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1 Humanismo 1 - (Unemat ) A leitura do texto de Gil Vicente coloca o leitor em contato com o mundo do Humanismo português. O fragmento abaixo do Auto da barca do inferno mostra o diálogo entre o Diabo e o Fidalgo no porto. Fidalgo: Esta barca onde vai ora, qu assim está apercebida? Diabo: Vai pêra a Ilha perdida, e há de partir logo essora (...). Fidalgo: E passageiros achais pera tal habitação? (...). Diabo: Vejo-vos eu em feição pêra ir ao nosso cais. Fidalgo: Parece-te a ti assi. Diabo: Em que esperas ter guarida? Fidalgo: Que deixo na outra vida quem reze sempre por mi. Diabo: Quem reze sempre por ti? Hi hi hi hi hi hi hi. E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer, Porque rezam lá por ti? Embarca, hou, embarcai, qu haveis d ir à derradeira. Mandai meter a cadeira, qu assi passou vosso pai (...). VICENTE, Gil. 1996, p. 32. Assinale a alternativa correta quanto às atitudes das personagens. a) O Diabo designa o inferno utilizando uma figura de linguagem. b) O Fidalgo garante ao Diabo que será salvo porque o Anjo virá em seu socorro. c) O Diabo aceita o argumento do Fidalgo de que este será salvo pelo Anjo. d) A Ilha perdida é a designação do lugar de salvação das almas arrependidas. e) O Anjo e o Diabo conseguem salvar o Fidalgo do inferno. 2 - (UFPA ) O fragmento de texto, transcrito a seguir, foi retirado da farsa do Velho da Horta, de Gil Vicente. Leia-o com atenção. 1

2 Levando-se em conta que o tema central da farsa de Gil Vicente é o amor de um Velho por uma Moça, é verdadeiro afirmar o seguinte: A) No diálogo com a Moça, o Velho mostra-se tímido e embaraçado. B) As palavras do Velho apaixonado não atraem a Moça, que se revela realista e ajuizada. C) Ao ouvir as propostas desrespeitosas do Velho, a Moça, ofendida, ameaça ir chamar seu noivo. D) Tanto o Velho quanto a Moça, desde o início, chegam à conclusão de que aquele amor era impossível e proibido. E) A Moça deixa-se seduzir, aceita os galanteios do Velho e esquece que tinha vindo ali apenas para comprar hortaliças. 3 - (Unicamp ) Na seguinte cena do Auto da Barca do Inferno, o Corregedor e o Procurador dirigem-se à Barca da Glória, depois de se recusarem a entrar na Barca do Inferno: Corregedor Anjo Ó arrais dos gloriosos, passai-nos neste batel! Ó pragas pera papel, 2

3 pera as almas odiosos! Como vindes preciosos, sendo filhos da ciência! Corregedor Ó! habeatis clemência e passai-nos como vossos! Joane (Parvo) Hou, homens dos breviairos, rapinastis coelhorum et perniz perdiguitorum e mijais nos campanairos! Corregedor Ó! Não nos sejais contrairos, Pois nom temos outra ponte! Joane (Parvo) Beleguinis ubi sunt? Ego latinus macairos. pera: para habeatis: tende homens dos breviairos: homens de leis Rapinastis coelhorum/et perniz perdiguitorum: Recebem coelhos e pernas de perdiz como suborno Beleguinis ubi sunt?: Onde estão os oficiais de justiça? Ego latinus macairos: Eu falo latim macarrônico (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996, p ) a) De que pecado o Parvo acusa o homem de leis (Corregedor)? Este é o único pecado de que ele é acusado na peça? b) Com que propósito o latim é empregado pelo Corregedor? E pelo Parvo? 4 - (UFPA ) Gil Vicente tem a sua inspiração ligada à origem do teatro português. Além de revelar-se um criador de tipos, que atravessaram os séculos com modernidade indiscutível, a sua obra é reconhecida pelo domínio de linguagem acordada com as situações dramáticas. Considerando os textos a seguir, que dizem respeito à peça O Velho da Horta, assinale a opção que se ajusta corretamente ao sentido dessa obra. A) O Velho apaixonado deixa-se levar por um amor imprudente e obcecado. B) A linguagem da Moça é zombeteira, cheia de ironia e combina perfeitamente com a do Velho. C) Por meio do encontro apaixonado entre o velho e a jovem, Gil Vicente capta uma história de amor que comprova a máxima: o amor não tem idade. D) Entra em cena uma alcoviteira que oferece