Mitologia e Psicanálise



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1 Mitologia e Psicanálise Introdução Elza Magnoler Guedes de Azevedo Em primeiro lugar quero agradecer a gentileza da querida Patrícia Nunes em me convidar para vir conversar com vocês hoje: é sempre um grande prazer conviver e trabalhar com amigos tão queridos do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região. Muito obrigada a todos pela presença. Nosso tema é complexo e sujeito a múltiplas interpretações segundo o ângulo que se toma para descrever os fenômenos tanto da mitologia como da psicanálise. O assunto se insere na perspectiva histórica da humanidade e é um aspecto vital da civilização humana. Mitologia e Psicanálise: duas áreas que se entrelaçam no caminho das palavras, no discurso que envolve as questões da angústia e da tragédia da condição humana. Ambas se locomovem pelo caminho das representações dos aspectos inconscientes da mente. Freud começou a aventura psicanalítica descobrindo o "poder mágico" simbólico da palavra. A clínica freudiana verifica em que medida os afetos e as representações estão ligados em complexos laços simbólicos, e como a expressão verbal opera nesse emaranhamento. Ele foi um grande admirador e estudioso das fontes mais primitivas da evolução do homem, tais como a mitologia, a filosofia, a literatura antiga. A linguagem é a condição do inconsciente na estruturação da subjetividade humana. É na fala dirigida ao Outro que o sujeito se constrói e organiza seu corpo, seu desejo e seus vínculos. A linguagem da mitologia é um repertório de narrativas transmitidas oralmente de geração a geração através do conjunto de mitos narrados ou cantados. Muitas são as definições e formas de abordagem dos mitos. Comecemos pela etimologia da palavra: Mito vem do grego MYTHÓS, cuja tradução significa palavra, mensagem, discurso. É uma forma de comunicação de caráter simbólico que procura explicar a origem e o significado do mundo: um sistema de pensamento de uma cultura, uma forma de sistematização das questões do âmbito das angústias do ser humano em busca de conhecimento (origem do universo e do homem, nascimento, morte...) São múltiplas as funções das histórias míticas baseadas em tradições e lendas numa perspectiva temporal indefinida envolvendo muitas vezes uma força divina. O mito cumpre, na cultura primitiva, uma função indispensável; expressa, acentua e codifica a crença; protege e reforça a moral; vigia a eficiência do ritual e de certas

2 regras práticas para a orientação do homem...não é uma fábula vã, mas uma força criadora, um ingrediente vital da civilização humana ( Grimal, 2005, p.vii). Como histórias sagradas, os mitos são muitas vezes endossados pelos governantes e sacerdotes e intimamente ligados à religião. Na sociedade em que é divulgado, um mito é geralmente considerado como um relato verdadeiro de um passado remoto, dos antepassados em suas peripécias, conquistas, em suas relações com o âmbito dos deuses e dos humanos. Na Grécia antiga a condição humana era vinculada à existência dos deuses olímpicos, representações de forças e níveis da realidade transcendente. O mundo era povoado por deuses que atuavam sobre a vida humana a cada momento e cabia ao homem viver da melhor forma possível conforme os designos divinos. Não havia separação clara entre profano e sagrado e toda atividade humana era regida por uma divindade. Para uma vida harmoniosa, em cada situação, era necessário conhecer o âmbito de qual deus se estava (seus genitores, condições de seu nascimento, seu lugar na genealogia divina) e agir de forma piedosa a ele. Mito e Tragédia A palavra tragédia vem do grego TRAGOS+ODE (tragoedia) canto dos bodes, uma alusão ao sacrifício de um bode ao deus Dioniso e às vestes de pele de cabra que os autores vestiam nas festas em louvor a ele. A partir do advento da escrita, os mitos ganham status de representatividade na literatura, sobretudo através dos trageógrafos gregos (Ésquilo, Sófocles, Eurípides...), autores de textos mitológicos enriquecidos pela arte da fantasia e imaginação criativa do artista. A tragédia é uma forma transformada do mito, em que alterações são feitas para que o relato se encaixe na escrita: o mito é na verdade o conjunto de suas variantes, transmitido em diferentes versões e a obra literária pode ser entendida como recortes de uma ou mais variantes que se adapta à leitura que o autor faz de um determinado mito: por ex: a versão literária de Sófocles na peça Édipo Rei é uma, entre muitas outras, do mito edípico. Portanto, há uma diferença clara entre o mito e a tragédia: uma tragédia não é um mito, ela é uma variante recortada e transformada estética e formalmente para a arte. A tragédia compreende o relato de situações de acontecimentos terríveis que inspiram comoção. É uma forma dramática cujo fim é despertar o terror e a piedade, baseada no percurso do herói que termina quase sempre num acontecimento funesto. Mitologia e Psicanálise O Mito de Héracles

