1 Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Exatas e da Natureza Departamento de Geociências Laboratório de Geografia Aplicada Paisagem Costeira e seus matizes Prof. Paulo Roberto de Oliveira Rosa Pesquisador no Laboratório de Geografia Aplicada LGA-UFPB A leitura e interpretação de uma paisagem requerem a determinação referencial entre duas situações complexas no contexto mental, uma de caráter subjetivo e outra de caráter objetivo. A primeira expressa aquilo que vê diante dos olhos e dos sentidos; já o contexto objetivo ampara-se em elementos teóricos como referência, em que o conceito adquire um caráter de categoria através da qual se pode quantificar e qualificar uma determinada paisagem. Neste estudo utilizou-se a Teoria dos Sistemas, que além de referência objetiva permite um processo dedutivo, imputando maior segurança naquilo que se procurou a compreender, que é a paisagem costeira. A paisagem costeira não é uma paisagem estática, mesmo no que tange ao tempo humano de uma geração. Em se tratando de litoral de predominância sedimentar, um indivíduo humano é capaz de observar, no tempo de uma vida, como um determinado litoral é mutável, não ocorrendo a mesma situação para os litorais de Costões, porque o relevo tem contato com o mar e o modelado é montanhoso e de litologia cristalina, como é o caso do litoral no Sudeste e parte do Sul do país. Mas o litoral paraibano não apresenta essa mesma situação, pois o relevo é bem definido por planícies e por rupturas dos planaltos, formando assim as falésias. O trabalho de observação do litoral pessoense, mais especificamente o trecho entre a foz do rio Gramame e a foz do rio Paraíba se deu em resposta a uma consulta feita pelo Ministério Público, que apresentou sua preocupação em relação à queda das barreiras na Ponta do Cabo Branco. Ensejar uma resposta segura ao Ministério Público, requer uma leitura objetiva da paisagem, exigindo uma compreensão mais próxima daquilo que se entende como realidade dentro de um aspecto dinâmico. Para contextualizar a paisagem costeira pessoense procurou-se, em um primeiro momento, definir as principais características geográficas do lugar e, em outro, regionalizar o ambiente, além de destacar os principais elementos
2 geográficos presentes no litoral paraibano que são: a) relevo: planícies costeiras e planaltos sedimentares; b) corpo hidrográfico: rios de baixíssimo gradiente de declividade nas proximidades da foz apresentando pouca energia erosiva; c) clima: apresenta ventos bem definido em seus atributos velocidade e direção; d) vegetação: com estatura variada - arbórea, arbustiva e herbácea; e e) antropismo: encontra-se acentuado pela presença sistemática de intervenções por descobrimento da cobertura vegetal, por compactação e impermeabilização do solo. A paisagem costeira apresenta uma dinâmica complexa, cuja origem é resultante de uma relação de forças do continente em contraposição às oceânicas, sendo o inverso também verdadeiro. Quando as forças do continente se sobrepõem às forças oceânicas há a progradação continental; neste caso as planícies costeiras avançam pelas imposições dos cordões litorâneos. Este fato é bem nítido na área do Bessa (Ver Fig. 1), onde esse material vai estabelecendo a progradação continental, e segundo a literatura especializada, mais de 90% são provenientes do continente, e menos de 10% são do fundo do mar, considerando ainda neste último o desgaste das falésias. Apesar do litoral paraibano apresentar muitas falésias ativas, estas não implicam no fornecimento efetivo do contingente de material areno-argiloso para suprimento das praias estabelecidas nas planícies costeiras. E apesar da Ponta do Cabo Branco apresentar uma acumulação significativa de material arenoso, neste caso não resta dúvida, o material é oriundo dos blocos abatidos da falésia. O abatimento das falésias não significa necessariamente que sejam oriundas do avanço do mar, mas sim de outras variáveis que compõem o litoral. O material sedimentar que compõe a planície, em sua maioria, vem do interior do continente, trazido pelas torrentes e enxurradas para os rios e destes para o mar. No mar, o movimento deste material se dá pelas ondas, marés e principalmente pela corrente de deriva; no caso do litoral pessoense esta corrente tem direção norte. O desgaste natural do continente é fruto principalmente da ação climática, pois em medições experimentais verificou-se que, em uma área de 1,10 m2 cuja declividade é inferior a 10º, e cuja de vegetação, recebe uma chuva de 40mm, há movimento de 8kg de material areno-argiloso. Para ampliar as evidências de perda de material das superfícies continentais para os rios, detecta-se, a partir da leitura do relevo nos baixos planaltos sedimentares, que os vales por onde passam os cursos d água são íngremes, e em muitos