seus préstimos profissionais e desilude o Velho quanto à posse da amada. E) No final, o Velho recebe a notícia de que a jovem aceitaria casar-se, mediante um bom dote. 5- (Unemat ) Autos são modalidades do teatro medieval cujo assunto é basicamente religioso. No Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e no Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, a religião domina os temas. Assinale a alternativa correta. a) A concepção de religião é formal e solene durante a condenação ou salvação das almas. b) A relação Deus-homens se dá pelos rituais complexos. c) O desfecho moralizante está em desacordo com os preceitos católicos. d) A presença da oposição Deus diabo divide os comportamentos humanos entre bem mal. e) A abordagem religiosa exemplifica que, no julgamento final, as almas não têm salvação. 6 - (Unemat ) Sobre a obra literária portuguesa, o Auto da Barca do Inferno, obra satírica de Gil Vicente ( ), é incorreto afirmar. a) A obra dramática voltou-se criticamente para o seu tempo, a época dos descobrimentos em Portugal. b) A época da obra compreende o período de ebulição com a chegada das riquezas provenientes das navegações, fato que colocava Lisboa como a Corte mais rica da Europa. 3

4 c) A obra satiriza o afastamento da população rural do trabalho e dos meios de produção, que se transfere para a Corte, passando a viver no luxo excessivo, deixando o trabalho pesado para os escravos capturados na África e na Ásia. d) A sátira de Gil Vicente pune com humor, o sapateiro ladrão, a esposa adúltera, as alcoviteiras, o escudeiro malandro, o frade enamorado etc. e) O teatro de Gil Vicente não foi popular na forma e no conteúdo. Suas raízes se fundam nos princípios do dogmatismo da Santa Inquisição, daí a obra ter como título Auto da Barca do Inferno. 7 - (Unemat ) A ideia da morte parece ter sido o tema principal da cultura medieval. Acreditava-se que uma vida submetida ao julgamento imediatamente deixava o corpo. Sabe-se que cada uma das personagens do Auto da Barca do Inferno (1517), de Gil Vicente, possui um objeto terreno que não consegue se desvincular. No caso do judeu, do onzeneiro e do frade, esses objetos são respectivamente: a) Bode, bolsão e amante. b) Espada, cofre e breviário. c) Pagem, manto e cruz. d) Livros, códigos e missal. e) Carneiro, baú e oratório. 8 - (Unicamp ) Os trechos seguintes, do Auto da barca do inferno e das Memórias de um sargento de milícias, tratam, de maneira cômica, dos pecados de duas personagens que, cada uma a seu modo, representam uma autoridade. Leia-os com atenção e responda às questões propostas em seguida. Frade Diabo Frade Ah, Corpo de Deus Consagrado! Pela fé de Jesus Cristo, qu eu não posso entender isto! Eu hei-de ser condenado? Um padre tão namorado e tanto dado à virtude! Assi Deus me dê saúde que eu estou maravilhado! Diabo Frade Pois dada está já a sentença! Par Deus! Essa seri ela! Não vai em tal caravela minha senhora Florença. Como? Por ser namorado e folgar com ua mulher se há um frade de se perder, com tanto salmo rezado? Não façamos mais detença. Diabo Ora estás bem aviado! Embarcai e partiremos: Frade Mas estás bem corregido! tomareis um par de remos. Diabo Devoto padre marido, Não ficou isso n avença! haveis de ser cá pingado... (Gil Vicente, Auto da barca do inferno. São Paulo: Ática, 2006, p ) Os leitores estão já curiosos por saber quem é ela, e têm razão; vamos já satisfazê-los. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de quem se diz que não deram o seu quinhão ao vigário: restava-lhe ainda hoje alguma coisa que às vezes lhe recordava o passado: essa alguma coisa era a Maria-Regalada que morava na Prainha. Maria-Regalada fora no seu tempo uma mocetona de truz, como vulgarmente se diz: era de um gênio sobremaneira folgazão, vivia em contínua alegria, ria-se de tudo, e de cada vez que se ria fazia-o por muito tempo e com muito gosto: daí é que vinha o apelido regalada que haviam juntado ao seu nome. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Ática, 2004, Capítulo XLV - Empenhos, p. 142.) a) O que há de comum na caracterização da conduta do Frade, na peça, e do major Vidigal, no romance? b) Que diferença entre as obras faz com que essas personagens tenham destinos distintos? 4

