ASSEMBLEIA PARLAMENTAR PARITÁRIA ACP-UE

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Transcrição:

ASSEMBLEIA PARLAMENTAR PARITÁRIA ACP-UE Documento de sessão ACP-EU/100.655/B/10 13.01.2010 RELATÓRIO sobre a liberdade e a independência dos meios de comunicação social Comissão dos Assuntos Políticos Co-relatores: Jean Rodolphe Joazile (Haiti) e Rainer Wieland PARTE B: EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS DR\801288.doc AP/100.655/Bv01-00

Introdução O conceito de liberdade e independência dos meios de comunicação social está implícito no conceito básico de liberdade de imprensa ou de liberdade de comunicação e de expressão, através de meios que incluem diversas publicações e suportes de informação electrónica. Durante séculos, esta liberdade centrou-se na palavra escrita, até que, no século passado, assistimos ao desenvolvimento da rádio e da televisão, sujeitas a graus distintos de censura e de controlo a nível mundial e, mais recentemente, à eclosão da Internet. O uso da Internet para fins informativos e comunicativos fez com que esta se tornasse no meio utilizado com mais frequência, tanto no mundo industrializado como nos países em desenvolvimento, e alargou as fronteiras da liberdade de expressão, especialmente nos países cujos regimes políticos impõem uma censura rigorosa, muitas vezes, de forma implacável. A liberdade de imprensa e dos meios de comunicação social continua a ser uma questão séria, não só nos estados autoritários, mas também nas democracias instituídas. A independência dos meios de comunicação social, que está associada à liberdade dos mesmos, mas que é dela distinta, é também objecto de análise, uma vez que os monopólios estatais e a concentração de propriedade de empresas da comunicação social suscitam preocupação em todas as partes do mundo, inclusive na UE. Acordos Internacionais que regem a liberdade e a independência dos meios de comunicação social A liberdade de imprensa está consagrada na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que, no seu artigo 19.º declara que "Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão." A Carta dos direitos fundamentais da União Europeia desenvolve o princípio e faz uma referência explícita aos meios de comunicação social no artigo 11.º " 2. São respeitados a liberdade e o pluralismo dos meios de comunicação social." No artigo 9.2. do Acordo de Parceria de Cotonu, exige-se respeito por todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, mas sem qualquer referência concreta à imprensa ou aos meios de comunicação social: "As Partes reafirmam as suas obrigações e compromissos internacionais em matéria de direitos humanos. (...). As Partes comprometem-se a promover e a proteger todas as liberdades fundamentais e os direitos humanos, quer se trate de direitos civis e políticos quer de direitos sociais, económicos e culturais." A Associação Mundial de Jornais (WAN-FRA) consagra nos seus estatutos os termos da Declaração Universal: "A WAN-IFRA partilha a convicção fundamental de que a liberdade e a independência dos jornais e da indústria editorial desempenham um papel indispensável na manutenção de sociedades livres e na promoção dos direitos humanos." DR\801288.doc 2/6 AP/100.655/Bv01-00

