O dispositivo militar do Faial

Documentos relacionados
Regimento de Guarnição N.º1

Nesta zona a batimétrica dos 20 m desenvolve se a cerca de 270 jardas de terra.

A Marinha Portuguesa na Grande Guerra

MEMÓRIAS DO FAIAL 1944/45 E O PRESENTE

BICENTENÁRIO DAS INVASÕES FRANCESAS NA AMP

Rio Negro possui o quartel do Exército mais moderno do Brasil

SENHOR MINISTRO DA DEFESA NACIONAL, EXCELÊNCIA SENHOR ALMIRANTE CHEFE DO ESTADO-MAIOR DA ARMADA SENHOR GENERAL CHEFE DO ESTADO-MAIOR DA FORÇA AÉREA

Identificação do Monumento: Fortaleza de Almeida. Outra designação: Vila Fortificada de Almeida. Data:

ANEXO REGULAMENTO INTERNO DO CENTRO DE ARMAMENTO E MUNIÇÕES. CAPÍTULO I Disposições gerais

Participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial. Pressupostos. Portugal tinha obrigações no âmbito da Aliança Inglesa (Luso-Britânica)

IN MEMORIAM E EVOCAÇÃO

06/06/1944 Dia D marca a chegada dos Aliados à França

ANEXO REGULAMENTO INTERNO DO COMANDO DA ZONA MARÍTIMA DO NORTE. CAPÍTULO I Disposições Gerais

IN MEMORIAM - Tenente-general Guilherme de Sousa Belchior Vieira ( )

APÊNDICE 5 COMBATE DE MONTE CASTELO

Força Aérea Portuguesa assinala o 60.º Aniversário. Anulação do concurso para a nova arma ligeira

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES Gabinete do Presidente NOTA INFORMATIVA

Dossier Promocional. Moradia no Funchal Madeira

Caso prático: Alliance Healthcare Elevado rendimento na instalação para picking da Alliance Healthcare

GUINÉ O XXXIII ENCONTRO/CONVÍVIO ANUAL DA CART 3494

Análise comparativa dos rácios entre tropas e populações nas campanhas de África ( )

ÍNDICE. Compêndio da Arte da Guerra. Da política e da guerra. Estudo Introdutório

ÓRGÃO DE DIVULGAÇÃO DAS ATIVIDADES DA ACADEMIA DE HISTÓRIA MILITAR TERRESTRE DO BRASIL/RIO GRANDE DO SUL (AHIMTB/RS)

Gabinete de Relações Internacionais e Protocolo Divisão de Protocolo SESSÃO SOLENE COMEMORATIVA DO XXXVI ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL 10.

P R O J E T O D E R E Q U A L I F I C A Ç Ã O D A F R E N T E D E M A R D A C I D A D E D A H O R T A

Campeonato. Portugal. Pistola Sport 9mm

Família real portuguesa no Brasil

ARTILHARIA DE CAMPANHA NO EXÉRCITO BRASILEIRO EM 2007

Tabela de correspondência entre código da Divisão Administrativa/revisão 1994

(Percurso pelo seu património e tradições Populares)

PLANO ESPECIAL DE EMERGÊNCIA DE PROTECÇÃO CIVIL PARA O RISCO SÍSMICO E DE TSUNAMIS NA REGIÃO DO ALGARVE (PEERST-Alg)

ANEXO REGULAMENTO INTERNO DA MESSE DE LISBOA. CAPÍTULO I Disposições gerais

5_ SISTEMA COLONIAL DE DEFESA DO PORTO DE SANTOS

Estudo Sintético de Diagnóstico da Geomorfologia e da Dinâmica Sedimentar dos Troços Costeiros entre Espinho e Nazaré

Nº 25 A bordo da Caravela Vera Cruz

Regimento de Guarnição N.º1

A Marinha Portuguesa

A Marinha Portuguesa

Destaque HABITAÇÃO UNIFAMILIAR

VIAGENS DE GULLIVER. Jonathan Swift Adaptação Cláudia Lopes. Profª Kelly de Sousa Alves

Organização e funcionamento da GNR

Efemérides Sábado, 30 Agosto :09 EFEMÉRIDES

TEORIA, HISTÓRIA E CRÍTICA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II TH 2

PT/AHM/FO/006/L/ :11:58 SR PT/AHM/FO/006/L/14. Datas descritivas Produtor. Cx. 752: sargentos, 1935 Cx.