5 9 - (Fuvest ) Considere a seguinte relação de obras: Auto da barca do inferno, Memórias de um sargento de milícias, Dom Casmurro e Capitães da areia. Entre elas, indique as duas que, de modo mais visível, apresentam intenção de doutrinar, ou seja, o propósito de transmitir princípios e diretivas que integram doutrinas determinadas. Divida sua resposta em duas partes: a), para a primeira obra escolhida e b), para a segunda obra escolhida. Justifique sucintamente cada uma de suas escolhas (UFRGS ) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintas afirmações sobre o teatro do português Gil Vicente e do brasileiro Adriado Suassuna. ( ) Nos autos vicentinos, são comuns figuras da Igreja que não cumprem seus votos, a exemplo de padres envolvidos com amantes ou com a venda de indulgências. ( ) No Auto da Compadecida, a santa é apresentada de acordo com a perspectiva popular, já que protege os oprimidos. ( ) A postura moralista de Gil Vicente contraria a visão de mundo estratificada da Idade Média, pois condena os personagens a partir de seus defeitos individuais. ( ) Adriano Suassuna, inspirado nas tradições populares ibéricas, criou heróis que sobrevivem graças ao uso da astúcia que burla a ordem social, como é o caso de João Grilo. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) F F V F. b) F F F V. c) V F V V. d) V V F V. e) V V V F (Unifesp ) Leia o texto de Gil Vicente. DIABO FRADE DIABO FRADE DIABO Essa dama, é ela vossa? Por minha a tenho eu e sempre a tive de meu. Fizeste bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa nesse convento santo? E eles fazem outro tanto! Que cousa tão preciosa! No trecho da peça de Gil Vicente, fica evidente uma A) visão bastante crítica dos hábitos da sociedade da época. Está clara a censura à hipocrisia do religioso, que se aparta daquilo que prega. B) concepção de sociedade decadente, mas que ainda guarda alguns valores essenciais, como é o caso da relação entre o frade e o catolicismo. C) postura de repúdio à imoralidade da mulher que se põe a tentar o frade, que a ridiculariza em função de sua fé católica inabalável. D) visão moralista da sociedade. Para ele, os valores deveriam ser resgatados e a presença do frade é um indicativo de apego à fé cristã. E) crítica ao frade religioso que optou em vida por ter uma mulher, contrariando a fé cristã, o que, como ele afirma, não acontecia com os outros frades do convento (UFES ) Parvo Aguardai, aguardai, houlá! E onde havemos nós de ir ter? Diabo Ao Inferno, entra cá! 5

6 Parvo Ao Inferno, em hora-má?! Hiu! Hiu! Barca do carnudo, pelo vinagre beiçudo, rachador de Alverca, huhá! Sapateiro de Candosa! Entrecosto de carrapato! Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! Tua mulher é tinhosa e há de parir um sapo metido num guardanapo, neto da cagarrinhosa! (...) Anjo Hou da barca! Tu que queres? Parvo Quereis me passar além? Anjo Quem és tu? Parvo Não sou ninguém. Anjo Tu passarás, se quiseres: porque não tens afazeres por malícia não erraste; tua simpleza te baste para gozar dos prazeres. (VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. 24. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990, p ) [...] Ali, sob a algazarra dos macacos e das araras, o capitão alçou a espada em direção ao sol do meio-dia e, beijando a cruzeta do punho na passagem pela boca, inverteu-a de ponta, para fincá-la, em golpe pioneiro, na areia da praia coberta de sargaços. [...] (SANTOS NEVES. Luiz Guilherme. O Capitão do fim. Vitória: IHGES, 2001.) [...] MONSENHOR - Abjure a promessa que fez, reconheça que foi feita ao Demônio, atire fora essa cruz e venha, sozinho, pedir perdão a Deus. Zé (Cai num terrível conflito de consciência) O Senhor acha mesmo que eu devia