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Transcrição:

NUPEH NÚCLEO DE PESQUISAS HISTORIOGRÁFICAS Orientação: Prof. Dr. José Costa D Assunção Barros Por: Amanda Estrella Helena Bento Leandro Gama Pedro Henrique Ruan Rodrigo Simone Fontes (Graduandos em Licenciatura de História) Entrevista com Prof. Dr. Marcos José de Araújo Caldas, docente de História Antiga no Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Campus de Nova Iguaçu. Instituto Multidisciplinar Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 1º semestre de 2011

2 BIOGRAFIA Marcos José de Araújo Caldas, carinhosamente chamado de Marquinhos, nasceu em 1969, no interior do Estado do Rio de Janeiro, em Vassouras, a cidade dos Barões do Café. O caçula de onze irmãos gostava de andar descalço pela fazenda do avô, subir em árvores, cantar antes do galo e viver de um jeito simples, mas o destino lhe reservara muito mais. Estudou em escola para surdos, fez química, filosofia, francês, descobriu o que era Paidéia, encantou-se por História Antiga e viajou mundo atrás do sonho de se tornar um Grande Historiador. Até hoje esse menino conserva a mesma simplicidade de quem se diz um eterno aprendiz, mas para muitos dos seus admiradores é um verdadeiro sábio! CALDAS, Marcos José de Araújo. Marcos José de Araújo Caldas nasceu em 1969, nascido em Vassouras no interior do Estado do Rio de Janeiro. Prestou exame para em História para a Universidade Federal Fluminense (UFF). Formou-se em 1992. Em sua graduação ganhou uma bolsa e passou um ano na University of Oklahoma em que estudou Hebraico. Sempre muito dedicado ao fazer Histórico, Marcos Caldas já na graduação cursava também Letras na UFF e Filosofia no Mosteiro de São Bento, o que levou a possuir uma visão ampla da História saindo dos limites confortáveis desta Ciência. Este curso de Filosofia o levou a conhecer filósofos antigos e a desperta-lo para o estudo de línguas clássicas, como o latim e o Greco, o que o levou a se interessar pela antiguidade. Fez o Mestrado em História Antiga na UFF com orientação do Professor Ciro Flamarion Cardoso em 1993; cujo tema era Ordem Social e Política nos Textos de Ésquilo - Um estudo sobre a Tragédia Grega 478-462 a.c, obteve grau de mestre em 1998. Continuou seus estudos na Alemanha, na Rheinische Friedrich Wilhelms Universität Bonn em que estudou durante quatro anos, e obteve três graus em seu doutorado: Arqueologia, História Antiga e Línguas Clássicas. Sua tese de doutorado versou sobre o Oráculo de Delfos. Também na mesma universidade alemã obteve uma extensão universitária em ciências da religião. Professor Marcos Caldas também possui

3 experiência no campo arqueológico, possuindo uma passagem por Galati, na Romênia, em que se aprofundou seus estudos em arqueologia de campo. No Brasil, possui um sítio arqueológico em Itaipu, Niterói, Rio de Janeiro, em que acompanha pesquisas arqueológicas em sambaquis nesta região. Hoje professor adjunto de História Antiga e Teoria e Metodologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ-IM). Concomitantemente com suas aulas, ministra aulas de Egípcio Antigo, Latim Clássico, Hebraico Quadrático e Ivrit e Grego Clássico. Membro do grupo LITHAM (Laboratório de Teoria da História, Antiguidade e Medievo) acompanha pesquisas na linha da economia política das religiões. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/0462102982176400

4 NUPEH: Qual a sua origem, como foi sua escolha no vestibular e o seu interesse pela História? CALDAS: Nasci em Vassouras, em 1969. Meu pai é policial aposentado, minha mãe foi professora de latim, mas era basicamente uma dona de casa, tenho onze irmãos, todos os meus antepassados são de família grande. No Golpe de 64, meu avô foi torturado durante três anos na prisão e isso me marcou muito. Quando eu cheguei ao Rio de Janeiro fui conhecer a história dele, ele era uma pessoa bastante influente, muito inteligente, falava várias línguas, era advogado e jornalista. Enfim, no interior com um monte de irmãos, nós passamos muitas dificuldades, mas pra mim foi maravilhoso porque andava a cavalo, caçava, enfim, hoje eu entendo! Estudei em colégio católico, uma escola de freiras italianas que era o crème de la crème da região. Quando meu avô saiu da prisão, ele voltou para o mercado de trabalho, não conseguiu mais a promotoria porque foi aposentado compulsoriamente, mas continuou trabalhando como advogado. Ele pegou uma causa no colégio sobre um terreno contra um figurão muito conhecido em Vassouras chamado General Severino Sombra e ganhou a ação. O terreno valia muito, logo os honorários dele seriam muito altos, mas meu avô resolveu trocar pela minha educação. Então, eu fui privilegiado na família porque todos os meus irmãos estudaram em colégios públicos. Eu passei a maior parte da minha infância e adolescência neste colégio e ele era realmente muito bom. Tinha latim e muita disciplina. Eu meu lembro que nas salas dos adultos no alto do quadro tinha várias varinhas de marmelo, cada uma de um tamanho, quem chegava atrasado, já viu! Eu tinha pouco contato com os outros alunos, a maioria eram filhos de fazendeiro, pessoas muito ricas, então eu me afastava muito desses grupos. Participava das competições de xadrez porque nos campeonatos de futebol eu era um grande perna-de-pau. Eu tinha um amigo que era cigano e ele virou um grande amigo, ás vezes ele fugia de casa porque o pai batia nele com chicote. Esse isolamento causou problemas de aceitação e isso é um sofrimento quando se é criança. Eu me lembro que quando cheguei na UFF em 86 eu não tinha a menor ideia do que era uma universidade. Mas, antes de entrar na universidade eu passei dois anos numa fazenda de amigos enquanto minha mãe cuidava do meu avô já com uns noventa anos e muito abalado pela morte de minha avó. Lá eu caçava rãs, rolinhas e adorava acordar o meu galo de madrugada! Passado algum tempo, minha mãe ainda muito ocupada com o estado do meu avô não percebeu que me