3 A versão de Sófocles do mito em sua tragédia Edipo Rei, como dissemos acima, foi distorcida para se adaptar à arte. O grande prestígio deste trageógrafo e a beleza de sua obra serviu de inspiração à teoria psicanalítica na conceituação do Complexo de Édipo de Freud. Seguindo essa perspectiva a respeito do mito e de suas diferentes adaptações na tragédia grega, e na tentativa de estabelecer uma relação entre a mitologia e a psicanálise a respeito do funcionamento mental do herói Héracles na peça de Eurípides, ousamos tentar uma interpretação dessa tragédia. E nessa tentativa de aproximação psicanalítica da beleza literária lembramos as palavras de André Green (1994, p. 20) a interpretação psicanalítica é sempre recebida com certa tristeza, pois provoca um sentimento de desilusão, de lesa- majestade, tira o véu da ilusão. Pedimos, portanto, licença para em nossa profanação levantarmos o véu da loucura de Héracles na tragédia de Eurípides. Héracles é o herói por excelência da mitologia grega. É filho de Zeus com uma mortal, Alcmena, esposa de Anfitrião. Estando Anfitrião ausente, Zeus toma sua figura, engana e seduz Alcmena fazendo- se passar pelo marido e nessa prolongada noite a engravida. Anfitrião ao regressar pela manhã fez- se conhecer, perdoa Alcmena e resignadamente assume ser o pai humano do herói. Com Anfitrião Alcmena concebe o segundo filho Íficles, irmão gêmeo de Héracles (GRIMAL, 2005). A peça foi apresentada pela primeira vez em Atenas por volta de 420-415 a. C. Vários são os temas nela encontrados: o âmbito das divindades e do homem, a importância da consideração dos limites e a dimensão da destrutividade no desrespeito a eles, a ambigüidade do caráter humano, a grandeza da relação de amizade e solidariedade (EURÍPIDES, 2003). Embora a maioria dos autores situe a loucura de Héracles antes da realização de seus trabalhos 1,Eurípides inverte a ordem tradicional e situa a loucura do herói no momento em que este regressa a Tebas vitorioso, após vencer os mais terríveis monstros. Na tragédia de Eurípides ele estaria naquele momento no Hades, tentando realizar a última tarefa: a busca de Cérbero (cão tricorpóreo). Há dúvidas sobre a sobrevivência do herói, paira a incerteza se ele voltaria. 1 Os doze trabalhos de Héracles constituem tarefas impostas por seu primo Euristeu (enfrentar e debelar monstros terríveis) para expiar o assaninato dos filhos e esposa cometidos em seu acesso de loucura provocado por Hera. Segundo Eurípides são os seguintes: Leão de Némea; Centauros; Corça de cornos de ouro; Éguas de Diomedes; Morte de Cicno; Maçãs do jardim das Hespérides; Limpeza do mar, de piratas; Sustentar o céu para Atlas; Vitória sobre as Amazonas; Hidra de Lerna; Derrota de Gérion; Busca de Cérbero (EURÍPIDES, 2003, p. 166).