fazer isso?!... MONSENHOR É sua única maneira de salvar-se. A Igreja católica concede a nós, sacerdotes, o direito de trocar uma promessa por outra. ROSA - (Incitando-o a ceder) Zé... talvez fosse melhor... ZÉ - (Angustiado) Mas Rosa... se eu faço isso, estou falhando à minha promessa... seja Iansã, seja Santa Bárbara... estou faltando... MONSENHOR Com a autoridade de que estou investido, eu o liberto dessa promessa, já disse. Venha fazer outra... [...] MINHA TIA - Êparrei! Maleme pra ele, minha mãe! COCA - Maleme! ZÉ - Não! Não posso fazer isso! Não posso arriscar a vida do meu burro! (GOMES, Dias. O pagador de promessas. 44. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006, p ) Os textos são fragmentos das peças Auto da Barca do Inferno (1517), de Gil Vicente, O pagador de promessas (1960), de Dias Gomes, e do romance O Capitão do fim (2001), de Luiz Guilherme Santos Neves. Com base neles e nas obras citadas, é INCORRETO afirmar que A) O Auto da Barca do Inferno ilustra como o Humanismo representou uma transição de um Portugal marcado por visões medievais e teocêntricas para uma nova realidade inscrita em valores mercantis e antropocêntricos. B) As peças Auto da barca do Inferno e O pagador de promessas apresentam um lapso de tempo de quase 450 anos, porém, dois traços as aproximam: a cultura religiosa e a presença de um personagem ingênuo, o Parvo, para a primeira; o Zé do Burro, para a segunda. C) A ingenuidade do Zé do Burro, personagem de O pagador de promessas, diferentemente da do Parvo, do Auto da Barca do Inferno, é marcada por um sincretismo religioso cristão e africano. D) O fim do personagem Vasco Fernandes Coutinho, de O Capitão do fim, poderia ser perfeitamente comparado ao fim da maioria dos personagens do Auto da Barca do Inferno. E) A cultura religiosa presente em O Capitão do fim faz com que a capitania designada para o personagem Pero Fernandes Sardinha fosse nomeada de Espírito Santo por ter ele desembarcado nela em um domingo de Pentecostes. 6

7 13 - (UFES ) Considerando a definição de utopia apresentada a seguir e a leitura das obras Auto da Barca do Inferno e Campo Geral, é INCORRETO dizer: Utopia s. f. 1 qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas comprometidas com o bem-estar da população; 2 ideia generosa; quimera; fantasia. (HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001, p ) A) A Barca da Glória, presente em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, com as devidas diferenças históricas, pode ser interpretada como o caminho para a utopia, tendo em vista a cultura católico-medieval. B) Campo Geral, ao incorporar o ponto de vista de uma criança, possui um sentido utópico, pela simples razão de que nossa civilização é totalmente orientada pelos interesses de adultos. C) O personagem Diabo, em Auto da Barca do Inferno, além de representar um traço da cultura católico-medieval, pode ser interpretado como o oposto do sentido usual que damos à palavra utopia. D) Mutum, a cidade onde morava Miguilim, é utópica, tendo em vista o primeiro sentido de utopia do verbete citado, sendo, portanto, um país imaginário em que tudo está organizado para o bem-estar da população. E) Personagens como Anjo e Diabo, de Auto da Barca do Inferno, compõem o cenário de uma visão de mundo maniqueísta, dividida em bem e mal (UFES ) Canto Primeiro As armas e os barões assinalados Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram; [...] CAMÕES, L. V. de. Os Lusíadas. São Paulo: Cultrix, 1993, p. 22 Todos falam na Política, muitos compõem livros dela; e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. [...] é de saber que, no ano em que Herodes matou os Inocentes, deu um catarro tão grande no diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro [...] ao qual chamaram os críticos Razão de Estado: e esta Senhora saiu tão presumida, que tratou de casar [...] com um mancebo robusto, e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio [...] de ambos nasceu uma filha, a que chamaram Dona Política [...] Criou-se nas Cortes de grandes Príncipes, embrulhou-os a todos: teve por aios o Maquiavel, Pelágio, Calvino, Lutero, e outros Doutores dessa qualidade, com cuja doutrina se fez tão viciosa, que dela nasceram todas as seitas e heresias, que hoje abrasam o mundo. E eis aqui, quem é a Senhora Dona Política. Arte de Furtar. 