Só consegui chegar agora e já são três e meia da tarde. Acho que essa

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1 CAPÍTULO UM LORRAINE Só consegui chegar agora e já são três e meia da tarde. Acho que essa manhã a igreja demorou mais que o normal, e eu não vim direto para casa, como costumo fazer. Althea estava decidida a me levar até a casa dela, porque queria que eu comesse umas couves que ela tinha preparado, junto com o seu pão de milho e os seus bolinhos, por isso agora eu estou a ponto de estourar. Ela disse que não iria tanto à igreja se não fosse por mim, faz a gente perder muito tempo no domingo. Eu disse a ela: Não jogue o destino da sua alma em cima de mim, menina. Você é muito cabeça-dura para mudar, e eu sou muito esperta para tentar fazer você mudar. Althea ganhava a vida fazendo bolos decorados na cozinha de sua casa, até que isso quase acabou com ela, era muito trabalho. Ela fazia bolos para aniversários, comemorações, aposentadorias e, é claro, para casamentos; até chegou a fazer alguns para funerais, mas acho que esses não tinham muita decoração. Agora ela trabalha em uma seguradora, quase que só fazendo seguros de casas e carros. Às vezes me pega para a gente ir à igreja domingo de manhã, acho que ela gosta de ter companhia, e não tem a menor chance de o marido dela ir junto se não tiver comida na história. E vou te falar uma coisa, essa aí é uma mulher enérgica. Gosta de tudo depressa, o tempo todo. Esta manhã mal tivemos tempo para tomar um café, de tão rápido que ela chegou na minha casa. Eu preparei as xícaras e coloquei quatro colheronas de açúcar no café dela, antes que ela me perguntasse se eu estava querendo que ela fizesse dieta. Bem disse Althea erguendo as sobrancelhas e segurando a xícara que eu lhe estendia. Lorraine, eu tive uma revelação.

2 10 Os Dez Mandamentos? perguntei. Porque não tenho tanta certeza de que você entendeu eles na primeira vez que ouviu. Ela me ignorou. Eu tive um sonho esta noite. Acordei toda suada, e me lembro de cada parte dele. Tinha um círculo de velas, e eu estava sentada no meio delas. Isso é vodu, Althea? Porque se é eu... Você gosta de interromper as pessoas, né? Tá, tá, vou ficar quieta. Tomei um gole grande demais de café e queimei a língua. Althea olhou em volta, como se estivesse para contar um segredo, embora não houvesse ninguém ali a não ser nós duas, sentadas na minha cozinha, tomando café e nos preparando para chegar atrasadas na igreja. Ela empurrou a xícara para o lado, de modo a poder se inclinar sobre a mesa. Quando eu tentei passar por cima das velas, elas voaram como se fossem cometas, ou coisa parecida, e desapareceram, assim: puf. Ela abaixou a voz e sussurrou: Então eu vi um homem com a camisa aberta e músculos no peito e no estômago. Muito bonito, também. Estava em pé na frente de uma lagoa, não, um lago, tão grande quanto o lago Jordan, e ele estava acenando para mim, para eu atravessar o lago com ele, só que não tinha nenhum barco, nem nenhum jeito de atravessar. Então ele deu dois passos para trás, com as bainhas das calças enroladas e a água batendo nos tornozelos. Continuou a acenar para eu ir até lá, e pensei: nem te conheço, você pode estar tentando me afogar. Eu me levantei e passei uma água na minha xícara vazia, e a deixei na pia para lavar mais tarde. Você está me ouvindo? Althea falou com irritação. Eu disse que ia ficar quieta, é isso que estou fazendo. Bom, Lorraine, eu acordei e então entendi. Pode ter sido Moisés no meu sonho. Você acha que era Moisés? Hum. Mesmo sem perceber, eu devo ter emitido algum som. Isso é tudo o que você tem a dizer? Querida, qual foi exatamente a revelação?