4 Sua família encontra- se presa, prestes a ser assassinada no palácio de Lico, rei de Tebas (usurpador do trono após o assassinato de Creonte, sogro de Héracles). O herói adentra os aposentos de Lico e o assassina. Em seguida, sob o domínio de Lissa (personificação da loucura), a mando de Hera (ciumenta esposa de Zeus, guardiã dos lares), enfurecido perde a razão e com as mesmas armas com que derrotou os inimigos assassina esposa e filhos. Em seu delírio persecutório imagina estar matando a família de Euristeu, rei de Argos, o primo que havia lhe imposto os trabalhos prometendo- lhe a volta à pátria após cumprir as tarefas. Eurípides (2003, p. 125) mostra a transformação que se opera na expressão corporal do herói sob o domínio da ação desmedida que o acomete quando vai cumprir o ritual de purificação: a alteração dos olhos esgazeados, a espuma que escorre da boca para a barba, o delírio ao volante do carro imaginário, golpeando o vazio. É um outro que se personifica, o que nos remete à idéia do retorno do reprimido, o estranho que se levanta do inconsciente, a parte oculta de si mesmo. A reflexão que nos cabe aqui diz respeito à consideração dos aspectos implícitos na máxima divina dos mitos gregos: É explícita na mentalidade grega a existência de uma medida estabelecida para o homem, que deve ser respeitada para que haja equilíbrio. O homem, quando ultrapassa seus limites, incorre em hýbris (EURÍPIDES, 2003, p.29). Ultrapassar os limites, cometer hýbris, (excesso, desmedida, arrogância, orgulho) nos aponta para os conceitos de onipotência e negação da realidade como mecanismos próprios do funcionamento arcaico do ego, medidas de proteção aos elevados níveis de ansiedade e perseguição: Eu mencionaria de passagem que nessa fase inicial de cisão, a negação e a onipotência desempenham um papel semelhante ao que a repressão desempenha num estágio posterior do desenvolvimento do ego. Ao considerar a importância dos processos de negação e onipotência num estágio caracterizado por medo persecutório e mecanismos esquizóides, podemos lembrar os delírios de grandeza e de perseguição na esquizofrenia (KLEIN, 1991, p. 26). Amparados nas concepções psicanalíticas, levantamos as seguintes conjecturas. Poderíamos interpretar o delírio persecutório de Héracles ao assassinar a família de Euristeu como uma manifestação de seu funcionamento mental arcaico, cindido e dissociado da realidade. Ao inverter a sequência tradicional da tragédia trazendo à luz a queda do herói no momento mais glorioso de sua trajetória, Eurípides procura nos mostrar na defesa onipotente de Héracles o núcleo de desamparo e fragilidade da personalidade do herói.

5 Héracles teria sido um bebê dotado de grande potencial de vida, que por condições de ambigüidade ao nascer (filho de Zeus com uma mortal) não pôde constituir espaço próprio na constituição de sua identidade, transitando por espaços confusionais como semideus, entre o universo dos humanos e dos deuses. Sabemos que inicialmente o bebê se encontra em estado de desamparo, ameaçado em sua sobrevivência sem o amparo do meio externo através de figuras protetoras. Situações de angústias de aniquilamento quando apaziguadas propiciam uma condição de segurança e fortalecimento do ego, facilitando posterior capacidade de adaptação à realidade e amadurecimento emocional. Para que haja uma evolução saudável da personalidade é necessário, segundo Winnicott (1975), um ambiente facilitador que permita o aparecimento do gesto espontâneo. E não seria essa condição conquistada através da possibilidade de uma criança em sua relação com a mãe fazer uso do brincar como condição de conquista da criatividade e constituição do eu? É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self) (WINNICOTT, 1975, p. 80). Héracles, grandioso em demasia, como mostra o mito, impedido de abrigar- se em um continente materno consistente, vítima da ira ciumenta de Hera, (representação da figura interna da mãe má), muito cedo precisou enfrentar ameaças reais de aniquilamento. Embora essa passagem não conste no recorte de Eurípides, sabemos que o herói, ainda bebê, para conseguir sobreviver teve de haver- se com as duas serpentes que Hera, sua perseguidora desde o início da vida, atira em seu quarto. O irmão se apavora e Héracles as sufoca (GRIMAL, 2005). Não sendo possível alcançar um espaço psíquico de ilusão, o faz de conta próprio da simbolização, permaneceu na virulenta concretude sensorial (ninguém brinca com serpentes verdadeiras). Lembremos que Héracles retorna do inferno após enfrentar o último dos monstros (o cão tricorpóreo). Isso nos sugere a idéia de que se encontra sob o domínio de seus impulsos destrutivos, identificado com os próprios monstros que enfrentou: Bion (1957,in KLEIN, 1991) nos esclarece acerca da destrutividade da parte psicótica da personalidade, responsável pelo funcionamento mental apartado da realidade interna e externa, próprio do pensamento concreto, ausente de simbolização: é o predomínio da coisa em si, sem representação. Segundo ele, são traços desse tipo de funcionamento mental:

