Acórdão Barlis do TJUE

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Transcrição:

Acórdão Barlis do TJUE

Processo C-516/14 Acórdão de 15 de setembro de 2016 Barlis 06 Investimentos Imobiliários e Turísticos SA contra Autoridade Tributária e Aduaneira

Acórdão Barlis: os factos Pedido de reenvio prejudicial efetuado pelo Centro de Arbitragem de Administrativa ( CAAD ; Processo n.º 3/2014-T) Correções efetuadas pela Autoridade Tributária e Aduaneira ( AT ) no âmbito de um procedimento inspetivo de controlo de um pedido de reembolso de IVA apresentado pela Barlis, sociedade que explora hotéis com restaurantes Correções tiveram por base a dedução do IVA pago a montante pela Barlis enquanto destinatária dos serviços jurídicos realizados por um escritório de advogados Os fundamentos das correções: Deduções foram consideradas indevidas pela AT por estarem suportadas por faturas que não cumprem com as exigências formais impostas pelo Código do IVA Insuficiência dos descritivos: não se encontravam discriminados os serviços concretamente prestados nem as quantidades unitárias ou os respetivos totais

Acórdão Barlis: os factos As faturas em causa, emitidas entre 2008 e 2010, continham os seguintes descritivos: 1. «serviços jurídicos prestados entre 1 de dezembro de 2007 até à presente data»; 2. «honorários por serviços jurídicos prestados entre junho e até à presente data»; 3. «honorários por serviços jurídicos prestados entre 1 de novembro de 2009 e a presente data» 4. «honorários por serviços jurídicos prestados até à presente data». A Barlis apresentou outros documentos que descreviam os serviços em causa com maior pormenor A AT manteve as correções fundamentando-se i) no carácter incompleto das faturas em causa; e ii) na impossibilidade de sanar a falta de forma legal com a junção de anexos já que não constituem documentos equivalentes a faturas teriam que cumprir com os requisitos enunciados no n.º 5 do artigo 36.º do Código do IVA

Acórdão Barlis: as normas em apreço Artigo 168.º, alínea a) da Diretiva IVA: quando os bens ou serviços sejam utilizados para os fins das suas operações tributadas, o sujeito passivo tem direito a deduzir ao montante do imposto de que é devedor o IVA relativo aos bens adquiridos ou serviços prestados por outro sujeito passivo. Artigo 178.º, alínea a) da Diretiva IVA: para poder exercer o direito à dedução, o sujeito passivo deve satisfazer as seguintes condições: a) Relativamente à dedução referida na alínea a) do artigo 168.º, no que respeita às entregas de bens e às prestações de serviços, possuir uma fatura emitida com certas formalidades previstas na Diretiva IVA Artigo 226.º da Diretiva IVA: sem prejuízo de disposições específicas previstas na Diretiva IVA, as únicas menções que devem obrigatoriamente figurar, nas faturas são as seguintes: [ ] 6) A quantidade e natureza dos bens entregues ou a extensão e natureza dos serviços prestados; 7) A data em que foi efetuada, ou concluída, a entrega de bens ou a prestação de serviços [ ]

Acórdão Barlis: as normas em apreço Artigo 20.º, n.º 1, alínea a) do Código do IVA: só pode deduzir-se o imposto que tenha incidido sobre bens ou serviços adquiridos, importados ou utilizados pelo sujeito passivo para a realização de transmissões de bens e prestações de serviços sujeitas a imposto e dele não isentas Artigo 19.º, n.º 2, alínea a) e n.º 6 do Código do IVA: só confere o direito à dedução o imposto mencionado em faturas passadas na forma legal, ou seja, se reunirem os elementos previstos nos artigos 36.º ou 40.º Artigo 36.º, n.º 5 do Código do IVA: as faturas devem ser datadas, numeradas sequencialmente e conter os seguintes elementos: [ ] al. b) A quantidade e denominação usual dos bens transmitidos ou dos serviços prestados, com especificação dos elementos necessários à determinação da taxa aplicável; [ ] al. f) A data em que os bens foram colocados à disposição do adquirente, em que os serviços foram realizados ou em que foram efetuados pagamentos anteriores à realização das operações, se essa data não coincidir com a da emissão da fatura

Acórdão Barlis: a questão prejudicial Divisão da questão prejudicial em duas partes: I. O artigo 226.º da Diretiva IVA deve ser interpretado no sentido de que faturas que contenham apenas as menções serviços jurídicos prestados desde determinada data até ao presente ou serviços jurídicos prestados até ao presente respeitam os requisitos exigidos pelos respetivos n. os 6 e 7? II. O artigo 178.º, alínea a) da Diretiva IVA deve ser interpretado no sentido de que se opõe a que as autoridades tributárias nacionais possam negar o direito à dedução do IVA pelo simples fato de o sujeito passivo possuir uma fatura que não cumpre os requisitos exigidos pelo artigo 226.º, n. os 6 e 7, quando essas autoridades disponham de todas as informações necessárias para verificar se se encontram reunidos os requisitos substantivos do direito à dedução?