ANEXO REGULAMENTO INTERNO DO CENTRO DE COMUNICAÇÕES, DE DADOS E DE CIFRA DA MARINHA. CAPÍTULO I Disposições Gerais

Revista de Imprensa. Buscas por homem caído ao mar

A Marinha Em África ( ). Especificidades. Summary of the Seminar Portuguese Navy In Africa ( ) Specificities.

Nota complementar da Marinha sobre a avaria no NDD Ceará (G 30)

Remunerações 2009-Corpos Especiais Não Revistos 1 de 13

POPULAÇÃO ESTRANGEIRA EM PORTUGAL MODERA CRESCIMENTO

Arquivo Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo

12 de dezembro de 2018

Press Kit 2ºBIMEC/KTM/TACRES/KFOR

PROJECTO DE DECRETO LEGISLATIVO REGIONAL QUE ALTERA O DECRETO REGIONAL N.

ÁREAS DE FIXAÇÃO HUMANA

Aviação de Patrulha 70 anos do primeiro disparo da FAB em combate na Segunda Guerra Mundial

ANEXO REGULAMENTO INTERNO DO DEPÓSITO DE MUNIÇÕES NATO DE LISBOA. CAPÍTULO I Disposições gerais

AEROPORTO DE BEJA. Um projecto em marcha

HISTÓRIA (CONCISA) DA FORTALEZA DE PENICHE Apresentação Grupo Consultivo Peniche 09/02/2017 DAF-Cultura Rui Venâncio

2ºSARGENTO JUSTINO TEIXEIRA DA MOTA ( )

Transcrição:

Memória Memory

O dispositivo militar do Faial na II Guerra Mundial (Memórias de um Coronel de Artilharia) Amândio Augusto Trancoso * 1 Solicitado a fazer o meu juízo do que foi e porquê a permanência das Forças Armadas Portuguesas nos Açores, durante o período da Segunda Grande Guerra Mundial (1939/1945), sobretudo as do Exército, como elemento do mesmo, visto ter sido um dos mobilizados durante parte do tempo em que aquela Guerra durou, prestando os seus serviços na Ilha do Faial, não pude deixar de satisfazer tal pedido. Rebentou a guerra e como tal Portugal não pôde ficar indiferente a tal facto e como velho aliado de Inglaterra, não podia deixar de respeitar esse facto a que se associou também os Estados Unidos da América. Peças de Artilharia da Espalamaca Artilharia da Espalamaca * O presente trabalho constitui um testemunho evocativo dos meios de artilharia instalados na ilha do Faial no período da II Guerra Mundial. A sua autoria deve-se ao Coronel de Artilharia Amândio Augusto Trancoso (1916-2010), que prestou serviço na mesma ilha nos anos de 1944/45, quando aqui se instalou uma base naval ao serviço dos aliados e que, por solicitação de familiares, em 2005 fixou em texto uma breve memória alusiva ao dispositivo militar e sua localização. Aos seus familiares, que gentilmente cederam o texto para publicação, o Núcleo Cultural da Horta manifesta a maior gratidão.