2. ed. Introdução de Carlos Burlamáqui Kopke. São Paulo: Melhoramentos, Cap LX, pp Autor anônimo. DIABO Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique! Ó precioso D. Henrique, cá vindes vós? Que coisa é esta? Vem o Fidalgo e, chegando ao barco infernal, diz: FIDALGO Esta barca onde vai ora, assim tão abastecida? 7

8 DIABO FIDALGO Vai para a ilha perdida e há de partir nesta hora. Para lá vai a senhora? DIABO Senhor, a vosso serviço. VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. In: Farsa de Inês Pereira / Auto da Barca do Inferno / Auto da alma. São Paulo: Martin Claret, 2001 Os trechos acima são fragmentos de importantes textos da Literatura Portuguesa. Com base neles e também nas obras citadas, julgue as proposições abaixo, utilizando (V) para as que forem verdadeiras e (F) para as que forem falsas. I Em Os Lusíadas, obra do Classicismo português, o poeta Luís de Camões, tematizando a viagem de Vasco da Gama, enredada com a mitologia greco-latina, canta os feitos e glórias portugueses. II A epopeia Os Lusíadas, como texto oriundo do século das luzes, representa o pensamento acerca da liberdade do europeu de conquistar os povos incultos e não cristãos. III No fragmento do texto Arte de furtar, de 1652, portanto do período barroco, o autor define a política como uma atividade ligada ao Estado, por meio da personificação de ideias retiradas do mundo político. IV Na passagem do Auto da Barca do Inferno, texto representativo do Humanismo português, os personagens Diabo e Fidalgo são exemplos de alegorias, recurso utilizado por Gil Vicente em seu Auto. A sequência CORRETA de respostas, de cima para baixo, é A)F-F-F-F B)F-V-F-F C)V-F-F-F D)V-F-V-V E)V-V-V-V 15 - (UFRGS ) Considere as afirmações abaixo sobre o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. I O Fidalgo e o Sapateiro levam consigo objetos característicos de seu status social em vida. II Apenas o Parvo e os quatro Cavaleiros cruzados serão conduzidos pela Barca da Glória. III Ao contrário do Anjo vicentino, que é persuasivo e alegre, o Diabo vicentino é um personagem sisudo, de poucas e irônicas falas. Quais estão corretas? A) Apenas I B) Apenas III C) Apenas I e II D) Apenas II e III E) I, II e III 16 - (Unemat ) O teatro de Gil Vicente faz parte de uma importante manifestação do Humanismo português do século XVI. Com relação à característica básica da sátira vicentina, assinale a alternativa incorreta. a) Enfoque na nobreza representada pelo fidalgo decadente. b) Retomada da análise do comportamento social do clero e do povo. c) Denúncia do comportamento dos frades que se entregavam a amores proibidos. d) Demonstração das atitudes do clero como uma solução para a decadência moral dos costumes. e) Mostra da desagregação dos costumes a partir da simplicidade da forma de composição (Unemat ) Levando-se em consideração que a peça O Auto da Barca do Inferno é uma sátira típica do teatro vicentino, assinale a alternativa correta. a) As personagens do povo têm mais densidade psicológica. b) A sátira é demolidora, indiscriminada, não tendo preferência por nenhum tipo social em particular. c) O moralismo de Gil Vicente localiza os defeitos e vícios em todas as camadas da sociedade. d) Cada cena da peça apresenta a crítica a uma única classe social. e) O teatro vicentino foi o primeiro a questionar as fronteiras entre o bem e o mal. GABARITO 1-A 8