Uma questão nova para o TJUE: Qual o grau de detalhe da descrição de uma prestação de serviços numa fatura? (Juliane Kokott, Advogada-Geral)

Acórdão Barlis: a decisão as formalidades das faturas As faturas que contenham apenas as menções serviços jurídicos prestados desde determinada data até ao presente ou serviços jurídicos prestados até ao presente respeitam os requisitos exigidos pela Diretiva IVA? O artigo 226.º, n.º 6 da Diretiva IVA exige que a fatura contenha a menção da extensão e natureza dos serviços prestados, sem contudo precisar que os serviços específicos devem ser prestados de forma exaustiva Análise à luz da finalidade destas menções obrigatórias: i) Permitir às Administrações Fiscais a realização de controlos do pagamento do imposto devido; e ii) Se for caso disso, da existência do direito à dedução Embora as faturas em causa qualifiquem os serviços prestados de serviços jurídicos, este conceito abrange um vasto acervo de prestações de serviços, incluindo prestações que não assumem uma natureza empresarial Também não se descortinam quais os serviços prestados em cada período

Acórdão Barlis: a decisão as formalidades das faturas Quanto à data em que foi efetuada ou concluída a entrega de bens ou prestação de serviços (artigo 226.º, n.º 7 da Diretiva): Interpretação à luz da finalidade prosseguida pela imposição de menções obrigatórias na fatura (controlo) Em específico, permite: i. Controlar quando ocorreu o fato gerador do imposto ii. Determinar os normativos temporalmente aplicáveis A fatura com a menção serviços jurídicos prestados até ao presente não permite determinar o início do período em questão Se órgão jurisdicional de reenvio constatar que as faturas em causa não preenchem as exigências decorrentes do 226., n. os 6 e 7 da Diretiva IVA, deve verificar se os documentos anexos contêm uma apresentação mais detalhada dos serviços jurídicos e podem ser equiparados a uma fatura nos termos do artigo 219. da referida diretiva, na qualidade de documentos que alteram a fatura inicial e a ela façam referência específica e inequívoca

Resposta do TJUE à primeira parte da questão O TJUE responde à primeira parte da questão dizendo que: O artigo 226. da Diretiva IVA deve ser interpretado no sentido de que faturas que só contenham a menção serviços jurídicos prestados desde determinada data até ao presente, como as que estão em causa, não respeitam, em princípio, as exigências previstas no respetivo n.º 6 (natureza e extensão dos serviços em causa) E que: Faturas que só contenham a menção serviços jurídicos prestados até ao presente não respeitam, em princípio, nem as exigências previstas no referido n.º 6, nem as exigências previstas no respetivo n.º 7 do mesmo artigo, o que cabe todavia, ao órgão jurisdicional de reenvio verificar (ou seja, também a data em que foi efetuada ou concluída a prestação de serviços)

Acórdão Barlis: a decisão as consequências do incumprimento Quais as consequências, em sede de direito à dedução, do incumprimento das formalidades das faturas? Direito à dedução Princípio fundamental do sistema comum do IVA Garante da neutralidade Requisitos materiais para a constituição do direito à dedução: Bens ou serviços que fundamentam o direito devem ser utilizados pelo sujeito passivo a jusante nas suas próprias operações tributadas; A montante, esses bens ou serviços devem ser prestados por outro sujeito passivo Requisitos formais do exercício do direito à dedução: existência de uma fatura que cumpra os normativos legais (artigo 226.º da Diretiva IVA)

Acórdão Barlis: a decisão as consequências do incumprimento O TJUE indica que à luz do princípio da neutralidade: Uma vez cumpridos os requisitos materiais do direito à dedução, deve permitir-se a dedução do imposto suportado ainda que certam formalidades sejam negligenciadas Se a Administração Fiscal dispuser de dados que permitam saber se os requisitos materiais foram cumpridos, esta não deverá limitar-se ao exame da fatura, devendo considerar informações complementares fornecidas pelo sujeito passivo No processo principal, cabe ao órgão jurisdicional de reenvio considerar: todas as informações constantes das faturas em causa e dos documentos anexos apresentados pela Barlis com vista a verificar se os requisitos substantivos do seu direito a dedução do IVA se encontram satisfeitos Incumbência do ónus da prova relativo à dedução Possibilidade de aplicar sanções à violação dos requisitos formais

Resposta do TJUE à segunda parte da questão O TJUE responde à segunda parte da questão dizendo que: O artigo 178.º, alínea a) da Diretiva IVA deve ser interpretado no sentido de que se opõe a que as autoridades tributárias nacionais possam recusar o direito à dedução do IVA pelo simples fato de o sujeito passivo possuir uma fatura que não cumpre os requisitos previstos no artigo 226.º, n. os 6 e 7 desta diretiva, quando essas autoridades dispõem de todas as informações necessárias para verificar que os requisitos substantivos desse direito se encontram cumpridos

FIM