240 Boletim do Núcleo Cultural da Horta Dada a posição privilegiada do Arquipélago Açoriano, como fronteira da Europa e na rota favorável ao movimento das Forças Americanas, necessário se tornava o nosso auxílio, disponibilizando-o com a concessão de aqui se instalarem as Bases, Aérea na Ilha Terceira Lages e Naval na Ilha do Faial e no seu magnífico Porto, embora prevendo o risco que se iria correr da acção das forças inimigas, em especial da Alemanha, cuja força se fez sentir com os seus navios, submarinos e até aviões. O Comando da Base Naval dos Estados Unidos estava instalado numa parte não danificada de um cruzador que havia sido torpedeado nas proximidades da Ilha e que foi rebocado para a doca, ficando ancorado junto aos armazéns do Porto da Horta. Como tal, houve pois que reforçar as forças portuguesas para segurança, não só dos Aliados, como da própria população local. Charanga Edifício do Comando Neste contexto foram mobilizados os efectivos necessários e possíveis para tal efeito. Para a Ilha do Faial foram enviados então efectivos de Infantaria, Artilharia, Engenharia, Saúde e Apoio Logístico. A Infantaria era, evidentemente, em maior número pois se tornava necessário ocupar as zonas mais favoráveis a qualquer desembarque de forças inimigas. A seguir, a Artilharia, para não permitir acções inimigas contra o porto, principalmente, e fogos, quer marítimos quer aéreos, sobre o território, e as restantes para os auxílios necessários às suas missões. No respeitante à Artilharia, foi criada uma Bateria Independente de Defesa da Costa (B.I.D.C.3) cujas posições se situavam no Monte da Guia e na Ponta

Amândio Augusto Trancoso 241 Hipomovel Hospital Militar da Espalamaca, que foi guarnecida, dada a urgência, por peças que haviam pertencido a um velho navio, já retirado do serviço activo O Vasco da Gama. A sua guarnição era, naturalmente, constituída por militares de incorporação regional. As instalações continham as plataformas onde se instalaram as peças, e, em posições enterradas, as casernas para a sua guarnição, instalações sanitárias e paióis para as munições. Um pouco afastadas estavam a cozinha e o refeitório. Após completadas as instalações, foram executados fogos reais para regimagem das peças e deu-se infelizmente um incidente com uma das peças da Espalamaca que, pela sua idade, fendeu a culatra móvel, que rapidamente foi recuperada no Continente, voltando com a disposição de só ser utilizada em caso de urgência, pois poderia repetir-se a avaria e em tal circunstância se houvesse vítimas, seriam consideradas como consequências de guerra. As guarnições da Guia e Espalamaca eram constituídas, cada uma, por dois oficiais subalternos, seis sargentos ou furriéis e vinte praças, que ali permaneciam. Há alguns anos tive a oportunidade de revisitar as referidas posições que naturalmente estavam desactivadas, mas um pouco degradadas. O Comando da Bateria estava no aquartelamento da cidade, com o pessoal necessário para os seus serviços administrativos, logísticos e reserva de pessoal das posições, sendo seu comandante um Capitão. Aí também era feita a Escola de Recrutas.

242 Boletim do Núcleo Cultural da Horta Dispunha ainda duma charanga cujos ensaios e orientação eram feitos por um ilustre regente de uma das filarmónicas locais, o Maestro Symaria. Os componentes faziam parte do efectivo da Bateria, dada a grande propensão para a música das populações locais. Vim para a Bateria como subalterno (Alferes ) em Fevereiro de 1944, tendo embarcado no navio de passageiros Carvalho Araújo em Lisboa, no dia 10 e chegado à Horta a 25. Regressei ao Continente em Novembro de 1945 finda a comissão de serviço. Peça de Artilharia Posição da Espalamaca Ao apresentar-me na Bateria, fiquei surpreendido com a instalação do Comando no edifício que acabara de ser construído para o Dispensário Anti Tuberculose, à falta de outro, em virtude do antigo, que ficava ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ter sido destruído pela explosão de umas granadas que estavam a ser levadas para o paiol e que causou alguns mortos que ainda hoje são lembrados no dia do aniversário da referida explosão. Durante a viagem de Lisboa para a Horta, como o Carvalho Araújo escalava todas as ilhas, desde Santa Maria ao Faial, fiquei com uma impressão muito agradável das suas paisagens e habitantes. A minha permanência na Horta não coincidiu, pois, com o início das mobilizações; os primeiros, por falta de instalações, dormiam em tendas de campanha e tiveram o trabalho de tudo organizar, até conseguirem habitações próprias. Ainda hoje existem vestígios de Casamatas construídas para abrigo e vigilância da costa, na Praia do Almoxarife (encontra-se bem visível, mesmo junto à praia, na direcção do molhe), na base do Monte da Guia (junto ao mar e virada para o canal), Feteira e nalguns sítios mais. O contacto das forças mobilizadas e convívio com a população local processou-se de uma forma amigável dada a simpatia e amabilidade das suas gentes, sendo notório o grande número de casamentos que houve, contando com o