9 Resolução: O Fidalgo diz ao Diabo que será salvo por deixar no mundo quem reze por sua alma, razão esta que é motivo de riso para o Diabo. Assim como os outros personagens que o seguem, o Fidalgo é condenado ao inferno, lugar referido pelo Diabo por uma figura de linguagem, Ilha Perdida, lugar onde as almas "se perdem", ou seja, nunca são salvas. 2-B Resolução: O Velho mostra-se apaixonado pela Moça e não vê seu amor como impossível ou proibido; ela, por sua vez, não se atrai pelos galanteios dele, mostrando-se realista e ajuizada, no sentido de alertar o Velho de que ele está cego, que não enxerga a diferença de idade entre eles, que torna este amor "contra natura" (isto é, contra a natureza). 3- a) O Corregedor é acusado de corrupção na passagem em que o Parvo se refere ao fato de ele receber subornos, presentes, propinas, agrados, pequenos mimos tais como coelhos e pernas de perdizes. Além disso, o Corregedor é acusado, na peça, de ser desrespeitoso (mijar nos campanários), injusto com relação aos desfavorecidos, preguiçoso e adúltero, pecados pelos quais é condenado a seguir com o Diabo na Barca do Inferno. b) Por se tratar de língua da tradição dos bacharéis, o latim é empregado pelo Corregedor como símbolo de distinção e prestígio, tal como a vara e os processos que ele carrega nas mãos. Na verdade, no contexto em que os termos latinos são empregados indistintamente pelo Corregedor como sinal de afetação, arrogância, superioridade e status social, pode-se observar uma certa ironia por parte de Gil Vicente, a qual se explicitará na fala do Parvo. O Parvo se expressa em latim para ridicularizar e ironizar a postura dos magistrados. Chega a admitir essa intenção, ao afirmar que seu latim é macarrônico. 4-A Resolução: Nessa peça, o Velho apaixona-se por uma Moça que vai comprar temperos em sua horta. O Velho utiliza uma linguagem galante, tentando conquistá-la, ao que ela responde de forma zombeteira e irônica. Obcecado, o Velho se deixa enganar por uma Alcoviteira, que o ilude dizendo que a Moça correspondia ao seu amor, a fim de arrancar todo o seu dinheiro para comprar presentes para a suposta futura noiva. No final, descobre-se que a Moça está se casando com outro homem. A moral da peça recai na insensatez do Velho, que não percebera que o amor de um velho por uma jovem é "contra a natura", ou seja, contra a ordem natural das coisas. 5-D Resolução: Em O auto da compadecida, de Ariano Suassuna, a concepção da religião não é solene, e sim popular, inclusive na cena do julgamento (condenação ou salvação das almas). A relação entre Deus e os homens, em ambas as peças, se dá diretamente, e não por rituais complexos (já que a divindidade se personifica no Anjo, em Jesus e Maria (a Compadecida). O desfecho moralizante, presente em ambas as peças, está de acordo com os preceitos católicos, e a abordagem religiosa exemplifica que, no julgamento final, as almas podem ter salvação (pois o Parvo, os Cavaleiros de Cristo e João Grilo, entre outros, são salvos da condenação eterna). 6 - E Resolução: O teatro de Gil Vicente foi popular na forma e no conteúdo, e o título Auto da Barca do Inferno não foi baseado nos princípios da Inquisição. 7-A Resolução: O judeu entra em cena carregando um bode, considerado na Idade Média símbolo do diabo. O onzeneiro (agiota) entra em cena com uma grande bolsa, na qual carregava o dinheiro arrecadado com juros injustos. O frade, por sua vez, entra em cena com sua amante, dançando minuetos, o que o caracteriza como um homem mundano, preocupado com os prazeres do mundo em vez da salvação das almas. 9

10 8- Tanto o Frade como o major são apresentados como pessoas cuja conduta não condiz com a posição que ocupam, de guardiães da moralidade e dos costumes. Em ambas as obras essa conduta irregular é apresentada de maneira irônica, acentuando seu aspecto cômico, caricatural das personagens. Apesar do humor e da ironia, o Auto da barca do inferno se mantém fiel à sua moralidade medieval, condenando o frade ao inferno juntamente com as outras personagens acusadas de conduta reprovável. No romance de Manuel Antônio de Almeida, tudo é perdoado e a punição, se há, é branda e não cria situações irremediáveis. Isso também está de acordo com seu caráter de romance de costumes, e cujo enredo não apresenta, como o Auto, um desfecho moralizador, de advertência, mas sim um desfecho possível, de constatação. 