O Gil não era alto nem baixo, devia ter cinco anos, quase seis. Os rapazes mal fazem cinco anos parecem logo quase seis! Um piparote e zás! É mesmo bom, nem dá tempo para abrir o primeiro presente até ao fim e já está... Tens seis anos, não é? O Gil não era gordo nem magro. Tinha olhos pretos, pretos a fingir, quem olhasse para dentro dos olhos do Gil percebia que eram castanhos. Usava óculos redondos, o que era uma maçada, sobretudo quando se esquecia deles no frigorífico. Isso acontecia sempre que ia à procura dos iogurtes de morango com chocolate, os seus preferidos, e acabava por trazer o pudim de queijo magro da mãe. Biahhh!! A pior coisa do mundo! Sabia a xarope da tosse estragado... 9
O Gil vivia numa casa alta e magra com um pátio pequeno onde cabia apenas a casota do cão, o Puma. Mas a razão da nossa história era o Gil ter uma mãe que também não era alta nem baixa, nem gorda nem magra. Só era diferente do Gil porque não tinha óculos e muitas vezes trazia o cabelo solto em ondas largas, muito clarinhas, que lhe chegavam aos ombros. Mas quando a mãe do Gil prendia o cabelo atrás com um gancho, ficava igualzinha ao Gil, sobretudo se comia iogurte de morango. Só não lambia a colher como o Gil fazia porque não queria ficar com uns grandes bigodes cor-de-rosa, o que não era lá muito próprio para uma mãe nem para rapazes como o Gil. Quem gostava de lamber o copinho do iogurte era o Puma. Aliás, a mãe costumava dizer que o Puma e o Gil, se não eram irmãos de verdade, eram pelo menos irmãos nas asneiras.
Gostavam dos mesmos biscoitos e de jogar às escondidas à volta da mesa da casa de jantar; muitas vezes corriam tanto que o vaso com flores que a madrinha do Gil trouxera da China ia pelos ares, e aí não havia nada a fazer... lá se escondiam os dois por baixo da cama do Gil, que não era alta nem magra como a casa, mas baixa e gorda de forma a que mãe do Gil nunca conseguisse lá chegar. Ambos gostavam de brincar com o urso Armindo e lembravam-se sempre de bulhar pelo mesmo cobertor antes de dormir. Quando o Gil se zangava, o Puma ia dormir para a sua cama, o que era uma coisa muito boa porque no inverno, quando estava frio, o Puma aquecia de tal maneira os pés do Gil que parecia que a mãe tinha comprado um édredon novo.
O Puma e o Gil zangavam- -se muito sempre que a mãe não os deixava entrar na sala de visitas, e isto acontecia sobretudo quando chegavam as pessoas muito importantes e muito altas. O que o Gil nunca percebeu foi porque é que as pessoas muito importantes eram sempre muito altas, pelo menos vistas de baixo, e porque é que as pessoas muito altas estavam sempre a dizer: «Olá, Gil, estás tão alto, cresceste tanto!»,
o que era uma grande mentira, porque até o Puma, quando se punha em pé sempre que o Gil chegava a casa depois da escola, parecia mais alto do que ele. Mas nessas noites de festa em que entrava pela casa alta e magra um bando de pessoas muito importantes e muito crescidas, o Gil gostava de dormir no pátio, na casota do Puma. A mãe só os descobria na altura em que as visitas voltavam à sala de barriga cheia, bem mais gordas, tão gordas que o Gil temia rebentarem as paredes da casa.
Mas o Gil andava cada vez mais cansado da mãe que tinha. Isto acontece aos meninos que fazem cinco anos e parecem seis: ficam de repente tão cansados das mães que lhes apetece trocar de mãe. Há mães para todos os gostos! Há mães de cabelos encarnados, amarelos ou castanhos. Há mães gordas como panquecas e há mães mais magras do que um fio de esparguete. Há mães com a pele muito branquinha, outras com sardas, há mães mais escurinhas e até há mães com os olhos em bico. Há mães que gritam com uma voz esganiçada que parece uma nota desafinada, e há mães roucas, mais roucas do que um trovão. Há mães que gostam dos cães e até os mimam mais do que aos próprios filhos, e há mães que tratam os cães como os