Roraima: a benesse das mãos de Jesus



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Transcrição:

Página 1 Roraima: a benesse das mãos de Jesus Fiz o check in em cima da hora. Despachei as malas e pedi ao funcionário da aérea uma poltrona próxima à janela. Agora era só embarcar, rumo a Boa Vista, capital de Roraima. A aeronave seguiu lotada, o que tem sido recorrente, aliás, nos últimos tempos. Costumo dormir nos voos e pego no sono antes mesmo da decolagem. Mas, naquele voo, algo diferente estava pra acontecer. - Com licença pediu-me educadamente o homem, ajeitando-se na poltrona. - Fique à vontade respondi-lhe. As duas rápidas frases de cortesia costumam ser suficientes, quando trocadas por aqueles que geralmente não se conhecem. Mas algo estava indicando que a conversa ia prosperar. - O senhor vai pra onde? perguntou-me. - Boa Vista. - Eu também. Moro lá. Sou guia turístico em Roraima apresentou-se. Percebi que ele gostava de conversar. Sem me conhecer, já havia revelado boa parte de seu currículo. Acabei, respeitosamente, identificando-me, da mesma forma, por uma questão de cordialidade. - Eu estou indo a trabalho. Sou professor de português. Darei um curso no Tribunal de Justiça de lá. - Muito prazer, meu nome é Pedro. - Prazer, meu nome é Eduardo. Pode me chamar de Sabbag, que é meu sobrenome. Pedro exercia uma profissão interessante. Certamente, conhecia bem o Estado de Roraima, bem como a Capital, pra onde eu estava indo pela primeira vez. Embora estivesse com sono, aproveitei para tirar algumas informações dele: - E como o roraimense pronuncia o nome do Estado: /Roráima/ ou /Rorãima/? O guia foi rápido na resposta: - Falamos /Roráima/! Não usamos o som do nariz /ãi/, como em boa parte do Brasil. Aliás, o que o senhor, como professor, acha?

Página 2 - Eu ensino em sala que as duas formas são aceitáveis. Se falamos /Jáime/, podemos pronunciar /Roráima/, com o timbre aberto, sem nasalização. Por outro lado, falamos /andãime/, /Êlãine/ e /pãina/, nasalizando o ditongo. Daí se aceitarem as duas formas. Acho que a pronúncia com o timbre aberto é mais regional, própria do Norte do Brasil; no restante do País, entretanto, costuma-se usar o timbre fechado, com som nasal. - Puxa! Pensei que só fosse correta uma forma, a nossa, é claro! gracejou o simpático homem. - Se me permite dizer, acho que as duas possibilidades são boas. Se lhe agrada o som de /Roráima/, pode continuar com ele. Ainda mais como guia turístico... Demonstrará, assim, maior apego ao regionalismo! - Ótimo! Farei assim. E também acredito que possa fazê-lo com a outra cidade que temos no Estado, bem próximo à Venezuela Pacaraima. Certo, professor? - Sim. Acho que todos os roraimenses, bem como os pacaraimenses, pronunciam /Pacaráima/. No Brasil afora, creio que a tendência será falar Pacaraima (ãi). Não vejo a questão como certa ou errada, mas como um dado de preferência regional. Não teria coragem de ensinar a meus alunos que a pronúncia com o timbre aberto (/Roráima/ ou /Pacaráima/) é erro de ortoepia. Aceito ambas. - É isso mesmo! concordou Pedro. O máximo que ocorrerá é que, se estiver em nossa terra, ao dizer /Rorãima/, todos saberão que é turista gracejou. O papo já se tornara bem agradável. A conversa ia render, seguramente. E, mudando o foco do assunto, o guia me fez uma capciosa pergunta: - Professor, os dilemas gramaticais em minha terra não param por aí. O senhor já ouviu falar na expressão do Oiapoque ao Chuí? - Sim, muito! É um clichê usado por aquele que quer mencionar o Brasil inteiro, referindo-se aos dois pontos extremos do nosso país: Oiapoque, ao norte; Chuí, ao sul. - Então prosseguiu ele, após escutar minha resposta, este clichê já foi sepultado e devidamente substituído, mas o povo brasileiro insiste em continuar usando a expressão... Achei o detalhe geográfico muito interessante. A bem da verdade, eu mesmo me incluía no extenso grupo dos que não conheciam a mudança. Sem receio de reconhecer minha desinformação sobre o tema, que presumi ser geral, pedi-lhe orientação. - Nossa, mas qual o problema na expressão? E Pedro, que era um profissional articulado e muito bem informado, explicou com propriedade: - A expressão do Oiapoque ao Chuí é válida se levarmos em consideração a extensão do litoral brasileiro. Pode até dar uma olhada no mapa, seguindo o litoral, que o professor perceberá com facilidade que os pontos extremos Oiapoque e Chuí estão bem demarcados como pontos extremos no panorama litorâneo. Mas as pesquisas cartográficas mais recentes indicaram que o ponto mais setentrional do Brasil é o Monte Caburaí, e não o Oiapoque.