9- a) Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, tem claramente a intenção de doutrinar, já que se trata de uma peça pautada num conteúdo religioso-moralizante: o mito do juízo final, que deve levar os espectadores a pensar em suas ações presentes que serão julgadas após a morte. Dessa forma, a peça transmite a doutrina cristã, condenando os pecados e enaltecendo as virtudes de seus personagens-tipo. b) O romance Capitães da Areia também tem intenção doutrinária, embora sua doutrina não seja religiosa, e sim sociológica. Por meio da descrição do sofrimento dos meninos de rua, a narrativa pretende transmitir os princípios do marxismo, segundo o qual a luta de classes é fundamental às transformações sociais. Dessa forma, os conflitos dos meninos de rua com a polícia ou com as classes altas é enaltecido, apresentando aqueles como heróis D Resolução: A postura moralista de Gil Vicente não contraria a visão de mundo estratificada da Idade Média, e sim a reforça. O autor condena os personagens por seus defeitos individuais, mantendo a visão de que as intituições medievais (a Igreja, a Nobreza, o Direito) não são, em si, um problema. Dessa forma, não é a sociedade que deve mudar e sim os indivíduos que não seguem suas regras e preceitos morais. 11-A Resolução: A presença do Frade, nessa cena, não é indicativo de apego à fé cristã, e sim motivo para uma visão crítica dos religiosos, que pregam a castidade, mas não a seguem. Assim, o Frade não é exemplo da manutenção dos valores católicos (essenciais na visão vicentina) ou de fé inabalável, mas, conforme declara, não é o único, pois os outros frades do convento também tinham mulheres. Não se observa, neste trecho específico, repúdio à imoralidade da mulher, que não é ridicularizada pelo Frade. 12-E Resolução: A cultura religiosa de O capitão do fim se manifesta desde o início, quando o personagem principal, Vasco Coutinho, morre e vai em direção ao juízo final. Além disso, a capitania do Espírito Santo não foi batizada pelo bispo Sardinha, e sim por D. João III, rei de Portugal. 13-D Resolução: O Mutum, em "Campo Geral", não é uma cidade, e sim um vale onde vive Miguilim e sua família. Além disso, não se pode considerá-lo uma utopia, pois não há uma organização social para o bem estar da população na novela, não há menção de qualquer instituição além da família e ela parece sofrer algumas privações: os meninos dormem no mesmo catre; Dito morre de tétano, provavelmente por falta de vacina ou de diagnóstico e tratamento médicos. 14-D Resolução: Os Lusíadas, de Luís de Camões, não é oriundo do século das luzes, isto é, do século XVIII, e sim do século XVI. 15-C Resolução: Estão corretas as duas primeiras afirmações. Quanto à primeira, de fato, os personagens vicentinos carregam consigo objetos (e mesmo pessoas) característicos de seu papel social. Assim, por exemplo, o Fidalgo, 10

11 representando a nobreza, leva consigo um pajem, uma vestimenta exagerada e uma cadeira de espaldar, característicos de seu status social, ao passo que o Sapateiro leva as formas de fazer sapatos. Na Barca da Glória embarcam o Parvo, que pouca consciência tem, e os guerreiros da causa de Cristo. 16-D Resolução: O teatro vicentino faz uma crítica às atitudes imorais e decadentes do clero, e em nenhum momento apresenta tais atitudes como uma solução para a decadência moral dos costumes. 17-C Resolução: O teatro vicentino não foi o primeiro a questionar as fronteiras entre o bem e o mal. No caso de Auto da Barca do Inferno, nenhum dos personagens tem densidade psicológica, pois são todos tipos sociais. A sátira não é indiscriminada, uma vez que certos tipos sociais não são criticados, como os Cavaleiros de Cristo. Há crítica a mais de uma classe social em determinadas cenas. 11

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