Astronomia à luz do dia



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Transcrição:

Astronomia à luz do dia (Expresso: 16-05-1998) O Sol revela-nos as suas manchas e a Lua mostra-nos as suas crateras. Vénus e Júpiter estão ao nosso alcance. QUEM nunca observou o Sol através de um telescópio ou de uma imagem projectada não pode deixar de ficar surpreendido com o espectáculo que a nossa estrela nos reserva. Particularmente agora, que as manchas solares começam a aparecer, o Sol é uma fonte inesgotável de surpresas. Não se sabe quem descobriu as manchas solares, mas sabe-se que já no ano 28 a.c. os astrónomos chineses tinham observado irregularidades na superfície do Sol. Kepler (1571 1630) e outros astrónomos ocidentais suspeitavam que tais irregularidades fossem devidas ao trânsito de Mercúrio ou de Vénus em frente da estrela. Mas ninguém dispunha na altura de meios para observações mais precisas. Foi a invenção do telescópio que permitiu a Galileu (1564 1642) o estudo do Sol e das manchas solares. «Observações repetidas», escreveu Galileu, «convenceram-me finalmente de que essas manchas são substâncias na superfície do corpo solar, onde são continuamente produzidas e onde também se dissolvem, algumas em períodos curtos, outras em períodos longos. E são arrastadas por rotação do Sol, que completa um período em cerca de um mês lunar». Estas observações de Galileu, como quase todas as suas outras, foram muito polémicas. Se o Sol continha manchas não era então o corpo esférico perfeito que a cosmologia da época pressupunha. As imperfeições e irregularidades não existiam apenas na Terra. Os céus, afinal, eram tão naturais como o nosso planeta. Um livro que explica técnicas de observação do Sol ao alcance de todos

O estudo estatístico das manchas solares foi iniciado em 1826 por um astrónomo amador, o farmacêutico alemão Heinrich Schwabe (1789 1875). Ao fim de alguns anos de observações, Schwabe notou que as manchas solares apareciam e desapareciam irregularmente, mas que havia períodos de actividade mais intensa e períodos de relativa calmaria. A contagem do número de manchas solares é difícil, pois estas têm um feitio irregular e é difícil distinguir um grupo de pequenas manchas de uma mancha grande. A evolução de manchas solares fotografada por João Porto, em Ponta Delgada. 25/04/98 Foi o suíço Rudolf Wolf (1816 93) que criou um sistema de contagem ponderada. Foram então construídas séries dos «números de Wolf» e essas séries têm sido continuamente estudadas pelos 26/04/98 métodos estatísticos mais sofisticados. Os «números de Wolf» constituem um osso duro de roer e são utilizados para pôr à prova os métodos de análise de séries temporais. Foi descoberto, por exemplo, que o período solar é um pouco superior a 11 anos. Foi também descoberto que esta série tem um comportamento não linear, pois a subida processa-se rapidamente enquanto que o abrandamento da actividade é mais lento e suave. Estamos agora no início de um dos momentos de rápido crescimento da actividade solar. Apontando um telescópio para o Sol é quase certo que se observam várias manchas solares.

Mas apontar um telescópio para o Sol requer cuidados muito rigorosos. A luz do Sol queima. Concentrada por um telescópio ou por binóculos, pode cegar quase instantaneamente! 27/04/98 28/04/98 Para utilizar directamente os instrumentos de observação é necessário utilizar filtros apropriados, tais como os de plástico aluminado «mylar» ou os de vidro escurecido. Estes filtros terão de ser colocados na objectiva e nunca na ocular. E terão de ser profissionalmente fabricados, com uma filtragem de luz adequada ao instrumento de observação, pois de outra forma corre-se o risco de se ficar cego. Sem filtros adequados a observação é arriscada e é perigoso improvisar. Mas há outro processo de utilizar um telescópio ou binóculos para observar o Sol. É o processo de projecção, que é completamente seguro e que tem a vantagem de 30/04/98 02/05/98 permitir uma observação colectiva. Para projectar uma imagem do Sol basta utilizar uma cartolina com um pequeno furo no centro e observar a imagem que a luz, passando por esse orifício, projecta sobre uma superfície branca, por exemplo outra cartolina. Mas essa imagem é muito grosseira e será difícil observar pormenores. Para obter uma imagem mais focada e nítida pode utilizar-se um telescópio ou binóculos. O truque está em afastar a cartolina branca da ocular e ajustar o instrumento de forma a obter uma imagem focada do Sol.

Outro segredo consiste em colocar a cartolina branca na sombra, por exemplo com um cartão que tape toda a área à sua volta, deixando passar apenas a luz projectada. 03/05/98 04/05/98 Desta forma é possível obter um maior contraste. Outro cuidado a ter é não permitir uma exposição demasiado prolongada, de forma a que o telescópio não aqueça demasiado. A imagem do Sol, uma vez bem focada, permite revelar alguns pormenores da superfície da estrela. O ciclo solar está agora numa fase crescente. É bastante provável que se observem algumas manchas escuras, as célebres manchas solares. Dia após dia, o espectáculo muda, as manchas desenvolvem-se, o Sol gira, as manchas deslocam-se. ~ Outro espectáculo celeste observável à luz do dia é, obviamente, o da Lua. 06/05/98 05/05/98 Na semana que entra, a Lua começa a estar visível durante o dia. Vulgares binóculos são o suficiente para revelar a superfície irregular do nosso satélite. As crateras aparecem, as superfícies planas mais escuras, os chamados mares ou «maria», contrastam com as partes rugosas, as montanhas destacam-se pelas sombras que projectam. Mas o mais surpreendente, para quem nunca observou a Lua com binóculos, é que se desfaz a imagem que todos temos da Lua como uma superfície plana. Com binóculos, a Lua revela-se como uma esfera em relevo. É difícil esquecer a primeira vez que assim se observa o nosso satélite.

Mais espantoso ainda, e desconhecido de muita gente, é que o planeta Vénus é tão luminoso que também pode ser observado à luz do dia. O importante é saber localizá-lo e saber focar os nossos olhos. Com efeito, o pequeno ponto de luz com que esse planeta se revela é muito difícil de encontrar na imensidade do céu claro. O importante é saber para onde olhar. Dia 22, sexta-feira, a Lua ajuda-nos a localizar Vénus. Se a meio da tarde se olhar para cima do horizonte oeste e se os céus estiverem limpos, será fácil observar a Lua, já então passada de quarto minguante e a aproximar-se do horizonte. Olhando para cima do satélite, a uns seis graus de distância angular, o equivalente a 12 diâmetros de Lua Cheia, encontra-se Vénus, o mais brilhante dos planetas. Para o procurar será útil utilizar uns binóculos, com cuidado para não os apontar para o Sol, que não se encontra longe. O mais seguro será procurar um lugar à sombra, mas um local de onde a Lua e o céu acima dela sejam visíveis. Uma vez localizado o planeta com exactidão, torna-se possível observá-lo a olho nu. O segredo agora está em olhar primeiro para a Lua, para esta ajudar a focar os olhos no infinito, o que é difícil de conseguir apenas contra o céu azul, e voltar depois os olhos para o ponto onde Vénus foi localizado. Surpresa das surpresas: Vénus é visível à luz do dia! Texto de U O CRATO