3 lugares são verdadeiros penhascos cuja declividade supera os 45º de inclinação. Esses vales bem encaixados no relevo denotam que a atividade de perda de material se dá tanto pela ação erosiva de forma vertical quanto pela horizontal, carreando o material para os níveis de menor energia. Neste caso de menor energia a altitude é zero em relação ao nível do mar, e a foz do rio Paraíba apresenta de forma convincente esse transporte de sedimentos do continente para o mar (Ver Fig. 2). Salienta-se aqui que o curso desse rio tem sua origem no Planalto Cristalino da Borborema, a aproximadamente 670m de altitude e 350km de percurso, o que aparenta uma elevada potencialidade. Mas antes de atingir os Baixos Planaltos Costeiros, sua energia potencial é diminuída pela presença da Barragem de Acauã a 100m de altitude, no entanto o curso deste rio quando atinge os Baixos Planaltos Costeiros adquire uma meandrificação, denotando significativamente diminuição de sua força potencial. O rio Gramame ao Sul da cidade de João Pessoa não tem as mesmas referências do rio Paraíba em termos de extensão e altitude, logo menor potencialidade, pois o percurso entre nascente e foz é de aproximadamente 37km, com um gradiente de declividade relativamente baixo, pois sua nascente está na altitude aproximada de 190m próxima à cidade de Pedras de Fogo. O rio Gramame possui dois grandes tributários, o Mamuaba e o Mumbaba, no entanto a quebra da energia potencial do rio Gramame se dá onde foi realizada a construção da Barragem Gramame-Mamuaba (Ver Fig. 3). Essa barragem passa a ser o principal elemento geográfico e a atenção se volta para a questão do movimento de retrogradação (diminuição) da planície costeira imediatamente ao norte da foz do rio. Além da água doce para o mar, o rio Gramame contribui com o suprimento de material areno-argiloso para construção das planícies costeiras, ou seja, para as praias imediatamente ao norte da foz desse rio. A carga de tributos sedimentares lançada ao ma,r neste recorte litorâneo, é ampliada pelos rios Cuiá e Cabelo. No entanto, após o barramento do rio Gramame e a impermeabilização intensa na bacia do rio Cuiá e na bacia do rio Cabelo, essas intervenções determinaram a diminuição efetiva dos suprimentos de material areno-argiloso desses rios para o mar. O caso mais acentuado e que se acompanha mais sistematicamente é o da sedimentação que diminuiu muito entre as praias da Penha e do Seixas, acarretando de forma aparente um avanço do mar, o que não é real, pois a ausência dos suprimentos permite a ação livre da erosão sobre o litoral denotado, neste
4 caso, pela degradação efetiva das praias. Este fato está nítido ao longo das praias, pois as barracas aí instaladas estão sendo agredidas pela ação marinha (Ver Figs. 4, 5 e 6). A dinâmica costeira é intensa, e com a contribuição sedimentar efetiva dos rios chega a construir áreas bem amplas de planícies como é o caso da restinga de Cabedelo, sendo que as evidências visuais denotam que esta restinga foi resultado dos trabalhos implementados pelos rios, principalmente pelos rios Jaguaribe e Paraíba. No entanto, a direção e o sentido das ondas que acompanham a determinação dada pelos ventos, a corrente de deriva e a pequena extensão da plataforma continental, passam a ser variáveis que inevitavelmente determinarão o futuro do lugar, crescendo ou diminuindo a planície, como é o caso do intervalo entre a praia do Seixas e da Penha que está nitidamente retrogradando. Progradação da Planície a partir da deposição de sedimentos Foto 1 Progradação da planície costeira, 1970
5 Foto 2 Foz estuarina do Rio Paraíba em Cabedelo. Conrad R Rosa, 2000. Foto 3 - Barragens Gramame Mamuaba Imagem de satélite SPOT, 2001
6 Foto 4 Coqueiro ainda vertical na praia da Penha, 1998. Conrad R. Rosa Foto 5 Coqueiro sendo abatido pela ação marinha, 1999. Conrad R. Rosa Foto 6 - coqueiro totalmente abatido, 1999. Conrad R. Rosa