5 matriculou numa escola de surdos em Niterói. No primeiro dia que eu cheguei na escola eu achei tudo muito estranho porque ninguém falava nada! (risos) E ainda fiquei lá uns três meses ajudando a turma até que os professores me transferiram para outro andar. Minha mãe me matriculou na escola técnica de contabilidade chamada Maria Thereza e fiz em dois anos. Faltavam ainda uns seis meses para terminar o ano letivo, então comecei a fazer um cursinho de pré-vestibular onde eu ficava o dia inteiro. No dia da inscrição do vestibular, eu nem imaginava que tinha que escolher o curso, então olhei um manual com todos os cursos oferecidos e eu escolhi História! Minha mãe me botava um medo horrível, eu tinha aquele trauma dos militares porque meu avô foi torturado: se você não passar, você vai servir o exército! Então, eu estudei que nem louco, mas eu gostava disso, adorava bater papo com os professores. Eu já tinha lido todas as apostilas de todos os turnos antes das provas em dezembro, em novembro já tinha feito todos os exercícios, decorei toda a tabela periódica! Na UFF fui fazer História exatamente com professores que chegavam do exílio. A universidade se tornou um meio para facilitar a entrada de anistiados, como Ciro Flamarion Cardoso, Leandro Konder, Virgínia Fontes, Daniel Aarão Reis e eu consegui ter contato com esse pessoal. NUPEH: Conte-nos sobre sua graduação, as dificuldades, o acesso aos livros e os professores que o marcaram. CALDAS: Hoje a nossa biblioteca está melhor do que a da UFF daquela época. A biblioteca da UFF era mais ou menos do tamanho da sala dos departamentos, mas ela cobria as áreas de história, ciências sociais, antropologia, psicologia, letras, medicina, farmácia, etc... Imagina isso! E ainda ficava no oitavo andar, num local muito escuro. Em minha opinião, as bibliotecas no Brasil foram feitas para uma justificativa, elas nunca foram prioridade, essa é que é a verdade, elas nunca estiveram na Zona Sul, Copacabana, elas sempre estiveram na periferia da cidade, elas nunca foram pensadas num lugar estratégico. Antes de você construir uma universidade, você tem que pensar no pessoal que tem que chegar lá. As universidades americanas e canadenses projetam: e se formos bombardeados? São todos locais estratégicos, você nunca põe uma universidade a esmo, é um negócio muito planejado, essa sim é Universidade! No Brasil não funciona, elas são feitas em lugares para atender certa política educacional, essa é a minha maneira de ver. A educação que eu tive é com E maiúsculo, ciência, entende! Então, aqui está ótimo, maravilhoso, mesmo no Colégio Monteiro Lobato era muito

6 melhor que a UFF antigamente. Nosso curso noturno era na escuridão, quantas vezes tive aula no escuro, não tinha banheiro, aquilo ali era um centro de tráfico, estava começando o tráfico de drogas, postos universitários viraram locais privilegiados para isso, entende. Em resumo: muita gente, local perigoso, sem condições de trabalho, sem ar-condicionado, mas você tinha um corpo docente com um projeto de nação, projeto que era diferente daquele dos militares, eles pensavam grande, os professores não pensavam em tentar resolver o problema do aluno, pensavam em tentar resolver o problema do país, isso que tava na cabeça deles, entende, eles tinham um projeto de nação, que a nossa geração perdeu. Nós pensamos nos problemas dos alunos, da instituição, eles tinham um projeto de país, então, todos esses problemas, eles passavam ao largo. O contato com Konder, Ciro, Virgínia, Daniel, Vainfas sempre foi muito gratificante, sempre me emocionou muito, porque eles não se interessavam no pontual, no imediato, eram projetos a longo prazo e eles próprios hoje deixaram de pensar assim, essa é que é a verdade, mas eles já tiveram um projeto de nação. NUPEH: Quando surgiu o interesse por História Antiga? Como era o acesso às fontes antigas em seu tempo de graduando? CALDAS: Bom, não creio que a gente tenha interesse de fato em História Antiga, quando você está em um país periférico como o Brasil, é claro, periférico em relação a centros de referência em História Antiga e Filologia Clássica, você não tem acesso. Temos acesso a textos sagrados da Bíblia, que te remetem a alguma ideia de antiguidade, via principalmente língua latina, se você sabe um pouco de latim isso te facilita, pode abrir o interesse. A própria mídia, por exemplo, por um tempo exibia épicos na sessão da tarde: Daniel na Cova dos Leões, Jericó e Josué, Sansão e Dalila, mas a visão pagã do período clássico é muito pequena, depende muito de casa. Minha mãe tinha livros e gostava de contar histórias, mas meu interesse nasceu mesmo foi quando fui para o Mosteiro de São Bento. Um ano depois que eu fui para a universidade, eu recebi o convite para fazer a escola teológica e fiquei sete anos tendo contato com professores de outra estirpe no Rio de Janeiro, muito conservadores, que não se abalaram, para eles não houve ditadura, não tinha história política e eles seguiam uma tradição muito antiga de dar aula. Lá eu tive contato não só com História Antiga, mas com Filosofia e Filologia Antiga, professores muito bons de grego, latim, hebraico, professores espanhóis, italianos, um argentino que dava aula de lógica, vários

7 estrangeiros que eram pagos a peso de ouro pelo Mosteiro e que se hospedavam lá. Era muito bom! NUPEH: Sabemos que o senhor cursou Química, além de Filosofia e Letras. Porque o interesse nestes cursos? O que eles influenciaram em sua formação como Historiador? CALDAS: Eu comecei o técnico em química um pouquinho antes de terminar a faculdade. Procurava emprego, já tinha feito dois vestibulares pra federal de química de São Cristóvão que se separou do CEFET e criou uma escola própria. Eu encontrei um amigo, nós dois já éramos formandos e contei que estava fazendo química, ele disse: Ih! Involuiu, eu achei engraçado essa reação dele, involuí por quê? Eu acho interessante essa visão que temos das áreas exatas, e vice-versa. É outro papo, outro diálogo, outro perfil, outras conversas. Certa vez eu fiz uma prova de cálculo quatro, eu não lembro mais quais cálculos, têm vários tipos, o cálculo é uma disciplina que você tem que guardar fórmulas matemáticas e encaixar essas fórmulas de modo a encontrar o resultado, o segredo é você encaixar na ordem certa, eles te dão um problema e você vai resolvendo o problema encaixando as fórmulas. Eu me lembro que fiz uma questão com oito páginas de cálculo e ao final o resultado era dois. Eu dei o resultado raiz de quatro, o professor me deu zero porque eu não dei o resultado certo, eu quase desmaiei. Ele disse: você tem que se acostumar com a precisão, não pode haver erros, isso vai pesar na sua experiência. Eu fiquei tão abalado com aquilo! Então, as ciências exatas, não é que elas são exatas, é que a exatidão do seu pensamento diminui o grau de probabilidades, existe o improvável dentro da probabilidade, então quanto mais exato você for, menor é o grau, você tenta diminuir a margem de erro, principalmente em química. O produto químico se modifica, mesmo a água modifica suas estruturas, quando você aumenta ou diminui a temperatura, ela modifica a forma, modifica as ligações, então dependendo de como a temperatura está você tem um resultado, nos cálculos você diminui, mas você não chega a certeza absoluta, elas não são exatas, mas elas primam pela exatidão, a fim de diminuir sua margem de erro. Na hora que você vai para o laboratório dá tudo errado, nunca dá o resultado certo. Eu me lembro que na monografia, a minha ideia de trabalho final, as monografias eram trabalhos finais para se fazer em laboratório, era fazer um detergente do amido da batata, o problema era que o raio do saponáceo não fazia espuma, e aquilo dava nervoso na mão, então o professor