Página 3 Eu continuava ainda um pouco perplexo com a notícia: - É incrível isso! exclamei. A mudança provocava impacto. A expressão, de tão consagrada, já tinha até virado nome de letra de duas músicas uma, na voz de Teodoro e Sampaio, e outra, com Ivan Lins e Vitor Martins. - Mas pode acreditar! confortou-me. Aliás, no meu dia a dia, quando explico isso aos meus amigos de trilha, digo que a coisa não é de hoje! Em 1931, Braz Dias de Aguiar, Capitão-de-Mar-e-Guerra e chefe da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites, já havia identificado a Serra do Caburaí como o ponto mais ao norte do Brasil. Atualmente e já era hora!, o Ministério da Educação já reconhece como legítimo o dado geográfico, impondo as mudanças nos livros de Geografia... - Adorei saber respondi-lhe. Agora falarei sem medo do Caburaí ao Chuí. E o que é mais legal, em termos gramaticais: a expressão tem até rima! A conversa estava muito boa. A turbulência que estávamos pegando em alguns trechos nem parecia incomodar. E Pedro, percebendo que eu havia me interessado pelas curiosidades de sua majestosa terra, veio com mais uma pergunta: - Sabbag, você sabe qual é a montanha do nosso Estado que foi considerada a 7ª mais alta do país? Esta eu sabia. Havia lido em uma revista especializada. Respondi-lhe com rapidez: - É o Monte Roraima! Para lá vão muitos aventureiros que querem escalar esta mítica rocha, não é mesmo? Li a respeito e notei que o lugar é deslumbrante. É a sétima em altura; possivelmente, a primeira em beleza... - Ah...você nem imagina... suspirou, empolgado, o amigo guia. O Monte Roraima, com seus 2.734 m de altitude, é mágico. Nós, guias, dizemos: Não compares o Monte Roraima com outra montanha. Esta é única no mundo. A frase é um dos 10 Mandamentos do Monte Roraima. Aliás, segundo os historiadores, o nome do Estado de Roraima é uma referência a ele. E o informado guia, entre um gole d`água e outro, servido pela comissária de bordo, prosseguia com as explicações. No meu caso, eu estava ali como aluno, tendo uma verdadeira aula sobre Roraima. - A bem da verdade prosseguia ele, o nome do Estado vem de Roro-imã, que, na língua dos Macuxi, tem o sentido de monte verde. Dependendo da interpretação ou da influência indígena, o nome pode estar associado a terra do caju, ou, até mesmo, a Mãe dos Ventos. - Muito legal! Agora, Pedro, tire uma dúvida: quem são os Macuxi? - É a denominação da etnia indígena que representa a tribo mais numerosa do Estado. A história mostrou que os Macuxi eram valentes guerreiros. E o guia, colocando um leve riso ao lado da boca, disse-me com orgulho:

