Contenções e locação da obra

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Transcrição:

Contenções e locação da obra Introdução A construção de uma edificação envolve várias etapas, desde a concepção até a obra acabada. Após a definição dos projetos, tem início a fase executiva. Antes de começar a construção da obra é preciso levar em conta alguns aspectos como a existência de vizinhança e os impactos que a obra pode causar a esta. Além disso, muitas vezes, é necessária a execução de obras de contenção de terras para que se possa fazer a locação da obra no terreno. Ao final desta aula, você será capaz de: conhecer e compreender os problemas com as unidades vizinhas à obra e a necessidade de escoramento do perímetro de seu entorno; conhecer os métodos básicos de escoramento e arrimos; conhecer os princípios de execução da locação de paredes e eixos de pilares e fundações. Muro de arrimo e escoramento da vizinhança: os perigos de deslizamentos Antes do início de qualquer obra é imprescindível o registro das condições das edificações vizinhas. Este registro é composto por um relatório técnico das observações realizadas in loco e fotografias datadas da vizinhança. A análise prévia das condições das construções vizinhas pode evitar surpresas desagradáveis no decorrer da execução da obra, como por exemplo, desabamentos de muros e/ou outras áreas das edificações vizinhas, formação de trincas e/ou rachaduras, entre outras. Além disso, o registro das condições da vizinhança antes da obra também serve como garantia para reclamações infundadas dos vizinhos. Escoramento e arrimos De acordo com Cardoso (2002, p.1), a execução de contenções em escavações é um serviço bastante comum em obras civis, principalmente quando estas se localizam em áreas limitadas, como nas obras urbanas de um modo geral. As contenções podem ser feitas por meio de taludes, de paredes verticais ancoradas ou escoradas e por muros de arrimo. Taludes Os taludes são superfícies inclinadas que limitam um maciço de solo, podendo ser naturais, como no caso das encostas, ou artificiais, como os taludes de corte ou aterro. Na figura abaixo é apresentada a representação esquemática de um talude. - 1 -

Figura 1 - Representação esquemática de um talude Fonte: Elaborada pelo autor, 2017. Dependendo das características do solo é possível a escavação de taludes com diferentes inclinações e profundidades. No entanto, para que seja mantida a estabilidade do talude, o ângulo de inclinação deve ser da ordem de 40º quando se tratar de solos coesivos (argilosos), enquanto que, em solos não coesivos (arenosos), o ângulo de inclinação do talude coincide com o ângulo de atrito interno do solo. Escoramentos e cortinas De acordo com Silva (2003) os escoramentos podem ser estruturas provisórias ou definitivas e são executadas para possibilitar a construção de outras obras, sendo mais comumente utilizadas para permitir o embutimento de tubulações e a execução de obras enterradas. Os escoramentos são compostos em geral pelos seguintes elementos: paredes, longarinas, estroncas e tirantes. Parede: é o paramento vertical que está em contato direto com o solo a ser contido, podendo ser de madeira, concreto ou metálica. Longarina: elemento linear e longitudinal que apoia a parede, posicionado, em geral, na horizontal. Estroncas (ou escoras): são elementos de suporte às longarinas, sendo perpendiculares a elas, indo de um lado a outro da escavação, ou apoiando-se em estruturas vizinhas. Tirantes: são elementos lineares introduzidos no solo e ancorados no maciço e que trabalham à tração; possuem a mesma função das estroncas (ou seja, dar apoio às longarinas). Uma ilustração dos elementos que compõem os escoramentos é apresentada na figura a seguir. Figura 2 - Elementos que compõem os escoramentos Fonte: Adaptado de Silva, 2003, p. 25. São contenções usualmente empregadas: os escoramentos de madeira; mistos (perfis metálicos e madeira); cortinas estaca-prancha e paredes diafragma. - 2 -