8 disse que não ia fazer espuma nunca porque o amido não tirava a gordura que era o mais importante. Enfim, não terminei o curso de química porque fiquei muito doente, fazia muitas coisas ao mesmo tempo: três universidades, trabalhava em dois lugares, pesava 38 kg, acabei tendo um treco e fui parar na UTI em coma, se eu não parasse iria morrer. Filosofia eu continuei no Mosteiro, um ano depois terminei a licenciatura em História porque eu fazia bastantes matérias, fazia sempre em dois turnos, e era engraçadíssimo porque tinha várias matrículas. Entrei para Letras, português-francês na Maison de France, eu já fazia francês na Aliança Francesa, melhor curso de francês do Rio de Janeiro com bolsa que era raríssimo, então eu entrei no terceiro período e fazia tudo ao mesmo tempo: Filosofia no Mosteiro de São Bento, Letras e bacharelado em História na UFF. Era um vai volta na barca! NUPEH: Sobre o mestrado, como surgiu a escolha, o senhor trabalhou literatura antiga no mestrado, o curso de letras influenciou sua escolha? CALDAS: Quando eu estava no Mosteiro eu tive um professor chamado Antonio Tallon y Castilla, que lutou na Guerra Civil Espanhola, depois fugiu para o Brasil, se converteu e se tornou um homem muito religioso, para tentar compensar a culpa que carregava. Ele tinha uma retórica fabulosa, assim como o Monge Serrat que era um dos principais apresentadores do programa Músicas das Igrejas na rádio MEC. Ele falava e você entrava no universo dele. Tudo o que ele me contava da Alemanha da Baviera, um dia eu falei com ele que eu gostava muito de estudar Filosofia, que gostava muito das aulas dele e ele me perguntou: Você já leu Paideia?. Eu nem imaginava o que era aquilo, respondi que não! Então, ele disse: Leia e depois volte para conversar comigo. Fui ao Centro Cultural do Banco do Brasil que estava sendo inaugurado naquela época. Eles tinham uma edição portuguesa do livro Paideia, então perguntei se tinha algum negócio chamado Paideia. A bibliotecária respondeu: O que é Paideia, é um homem, é um objeto? Eu virei o computador pra mim e digitei Paideia. Apareceram três volumes. Paideia é um livro que conta desde Homero a Alexandre todo o período helenístico, o desenvolvimento da ideia de educação grega, como era a educação grega em Homero. Quando eu vi o tamanho do livro, eu pensei vou ler a vida toda! O pessoal achava que eu andava com a bíblia debaixo da mochila no Mosteiro. Eu consegui emprego na biblioteca de engenharia da UFF e pedia a minha chefe para assinar pilhas de empréstimos de Paideia. Quando terminei eu fui conversar com o

9 monge. Ele perguntou Bom, o que você gostou? Eu respondi que gostei muito do Ésquilo, a tragédia e queria tentar ver aquele poeta como filósofo, ver o teatro como filosofia. Lá no Mosteiro, os professores não falavam com os alunos, eles entravam na sala de aula e falavam olhando para a janela, depois pegavam suas coisas e iam embora. Alguns nunca olharam para a turma! Eu tive contato com professores de Filosofia, Filologia Antiga, professores muito bons. Eu tive aula de Teoria do Conhecimento com o Professor Irineu Penna, aluno do grande pensador francês Jacques Maritain, que me deu um livro desse pensador, mas depois me roubaram. Isso pra mim era o máximo! Então esses professores me deram suporte para o Mestrado, mas eu acho que não merecia ter passado porque havia turmas excelentes, mas todos foram reprovados! Eu não sei o que aconteceu na UFF daquele ano, quase todos os alunos egressos da própria UFF e de outros estados foram reprovados. Apesar de imaturo, eu estudei muito e passei em terceiro lugar. Mas, sem falsa modéstia, muitos grandes historiadores poderiam estar fazendo aquele mestrado e abandonaram a carreira. No dia da matrícula a secretária me perguntou: Você não tem orientador?! Eu vi o Ciro Flammarion Cardoso passando no corredor e me apresentei: Ciro, meu nome é Marcos, você aceita ser meu orientador? Ele disse: Você trabalha o quê? Eu respondi: Trabalho um romance épico, Ésquilo. Eu estudei no Mosteiro. O quê, no Mosteiro?! O Professor Ciro aceitou e perguntou quais as letras que eu trabalhava, me lembro disso até hoje. Nunca tinha ouvido falar disso. Traduzir tragédia é muito difícil, eles inventam palavras, por causa da licença poética. Eu não fazia a mínima ideia de como apresentar o pré-projeto. Guardo tudo que escrevi em casa, quando leio dou risadas! Na época, a UFF dava uma bolsa aos dez primeiros colocados. Quando recebi a primeira bolsa de mestrado eu comprei um monte de goiabada e uvas verdes. Então, eu fui aprovado para o mestrado na UFF em 1993 e foi aí que conheci melhor o Professor Ciro. Ele tinha acabado de chegar do pós-doc em Nova Iorque e estava com muitas ideias novas. Iniciava-e uma reforma curricular e o professor Ciro Cardoso queria implantar no Brasil um centro de estudos lingüísticos voltados para o estruturalismo na História. Grandes autores, como Umberto Eco, Michael Bakhtin e outros, ele queria transformar a UFF num centro de linguística para historiadores e mesmo eu que já tinha tido contato com a linguística em Letras achava aquilo tudo muito difícil porque a gente tem contato com autores como Noam Chomsky, Saussure, Jakobson. O Ciro tinha uma linha marxista-lingüística e eu aprendi muito. A preocupação dele era que os alunos não tinham método de leitura, de análise do objeto. Foram dois anos de doutrinamento; marxismo eu aprendi com Leandro