Apesar dos compromissos dos signatários da Declaração Universal e de outros acordos, na prática, tanto a liberdade como a independência dos meios de comunicação social estão sob ameaça ou são mesmo inexistentes em muitos países. Ameaça à liberdade e à independência dos meios de comunicação social "Tenho mais medo de três jornais que de cem mil baionetas." (Napoleão) A liberdade de expressão na imprensa ou em outros meios de comunicação social é restringida de diferentes modos, seja de forma sistemática pelas autoridades centrais nacionais ou de forma mais específica, ao nível da publicação ou de um jornalista em concreto. Os Repórteres Sem Fronteiras (RSF), uma organização não-governamental internacional que em 2005 foi galardoada com o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu para a Liberdade de Pensamento, publicam anualmente as classificações dos países em matéria de liberdade de imprensa. Os critérios aplicados são os seguintes: número de jornalistas assassinados, expulsos ou perseguidos, existência de um monopólio estatal na televisão e rádio, existência de censura ou auto-censura nos meios de comunicação social, independência global dos meios de comunicação social, condições com que os jornalistas estrangeiros se deparam. No seu último relatório, os Repórteres Sem Fronteiras são particularmente críticos em relação a alguns Estados-Membros da UE, quando afirmam que "A liberdade de imprensa deve ser defendida em todo o mundo com o mesmo empenho e perseverança. (...) É preocupante assistir à queda progressiva ano após ano das classificações de democracias europeias como a França, a Itália e a Eslováquia. A Europa devia dar o exemplo em matéria de liberdades civis. Como pode condenar violações dos direitos humanos fora da UE se não se comporta de forma irrepreensível no seu próprio território?" (8.º Relatório Anual de 2009). Os Repórteres Sem Fronteiras destacam a Itália (49.º lugar) e a Bulgária (68.º) como os países que apresentam as quedas mais assinaláveis, motivadas pelo crime organizado e pelas perseguições da máfia a jornalistas. A Eslováquia (44.º) é criticada pela ingerência governamental nas actividades dos meios de comunicação e a França caiu para o 43.º lugar na sequência de investigações policiais a jornalistas, a buscas nos meios de comunicação e a ingerência no sector por parte de altos responsáveis políticos. A UE coloca a Dinamarca, a Finlândia e a Irlanda no topo da lista, mas é preocupante verificar que a Croácia (78.º) e a Turquia (122.º), dois países candidatos à adesão à UE, caíram de forma significativa. Relativamente aos países ACP, há que louvar o facto de alguns países africanos ocuparem os primeiros 50 lugares, não obstante a região do Corno de África representar alguns dos casos mais graves, nomeadamente a Eritreia, onde os meios de comunicação social não são de todo tolerados e 30 jornalistas se encontram detidos. A Somália destaca-se igualmente por ser o país com o maior número de jornalistas assassinados entre 2008 e 2009. Em outras partes de África observam-se classificações distintas, que vão do Mali (30.º) e do Gana (33.º) à Nigéria (135.º) ao Zimbabué (136.º) e à Guiné Equatorial (158.º). O Níger, a DR\801288.doc 3/6 AP/100.655/Bv01-00

Gâmbia, a República Democrática do Congo e o Ruanda ocupam igualmente os últimos lugares da classificação. Nas Caraíbas, elogia-se o Haiti por ter ascendido ao 57.º lugar, muito distante de Cuba, que é duramente criticada pela liberdade de imprensa inexistente, com dezenas de jornalistas detidos, bloqueios frequentes de sítios da Web e detenção de bloguistas. No Pacífico, o golpe militar nas Ilhas Fiji é responsável pelo 152.º lugar ocupado pelo país, o que representa uma queda de 73 posições. No entanto, o 56.º lugar obtido pela Papuásia-Nova Guiné reflecte "uma classificação muito respeitável para um país em desenvolvimento". Além disso, a China, a Birmânia, a Rússia e o Irão são duramente criticados pelas violações generalizadas da liberdade de imprensa, que vão desde a detenção de jornalistas e a censura à Internet na China aos ataques e assassínios de jornalistas e activistas na Rússia. A Freedom House (FH), uma organização não-governamental internacional, aborda igualmente a questão da liberdade e da independência dos meios de comunicação nas suas investigações e faz eco das conclusões dos Repórteres Sem Fronteiras no seu relatório intitulado "Liberdade de Imprensa 2009". Dos 195 países analisados, 70 (36%) são classificados como "livres", 61 (31%) são "parcialmente livres" e os restantes 64 (33%) são considerados "não livres", o que representa um declínio geral da liberdade, em comparação com o ano anterior. O relatório da FH considera igualmente que a Itália transita para a categoria "parcialmente livre", devido ao crime organizado, mas também à legislação em matéria de difamação, que restringe a liberdade de expressão, e à concentração da propriedade dos meios de comunicação social. A FH assinala igualmente os assassínios de jornalistas na Bulgária e na Croácia mas elogia o Haiti e a Guiana pelos progressos assinaláveis. De um modo geral, conclui que "os estados autoritários estão a consolidar cada vez mais o controlo sob os meios de comunicação. Nos últimos cinco anos, verificou-se uma limitação do espaço votado aos meios de comunicação independentes em países como a Rússia, a Etiópia e a Gâmbia. O nível de violência e de perseguição física direccionada à imprensa, tanto pelos governos como pelos actores não estatais, continua a subir em muitos países. Muitos casos nunca são solucionados e estes ataques têm um efeito intimidatório nos meios de comunicação social, contribuindo para a auto-censura." Num relatório separado, intitulado "Liberdade na Internet", a FH debruçou-se sobre 15 países, incluindo o Reino Unido, a África do Sul, o Quénia, assim como a China e Cuba. O relatório conclui que "Tendo em conta que a utilização da internet e dos telemóveis eclode por todo o mundo, os governos estão a adoptar novas e múltiplas formas de controlar estas tecnologias que vão muito além da filtragem técnica." Apesar de se constatar um certo grau de censura na Internet em todos os países estudados, a Estónia (10%), o Reino Unido (20%) e a África do Sul (21%) surgem no topo da lista, enquanto a China (78%) e Cuba (90%) figuram entre os países que cometem as piores violações da liberdade na Internet. DR\801288.doc 4/6 AP/100.655/Bv01-00