SAIBA MAIS Quer aprender mais sobre estruturas de contenção e arrimo? Consulte o livro Cadernos de Muros de Arrimo, de Antonio Moliterno, Editora Edgard Blücher, 1994. Além do emprego de escoramentos, a contenção de terras pode ser efetuada por meio de muros de arrimo. Muros de arrimo Os muros de arrimo são estruturas contínuas de contenção constituídas de paramento vertical ou quase vertical, e apoiados sobre uma fundação. Geralmente são construídos em alvenaria (de pedra ou de tijolos) ou em concreto (simples ou armado). Podem ser agrupados em duas categorias, de acordo com seu modo de resistir aos esforços: por gravidade e de flexão. Na figura abaixo são apresentadas representações esquemáticas de muros de arrimo por gravidade e de flexão. Figura 3 - Representação de muros de arrimo: (a) por gravidade e (b) de flexão Fonte: Adaptado de Marchetti, 2008, p. 41 e 49. Os muros de arrimo por gravidade resistem as solicitações do terreno (empuxo) por conta de seu peso próprio, fazendo com que surjam forças de atrito na interface muro-solo, o que garante a estabilidade do muro quanto ao tombamento e ao deslizamento. São estruturas pesadas e de grandes dimensões, podendo ser executadas em concreto simples, alvenaria de pedra e gabiões (blocos formados por redes de arame galvanizado gaiola, e preenchidos com fragmentos de rocha). - 3 -

Os muros de arrimo de flexão são estruturas esbeltas, com seção transversal em formato de L ou T invertido, que resistem aos empuxos do solo por flexão. Devido à sua geometria, o peso próprio do terreno, na base do muro, auxilia na estabilidade ao deslizamento e ao tombamento. Geralmente são construídos em concreto armado. FIQUE ATENTO Os muros de arrimo são estruturas de contenção que exigem maior espaço para execução do que as escoras e cortinas. Neste tópico foi apresentada uma visão geral acerca de técnicas de contenção de terra, que podem ser efetuadas por meio de taludes, escoramentos provisórios ou definitivos e por muros de arrimo. Locação da obra A locação da obra pode ser entendida como o processo de transferência do projeto da edificação para o terreno, ou seja, a marcação em escala real dos recuos, afastamentos, alicerces, fundações, pilares, paredes, aberturas, etc. É uma etapa de grande importância, pois determina o correto posicionamento da edificação no terreno. Segundo Azeredo (2002, p. 24), a obra deverá ser locada com rigor, observando-se o projeto quanto à planimetria e à altimetria. Yazigi (2003) destaca que a locação da obra deverá ser executada somente por profissionais habilitados, com o emprego de métodos e instrumentos adequados. Antes de dar início a locação da obra, é necessário levar em conta os seguintes aspectos: o terreno deve estar limpo (destocado, roçado e capinado) e, preferencialmente, nivelado na cota de arrasamento das fundações; deve ser feita a marcação da referência inicial, que pode ser um ponto no próprio terreno, uma parede da construção vizinha, ou ainda, o alinhamento predial fornecido pela prefeitura; estudar e conhecer os projetos da edificação; todas as ferramentas e equipamentos necessários para a execução dos serviços de locação da obra devem ser providenciados. São equipamentos e ferramentas necessárias para locação da obra: teodolitos e níveis; nível de mangueira e de pedreiro; trena metálica; linha de nylon (de pedreiro); prumo; arame; tinta esmalte; marreta; martelo; pregos, etc. Em obras de pequeno porte, a locação pode ser efetuada com métodos simples, que garantem certa precisão, sem a necessidade do auxílio de equipamentos topográficos. Contudo, em obras de grande porte, os métodos simples poderão acumular erros, de modo que, nestes casos, é preciso recorrer a marcações topográficas mais precisas, realizadas por profissionais ou equipes especializadas. É de especial interesse conhecer os métodos de locação de obras simples. Os mais usuais são o processo dos cavaletes e o da tábua corrida. Os itens a seguir são baseados na obra de Azeredo (2002). - 4 -