10 Konder e a Virgínia Fontes na época da Graduação; mas com o Ciro era a formação de análise de dados. O projeto fracassou, as pessoas foram se desinteressando, então o Professor Ciro abandonou a lingüística e voltou para as antigas teorias. Poucos aproveitaram o curso como eu. Procurei aplicar no trabalho de mestrado vários métodos de análise de discurso nas tragédias gregas, usei tabelas estatísticas em línguas antigas. Deixei uma cópia lá na prateleira da UFF! NUPEH: Qual o papel que sua família teve com relação à sua formação acadêmica? Seus filhos são influenciados por isso? Como? CALDAS: O mais velho a gente começou ensinando egípcio lá na Alemanha onde ele nasceu. Assim que ele começou a aprender as palavrinhas, eu e a minha esposa que é professora de História Antiga também começamos a ensinar egípcio. Compramos uns carimbinhos com figurinhas que são muito populares na Alemanha. As línguas antigas são tão populares que eles vendem joguinhos para crianças, palavras cruzadas em latim, jogo romano, carimbos em hieróglifos, têm várias coisinhas assim, sabe? Então eu ensinava o meu filho a fazer o nome dele com os carimbinhos em egípcio. NUPEH: O historiador Robert Darnton afirma: Nós estamos vivendo neste período de transição, onde a mídia impressa está em crise e a mídia eletrônica está crescendo, mas ainda não se adaptou às necessidades dos leitores. As vendas de livros digitais já ultrapassaram as vendas dos exemplares de capa dura nos EUA, este foi um dos assuntos debatidos na Festa Literária de Parati no ano de 2010. É indiscutível a presença no meio acadêmico de publicações digitais, sejam elas artigos, revistas, jornais eletrônicos ou até mesmo livros completos e fontes históricas armazenadas em grandes acervos digitais. Então a pergunta que nos remete é: o historiador de hoje está preparado para lidar com esta nova forma de fazer e pesquisar história? Caso não, o que em sua opinião poderia ser feito para preparar os historiadores para usar estas novas tecnologias? Onde pesquisar? Que tipos de fontes e como tratá-las? CALDAS: Uma coisa é você ver os Estados Unidos, onde os recursos para pesquisa de livros e laboratórios são abundantes, outra é olharmos a realidade brasileira em que nada disso acontece. Dizem que a única corrente historiográfica que prevaleceu

11 plenamente no Brasil foi o Positivismo. Algumas correntes como o marxismo, segundo Leandro Konder, foram recebidas no Brasil na década de 40/50 sem aparato bibliográfico, então se ouvia falar, conhecia-se o marxismo por orelhada, o que eu acho que ainda hoje é assim. Lá fora é uma passagem, uma velocidade enorme, mas no Brasil estamos vivendo de saltos! Lá fora a caminhada é enorme, ela tem uma continuidade. No Brasil não há preocupação em abastecer as bibliotecas de modo que o aluno conheça o assunto. Por isso, o positivismo continua sendo a grande corrente teórica. Não adianta nós estarmos sempre com a última novidade teórica a mão se nós não temos o estofo para poder regular. Ao invés da gente trabalhar com o instrumento, quer dizer fazer do saber um instrumento de trabalho, nós somos instrumentos, nós não controlamos o nosso saber. Instrumentos de quem? De historiadores no exterior. E quando eu falo lá fora, eu não estou falando só de EUA. Alguns países da América Latina, o caso menos grave é a Argentina, que apesar de tudo ainda tem uma estrutura. Então está ocorrendo um galope, uma corrida, o passado ficou mais atrás, desde 1995 eu sinto que aquilo que era antes da década de 90 aconteceu a cem anos, tanto que as músicas e filmes da década de 80 parecem uma coisa totalmente nova. É como um salto para frente no nosso caso, não houve uma continuidade, houve um tropeção no futuro, o Brasil tropeça, ele vive tropeçando no futuro, e eu acho que muita coisa que a gente diz, ah, esse homem aí, esse sujeito, esse pensador é um cara que esteve a frente do seu tempo. Não é verdade isso, nós é que mantemos certas estruturas do tempo deles, certos contextos, infelizmente! É uma infelicidade admirarmos pessoas como pessoas além do seu tempo, pelo contrário eles estão no tempo deles, nós é que estamos atrasados mesmo! Nós é que mantemos velhos conceitos e estruturas mentais que nos acompanham e se reproduzem principalmente na academia, então a gente fica erigindo essas pessoas, não estou dizendo que eles não têm valor, têm valor imenso, mas o que não tem valor é essa falta de opção em relação aos pensadores do passado, tem pensadores maravilhosos, mas que sequer aparecem na nossa história, por conta da revolução informacional que os deixam cada vez mais de lado. E por quê? Porque é um natimorto. A ciência no Brasil nasce natimorta! O cara tem uma grande ideia, mas o decepam, dão-lhe uma paulada, quebram a perna dele e ele não consegue continuar a pesquisa e o negócio afunda. E num mercado de concorrência, outro se aproveita. É assim e vamos continuar assim, infelizmente! Mas, a minha esperança é que o mundo muda muito rápido. Eu acho que é possível fazer uma revolução na educação, não aquela que o Cristovão Buarque quer, mas depende muito dos alunos, depende muito do