3 Está na hora de eu passar para o outro lado, Lorraine. É só isso o que eu vou dizer. Você está morrendo? Althea balançou a cabeça e pegou o casaco. Eu não sei por que eu insisto em te contar as coisas. Você não tem a mesma percepção que eu tenho. Vamos para o carro. Eu e Althea somos amigas há muito tempo. Ela me ajudou a criar minha filha, como mais ninguém fez, além da mamãe. É por isso que ela acha que pode agir como se fosse uma segunda mãe de April. Algumas mães não gostam que outras pessoas digam aos filhos delas o que fazer, mas eu gosto. Nunca fui de ficar ditando regras. Fico agradecida pela ajuda. Mas receber ajuda dos outros tem um problema, você tem que aceitar o que vier, qualquer tipo de ajuda, você não pode escolher o que gosta e o que não gosta. Ajuda é um negócio que você aceita ou não, e se você não pode aceitar do jeito que vem, é melhor deixar para lá, porque a ajuda vai ser mais um aborrecimento do que uma vantagem. Ou você vai acabar perdendo uma amizade. Quando April era pequena, nós ficávamos na casa da mamãe. Ela não tinha muitas regras na casa dela, com exceção de uma, que eu também adotei. Acontecesse o que acontecesse, nós tínhamos de tomar café da manhã juntas todos os dias, a não ser que alguém estivesse doente, e tão mal que não pudesse nem levantar da cama. Mamãe preparava a comida para mim e para April enquanto eu me arrumava para o trabalho. Certa manhã, eu me lembro porque tinha acabado de começar em um novo emprego, ouvi quando ela chamou April, que ainda se encontrava no quarto, pela terceira vez. O café estava na mesa e, conhecendo a minha filha, eu sabia que ela provavelmente estava lendo alguma coisa, ainda na cama. Senta, querida, e come o seu mingau disse mamãe, quando viu April encostada à porta da cozinha, esfregando os olhos. Era uma manhã fria, principalmente para um outubro no leste da Carolina do Norte. April estava usando um pijama de flanela grande demais para ela, com certeza doado por alguém, não me lembro quem. Ainda vejo as pernas do pijama enroladas em volta dos pés dela, parecia que ela ia tropeçar e cair, mas ela gostava daquele jeito, gostava de deslizar no assoalho vestida com aquele pijama velho; podia patinar alguns metros, se tomasse impulso e encontrasse um lugar bem liso. 11

4 12 Você quer alguma coisa para beber? perguntou mamãe, despejando suco de laranja em um copo de geleia decorado com personagens de desenhos, o copo que April fazia questão de usar. Mamãe gostava de preparar o café da manhã; de um jeito ou de outro, ela era sempre a primeira a se levantar, mesmo quando eu tinha que sair muito cedo para o trabalho. Era como se ela competisse com todo mundo para ver quem acordava mais cedo, embora não admitisse isso; ela parecia correr para uma linha de chegada invisível. Você jamais a alcançaria, nem que fosse uma lebre. April só ficou ali parada, olhando para a mesa. Estava esperando ver manteiga e geleia, mas não havia nem mesmo um prato. Hoje é sábado! disse ela fazendo beicinho. Por que a gente não vai comer panquecas? Eu tinha iniciado esse hábito há muito tempo. Era eu quem preparava o café aos sábados, já que April não tinha aula. Ela adorava panquecas. Às vezes eu fazia panquecas simples, mas em geral colocava alguma coisinha a mais, como bananas maduras, nozes-pecã colhidas no quintal da Althea, ou qualquer coisa que estivesse à mão. Se não estivesse com muita pressa, eu preparava uma calda no fogão. April dizia que era como ela achava que os ricos comiam panquecas, com calda quente. Entrei voando na cozinha, preocupada com a hora, e a vi sentada na frente da tigela, teimosa como uma mula. Amanhã eu faço panquecas, querida, antes de a gente ir para a igreja eu disse. Hoje não vai dar tempo. April percebeu que havia alguma coisa diferente, porque me viu usando um vestido verde-claro em vez do uniforme, e também a bonita bolsa que eu levava nas mãos. Acho que também viu meus olhos inchados, eu estivera chorando pouco antes. O que aconteceu? perguntou ela. Você não vai trabalhar? Tenho que ir a um funeral primeiro. Agora vai lá e come para a Vovó poder terminar de lavar a louça. Quem morreu no funeral? Uma pessoa de quem eu cuidava, querida disse eu. O sr. Whitty Holcomb. Era um homem velho, muito velho.

