RECOMENDAÇÃO 002/2011



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Transcrição:

RECOMENDAÇÃO 002/2011 OFÍCIO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO E SOCIAL O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, por intermédio do Procurador da República signatário, no uso de suas atribuições legais e constitucionais, com fundamento no artigo 129, da Constituição da República, no artigo 5º, inciso I, alínea h, inciso II, alínea d, inciso III, alíneas b e e ; e artigo 6º., inciso XX, todos da Lei Complementar 75/93 (Estatuto do Ministério Público da União), e: CONSIDERANDO que a Constituição da República destaca a saúde entre os direitos sociais do cidadão, declarando ser direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (artigo 196, caput, da CR/88); CONSIDERANDO que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições democráticas e conservar o patrimônio público (artigo 23, inciso I, da atual Constituição da República Federativa do Brasil); CONSIDERANDO que cabe ao Ministério Público, por designação constitucional, proteger o patrimônio público e social, adotando todas as medidas legais cabíveis para tanto, bem como fiscalizar a correta aplicação da lei, na forma dos artigos 127, caput e 129, inciso III, da Constituição da República; CONSIDERANDO ser função institucional do Ministério Público da União a defesa da ordem jurídica, do regime democrático, dos interesses sociais e dos interesses individuais indisponíveis, cabendo-lhe observar, dentre outros fundamentos e princípios, a legalidade, a impessoalidade, a moralidade e a publicidade, relativas à administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União (artigo 5º., I, alínea h da Lei Complementar 75/93); Avenida Afonso Pena, 4444 Vila Cidade 79.020-907 Campo Grande/MS Fone: (67) 3312.7200 - Fax: (67) 3312.7201 1

CONSIDERANDO que compete ao Ministério Público da União a defesa do patrimônio público e social, bem como zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos da União e dos serviços de relevância pública quanto aos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade e da publicidade (artigo 5º, inciso III, alínea b, e inciso V, alínea b, da Lei Complementar 75/93); CONSIDERANDO que a educação e a saúde são direitos difusos, cujo dever de zelo também incumbe ao Ministério Público Federal (artigo 5º, inciso II, alínea d, e inciso V, alínea a, da Lei Complementar 75/93); CONSIDERANDO o disposto na Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080/90), em especial no sentido de que a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício ; (artigo 2.º) e que: o dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação (artigo 2.º, 1º); e, enfim, que: as ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no art. 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios: I - universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência; II - integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema (artigo 7.º); CONSIDERANDO que a Lei de Improbidade (Lei 8.429/92) expressa, em seu artigo 9º, inciso IV, que constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art. 1 desta lei, e notadamente: utilizar, em obra ou serviço particular, veículos, máquinas, equipamentos ou material de qualquer natureza, de propriedade ou à disposição de qualquer das entidades mencionadas no art. 1 desta lei, bem como o trabalho de servidores públicos, empregados ou terceiros contratados por essas entidades; assim como os agentes públicos devem velar pela estrita observância dos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade no trato dos assuntos que lhe são afetos (artigo 4º); CONSIDERANDO que a Lei 8.112/90 elenca os deveres do servidor público, em especial observar as normas legais e regulamentares e ser assíduo e pontual ao serviço (artigo 116, III e X da Lei Regente); 2

CONSIDERANDO que o Decreto 1.867/96, em seus respectivos dispositivos, estabelece que o registro de assiduidade e pontualidade dos servidores públicos federais da Administração Pública Federal direta, autárquica e fundacional será realizado mediante controle eletrônico de ponto ; CONSIDERANDO as finalidades e objetivos gerais da UFMS, I- promover o ensino, a pesquisa e a extensão e aperfeiçoar a educação superior nos diferentes campos do conhecimento; II - aplicar-se ao estudo da realidade brasileira em busca de soluções para os problemas do desenvolvimento social e econômico, contribuindo com os recursos à sua disposição para o desenvolvimento do bem-estar social; III - integrar-se às regiões em que está inserida, pela extensão da educação, da pesquisa e de atividades de prestação de serviços; IV - promover a educação com formação de valores para a humanização da sociedade; V - participar do processo científico, cultural e técnico e de atividades que promovam a difusão do conhecimento;vi - constituir-se em fator de integração e de promoção da cultura; VII - cooperar com universidades e outras instituições científicas, culturais e educacionais. (artigo 3º do Estatuto da Fundação Universidade Federal de MS); CONSIDERANDO a composição do corpo clínico do Hospital Universitário estabelecida pelo seu Regimento Interno, bem como as disposições no sentido de que os membros efetivos e transitórios estarão necessariamente vinculados a um determinado serviço médico sujeitando-se, portanto, ao cumprimento de suas normas e rotinas (art. 3º); e que cada membro do Corpo Clínico tem por obrigação, dentre outras, observar com rigor os horários fixados para a realização de todas as atividades médicas nos diversos setores do NHU, conforme as normas e rotinas de cada serviço, dando ciência ao chefe quando de eventuais e inadiáveis impedimentos ou ausências para que seja providenciada substituição necessária ou novo agendamento para os atendimentos impossíveis de serem realizados pela falta em questão, atentando ainda para fazer a justificativa da falta em tempo hábil, anexando documentação necessária (artigo 9º, XIII). CONSIDERANDO o constatado pela Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul, nos últimos dois anos, nos Inquéritos Civis de números 1.21.000.001338/2009-40 e 1.21.000.000841/2009-88, nos quais: a) Apurou-se, através do Inquérito Civil 1.21.000.001338/2009-40 a atuação de médico voluntário cujo contrato encontrava-se expirado, bem como ausência de controle de entrada e saída de medicamentos, que, possivelmente, estariam sendo fornecidos pelo hospital para pacientes particulares do profissional; b) Apurou-se, através do Inquérito Civil 1.21.000.000841/2009-88 o descumprimento da carga horária contratual por servidores do Hospital Universitário; 3