12 movimento estudantil organizado, não partidarizado, ou seja, politicamente organizado e não partidarizado. NUPEH. A revolução informacional estaria partindo mais do aluno do que do professor? CALDAS: O professor controla a informação. Se você estivesse lá fora o professor também te recomendaria a biblioteca, só que quando você chega numa biblioteca você esquece porque tem muita opção. Eu acho que é isso que está faltando! Não é culpa do aluno ou do professor, é culpa de uma política institucional. Agora, eu também não posso negar que o professor controla a informação, então eu tenho que dizer tem no site tal, tem no site y tal livro. Eu também não sei se isso pode ou se é legal, mas se você tem oportunidade de oferecer livros, tendo o bom senso de ler, eu acho fantástico! Imagina se eu tivesse na minha época livros que hoje podemos adquirir na internet com facilidade. Tem um site canadense chamado www.archive.org, o Canadá foge um pouco do império do copyright, então é um site com várias fotos, coisas da década de 30 que eles disponibilizam; coisas que eu tive dificuldade de conseguir na minha época, que mandei importar e agora estão lá disponibilizas para você, basta o aluno ter uma orientação. Entre a política institucional defasada para não dizer criminosa e o aluno está o professor que pode e deve orientar, sabendo que isso não vai cobrir a lacuna, só vai ser coberta quando você puder chegar numa biblioteca ampla, cheia de livros e se não tem tal livro, você tem na internet, entende? Nós ainda estamos numa fase de transição informacional, o aluno precisa ter contato com os livros, para saber o que é um livro, o que é esse objeto. Existem assuntos que podem ser empilhados sob uma mesma temática e o aluno precisa desse contato com os arquivos, os documentos, com os objetos materiais. Quando você faz uma pesquisa arqueológica você não pode ficar tirar uma asa de xicrinha e dizer que prova qualquer coisa, você tem que ter o contexto, você tem que trabalhar em campo, não adianta você ir para o museu. No Brasil se formou arqueólogos em museus, quer dizer, o cara fica no museu totalmente descontextualizado, por mais que alguém tenha escrito. É como um livro, ele está lá na estante ou na internet descontextualizado, mas é um meio fantástico para dar o caminho para você ir para uma biblioteca, você precisa ter essa fonte, procurar uma bibliografia, entende? Esse trabalho o professor pode fazer, mas ás vezes ele controla a informação e não disponibiliza, com honrosas exceções, é claro!

13 NUPEH: Qual o seu nível de utilização dos recursos da internet, como pesquisas de artigos, fontes, comunicação com outros historiadores e alunos, por exemplo? CALDAS: Se tornou bastante freqüente desde 94. Tive contato nos Estados Unidos. No Brasil existia pouca internet na época, somente em alguns lugares e lá nos Estados Unidos já era um negócio absurdo, então eu passei a ter contato com sites. Eu comecei a comprar minisites de História Antiga, de Antropologia para pesquisar assuntos. Praticamente tudo o que a internet pode oferecer: recursos visuais, imagens, filmes, ás vezes eu não trago para sala de aula por falta de equipamentos e não porque eu não queira, vejo algumas coisas, como por exemplo, uma filmagem numa caverna na Espanha, documentários da caverna na Serra do Cipó, além dos textos, que eu acho maravilhoso. A quantidade de fontes primárias que são liberadas na internet, embora sejam um número absurdo, não podemos nos enganar são cheias de lacunas de modo que te obrigue a comprar. Se você quiser fazer uma pesquisa séria em nível de História Antiga, mesmo História Medieval ou Colonial, você vai encontrar muitas fontes, mas as mais importantes vão estar sempre lacunadas. É interessante como eles montam, outro dia eu ouvi uma entrevista com o bibliotecário da Universidade de Oxford e ele dizia que liberavam as fontes em parte, quer dizer, nitidamente é algo pensado como uma isca, mas o que existe é algo absurdo, dá para se fazer muita coisa na internet em vários temas, o que tem que ter é isso, você não pode se contentar, entende? Nem com a internet e nem com a falta de livros, você tem que exigir, tem que fazer panelaço na Roberto da Silveira e dizer: queremos livros, queremos livros! Agora na área de Ciências Humanas não acredito nessa troca de pesquisa coletiva. A experiência que eu tenho entre outros profissionais que trabalham em rede em pesquisas integradas é que liberam o mínimo possível e quando libera muito é em troca de verba, de viagens, isso internacionalmente falando. A pesquisa é em rede, mas ela é mensurada, delimitada por uma série de interesses, não é uma reunião histórica, não é reunião de pós-iluministas, os trabalhos em rede ainda são muito individuais com uma espécie de mentor que coordena a pesquisa. Tanto isso é verdade que toda a pesquisa que não recebe verba com fluxo contínuo, as pessoas começam a brigar porque não se entendem. Esse é o problema, se não consegue uma fonte de financiamento, não vai conseguir desenvolver porque a tendência é as pessoas se vincularem a outros grupos de pesquisa que tem verba. Então, não é o saber em si, o crescimento, o conhecimento. Essa é a relação do pesquisador com outro pesquisador, mesmo com o trabalho em rede, não é o partilhar,

14 cada um fala o seu, e é uma política institucional clara, mesmo os campos interdisciplinares não são tão interdisciplinares assim. Se seu currículo não for homogêneo você vai ser punido, então como é que se trabalha em rede assim? NUPEH: Com a naturalização do uso das novas mídias tecnológicas em nossa sociedade, em sua opinião os historiadores poderão resistir às mudanças que são trazidas a seu ofício. De que forma? CALDAS: Depende de como está inserido. Eu acho que ensinar latim na Rural é um processo de resistência! (risos). Mas, temos que resistir de alguma forma. Ensinar no quadro, no cuspi e giz, ensinar línguas estrangeiras e não digitalizar. O egípcio eu até ensino algumas coisas, mas a escrita é um processo de construção, é mostrar para o aluno como se escreve, é partilhar esse momento de criação mesmo. Existem resistências, mas eu acho que é possível, nada é irreversível! Claro que é muito difícil, temos que analisar, não podemos aceitar sem fazer algum tipo de análise crítica. Esse é o problema das pessoas, dos profissionais, dos alunos, a gente se entrega com tamanha força sem fazer qualquer tipo de crítica da realidade na qual estamos inseridos. A internet chegou, mas isso não é partilhado por todo mundo, as classes A e B tem acesso a internet, mas C e D mais ou menos, E e F acesso zero. Então eu acho que quando participamos de algumas comunidades de ações coletivas devemos negociar. Mostrar o livro e não somente a internet como se fosse tudo muito natural, estimular a leitura, a biblioteca, isso está se perdendo! NUPEH: Como foi sua escolha do doutorado e porque uma universidade no exterior? CALDAS: As histórias são todas encadeadas. As coisas vão acontecendo comigo. Eu ganhei uma bolsa em Harvard. Meu irmão conseguiu essa bolsa. Ele concluiu o pós-doc em medicina e foi dar aula lá em Harvard. Eu estava no Brasil, havia muitas greves, foi no meio do mestrado em 94. Meu irmão explicou que a bolsa era uma concessão que exigia algumas despesas, mas recebia isenção de taxas, entre outras coisas. Eu respondi que queria tentar. Então ele me matriculou, eu fiz a prova aqui no Brasil mesmo. Ganhei a bolsa e juntei a grana do mestrado aqui para viajar para Harvard. Quando você chega em Harvard, é Harvard! Meu inglês era aquele de escola. Então, eu estudava no Curso

