NA VERTIGEM DO DIA PREFÁCIO ALCIDES VILLAÇA

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Transcrição:

NA VERTIGEM DO DIA PREFÁCIO ALCIDES VILLAÇA

Copyright 2017 by Ferreira Gullar Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Capa e projeto gráfico Elaine Ramos Preparação Carina Muniz Revisão Marina Nogueira Huendel Viana Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil Gullar, Ferreira, 1930-2016 Na vertigem do dia / Ferreira Gullar ; prefácio de Alcides Villaça. 1a- ed. São Paulo : Companhia das Letras, 2017. isbn 978-85-359-2868-6 1. Poesia brasileira i. Villaça, Alcides. ii. Título. 17-00674 cdd-869.1 Índice para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira 869.1 [2017] Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz s.a. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 São Paulo sp Telefone: (11) 3707-3500 www.companhiadasletras.com.br www.blogdacompanhia.com.br facebook.com/companhiadasletras instagram.com/companhiadasletras twitter.com/ciadasletras

7 Nota 9 Prefácio Alcides Villaça 27 NA VERTIGEM DO DIA (1980) 29 Minha medida 30 Traduzir-se 32 Arte poética 33 Subversiva 34 Poema obsceno 36 Espera 37 Bananas podres 48 O espelho do guarda-roupa 51 A ventania 54 Cantiga do acaso 56 Bicho urbano 57 ÓVNI 58 Um sorriso

59 Mau cheiro 60 Bananas podres 2 64 Homem sentado 65 Morte de Clarice Lispector 66 O poço dos Medeiros 67 Lições da arquitetura 69 A alegria 70 Ao rés do chão 71 A voz do poeta 72 Primeiros anos 74 Digo sim 76 Improviso para a moça do circo 82 Improviso ordinário sobre a Cidade Maravilhosa 91 Sobre o autor

Nota Desta edição de Na vertigem do dia foram excluídos oito poemas, já publicados em Dentro da noite veloz, a partir de sua terceira edição. São os seguintes: Passeio em Lima, Dois poemas chilenos, Cantiga para não morrer, Exílio, Vestibular, Vendo a noite, Boato e Uma voz. 7

NA VERTIGEM DO DIA (1980)

Minha medida Meu espaço é o dia de braços abertos tocando a fímbria de uma e outra noite o dia que gira colado ao planeta e que sustenta numa das mãos a aurora e na outra um crepúsculo de Buenos Aires Meu espaço, cara, é o dia terrestre quer o conduzam os pássaros do mar ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil o dia medido mais pelo meu pulso do que pelo meu relógio de pulso Meu espaço desmedido é o pessoal aí, é nossa gente, de braços abertos tocando a fímbria de uma e outra fome, o povo, cara, que numa das mãos sustenta a festa e na outra uma bomba de tempo 29

Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão; outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem; 30

outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na outra parte que é uma questão de vida ou morte será arte? 31

Arte poética Não quero morrer não quero apodrecer no poema que o cadáver de minhas tardes não venha feder em tua manhã feliz e o lume que tua boca acenda acaso das palavras ainda que nascido da morte some-se aos outros fogos do dia aos barulhos da casa e da avenida no presente veloz Nada que se pareça a pássaro empalhado múmia de flor dentro do livro e o que da noite volte volte em chamas ou em chaga vertiginosamente como o jasmim que num lampejo só ilumina a cidade inteira 32

Subversiva A poesia quando chega não respeita nada. Nem pai nem mãe. Quando ela chega de qualquer de seus abismos desconhece o Estado e a Sociedade Civil infringe o Código de Águas relincha como puta nova em frente ao Palácio da Alvorada. E só depois reconsidera: beija nos olhos os que ganham mal embala no colo os que têm sede de felicidade e de justiça E promete incendiar o país 33

Poema obsceno Façam a festa cantem dancem que eu faço o poema duro o poema-murro sujo como a miséria brasileira Não se detenham: façam a festa Bethânia Martinho Clementina Estação Primeira de Mangueira Salgueiro gente de Vila Isabel e Madureira todos façam a festa enquanto eu soco este pilão este surdo poema que não toca no rádio que o povo não cantará (mas que nasce dele) Não se prestará a análises estruturalistas Não entrará nas antologias oficiais Obsceno como o salário de um trabalhador aposentado 34

o poema terá o destino dos que habitam o lado escuro do país e espreitam. 35