Processo dos cavaletes Neste processo, os alinhamentos são obtidos por meio de pregos fixados nos cavaletes. Os cavaletes são constituídos por uma travessa pregada sobre duas estacas cravadas no solo, conforme ilustrado na figura abaixo. Figura 4 - Representação de um cavalete Fonte: Azeredo, 2002, p. 26. Feita a distribuição dos cavaletes (alinhados conforme o projeto), são fixadas e esticadas linhas nos pregos para determinar o alinhamento do alicerce, e em seguida, inicia-se a abertura das valas. Tal procedimento é ilustrado na figura a seguir. Figura 5 - Exemplo de locação de obra pelo processo dos cavaletes Fonte: Azeredo, 2002, p. 26. Este método de locação de obra deve ser evitado, sempre que possível, pois os cavaletes podem ser deslocados facilmente, com batidas de carrinho de mão, pontapés, tropeços, por exemplo. Se o deslocamento do cavalete não for notado, a edificação ficará fora do alinhamento previsto e o nivelamento será precário, o que é inadmissível e pode acarretar transtornos em etapas futuras. - 5 -

Processo da tábua corrida Também conhecido como tabela, gabarito ou tabeira. De modo sucinto, este processo consiste na marcação dos eixos do projeto em tábuas de madeira, estrategicamente posicionadas na periferia do canteiro de obras, sendo que toda a locação é executada a partir desse gabarito. A locação da obra pelo processo da tábua corrida começa com a cravação de pontaletes de pinho (7,5 x 7,5 cm ou 7,5 x 10,0 cm) ou varas de eucalipto espaçados de 1,50 a 2,00 m, entre si, e a 1,50 m das futuras paredes da edificação, para que seja possível o uso de andaimes. Nos pontaletes são pregadas tábuas de madeira (de 15,0, 20,0 ou 30,0 cm de largura) por todo o perímetro da construção, em nível e a aproximadamente 1,00 m do solo, conforme ilustrado na figura a seguir. Figura 6 - Representação de locação de obra pelo processo de tábua corrida Fonte: Azeredo, 2002, p. 25. Nas tábuas são fincados pregos, distanciados entre si de acordo com as interdistâncias entre os eixos da construção. Todos os pregos devem ser identificados com letras e algarismos na face vertical interna das tábuas para determinar os alinhamentos. Um exemplo é apresentado na figura abaixo. - 6 -

Figura 7 - Marcação dos alinhamentos no processo de tábua corrida Fonte: Azeredo, 2002, p. 25. Nos pregos são amarradas linhas ou arames, que depois são esticados e interligados ao prego correspondente na tábua oposta. Deste modo, os eixos da construção são materializados em cada linha ou arame. O processo da tábua corrida é mais seguro do que o dos cavaletes e permite que a locação permaneça por muito tempo, possibilitando a conferência durante todo o andamento das obras. Seja qual for o método escolhido, é de suma importância que todos os eixos demarcados sejam devidamente conferidos, a fim de evitar quaisquer erros. FIQUE ATENTO É preciso ter em conta que os elementos de locação deverão permanecer na obra até que se possa transferir para a edificação os pontos de referência definitivos. Neste tema procurou-se fornecer uma visão geral sobre os aspectos de vizinhança, os princípios básicos de execução de obras de contenção e arrimo e acerca dos métodos de locação de obras. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: compreender a importância das edificações vizinhas na execução de uma obra; conhecer métodos usuais de escoramento e de arrimo; aprender como deve ser executada a locação de obras de pequeno porte. Referências AZEREDO, H. A. de. O edifício até sua cobertura. São Paulo: Edgard Blucher, 2002. - 7 -

CARDOSO, F. F. Sistemas de contenção. 2002. Disponível em: < site.construir.arq.br/aulas/download.php? id_material=14 >. Acesso em: 18/12/2017. MARCHETTI, O. Muros de arrimo. São Paulo: Edgard Blucher, 2008. SILVA, D. A. da. Técnicas de construção civil I. 2003. Disponível em: < http://www.npc.ufsc.br/gda/humberto /I01.pdf >. Acesso em: 18/12/2017. - 8 -