15 YMCA, muito famoso em Boston (aqui no Brasil é a Associação Cristã de Moços) ao lado da universidade protestante chamada Northeastern University. Ao saber que podia fazer uma complementação em língua inglesa, me matriculei na universidade. Nosso cotidiano em Boston era assim: meu irmão trabalhava cedo no hospital e eu ia para o meu curso de línguas, de lá eu ia pra universidade, ficava mais ou menos duas horas. Adorava comer cookies! Comprava um pacote enorme e ficava o dia inteiro comendo biscoitos. Depois fazia pesquisas em Harvard. A maior parte da biblioteca é fechada ao público, só tem acesso a uma parte que eles chamam de referência. Têm de tudo até lista de telefone, eles tem lista do mundo inteiro e guias de estudantes, que virou sensação nos EUA. Nesses guias tinha todas as modalidades de bolsa para todos os estudantes de qualquer idade. Então eu fui procurando no espaço da biblioteca e vi muita literatura sobre Ésquilo em alemão, aquilo foi me deixando agoniado porque eu não sabia alemão. Tirei várias fotocópias que eu só fui ler 15 anos depois. Após três meses a bolsa terminou, mas antes eu entrei em contato com uma amiga que vinha de um convênio recém-inaugurado entre o Brasil e a universidade de Oklahoma com a UFF. Ela era uma pessoa meio esquisita, mas eu adorava gente assim, eu andava com muita gente maluca e essa Hannah era completamente louca, mas a gente se entendia (risos). Ela pegou o avião em Oklahoma e foi me visitar em Boston. Ela me contou que tinha uma bolsa em Oklahoma. Antes de sair dos EUA eu fiz as provas e reabri meu mestrado na UFF quando cheguei no Brasil. Mas, sofri um grave acidente de bicicleta no momento em que terminava a dissertação de mestrado. A bolsa chegava em junho, no 15 de maio de 1995 eu sofri o acidente. Eu estava indo fazer as provas finais de língua francesa na UFF e a mochila estava muito pesada, depois eu soube que as alças cortaram a minha circulação, eu passava pela orla marítima em Niterói e não tinha proteção, eu caí e desmaiei em cima da bicicleta. Havia uma neblina densa e baixa na Baía da Guanabara e eu fui direto para o mar. Caí nas pedras e rolei no mar, a onda pegou e me levou. Eu fiquei boiando com a mochila cheia de livros nas costas, completamente desacordado. Quando uma jornalista do Jornal do Brasil viu aquela coisa boiando no mar (risos) e chamou a polícia, eles entraram em contato com dois pescadores que me tiraram do mar. Acordei no hospital. Eu não consegui fazer as provas e tive que trancar o mestrado por causa do acidente e naquela época não podia trancar o mestrado duas vezes! Fiquei todo arrebentado, levei 48 pontos, quebrei vários ossos e o Professor Ciro Cardoso ainda comentou: até que você não ficou tão ruim! Eu me lembro quando ele operou os olhos repeti a mesma frase pra ele. É, o mundo dá voltas! (risos). Recebi a carta de

16 aprovação da bolsa de Oklahoma. Mas, antes de ir pro EUA, eu fui pro México e fiquei um mês. Fiz bons contatos no albergue, depois parti para os EUA. Os americanos sabem tratar os estudantes. Uma coisa que eles sabem fazer é tratar um estudante. Querem estudar? Vão para EUA, eles te dão o mundo! E lá tinha aqueles guias e eu novamente me deparei com a literatura alemã. Em Oklahoma entrei em contato com o Germany Club e comecei a fazer aulas de alemão. Oklahoma é um lugar complicado, porque lá fundou a Ku Klux Klan e eu morava na rua deles. A minha esposa é descendente de índios, então ela saía por trás da casa. Na época ela era a minha namorada, depois a gente acabou se casando. Eu comecei a escrever em inglês para as universidades na Europa, especialmente para a Alemanha. Escrevi para uma alemã chamada Helga, ela recrutava pessoas do Brasil no Goëthe Institute, entidade privada alemã no Flamengo. Eu disse a verdade para ela, escrevi um e-mail dizendo que era brasileiro e não sabia falar alemão. Cursava alemão no Germany Club e tinha boas notas, tirava A em tudo, ganhei até um prêmio no EUA por isso! Quando eu voltei para o Brasil em 96, meu inglês estava fresquinho, então fiquei um ano e meio fazendo legendas numa empresa em Botafogo. Procurei o Instituto alemão para apresentar meu projeto em História Antiga. Quando eu cheguei lá e dei de cara com uma mesa com oito alemães e alguns brasileiros, pensava que seriam duas pessoas apenas. A escolha da universidade foi nestes guias de estudante, onde têm o professor, a carreira e a linha de pesquisa. Eu escrevi para todos os professores da carreira de História Antiga. Fiz uma carta padrão para todos eles! Recebi algumas propostas, alguns foram mais receptivos, como Alexander Demandt que escreveu dizendo não aceitar o meu trabalho, depois escreveu outra carta dizendo que pensara melhor e resolveu me orientar. Outros dois historiadores escreveram uma carta bem legal, um era especialista em Roma não em Grécia, os dois também muito receptivos. Então eu fiquei dividido pra quem eu escreveria. O sistema é integrado, em outras palavras, se você escreve para um não pode escrever para o outro. Resolvi escrever para os dois! Na banca, a única pessoa que eu conhecia era o Carlos Teixeira. Um dos professores fez uma pergunta que acabou comigo: - Você não acha que o seu trabalho tem uma interface com a filosofia? Eu caí no erro de responder que sim. Então, ele disse: - Então, por que você não tem uma carta de indicação? A minha carta de indicação era do arcebispo do Rio de Janeiro. Esse professor se convenceu que eu não tinha apoio. Fiquei acuado. A secretária que acompanhava a banca me disse para não desistir. Refiz o projeto. Na época estava na faculdade de educação da UFRJ e procurei nada mais, nada menos que Emmanuel