5 Todo mundo na sua casa de idosos vai morrer? Filhinha, todo mundo em todo lugar vai morrer algum dia, mas você não precisa ficar pensando nisso agora. Mamãe não gostava muito desse tipo de conversa, e viu que sua neta não tinha nem pegado a colher. Então se levantou e abriu um armário. Olhe aqui, April disse ela, vou botar um pouco de açúcar mascavo no mingau para você. Mas minha filha não queria se desviar do assunto: Mamãe disse ela com uma mudança na voz, você é enfermeira, não é? A irmã da Etonia chegou perto de mim no recreio e disse que você não era enfermeira de verdade, e perguntou por que eu não parava de fingir que você era. Eu disse a ela que você era enfermeira, sim, e para calar a boca. Mamãe colocou uma quantidade tão grande de açúcar mascavo na tigela de April que o mingau ficou parecendo um lamaçal. Você está fazendo muitas perguntas hoje, menina disse, ainda tirando açúcar com a colher. É melhor você comer e deixar sua mãe em paz. Lorraine, fala para ela comer. Eu sou uma EPL, April disse eu. Enfermeira Prática Licenciada. É isso o que as letras querem dizer. Você pode dizer isso à Etonia. Então por que ela disse aquilo? perguntou April. Existem enfermeiras de outros tipos, que estudaram mais do que eu. Eu fiz o que eu pude, e aqui estamos nós. Agora eu tenho que ir, para não chegar atrasada. Bem, eu vou ser uma enfermeira de verdade, e posso ser médica também April empinou o queixo. Não tem tantas médicas mulheres e negras, menina eu disse, tentando vestir meu longo casaco de lã cinzento, surrado, mas era o único que eu tinha para usar com vestidos. Mas eu posso ser uma, se quiser! berrou ela. Na hora, achei que ela só estava tentando chamar minha atenção, mas posso garantir que pensei mil vezes nessa conversa, e ela aconteceu há quase vinte anos. Palavras desse tipo ficam sempre com a gente. Pensamos em nossos filhos e em como queremos que tudo corra bem para eles, da melhor maneira possível. Então nos perguntamos se uma 13

6 14 só palavra nossa pode fazer com que eles se sintam encorajados ou completamente desanimados. Deus sabe que tentei encorajar aquela menina, apesar de tudo. Fiz o melhor que pude. Althea provavelmente já chegou em casa, se não tiver recebido uma multa por excesso de velocidade. Odeio dizer isso, mas estou feliz por ela não ter ficado aqui muito tempo depois de ter me trazido. Vou tirar essas roupas de igreja e descansar por uns minutos. Preciso fazer uma limpeza na casa antes de voltar ao trabalho amanhã, mas talvez esteja cansada demais para fazer muita coisa. Na maioria dos dias, eu pego o turno da manhã. Isso é bom, eu gosto das manhãs, escolho esse turno sempre que posso. Gosto de me levantar no escuro e estar de olhos abertos para ver o sol nascer. Eu começo o dia despejando urina de um recipiente para outro. Não vou dizer que não me incomodo com isso. Às vezes o conteúdo de uma comadre é amarelo vivo, e fede, outras vezes é claro como água, principalmente se alguém não pode mais comer comida sólida, ou simplesmente não come nada. Mas esse é o meu trabalho. Para alguns dos internados, eu agora sou o único rosto conhecido no mundo. E não aguento ouvir quando eles gritam agora estou pronto para ir para casa, Lorraine, quando tudo o que faço é tirar um saco plástico de lixo ou trocar roupas de cama sujas, sem esperar pela ajuda de nenhuma enfermeira, pois elas são poucas. Esse é o meu dia, eu faço o que tem que ser feito. Acho que algumas pessoas chegam a um ponto em que não ouvem nada disso, o som dessas vozes, mas eu não sou assim, não posso evitar. Ouço esse som a todo momento.

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