Página 4 - Nós, de Roraima, somos Macuxi! É que o habitante do Estado recebeu carinhosamente este apelido, em homenagem aos destemidos guerreiros da tribo. - E tem mais: quando chegar a Boa Vista disse-me, você verá uma bela ponte, com 1.200m de extensão, ligando a Capital ao município vizinho, a cidade de Cantá. É a Ponte dos Macuxi. - Legal! Nas aulas que lecionarei, vou mencionar este apelido. Certamente, os alunos vão perguntar como aprendi. Mal saberão eles que vim tendo uma aula sobre Roraima no voo... O homem riu bastante. Estava feliz com nosso bate-papo. E eu estava impressionado com todo o aprendizado daquela viagem. Revelei, então, algo ao amigo: - A partir de agora, nas minhas aulas de acentuação, mencionarei sempre as palavras Macuxi e Cantá. A primeira, como uma oxítona não acentuada, por terminar em i, como sucuri e buriti ; e a segunda, uma oxítona devidamente acentuada, por terminar em a, como cajá. - Ótimo. Gostei dos exemplos! respondeu agradecido o guia. A sucuri, a maior de todas as cobras brasileiras, vive em nossos igarapés. E, coincidentemente, às margens destes, você vai encontrar o buriti, de cuja polpa sai um bom vinho e deliciosos doces. E Pedro estava animado a me ajudar mais na exemplificação do tema gramatical: - Se quiser citar bons exemplos de palavras da terra, terminadas por a, cite alguns de nossos frutos, pertencentes à flora amazônica: araçá, ingá, taperebá. Há, ainda, nossas palmeiras: inajá e mucajá. E não deixe de fora as nossas madeiras: marupá, amapá e jatobá. - Nossa! Só mesmo com papel! brinquei. Mas quero anotar tudo, pois são ótimos exemplos de palavras oxítonas ( da terra ), terminadas por a. - É que a riqueza mora em nosso Estado, Sabbag... Dá até pra brincar com as palavras! E olha que nem mencionei a palmeira urucuri e a nossa vagem mari-mari. Cite-as ao lado das oxítonas sucuri e buriti. E, incrivelmente, ele tinha mais ideias para minha futura aula de português: - Ah...lembrei! Se for citar nossos peixes, seguramente, sua aula terá ótimos exemplos. Temos aqui mais de 320 espécies, que ocupam a Bacia do Rio Branco: pacu, pirarucu, tambaqui, matrinxã, aruanã e muitas outras. - Claro que citarei, Pedro! Veja que os nomes dos peixes que devem ser deliciosos, por sinal indicam mais exemplos de palavras oxítonas: algumas não acentuadas, por terminarem por u ou i (pacu, pirarucu, tambaqui), e outras marcadas foneticamente pelo sinal gráfico til, por terminaram com a nasal tônico (matrinxã, aruanã). Nossa conversa, por um momento, foi interrompida pela voz do comandante, anunciando que, em instantes, o pouso seria realizado. O voo tinha sido agradavelmente informativo, e nem vimos passar! Olhei pela janelinha do avião e surpreendi-me com um caudaloso rio. Perguntei ao amigo:

Página 5 - Que rio é este? - É o Rio Branco. Mas, cuidado! Não estamos no Acre! alertou, fazendo graça. Ele banha a cidade de Boa Vista, sendo um dos importantes afluentes do Rio Negro. Há um bom tempo, no início do século XVII, chegaram por ele, em nossas terras, os primeiros expedicionários portugueses. Da janelinha do avião, pude ver uma bela cidade, com um quê de cidade do interior, que parecia ser muito arrumada. E o Rio Branco lhe dava, verdadeiramente, todo o charme. O avião aterrissou. Descemos e nos despedimos. Prometi ao amigo mandar-lhe um e-mail, assim que retornasse a São Paulo, no qual colocaria minhas impressões geográfico-gramaticais sobre a cidade de Boa Vista e sobre o Estado de Roraima. Hoje estou de volta, depois de uma semana no aprazível Estado. Acabei de enviar o e-mail ao amigo. Divido-o com você, caro leitor: Caro Pedro: Voltei a São Paulo ontem. Vi tudo o que disse e disse, verdadeiramente! e aprendi muitas coisas sobre sua opima terra. Aprendi que Boa Vista é a única capital brasileira situada acima da linha do Equador. Vi que a cidade, que já me impressionara da janelinha, é limpa, com ruas arborizadas e bem pavimentadas. O traçado urbano em forma de leque, comprovei-o quando o avião decolou. Um primor de arquitetura! Tomei uma cerveja na Orla fluvial de Taumanan (aprendi que significa paz, em Macuxi). Observei ali vários curumins e cunhantãs (aprendi que são os meninos e as meninas), que corriam de um lado pro outro. Conheci os belos versos do engajado poema Réquiem, de Alcides Magalhães Lima. Vi a Sumaúma (aquela árvore imensa bem característica da região amazônica, que é uma atração turística da cidade). Degustei o suco de buriti e trouxe pra casa um pouco da deliciosa paçoca com banana. Deixei Boa Vista com muitas saudades. Mas quero voltar a Roraima pra ver o que não tive tempo: uma Amazônia diferente, repleta de serras, savanas (os famosos lavrados ), florestas e a fauna exuberante. Na ocasião, quem sabe, irei nadar nas cachoeiras da Serra do Tepequém e experimentar o caxiri e o aluá (disseram-me que são duas boas bebidas indígenas). Está vendo, caro Pedro, que amplifiquei meu repertório vocabular! Ainda não sou macuxi, sou apenas ma-, de ma-is ou menos...rs Sua terra tão altaneira, que é Roraima, me impressionou com a tamanha riqueza linguística que possui! Ah...não lhe disse algo: quero um dia poder fazer uma viagem de moto por aí. Irei visitá-lo, se Deus quiser. Aliás, Ele há de querer, pois aprendi com Dorval de Magalhães, que escreveu o Hino do Estado, que Roraima é a benesse das mãos de Jesus. Grande abraço... do amigo, Sabbag.