CONSIDERANDO, ademais, as seguintes informações que constam do Inquérito Civil de número 1.21.000.001029/2005-46 (PR/MS): a) de acordo com relatório de fiscalização realizada pelo Tribunal de Contas da União em 2007, no Processo TC 022.567/2007-0, foram constatadas graves irregularidades relativas ao frequente descumprimento da jornada de trabalho de médicos técnico-administrativos do Hospital Universitário; b) diante dessas irregularidades e da inexistência de controle eficaz de jornada de trabalho dos médicos no Hospital Universitário, o Ministério Público Federal e a Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS celebraram, em 31 de março de 2008, Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), em que esta comprometeu-se a, entre outras medidas: (b.1) adquirir software, crachás funcionais e relógios de ponto digital para instalação nas dependências do HU, a fim de assegurar o efetivo controle da jornada de trabalho de seus servidores médicos administrativos; (b.2) realizar, por meio eletrônico, com o uso de relógio digital, o controle da escala de trabalho de todos os servidores médicos administrativos da UFMS, bem como de outros profissionais médicos não detentores de cargos do quadro funcional da UFMS que trabalhem nas dependências do HU (por exemplo, médicos cedidos); c) em cumprimento ao supramencionado TAC, a UFMS adquiriu os materiais (software, crachás e relógios digitais) necessários à implantação do mencionado controle eletrônico de ponto e, de fato, passou a utilizá-lo; d) o Conselho Diretor da UFMS, por meio da Resolução nº 48, de 25 de junho de 2009, homologou a Resolução nº 2, de 12 de janeiro de 2009, a qual havia instituído o relógio de ponto eletrônico como mecanismo de controle de frequência e pontualidade dos médicos integrantes da carreira técnico-administrativa da UFMS; e) entretanto, posteriormente, a UFMS voltou a utilizar o frágil sistema de controle de ponto dos médicos do HU por meio de folha de frequência, conforme informações prestadas pela Direção do Hospital (Ofício nº 290/2010-PROJUR); CONSIDERANDO enfim, que, embora o aludido TAC tenha vigorado por tempo determinado, as medidas nele especificadas em relação ao controle eletrônico de ponto deveriam ter efeitos permanentes, por duas razões: (1) não se justificaria o significativo investimento de recursos públicos para a instalação de sistema eletrônico para que este fosse abandonado após a vigência do TAC; (2) a utilização do controle eletrônico foi expressamente determinada pelo Decreto 1.867/96 e, uma vez implantada, inadmissível é o retrocesso a forma mais frágil de verificar a pontualidade dos servidores (por meio de folha de frequência); 4

RESOLVE, em defesa do patrimônio público e social, da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade, da eficiência, da transparência, do respeito aos direitos humanos, e pelo bem da saúde pública, RECOMENDAR, em caráter preventivo e com o objetivo de evitar eventuais demandas judiciais para responsabilização das autoridades competentes: À Direção Geral do Hospital Universitário em Mato Grosso do Sul, por seu Diretor-Geral (ou por quem o representar ou substituir) que adote, com a urgência que o caso requer, todas as providências necessárias para: I Assegurar que os servidores do Hospital Universitário da UFMS sejam capacitados, treinados e fiscalizados para que o controle de entrada e saída de medicamentos seja realizado de forma eficaz, a fim de que não haja fornecimento irregular a pacientes particulares de médicos servidores ou não; II Determinar a implantação de sistema de controle eletrônico de carga horária para os servidores do HU (principalmente no que se refere aos profissionais médicos), a fim de garantir o real cumprimento da jornada de trabalho pela qual são devidamente remunerados pelos cofres públicos. A ausência de observância das medidas enunciadas impulsionará o Ministério Público Federal a adotar, quando cabível, as providências judiciais e extrajudiciais pertinentes para garantir a prevalência das normas de proteção ao patrimônio público e social e à saúde, de que tratam esta RECOMENDAÇÃO. Em igual sentido, a presente RECOMENDAÇÃO tem o caráter de cientificar autoridades e servidores públicos da necessidade de serem adotadas medidas específicas de proteção ao patrimônio público e social sobretudo para eventual responsabilização civil, administrativa e criminal. O recomendado não exclui a irrestrita necessidade de plena observância de todas as normas constitucionais e infraconstitucionais em vigor. Campo Grande-MS, aos 02 dias de junho de 2011. RAMIRO ROCKENBACH DA SILVA MATOS TEIXEIRA DE ALMEIDA Procurador da República Representante da 5ª. Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (Patrimônio Público e Social) em Mato Grosso do Sul 5