ainda a Assembleia dos Santos, a felicidade eterna proclamava que o Céu não era um simples sonho ou desejo humano. A igreja gritava a todos a esperança cristã de um mundo com Deus, onde seriam saciadas todas as sedes de que o ser humano sempre padece ao longo da sua vida. O lugar arquitectónico da catedral como centro e expressão suprema da vida de um povo foi sendo modificado. Certamente, quando foi lançada a primeira pedra da Basílica de Mafra, o lugar da Catedral encontrava-se já distante daquele rico mosaico de significados. Mas não devemos embarcar em reducionismos fáceis de quem, fora desse tempo, impregnado por outros padrões de pensamento e de vida, cola uma simples etiqueta ao mundo de 700. O fausto da construção e da corte joanina que habitam, com mais ou menos devoção (conhece-os apenas Deus!), o Templo de Mafra estavam longe de se resumir à ostentação de uma classe nobiliárquica diante de uma mole de gente oprimida e revoltada. Se hoje o nosso modo de expressar a fé não é o mesmo de há 300 anos, e se (não raras vezes) nos parece difícil entender a cultura do barroco, não podemos eliminar facilmente a possibilidade de uma genuína expressão de fé e do louvor divino devemos antes interrogar-nos e confrontar-nos com ela. Mas Mafra e a sua história não falam apenas do fausto e do esplendor dos homens que a construíram. A Basílica e todo o conjunto arquitectónico que se lhe juntou falam-nos também (e 12

13 de um modo essencial) da glória de Deus. Falam-nos do espaço da vida e celebração da fé. A quantos aqui passam são um convite a entrar e a deixar-se seduzir pelo esplendor da beleza de Deus. O escritor Thomas Stearns Eliot, Nobel da literatura, escreveu em 1934 os coros e alguns diálogos para uma peça intitulada A Rocha, em que se narra a história da construção de uma igreja, e onde são introduzidas algumas experiências no tempo, ligando a vida da Igreja no tempo presente àquela do passado. No Coro III, Eliot faz uma dramática descrição da cidade cronometrada, presa do e no tempo. Que monumento será capaz de erguer essa cidade, no meio do seu frenesim de actividade e erudição? E o vento dirá: Aqui esteve digna gente sem Deus: / o seu único monumento a estrada de asfalto / e milhares de bolas de golfe perdidas. E Eliot desenvolve esta ideia através do coro que se segue: Construímos em vão a menos que o Senhor construa connosco. Podes guardar a Cidade se o Senhor não a guardar contigo? Milhares de polícias dirigindo o trânsito não te podem dizer porque vens ou onde vais; Uma colónia de cobaias ou uma orda de marmotas atarefadas constroem melhor que aqueles que constroem sem o Senhor. Estaremos condenados a passear os nossos pés por entre ruínas perpétuas? Amei a beleza da Vossa Casa, a paz do Vosso santuário, varri o chão e adornei os altares. Onde não existe Templo não conseguem existir casas, mesmo que tenham abrigos e instituições, alojamentos precários enquanto a renda for paga, caves a cederem onde os ratos proliferam, ou instalações sanitárias com portas numeradas, ou uma casa um pouco melhor que a do vizinho; Quando o Estrangeiro disser: Qual é o sentido desta cidade? Viveis apinhados porque vos amais uns aos outros? Qual será a vossa resposta? Vivemos todos juntos para fazer dinheiro uns com os outros? ou Isto é uma comunidade? E o Estrangeiro partirá e regressará ao deserto. Ó minha alma, está preparada para a vinda do Estrangeiro Prepara-te para aquele que sabe como perguntar. A Catedral pode já não estar fisicamente no centro da cidade. A cidade pode ser um amontoado de gente que não sabe porque vive apinhada, ou sequer porque vive gente sem resposta para dar ao Estrangeiro. Mas continua a ser verdade que Onde não existe Templo, não conseguem existir casas, mesmo que existam mansões, abrigos, instituições, paredes e telhados. Em Mafra, faz hoje 299 anos, começou a ser construído um Templo. Fruto de um voto a Deus. Esse Templo marcou inegavelmente a vida dos homens que nele trabalharam e, sobretudo a vida de todos quantos aqui passaram nestes seus quase 300 anos. Marca-nos a todos nós. A sua 13

14 grandiosidade impõe-se-nos. A sua beleza atrai-nos. Convida-nos não só a admirar a arte dos homens como sobretudo a confrontar a nossa vida com Aquele que sabe como perguntar. 14

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