Amândio Augusto Trancoso 243 meu também. Familiarizamo-nos facilmente com os seus usos e costumes, pelo que não é de estranhar que tais uniões se tenham verificado. A Bateria dispunha de uma Messe, situada ao n.º 12 da Rua de Jesus, na qual comiam os Oficiais e na altura em que cheguei, também ali tomavam as refeições o Coronel Comandante Militar do Faial e o seu Chefe de Estado-Maior. Os Oficiais e Sargentos oriundos do Continente, alojavam-se em casas particulares que alugavam quartos. Quando se iniciaram as desmobilizações, o Comando da Bateria transferiu-se para o Quartel do Carmo, até então ocupado pelo Comando do Regimento de Infantaria 20 (RI 20). Aos poucos, à medida que havia casas vagas, os militares mobilizados e das diferentes unidades, iam-se alojando nas mesmas; havia, pois, ocupações por todas as casas disponíveis desde a Conceição até às Angustias e até no Castelo de Santa Cruz, onde actualmente se encontra a Pousada. Nas Angustias estava a Bateria Antiaérea de referenciação e na Calçada da Conceição, a Bateria Antiaérea de 4 cm. Fora da cidade estavam alojados: na Feteira, a Companhia de Engenharia; no Monte Carneiro, a Bateria de Artilharia Antiaérea de 9 cm; a Bateria de Artilharia Ligeira de 7,5 cm, na Cruz do Bravo onde, perto (Rua do Lameiro Grande), se construiu uma Carreira de Tiro e o Hospital Militar que mais tarde se tornou no Hospital das doenças infecto-contagiosas. Esta Bateria construiu para instalação das suas peças, na vertente para os Flamengos, perto do Largo Jaime Melo, abrigos enterrados e camuflados, de que ainda há vestígios; nos Flamengos e Santo Amaro estavam unidades de Infantaria; junto à Caldeirinha do Dr. Neves, o Depósito de Subsistências. Posição da Guia Transporte

244 Boletim do Núcleo Cultural da Horta Na cidade, no Largo do Bispo D. Alexandre, estava o Casão Militar com os artigos militares e civis (actual edifício do Grémio Artista Faialense). Num dos edifícios, o principal da então Colónia Alemã dos Cabos Submarinos (actualmente departamentos governamentais), que fora extinta ao rebentar a 2.ª Grande Guerra Mundial, na Rua Marcelino Lima, foi criada a Messe de Oficiais, para todos os oficiais da Guarnição Militar do Faial. Do lado oposto, à esquerda quem sobe a Rua Cônsul Dabney, encontravam- se os edifícios onde funcionava a Companhia Inglesa de Cabos Submarinos (actualmente Hotel Fayal, Escola Básica 2 e outros). Além das Forças Militares do Exército, havia também Forças Navais encarregadas da vigilância naval e era constituída por quatro patrulhas e um navio de bóias, este encarregado de abrir e fechar uma rede de segurança do porto, colocada entre a ponta da doca, junto ao farol, e a muralha, em terra. Havia ainda o Capitão do Porto e a guarnição da Estação Rádio Naval.