Independência dos meios de comunicação social: O controlo e a propriedade de meios de comunicação social são vitais para a sua independência. Na melhor das hipóteses, o estado ou os proprietários privados dos meios de comunicação social podem manipular o que é escrito ou difundido, de forma a servir os seus objectivos políticos ou sociais. No pior cenário, como no Ruanda, a rádio pública foi utilizada para fomentar o genocídio. Em 2008, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a concentração e pluralismo dos meios de comunicação social na UE, com base num relatório elaborado por Marianne Mikko, e segundo a qual: o pluralismo dos meios de comunicação é um "pilar essencial do direito à informação e da liberdade de expressão, consagrados no artigo 11.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e que constituem princípios fundamentais para a preservação da democracia, do pluralismo cívico e da diversidade cultural". A própria Comissão Europeia declarou no seu documento de trabalho que "o conceito de pluralismo dos meios de comunicação não pode limitar-se ao problema da concentração da propriedade desses meios, mas levanta igualmente questões que têm a ver com o serviço público de radiodifusão, o poder político, a concorrência económica, a diversidade cultural, o desenvolvimento de novas tecnologias e a transparência, bem como as condições de trabalho dos jornalistas". Daí que, em cada vez mais países desenvolvidos, a independência dos meios de comunicação social esteja ameaçada pela concentração da propriedade que, por sua vez, poderá ter um impacto político, económico e social muito mais alargado. A Itália é apresentada como um exemplo de retrocesso da liberdade, mesmo sendo um dos países fundadores da UE. Durante as eleições europeias de 2009, os partidos da oposição do Reino Unido acusaram a BBC, a empresa de radiodifusão pública, de atitude discriminatória, tanto no tempo de antena antes das eleições como aquando da cobertura dos resultados. O facto de demasiados jornais estarem concentrados nas mãos do mesmo proprietário estrangeiro também tem sido alvo de críticas. Iniciativas para promover a liberdade e a independência dos meios de comunicação social A UE tem sido uma acérrima defensora dos direitos fundamentais e a introdução da sua Carta no novo Tratado mostra como a protecção destes direitos é transversal nos diferentes domínios de acção. A Comissão Europeia deve assegurar o respeito destes direitos no seu território e nas suas relações com o resto do mundo. Nos acordos estabelecidos com países terceiros, verifica-se um reforço da condicionalidade nas condições impostas aos seus parceiros comerciais e destinatários da ajuda no que se refere ao respeito destes direitos, apesar de muitas vezes os interesses comerciais se sobreporem à dimensão dos direitos humanos, como é o caso das relações com a China. A Comissão Europeia lançou algumas iniciativas que visam especificamente promover a liberdade nos meios de comunicação social, como o Prémio Lorenzo Natali e as medidas DR\801288.doc 5/6 AP/100.655/Bv01-00

tomadas no quadro do Instrumento Europeu para a Democracia e os Direitos Humanos, segundo o qual "a independência dos meios de comunicação social e a liberdade da imprensa" constituem uma das áreas prioritárias no capítulo da governação. A UE e a União Africana estão também a criar o Observatório Pan-Africano dos Meios de Comunicação. Conclusão Apesar de a liberdade e a independência dos meios de comunicação social serem internacionalmente reconhecidas como um aspecto fundamental da liberdade de expressão e um elemento crucial para a democracia e para os direitos civis e humanos, assistimos constantemente, em todo o mundo, a violações de forma sistemática ou individual por parte de regimes autoritários ou de criminosos. A APP deve manter-se atenta e promover a protecção desta liberdade nos seus trabalhos e nas suas relações com outras instituições e com os próprios países membros. DR\801288.doc 6/6 AP/100.655/Bv01-00