17 Carneiro Leão, único aluno do Heidegger. O curso de filosofia no Mosteiro não era reconhecido no Brasil naquela época, então eu fiz um complemento na UFRJ com o Professor Carneiro Leão. Ele nem se lembrava de mim, mas escreveu a carta na hora. Anos mais tarde nos encontramos como colegas no Mosteiro, onde dei aulas. Mandei a carta novamente, mas uma parte da entrevista era em alemão, outra em português. Tinha vários candidatos. Nesse ano foi novamente o Karl Josef Romer, pensei naquela pergunta e eu não falava alemão! Passei quatro anos na Alemanha, mas eu não falo bem, escrevo com relativa facilidade e entendo bem. Então eu decorei uma expressão que eu não sabia o significado, uma expressão de Goëthe e acho que os alemães gostaram porque eu consegui! Foram 15 brasileiros que contemplaram em Göttingen, uma universidade que fica no Harz, o coração da Alemanha. Göttingen é uma cidade medieval, dividida pelas guerras da época da Reforma Protestante, uma parte protestante, outra católica. É uma cidade linda, maravilhosa, mas famosa pela queima de livros feita pelos alemães. Lá tem muitas editoras com autores famosos. Os alemães têm um programa de inserção que dura seis meses. É exigido bimestralmente e tem que fazer prova de línguas para entrar na universidade, uma proficiência da língua. A maior parte dos meus colegas não tinha que aprender a língua porque o inglês do doutorado deles era alternativa. O único colega que tinha que aprender alemão era o que fazia filosofia por causa das fontes, a prova era oral. Então, dos quinze brasileiros eu era o único que exigiam provas em alemão. Comecei a estudar igual um louco! Se não passasse, voltaria para o Brasil e ainda pagaria aqueles seis meses. Por isso, é uma roubada esse tipo de verba. Tem muitas vantagens, mas é difícil! Não é como a Capes e CNPQ, o cara ganha a bolsa de seis meses, ninguém quer saber se ele está comprando carro ou viajando pela Europa, ninguém controla isso. Na Alemanha não, eles ligam pra saber se você está estudando mesmo! Resolvi fazer um curso paralelo para melhorar nas provas. Na Alemanha, eles têm um alemão irrefutável. Mesmo que você tenha muito tempo sempre ficará muito aquém do que é exigido na universidade. Na Alemanha, eles falam um alemão polido, muito rebuscado. A Alemanha é um país muito diferente do Brasil. Depois de um tempo lá, eu notei que nós somos amigáveis, quando a gente fala com uma pessoa, a gente sorri. Os alemães não fazem isso porque pra eles isso é falta de educação. Eles são polidos. Eles não fazem a menor questão de serem agradáveis, mas eles querem polidez, cortesia! Então, quando eu entrei pra universidade, por dois anos eu fiquei no limbo. E lá, doutorado é um emprego, você trabalha pro seu professor, ele diz: Vai lá na sala e pega um mapa pra mim. Um meio muito conceituado exige

18 muito de você. Os alemães têm uma prospecção na área de História Antiga que é tradicionalista e numa universidade muito antiga, você acaba sendo questionado o tempo todo. O professor pegou um Libânio original e disse: Você vai traduzir isso agora pra mim! Eu tomei um susto! Ele disse: Em seis meses, se você não fizer isso, pega o avião e vai embora. E ele estava falando sério! E ainda disse: Dois professores o ajudarão a traduzir a obra de Libânio, um vai te ensinar a falar alemão e o outro vai te ensinar latim. O que conversava comigo foi ficando meu amigo, ele me perguntava se eu achava melhor EUA ou Alemanha. Respondia que não tinha melhor ou pior, são diferentes. Ele, claro, escolhia Alemanha. E a gente conversava e tomava chá. É uma sociedade completamente diferente. Nas festas não tem músicas, eles não suportam, festas de jovens, mas eles querem conversar. Se você perguntar para um vendedor quanto custa tal coisa, ele responde: Não está vendo o preço?! NUPEH: Sabemos que sua tese de Doutorado foi sobre Oráculo de Delfos. Porque a escolha deste tema? CALDAS: Primeira questão, a ideia era manter o interesse em Antiguidade Clássica. A tese inicial era trabalhar com período arcaico e trabalhar exatamente o tema em lingüística, eu achei interessante, ninguém tinha trabalhado o oráculo com a forma emblemática das palavras. Quando se fala em oráculo, você pensa em palavras, na área de linguística. Mas, quando eu cheguei lá, pensei: vou ter que fazer outra coisa pra estudar porque o Oráculo de Delphos é um tema muito batido. Eu me meti numa armadilha porque escolhi um tema que quase todo mundo na Alemanha já tinha falado alguma coisa. Eles são autoridade no tema, de tudo que podem imaginar. Então, faltando um ano pra terminar a pesquisa, eu apresentei um calhamaço de folhas. Meu professor disse: não serve, não vou aprovar! Eu já tinha muita literatura, descobri uma fonte chamada O tempo do oráculo, de Prelúdio. Uma obra não conhecida e foi essa obra que me salvou! Era uma obra tardia que contava um pouco da história do oráculo, a partir da origem do Oráculo. Isso desencadeou alguns elementos, o oráculo sempre foi visto como um local de religião, um local de culto religioso e no Preludio era um local para as pessoas se reunirem para práticas de cura. Como a obra não estava concluída, isso me deu um start, o inicio pra montar uma história do Oráculo de Delphos no período arcaico. Eu entrei em contato com autoridades do tema. O que salvou a minha tese foi que eu tive o cuidado de pegar os grandes autores na Europa e