6 uma preponderância tão grande de impulsos destrutivos, que mesmo o impulso de amor é inundado por ele e transformado em sadismo; um ódio da realidade interna e externa, que se estende a tudo que contribui para a percepção dela; um terror de aniquilação iminente (BION, 1957,inKLEIN, 1991, p. 70). Após as monstruosas atitudes a que fica subjugado encontramos um herói lúcido, envergonhado e deprimido, sem esperança de perdão, pronto a cometer suicídio. Nesse momento Eurípides nos encanta ainda mais ao trazer o valor da solidariedade na figura de Teseu, a quem Héracles havia auxiliado a sair do inferno. Grato ao gesto amoroso de Héracles promete acolhê- lo em Atenas. Her: Ai de mim! O que fazer? Onde ausência de males Encontrar? Vôo ou desapareço sob a terra? Eia! Minha cabeça envolverei em trevas, Pois me envergonho dos males que perpetrei E sobre este, não quero lançar poluto Sangue e causar mal a inocentes. (EURÍPIDES, 2003, p. 137) Teseu: Não há treva que tenha tal negra nuvem capaz de ocultar a desgraça de teus males... Não me importa estar mal a teu lado, pois outrora também fui próspero: devo citar o dia em que salvo me trouxeste dos mortos para luz... Levanta- te, descobre tua mísera face, olha para nós. Quem é nobre dentre os mortais suporta o que vem dos deuses e não o rejeita... (EURÍPIDES, 2003, p. 141) Aquele que riqueza ou força mais do que bons amigos deseja possuir pensa mal (EURÍPIDES, 2003,p.155) A profundidade da percepção de Eurípides, não só nesses versos como em toda a obra, ilumina o campo de compreensão dos sentimentos ao trazer o valor da amizade e gratidão como elementos de transformação e mudança psíquica. Segundo Klein (1991) as relações de gratidão são próprias da capacidade de percepção da realidade interna e externa em seus aspectos positivos e negativos, responsável pelo reconhecimento da bondade e do perdão para consigo mesmo e com o outro. Considerações Finais

7 Não seríamos todos, em alguma medida, partícipes do âmbito Heráclito, uma vez que vivemos a tentar harmonizar nossas partes opostas? Se tomarmos as figuras de Héracles e Teseu como uma unidade representativa de diferentes conteúdos mentais, chegamos a vê- los como cidadãos de nosso próprio mundo interno, ora violento e sob o domínio dos impulsos, ora como aspectos civilizados e integrados da personalidade. Impossível não nos identificarmos com esses personagens da tragédia presentes em cada um de nós. Somos todos seres errantes transitando entre Eros e Tânatos na travessia do patrimônio emocional humano. A Mitologia e a Psicanálise se aproximam assim, na busca da compreensão dos acontecimentos que envolvem as questões da tragédia e da angústia da condição humana: retiram dos escombros a matéria- prima com que tecemos a arte de viver na intersecção de realidades e ficções. Os termos realidades e ficções trazem de início uma idéia de oposição, uma vez que alguns definem mito e mitologia como algo imaginário, histórias falsas, fictícias, fantasiosas, irreais. No entanto, realidades e ficções podem não ser assim tão antagônicas. Em relação à psicanálise, ambas são eixos da experiência psíquica, são verdades emocionais. E como já afirmava o próprio Freud, no mundo mental os contrários não são contradição, e os fatos do mundo externo são percebidos pela ótica das fantasias. Nesse sentido podemos dizer que as ficções ganham status de realidade. O fascínio que as narrativas mitológicas exercem se deve ao fato de proporcionar a busca de compreensão de nossas verdades psíquicas. Cada um de nós em sua trajetória rumo à constituição da própria identidade carrega na bagagem seus mitos transgeracionalmente transmitidos. Cabe- nos a tarefa de acomodá- los no tempo e espaço dos momentos da vida de modo a conhecer e respeitar o âmbito do divino e do humano, o que segundo os gregos antigos norteia a justa medida. Os recursos do trabalho psicanalítico auxiliam a entrada em nossos templos mitológicos sagrados para que deles retiremos sabedoria! REFERÊNCIAS BION, W. R.Diferenciação entre a Personalidade Psicótica e a Personalidade Não Psicótica.1957. In:KLEIN, M.Hoje: desenvolvimentos da teoria e da técnica.rio de Janeiro: Imago,1991. v. 1. EURÍPIDES. Héracles.Introdução, tradução e notas de Cristina Rodrigues Franciscato.São Paulo: Palas Athena,2003. GREEN, A.Sobre a Loucura Pessoal.Rio de Janeiro: Imago,1988.

8 GREEN, A.O Desligamento: psicanálise, antropologia e literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1994. GRIMAL, P.Dicionário da Mitologia grega e Romana. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil 2005. KLEIN, M.Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963).Rio de Janeiro: Imago, 1991. KURY, M. G.Dicionário de Mitologia grega e romana.8 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. SÓFOCLES. A Trilogia Tebana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. WINNICOTT, D. W. O Brincar & a Realidade. Rio de Janeiro: Imago,1975. WINNICOTT, D. W. Apud:ABRAM, J.A Linguagem de Winnicot.Rio de Janeiro: Revinter,2000.