19 escrevi pra todos eles sobre as minhas dúvidas. Todos eles me responderam. Então disse ao professor se esses caras não sabem, quem sou eu pra saber. Foi aí que ele aceitou! Ficou conceituado como domínio de fontes. O livro conta a história do início do Oráculo de Delphos. Eu escolhi contar uma história e fui encaixando os argumentos. É exatamente isso, ele faz um pouco da historiografia sobre o oráculo e eu vou corrigindo essa historiografia e conto uma história como ela começou. Quando eu voltei pro Brasil eu voltei pra ajudar. O que você aprende você quer passar pros outros. Eu não aprendi só uma coisa lá, eu fiz um monte de outras coisas, eu fiz vários cursos. Entrei no Pro- Jovem, uma bolsa de quatro anos de três mil reais. Lá eu retomei o meu projeto antigo. Uma parte da verba eu gastava nele. Era um dinheiro legal. E caí como um pára-quedas na UFF. Tudo que eu tinha aprendido, eu colocava no papel. Passava horas e horas, foi um tempo legal. Pra mim foi um método de estudo. Eu tinha muitas idéias. Toda a poesia arcaica grega eu traduzi. Uma parte de Dirceu, Parmênides, tudo que não tinha no Brasil, eu fui traduzindo. E eu levava isso pra sala de aula. Xerocava tudo. Eu gastava parte da minha bolsa dando xerox para os alunos. NUPEH: E a resposta? CALDAS: É, isso foi me desanimando. Eu gastava uma fortuna de xerox! A minha sorte é que o meu aluguel era baixo, porque senão... Uma vez eu encontrei uma aluna dessa época e ela me disse: Isso não tem no Brasil, não tem na América Latina! E não só isso, análise de imagens, área descritiva. Tive depressão pós-parto, um pouco aquilo que as mulheres têm, porque eu não agüentava mais Oráculo de Delphos. Eu conhecia o Delphos de trás pra frente. Na verdade, eu sempre gostei de História Antiga, na área de línguas também, arqueologia, então muitas coisas. A própria experiência de dar aulas. NUPEH: O que o senhor achou da sua experiência no exterior? CALDAS: Tudo leva à pesquisa. Não há nada mais importante que a biblioteca, tanto que quando eles morrem, eles doam os livros. Qualquer biblioteca de universidade média na Europa é muito maior que uma biblioteca nos EUA. No Brasil é precário de livros porque as pessoas controlam os livros. Nenhuma pessoa na Alemanha dá bibliografia de coisa alguma durante as aulas. Ninguém fica: leiam tal livro! O

20 máximo que eles dão são fontes. Você é quem vai procurar na biblioteca e vai encontrar porque nenhuma biblioteca lá é maior que da universidade, só a universidade é que tem os livros. O que falam aqui no Brasil a respeito desse negócio de xerox, isso é tipicamente daqui, porque lá na Alemanha a xerox é dentro da biblioteca, você vai lá e tira suas cópias. Ninguém te controla. Eu trouxe meia tonelada de xerox. Meia tonelada de livros e xerox! Paguei nove mil reais, fiquei devendo a minha sogra anos e anos (risos). Então, lá a venda de livros sempre aumenta, porque as pessoas têm como conhecer os livros. Eu acho que fundamentalmente isso se deve a um país cuja tradição política é inquestionável. Nos departamentos, todos os projetos são de história. No Brasil é uma tragédia! Mas, o que teria que mudar? No caso desse projeto, o aluno não pode fazer mais que duas ou três disciplinas, porque senão ele não vai agüentar, não tem como fazer três disciplinas num sistema desses, porque como você não tem orientação, você lê tudo que está dentro do tema. Ele dá o tema e aí se vira, meu amigo. Você quer ler Marx, vai ler Marx. A coisa pra mim só mudou na Alemanha quando eu tinha já um ano e meio de doutorado. Eu tive a sorte de encontrar uma fonte que o professor não encontrava. Às vezes, eu ficava até dez horas da noite na biblioteca. Eu ia aos sábados. Aí fizeram uma reunião para proibir o meu acesso. A biblioteca era para eles! Eu peguei a fonte no meio da aula e comecei a rir. O professor perguntou: Senhor Caldas, do que o senhor está rindo? Eu disse que havia encontrado uma fonte para ele. Isso fez uma diferença muito grande. Quem se sentiu ofendidos foram os meus colegas, eles viram que estavam concorrendo com uma pessoa que não era um total estúpido. Ele olhou a fonte e parou a aula, deu um intervalo e disse: Como o senhor achou isso? Achei num jornal de Periódicos da Paleontologia e Literatura. Ele aceitou e disse: Gostei muito, Senhor Caldas! NUPEH: Coisa que não aconteceria aqui no Brasil? CALDAS: É, não sei. Nós não temos grandes bibliotecas. Nós não temos uma política de investimentos para compra de materiais, compra de títulos. Não adianta uma biblioteca maravilhosa, se o acesso aos livros é proibido. Isso aí já é uma política de distinção. Em Oklahoma eu ficava andando pelas estantes. Em Harvard, o prédio é muito antigo, então tinha poucas passagens, não dava pra circular muito nos corredores. Na época que eu estive em Harvard, a biblioteca tinha 13 milhões de livros acumulados, 13 milhões! Então, o aluguel de uma biblioteca é muito caro. Você sabe uma coisa que

21 se faz na Alemanha? É um professor assistir a aula do outro. As minhas aulas na UFF tinham professores que assistiam às aulas, fizeram cursos comigo: História do Cristianismo Primitivo e faziam provas, faziam chamadas, respondiam presença. NUPEH: Como é lidar com isso? CALDAS: É um pouco pior porque os professores não são bem preparados. Eu mesmo que estudei na Alemanha, também tenho essa postura. Eu tenho dificuldades pra trabalhar aqui, porque eu vou ter que procurar outras fontes, estudar. É fundamental uma política de pós-doc no exterior. NUPEH: Professor, o senhor possui alguma filiação teórica? Se não, há alguma que o senhor sente mais a vontade em percorrer o terreno teórico? CALDAS: O marxismo tem uma teoria interessante que diz o seguinte: o que é verdadeiro é fato e o que é fato são coisas conversíveis, porque ele escreveu isso? O mundo mudou bastante, a nossa capacidade de entender a verdade se deve ao fato que nós podemos criar a verdade. Você tem meios. Essa é uma visão marxista porque a verdade não é dada, ela é construída. O marxismo para a classe política tem uma filosofia alemã que me interessa muito, que não necessariamente quer cair no senso comum, ao contrário, mas não é o suficiente. Então, mesmo o marxismo, ele não é o suficiente para que essa realidade se apresente mais para o outro. É preciso recorrer a outras coisas. A melhor maneira de você descrever a realidade é com uma alegoria. Descrever a realidade nunca é a realidade, você está num grau de imponderabilidade de achar que talvez não seja bem isso, distraído de interesses. Então, o marxismo te dá isso, contrariar o senso comum, mas isso ás vezes é perigoso, porque tem hora que parece que você está sozinho. E aí você tem que encontrar alguém pra não viver como maluco. Eu não quero ser como O alienista, de Machado de Assis. Eu não estou aqui fazendo apologia, é porque me pego ás vezes não sendo como os outros. E acho que as pessoas não compreendem aquilo que eles estão vivendo. NUPEH: A escassez de fontes em História Antiga obriga o historiador a trabalhar na maior parte das vezes sobre fontes literárias; o pouco de fontes primárias que possui é representado pelos documentos arqueológicos descobertos ao acaso nas